Brave New World
4 Acolhida
Quase uma hora se passa e nada de Caleb aparecer. Começo a ficar preocupada e ao ouvir um movimento, me encolho instintivamente.
Um garoto aparece logo em seguida. Ele aparenta ter no máximo 15 anos e é bem magro e alto. A pele queimada pelo sol e os cabelos negros bagunçados. Ele me olha, curioso.
-Não acredito que o Caleb foi tão corajoso. Ou tão burro.
-O que?
-Tinha que ver com meus próprios olhos. Está todo mundo furioso. Acho que vi até fumacinha saindo das orelhas do tio Jeb.
-Jamie! Te dissemos para não vir aqui, lembra? Mas desde quando você ouve alguém? – Diz uma voz feminina e logo uma mulher aparece atrás dele.
Eles são parecidos tanto no formato do rosto quanto na pele, porém o cabelo da mulher é claro e ondulado e seus olhos são verdes.
-Caleb está muito encrencado? – Pergunto.
-Ele só nos pegou de surpresa. Ele sempre foi tão eficiente e cuidadoso e do nada traz uma estranha pra cá?
-Não foi culpa dele... Eu nunca deveria ter aceitado essa loucura!
-Está tudo bem, se ele confia em você, eu também confio, mas com tio Jeb não será tão fácil. Como ele sempre diz “Minha casa, minhas regras”. Mas eu sei que com o tempo ele verá que o que Caleb fez foi por uma boa causa.
-Mas eu não sou um deles.
-Sim, você não parece um deles, mas tio Jeb tem medo que as almas estejam melhorando os disfarces para vigiarem os fugitivos. Pode ser verdade, pode ser exagero dele, mas todo cuidado é pouco quando se trata deles.
-Concordo, mas ainda estou com medo do que pode acontecer com o Caleb.
-Ele ficará bem. Tio Jeb só finge ser durão para colocar limites. Logo ele volta a ser o de sempre, e você vai adorá-lo.- Ela sorri. – A propósito, eu sou Melanie e esse é meu irmão, Jamie.
-Eu sou Hanna.
-Eu sei, o Caleb nos contou. Como pôde se esconder deles por tanto tempo? É verdade que se escondeu em bueiros para não ser pega? Você não tem um grupo ou uma família? – O garoto disparou.
-Jamie! Deixe de ser curioso! Hanna vai nos dizer o que quiser quando quiser. Agora temos que ir. Tio Jeb nos mata se souber que estamos aqui. Até mais, Hanna.
-Obrigada.
Tenho que admitir que esse pequeno contato com pessoas como eu me fez muito bem. Vejo em Melanie uma futura amiga, alguém para me ajudar a conseguir minha antiga vida de volta.
Não tenho muito tempo para comemorar, logo ouço passos apressados e um senhor aparece com uma espingarda. Talvez ele não seja tão velho quanto aparenta, talvez essa barba me engane. Ele olha para mim por alguns segundos e não me atrevo a me mexer.
Ele finalmente caminha até mim e pega meu rosto, bruscamente e sem aviso, com suas mãos ásperas o analisa com cuidado, começando a fazer inúmeras perguntas.
-O que estava fazendo na cidade?
-Procurava a minha irmã.
-Por que estava sozinha?
-Me perdi do meu grupo.
-Há quanto tempo?
-Alguns meses.
-Como fugiu deles por tanto tempo?
-Fui cuidadosa.
Ele desliza a mão que estava em meu rosto até a minha nuca e me olha desconfiado.
-Você tem a cicatriz, a marca deles.
-É falsa, todos no meu grupo fizeram.
-Onde se escondiam?
-Não tínhamos lugar fixo, mas estávamos há alguns meses em uma cidade abandonada quando fomos quase pegos, então me perdi na fuga.
Ele me solta e me analisa por mais algum tempo.
-Você não parece uma invasora.
-Não sou.
-Caleb parece confiar em você.
-Também confio nele.
Ele lança um sorriso irônico.
-Você não fala muito, certo?
Eu dou de ombros.
-Eu vou te dar uma chance, pelo Caleb. Mas antes precisa saber de algumas coisas, Hanna. Você verá coisas aqui que nunca imaginou serem possíveis. Está preparada para isso?
Hesito um pouco, mas faço que sim com a cabeça, engolindo em seco.
-Agora que está conosco só poderá sair acompanhada e nem pense em tentar fugir, ou irá se perder. As outras regras virão com o tempo, quando precisar. Ok?
Aceno novamente e ele finalmente me solta. Sinto-me relaxar os ombros e soltar o ar.
-Então bem-vinda. Será um prazer tê-la conosco.
***
Jeb me leva por túneis e corredores e posso ter quase certeza que estamos andando em círculos até finalmente chegarmos a um grande salão, uma câmara enorme, com uma horta no centro e com alguns buracos no teto por onde passa a luz e alguns refletores. Há pessoas indo de lá para cá o tempo todo com vários objetos nas mãos. Todas olham pra mim com curiosidade. Não posso acreditar que isso seja real. Tudo parece cenário de um filme.
Jeb começa a andar e ainda estou paralisada, olhando maravilhada para tudo.
-Você não vem?
Eu me apresso para alcança-lo. Entramos em mais um túnel, mais largo e curto e chegamos ao que deve ser a cozinha, um longo corredor de teto alto com imensos buracos abertos. Há uma grande e estreita mesa de pedra e cimento, e alguns caldeirões ao fundo do salão.
-Vocês conseguem cozinhar aqui?
-Nada muito sofisticado, apenas o mais simples como pães e sopas, e somente durante a noite, por causa da fumaça. Durante o dia é mais como um refeitório.
Estou sem palavras. Então Jeb decide continuar o tour pela caverna.
Vamos a outro salão onde há uma fila de pessoas em uma porta escura, e ao lado, alguns rápidos redemoinhos de água aparentemente fervente abaixo de nós.
-Você precisa ser cuidadosa aqui. Olhe sempre por onde pisa. – Ele diz. – Nessa abertura, temos uma sala de banhos. Fabricamos um sabonete especial com uma planta que apesar de arder um pouco no começo, é muito eficiente. Depois há outra caverna, através de uma fissura, com água quente, que usamos como latrina.
-Uau! – É tudo que consigo dizer.
-Eu sei. Lá é totalmente escuro e higiênico. Mais tarde, mando uma das garotas vir com você para combinarem essas coisas de mulheres e esclarecer os horários para os banhos.
-Ok.
-Agora vamos conhecer a parte mais importante. Seu quarto.
***
Meu quarto não é como eu imaginei. Feito de pedra e areia como o todo o resto, mas há um toque acolhedor e feminino, o que me lembra um lar.
O formato do quarto é um quadrado irregular. A porta é feita por um biombo verde claro e detalhado, muito delicado. Há um colchão jogado em um canto com um lençol florido e um par de travesseiros. Uma mesinha simples feita de madeira fica ao lado, com alguns livros em cima e uma pilha de roupas dobradas cuidadosamente.
-O que acha?
-Eu adorei!
-Ótimo. Vou lhe deixar sozinha para se acostumar.
-Jeb, espere!
-Sim?
-Eu vou dividir esse quarto com alguém? Que dizer, todas essas coisas.
-Não. Isso tudo agora é seu.
-Tudo isso? Mas e as outras pessoas? Elas precisam dessas coisas. Não quero tirar nada de ninguém.
-Hanna, você não está tirando nada de ninguém. Temos coisas de sobra. Você é tão moradora aqui do que qualquer outro agora. Caleb gosta e confia em você. Fico feliz que tenha te encontrado.
-Eu também. – Digo, sorrindo.
É uma das coisas mais sinceras que já disse em toda minha vida.
***
Após Jeb ir embora, analiso o quarto por mais alguns minutos. Estou tão feliz de estar aqui que pareço estar sonhando. Não preciso mais fingir, não preciso ter medo.
Me sento no colchão e pego os livros. Alguns romances, alguns de autoajuda. Nunca gostei muito de ler, até conhecer Emily. Tento calcular a quanto tempo não leio um livro enquanto analiso os romances para ver por qual começo. Meu estômago protesta. Estava tão acostumada a passar fome que esse sinal me parece insignificante. Mas me lembro de que agora tenho o que comer e continuar passando fome não é uma escolha saudável. Preciso estar forte para encontrar Allie.
Reúno forças, me levanto e saio. Ando pelo corredor observando os diferentes quartos. Alguns como o meu, possuem biombos na entrada e alguns outros tipos de portas improvisadas. Outros ainda estavam abertos e eu pude ver como eram diferentes um do outro, cada um decorado de acordo com o dono, eu acho. A maioria dos quartos está vazia, mas posso ouvir poucas vozes ao fundo de um deles.
Finalmente chego ao fim do corredor, confusa. Esse lugar é um verdadeiro labirinto, e não me lembro de onde é a cozinha. Também não conheço ninguém. Sinto-me envergonhada e ao mesmo tempo com uma sensação estranha, que não consigo explicar. É tudo tão grande e tão vazio, mas sei que há pessoas como eu por todos os cantos, atrás dessas paredes de pedra.
Suspiro tentando me acalmar. Ouço passos atrás de mim e me animo. Um humano está chegando e poderei conversar com pessoas de verdade, sobre assuntos de verdade.
Os passos se aproximam.
O sorriso em meu rosto parece ir de orelha a orelha.
E então ela aparece, a garota sorridente, mexendo nos sedosos cabelos ruivos. Ela me diz olá e meu sorriso aumenta. Ela é nova, deve ter a mesma idade de Allie, e é linda. A não ser por...
Então meu sangue congela.
A garota parece perceber meu espanto, pois seu sorriso some e ela me olha preocupada.
-Você está bem?
Mas não respondo, não consigo parar de focar em seus olhos. É como se o mundo todo parasse e a cena passasse em câmera lenta enquanto tudo o que consigo fazer é olhar para os olhos prateados daquela garota.
Antes que perceba, já estou gritando.
Há um deles. Aqui.
Notas finais
Espero que tenham gostado e que comentem.
Beijos e até a próxima.
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