Brave Heart
19 Capítulo 19 - O Baile (Parte I)
Notas iniciais
**Nos vemos lá embaixo**
Respirei fundo, tentando conter a irritação que sentia naquele exato momento. Mordendo o lábio, resolvi ler mais uma vez, a nota que estava em cima do piano que outrora, eu praticava.
Querida Rose;
Venho pela presente, informa-la que hoje esporadicamente, precisei me ausentar mais cedo do que o habitual, e como minha adorável Senhora não estava presente em meu desjejum está manhã, resolvi lhe enviar esta nota para lhe informar sobre nossos planos, para está noite.
Como deve ter ouvido um rumor em suas aulas com Madame Florence e suas agradáveis companhias, hoje teremos um Baile de Máscaras beneficente em nossa singela cidade e obviamente, não poderemos deixar de participar. Desta forma, pedi que lhe fosse providenciado devido traje apresentável e até o final da tarde, estarão lhe entregando em mãos.
Vejo-te no final do dia.
Dimitri.
Voltei a dobrar a nota entre meus dedos, enquanto me levantava do banco onde estava sentada. Marie ainda aguardava por algum retorno meu, mas mesmo assim, limitei-me a caminhar pelo salão onde agora, estava o piano de Dimitri, para que eu pudesse finalmente toca-lo.
–Quando seu Senhor lhe entregou esta nota? – Me virei para Marie, parando totalmente de caminhar, enquanto batia delicadamente a nota em minha palma.
–Logo pela manhã Senhora, antes mesmo de sair. O Senhor Dimitri disse que preferia assim, ao ter de acorda-la, pois possivelmente estaria cansada. – Não consegui disfarçar o rubor em minhas bochechas, conforme as palavras saiam pela boca da mulher. Uma fitada em seu olhar bastara, para me recordar da confusão que havia tido com meu marido, na noite anterior.
–Bom, então obrigada – Sem saber como proceder aquilo e rezando para soar o mais desinteressada possível, encerrei nossa breve conversa.
Quando Marie saiu, lancei um breve olhar ao relógio de pendulo, notando que já se passavam das dez horas e possivelmente, logo o almoço seria servido. Ajeitando minhas saias, segui para o estábulo verificar Perséfone, antes mesmo que toda a confusão do Baile inusitado, acabasse por ocupar todo o meu dia.
Para minha satisfação e alívio, Perséfone estava bem. Por agora, a jovem e rebelde égua, estava em um cerco distante dos outros, mas recebendo tratamento como qualquer outro corcel campeão de Dimitri. Notei que João um dos criados de Dimitri, estava a alimentando, no exato momento que adentrei o estábulo. Quando seus olhos castanhos cruzaram com os meus, ele pareceu rezar a certa distância. Não consegui evitar um sorriso, pelo gesto simples do pobre ajudante.
–Bom dia João – O cumprimentei, pegando uma de suas cenouras do cesto, para alimentar minha égua. – Como está Perséfone? – Ignorei seu olhar de advertência, enquanto aproximava minha mão da boca do corcel.
–Está se alimentando bem, mas não sai dai desde que ocorreu o acidente. – João deu de ombros, como se desculpando por tal ato. –Não acho que ela aguentará por mais alguns dias, sendo mantida em cativeiro. A besta está bastante agressiva.
Perséfone então abocanhou calmamente a cenoura que apresentei a ela. Limpando meus dedos em um pano que João segurava, voltei-me para ele.
–Então presumo que eu mesma, terei que tira-la do cerco. – Erguendo uma de minhas sobrancelhas para João, esperei por sua resposta.
–Eu não faria isso se fosse a Senhora. – João pareceu nervoso de repente. Com calma, depositou o balde metálico no chão, de frente ao cerco da égua e logo, voltou-se para me encarar. – O patrão ficará realmente irritado, se a Senhora se meter em outro acidente.
–Eu não tenho doze anos e também, não vou me meter em outro acidente. – Virei os olhos, me sentindo impaciente. Dimitri não tinha razão alguma para ficar preocupado agora. Eu sabia que teria que ter certo cuidado com minha Perséfone. –Não vou tentar monta-la novamente. – Forçando um sorriso em direção ao serviçal, percebi que ele respirava profundamente, tomando ciência que sua luta, estava perdida.
–Quer que eu ajude a senhora com as rédeas? – João prontamente se ofereceu, limpando suas próprias mãos em suas roupas já sujas, pelo trabalho árduo.
–Eu posso fazer isso. – Levando meu olhar até um conjunto de rédeas próximas de nós, rapidamente puxei uma delas, enquanto João abria a porteira.
–Senhora... – Ele novamente tentou argumentar, mas ergui uma mão em protesto, enquanto seguia.
Perséfone estava bastante calma, enquanto retirava as últimas sobras dos alimentos do chão, do estreito cerco onde estava. Há passos tranquilos e serenos, segui para mais perto de si e logo, comecei a deslizar meus dedos por sua pelagem escura. Não demorou muito para que ela se sentisse bastante a vontade comigo novamente, e relaxasse os pequenos pontos de tensão em suas costas.
–João como eu coloco isso? – Voltando-me para o empregado, notei que ele tinha os olhos atentos em meus movimentos, parecendo bastante tenso ainda.
–A senhora nunca fez isso? – Ele tocou sua testa.
–Obviamente que não. – Minha voz soou mais agressiva do que queria. A verdade era que meu sangue pulsava em pura ansiedade. –Agora se puder me ajudar, eu agradeço. –Controlando minha voz novamente, voltei a sorrir.
João então respirou fundo e entrou no celeiro junto de mim, fechando o cerco atrás de si.
–Aproxime da boca de Perséfone e puxe para trás as rédeas. – João sinalizou com as mãos da melhor forma que pude, enquanto eu acompanhava com o olhar atento.
Minha primeira tentativa só fez com que Perséfone fosse para trás, assustando um pouco João, que se negava a mover-se do lugar. Já na segunda tentativa, consegui finalmente laçar o animal.
–Consegui – Toquei minha testa suada, recebendo um sorriso do empregado, parecendo bastante surpreso.
–O que pretende fazer agora? – Ele perguntou-me, enquanto eu analisava Perséfone, dando a volta em torno de si.
–Vou leva-la para uma rápida caminhada. – Sorri abertamente, enquanto ouvia João suspirar, virando os olhos.
Para minha sorte, Perséfone não se mostrou relutante com nosso breve passeio. Para minha segurança ou simplesmente para evitar discussões com Dimitri, a guiei do chão, enquanto caminhávamos pelo campo aberto, ainda que cercado. Em certo momento, Perséfone apenas fechou os olhos e resolveu parar, para receber um pouco da claridade mesmo fraca do sol. Tristeza passou por minhas feições, lembrando que a pobre égua, estava presa em um lugar escuro e desprovida de qualquer exercício necessário a ela diariamente.
–Senhora? – João chamou-me de repente. Eu estava acariciando a crina de Perséfone.
–Sim? – Limitei-me somente a mover meu rosto em sua direção.
–As cozinheiras pediram para informa-la, que o almoço está sendo servido.
–Estou indo, obrigada – Gesticulei com a mão em agradecimento. Ao voltar meus olhos para Perséfone, percebi que ela ainda desfrutava do calor do sol. – Vou deixar ela aqui, mas fique de olho nela. – Gesticulei para João, que concordou bravamente. — Ela precisa ficar um tempo aqui fora.
–De acordo senhora. – João então abriu a cerca somente o suficiente, para que eu pudesse passar e então, segui para a casa grande.
–--X---
Já se passava das três horas, quando uma carruagem parou de frente a casa grande. Fechando meu livro, segui para a porta, que Marie já atendia. Adentrando as pressas, Madame Florence avistou-me.
–Ai está você. – Ela se aproximou de mim, com uma criada atrás de si, carregando uma grande caixa.
–Boa tarde Madame Florence. Posso ajuda-la com alguma coisa? – Sem entender direito sua visita inoportuna, resolvi perguntar.
–Presumo que seu marido não lhe informou sobre o baile de hoje. – Ela ergueu uma sobrancelha em minha direção, parecendo um pouco ofendida.
–Ah sim, me desculpe. – Rapidamente gesticulei para que ela me acompanhasse. Dimitri provavelmente havia ido bastante além, do que um vestido.
–Está tudo bem, mas precisamos nos apressar se ainda quiser estar bem vestida, para o Baile de hoje. – Ela disse, gesticulando para que sua empregada a seguisse, enquanto caminhávamos em direção as escadas, no segundo corredor. – Onde fica seu quarto? Creio que seja melhor experimentarmos o vestido lá. – Sem que eu pudesse ao menos contornar a situação, Madame Florence já estava subindo as escadas.
–No final do corredor. Terceira porta a direita. – Disse, observando que não teria outra solução, a não ser segui-la.
Quando abri a porta, Madame Florence tratou se seguir para minha mesa de canto, apoiando uma grande bolsa que até então, não percebi estar com ela.
–Lúcia, por favor, coloque o vestido da senhora Belikov sob a cama. – Com uma mão, logo gesticulou para a criada que prontamente obedeceu. Voltando-se a mim, ela continuou a falar. – Vejo que estão ocupando o antigo quarto da Senhora Belikov. – Madame Florence sorriu, fazendo com que algumas rugas se expressão, se espalhassem por seu rosto. –Eu acreditava que depois de tudo, Dimitri estivesse se desfeito dos antigos pertences, mas pelo visto... – Ela então parou, encarando um de meus pentes, sob a penteadeira. – Ele não o fez. – Ela concluiu, voltando a me encarar.
–Conheceu a família dele? – Curiosa demais, para interromper aquilo, resolvi tentar saber de alguma novidade que a velha mulher, pudesse compartilhar.
–Ah sim, desde que se mudaram para cá – Madame Florence então abriu sua bolsa, parecendo procurar algo.
–E era próxima a família? – Aproximei-me alguns passos, mas logo a mulher parou o que estava fazendo, para me encarar.
–Sim, bastante – Com um sorriso selado, ela pareceu por vez, querer encerrar o assunto. – Agora se não se importa minha querida jovem, precisamos experimentar seu vestido e ainda, maquia-la. –Ótimo. Meu assunto estava de vez encerrado por ali.
–--X---
Encarei meu reflexo do espelho pela terceira vez, tentando de alguma forma aceita-lo. Não que realmente o vestido rubro estivesse de todo o ruim, mas para meu gosto, seu cavado decote, não estava me agradando de forma alguma. Depositei minhas duas mãos em minha cintura, enquanto pousava agora meus olhos, sob a dourada máscara, em cima da base de minha penteadeira. Uma batida firme na porta de meu quarto, fez-me suspirar e sair de uma vez por todas, de meus devaneios.
–Entre – Disse enquanto ajeitava minhas saias, perfeitamente passadas com a ponta de meus dedos, agora cobertos por uma luva branca. Marie entrou, mas limitou-se a juntar os pés, próximo a porta.
–Senhora, o Conde gostaria de saber, se já podem partir. – A menção ao meu marido, fez-me erguer o olhar para a criada.
–Ele já esta em casa? – Perguntei, recordando-me que não fazia nem uma hora, que Madame Florence havia partido.
–Sim e está esperando pela senhora, no andar debaixo. – Marie desviou o olhar de meu rosto, para então meu vestido. – A senhora está muito bonita.
–Obrigada – Sorri em agradecimento, pelo gesto de Marie. – Bom, então avise meu marido por favor, que estou descendo para encontra-lo.
Marie gesticulou rapidamente com sua cabeça e logo saiu do quarto, deixando a porta aberta. Respirei fundo, voltando a olhar meu reflexo no espelho.
Madame Florence havia insistido que meu cabelo era bonito demais, para que ficasse preso todo o tempo. Então, com habilidade e ajuda de uma fita também vermelha, o deixou parcialmente solto, em cascatas que cobriam perfeitamente meus ombros, graças ao seu comprimento e volume avantajados. Eu sempre havia o preferido solto, mas desde que havia mudado para o Convento, criei o hábito de prendê-lo sempre, pois as freiras e senhoras de lá, não permitiam seu uso de minha forma habitual.
Logo alcancei as escadas e avistei Dimitri, que parecia absorto em uma provável carta. Seu traje negro, estava perfeitamente passado e seu cabelo comprido molhado, penteado para trás das orelhas, o dando um aspecto ainda mais másculo. Virando os olhos, resolvi espantar tais pensamentos, quando me recordei da noite anterior.
Já no último degrau, ele pareceu finalmente me notar, dirigindo seus olhos em minha direção. Seu olhar concentrado logo mudou para algo bastante apreciativo e surpreso.
–Boa noite. – Ainda segurando minhas saias, sorri ao percebê-lo fazendo.
–Boa noite minha esposa. – Dimitri deu um passo à frente e logo pegou minha mão, para beija-la. Uma estranha sensação prazerosa, passou por minha espinha. –Está linda com este vestido. – Ainda com sua boca próxima a minha mão trêmula, Dimitri sorriu abertamente, exibindo seus dentes perfeitamente alinhados e brancos.
–Obrigada – Também sorri, enquanto fitava a intensidade de seus olhos. Dimitri então se afastou de minha mão e com um passo a frente, tocou meu rosto. Agitada demais com aquela situação, pisquei algumas vezes em nervoso, mas ele apenas mudou a direção de seus olhos, para meus lábios. Mas tão cedo quanto surgiu seu incentivo ele foi embora, quando passos foram ouvidos próximos de nós. Respirei fundo.
–Sim, Jeremias. – Dimitri baixou então sua mão de meu rosto, antes mesmo de se virar para o criado agora, parado na porta. Ele pareceu irritadiço.
–A carruagem está pronta meu senhor. – A pigarreios desconfortáveis, o pobre homem se referiu a seu senhor, que parecia já sem paciência.
Dimitri então ergueu seu braço para que eu o pegasse, enquanto com a outra mão, eu segurava parcialmente a saia de meu vestido junto com minha máscara, para que não sujasse, quando passássemos pelo chão a frente da casa. Notei que Dimitri tinha em sua outra mão livre, uma máscara similar a minha, somente um pouco menor.
O caminho até o local da festa se seguiu em absoluto silêncio. Dimitri encarava a rua através do pequeno vidro da carruagem, enquanto eu, mexia nervosamente as minhas mãos sob o vestido. Milhares e milhares de pensamentos sobre o que havia acontecido a pouco, borbulhavam a todo vapor por minha então conturbada cabeça. Eu custava a tentar entender o que meu marido estava prestes a fazer. O pior de tudo, era que eu sabia exatamente o que viria a seguir, se não fossemos interrompidos por seu empregado.
Não consegui evitar que um nó em meu estomago se instalasse, enquanto observava Dimitri ali sereno, de perfil. Seus olhos ainda estavam na janela e ele parecia assim como eu, perdido em seus próprios pensamentos. De repente, percebi que gostaria de quebrar aquele silêncio entre nós. Que gostaria de saber o que se passava na cabeça dele e também, saber sobre seu passado. E por Deus, como aquilo me assustava.
Não tive muito tempo para pensar muito, pois logo a carruagem foi parada e Dimitri saia apressadamente, erguendo sua mão para que a pegasse a seguir. Só então percebi onde realmente estávamos, quando meus olhos se fixaram na entrada de uma grande mansão. Rapidamente coloquei minha máscara em frente ao rosto, enquanto Dimitri prendia a sua, em torno de sua nuca.
–A antiga mansão Russef, está reformada – Constatei maravilhada, enquanto Dimitri me guiava para a entrada, onde várias pessoas, ali se localizavam. – Eu achei que eles a demoliriam.
–Eu na verdade também achei isso, mas já faz alguns anos que ela foi reformada. – Dimitri sorriu de lado, observando meu notável interesse. –Inclusive minha mãe no começo, ajudou a reunir fundos para a reforma, uma vez, que o pobre Sr. Russef acabou falecendo em doença e seus bens, ficaram para a Prefeitura.
–Eu me lembro do Sr. Russef – Sorri com a lembrança de quando era menina. Um velho bastante amistoso e com uma barba grande, era herdeiro da mansão. –Eu nem soube sobre sua morte, mas eu presumi que não tardaria. – Recordei-me das tardes de domingo, quando meu pai me levava junto com Katherine ainda de colo, para as feiras do centro. Quase sempre, encontrávamos o velho Sr. Russef e sua tosse frequente.
–Eu também o conheci. – Agora estávamos passando pela entrada principal, junto de outros convidados. – Dimitri limitou-se a me olhar de soslaio. – Ele faleceu um pouco depois que parti da Pensilvânia. – A última palavra de Dimitri, soou com amargura. Mais uma vez me questionei, sobre seus possíveis mistérios, quando na verdade queria saber mais.
–Com quantos anos se mudou daqui? Para onde foi? – Dimitri gesticulou para um grupo de homens bem a nossa frente, enquanto nos posicionávamos próximos a um canto qualquer. Olhei rapidamente ao redor, constatando que a enorme mansão agora além de reformada, se resumia em um grande salão de festas com vários garçons, onde possivelmente, mais eventos sociais se originariam. Vários pares de olhos se dirigiam a nós, nublados com o brilho e cores, de suas próprias máscaras.
Dimitri então me girou para encara-lo, enquanto sinalizava para um garçom, que se aproximava com uma bandeja de bebidas.
–Eu fui para a Rússia. – Dimitri suspirou pesadamente, enquanto nos servia de duas taças. Uma para mim e outra para ele. – Sai da Pensilvânia ainda menino.
–Rússia? – Pergunto atônita. – Foi com seus pais? – Voltei a buscar seus olhos, que pareciam desfocados em inquietação. Notavelmente aquele tipo de assunto, o deixava desconfortável.
–Eu fui sozinho. – Ele respondeu por fim, voltando a me encarar com um sorriso forçado. – Agora se não se importa, vamos cumprimentar algumas pessoas. – Dimitri não me deixou espaço para questionar, pois com sua mão livre, logo me arrastou pelo salão, para cumprimentar um casal, não tão próximos a nós.
–Dimitri, vejo que finalmente temos o prazer de conhecer sua adorável esposa pessoalmente. – Um homem de aproximadamente quarenta e cinco anos, com um bigode e cabelo cor escuros levemente tingidos de branco, deu um passo à frente de sua esposa loira, trajada de um longo vestido rosa, para apertar a mão de Dimitri e em seguida, cumprimentar-me. –Muito prazer em conhecê-la, Rosemarie. Me chamo Ronald – Ele sorriu, passando seus olhos entre eu e Dimitri. — Infelizmente não pude comparecer ao casamento de meu afilhado, pois estava retornando das Índias.
–O prazer é todo meu. – Sorri gentilmente com a notícia sobre um possível parente de Dimitri. –O Senhor conhece as Índias? – Não consegui evitar minha pergunta, parecendo ainda mais surpresa, do que realmente gostaria de aparentar. – O homem abriu um sorriso singelo, logo postando sua mulher a um passo a frente.
–Sim, eu passei muito tempo morando nas Índias e esta aqui é minha esposa Karoline. – A mulher que eu havia visto, deu um passo à frente, sorrindo gentilmente a ver. Não diferente de seu marido, ela aparentava estar na faixa dos quarenta anos, mas de uma forma muito bem apresentável.
–Muito prazer Rosemarie. – Ela se aproximou e logo beijou minha bochecha, para em seguida, voltar-se para Dimitri. – Vejo que cresceu bastante, desde a última vez que nos vimos. – Karoline então levou sua mão às bochechas de Dimitri com intimidade, que sorriu de uma forma desconfortável. Ao voltar a encara-la, percebi que sua pele tinha uma leve coloração dourada, possivelmente graças a uma gradual exposição solar, bem diferente da cidade aonde vivemos.
–Faz muito tempo mesmo Karoline. – Dimitri resolveu participar da conversa, voltando a sorrir. Seus olhos passavam de um lado a outro, como analisando o resto dos convidados. –Fico feliz que tenham voltado a nossa humilde vila, porém devo informa-los que em algumas semanas, estarei partindo com Rosemarie, para Londres.
A menção de meu nome, fez-me fitar Dimitri enquanto falava. De uma forma bastante complexa, ele parecia à vontade com aquelas duas pessoas. Bem mais a vontade, do que comigo nas primeiras semanas de nosso casamento.
–Eu acreditei mesmo que não ficaria muito tempo por aqui. Não depois do que aconteceu – O padrinho de Dimitri pareceu pensativo por um momento. Novamente minha curiosidade estava espumando por dentro de meu corpo.
–São aguas passadas padrinho. – Dimitri disse inexpressivo, depois de uma longa pausa, seguida de um gole em sua bebida. –Tento não comprometer meu futuro com as coisas que deixei para trás uma vez.
–Pois faz muito bem. – Os dois homens trocaram olhares cúmplices, me deixando fora de sua conversa particular. Revirei os olhos me sentindo inquieta. “O que diabos Dimitri escondia, que não podia compartilhar comigo?” Uma voz mental em minha cabeça, respondia automaticamente, a resposta não feita: “Ele não gosta de você. Nem se quer se importa com o que pensa. Como acha que irá lhe confiar um segredo sombrio?”
Espantando meus pensamentos, acabei forçando minha mão no braço de Dimitri, fazendo com que ele me encarasse confuso. Sem muita alternativa, pisquei algumas vezes, antes que pudesse reformular uma resposta rápida, mas Ronald seu padrinho, pareceu mais rápido.
–Venha filho, quero que conheça alguns acionistas que eu trouxe comigo. Prometem maravilhas no comércio de Navios. Karoline e Rosemarie podem fazer companhia uma a outra. – Ronald então pegou o braço de Dimitri, fazendo com que ele me soltasse, mas sem antes, lançar-me um olhar preocupado. Forçando um sorriso, o vi partir, deixando-me sozinha ali, com Karoline.
Não percebi estar suando tanto, até que Karoline com olhar apreensivo, deu um passo à frente para me analisar.
–Você está bem, querida? – Sua voz era gentil.
–Eu estou apenas um pouco cansada. – Opinei pela resposta rápida, tentando desviar parcialmente de sua atenção.
–Eu vejo. – Ela disse sabiamente, fazendo sinal para que um garçom desta vez com canapés coloridos, se aproximasse de nós. Antes mesmo de dar sua primeira dentada, voltou a falar: — Eu preciso admitir que jamais imaginaria voltar para Pensilvânia e ver Dimitri Belikov casado. – Ela sorriu consigo mesma, como se de uma piada particular. Esquecendo meu próprio devaneio, resolvi aproveitar a brecha.
–E por que não acreditava nisso? – Mordendo meu próprio canapé, tentei parecer desinteressada.
Karoline me olhou de uma forma curiosa, como se a resposta para aquilo tudo fosse mais óbvia, do que eu pudesse imaginar. Prestes a roer minhas unhas, resolvi continuar em meu ar despreocupado.
–Se está se referindo aos pais dele, acho que Dimitri deveria seguir em frente – Com uma resposta vaga, rezei silenciosamente, para que Karoline a aceitasse.
–Não é só sobre Olena ou Anton – Ela pausou, como se escolhendo suas próximas palavras. –É sobre todo o desgaste que Dimitri e Benjamin passaram naquela casa.
Os nomes desconhecidos até então, capturaram minha total atenção, enquanto eu lutava brandamente, para não engasgar com a comida.
–Eu imagino mesmo. – Voltei a morder meu canapé, observando Dimitri e seu padrinho não muito distantes de nós, cumprimentando outros cavalheiros. Dimitri parecia pouco confortável, bem diferente de Ronald, que sorria abertamente. Decidindo de uma vez por todas, tentar descobrir mais alguma coisa, voltei a falar: — Dimitri ainda está bastante abatido com o que aconteceu.
–Também, pobre garoto. – Karoline suspirou pesadamente, como se recordando se algo. – Eu não me imaginaria na pele dele. Primeiro a mãe e logo em seguida, seu pai e irmão.
Um nó se formou em minha garganta, fazendo com que o champanhe que eu depositara há segundos em minha boca, pesasse como vinagre. Realmente as especulações de Alberta sobre a família de Dimitri, pareciam ter algum cabimento. Eu só não entendia muito bem, por que a pena de Dimitri, vindo de sua madrinha. Talvez no final das contas, ele fosse apenas uma vítima, como outrora havia me dito.
“Não acredite em tudo o que as pessoas dizem...” – Sua voz carregada de sotaque agora explicado, voltou a minha mente. Mas mesmo que tudo ainda tivesse uma explicação cabível, não consegui evitar hiperventilar. Sua família estava morta.
Notas finais
Como vocês perceberam, é um capítulo bastante grande e complexo. Por isso, precisei dividi-lo em duas partes.
Dessa forma, vamos tentar postar ainda essa semana a outra parte. Por isso, vamos comentar e recomendar, para estimular nossa imaginação ;)
Sobre o capítulo: Bom, como vocês sabem, o nome do pai do Dimitri (verdadeiro) nunca foi citado. Dessa forma, resolvi dar uma pesquisada e com a ajuda, consegui chegar em um nome para ele.
Outro ponto importante é sobre o quesito beijo. Eu sei que todas estão se descabelando mas por favor, tenham paciência. Pra nós também está sendo difícil, mas a fic pede um pouco de paciência também. Prometo que quando menos esperaram (logo) os dois terão o momento perfeito. Podem comprovar isso com as próprias palavras da Rose neste capítulo.
Por que será que ambos ficaram chateados no capítulo anterior? Será que era por que ambos estavam esperando mesmo que inconscientemente, uma brecha ou até mesmo uma atitude do outro?
Bom, ja falei demais.... aguardo os comentários e alguma recomendação??? Gente por favore... beijinhos ♥ ♥ ♥
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