Branco & Azul
4 Fogo X Sangue
Notas iniciais
Quando Elia terminou de ler irradiando felicidade, focou na expressão de suas irmãs que não conseguiram disfarçar a tempo e o sorriso da caçula foi sumindo devagar, ela passou a mão sobre os cabelos sem entender.
-(...) Não era isso que estavam falando? – Antes de Elora responder com sinceridade como Ethan fazia, Elisa tomou o tom gentil e pacífico da conversa. – Coisas fofas? Sísifo foi fofo comigo, sempre foi e ainda é.
-Você sabia que Evan estava ansioso para poder ver você? – Ela usou o tom brando, como sua mãe usava. – Ele não para de pensar em você... Vocês tem que ficar juntos para manter a linhagem Balaur pura e com cavaleiros dragões. – Então houve um silêncio. – Era isso que o papai sempre sonhou, planejou e estamos seguindo o que ele nos ensinou...
O silêncio envolveu Elia como um desconfortável cobertor. Ela se perguntou o que fez de errado, não era como se Evan não fosse romântico. Ele tinha suas diversidades, seu sorriso perfeito, seus olhos em um tom verde quase cinza, cabelos muito bem penteados e brancos, animado e artístico, ainda era apenas “Evan”.
Sísifo era o irmão de sorriso um pouco torto, cabelos azuis desgrenhados, com uma energia confusa. Ela abaixou a cabeça por um momento, levantou os olhos soltando um longo suspiro.
-Ah. – Era por isso que ela não podia ficar sempre em Saphiral, mesmo que quisesse muito, a cada ano ela precisava voltar e sempre que ficava mais velha o medo de não conseguir voltar a incomodava, a frase de Elisa foi apenas água desmoronando o seu sonho. Queria dizer “e o que tem Evan?”, mas não podia.
-Não é culpa sua... – Elora começou acariciando sua mão com delicadeza. – Se você ficasse mais aqui em Calasir, iria entender e ver que Evan tem a idade ideal para ambos ficarem juntos.
-Mas se ele queria ficar comigo, ele não deveria ter ficado comigo em Saphiral? – Ela perguntou chateada, o tom dela era como o de Artemisa; com os mesmos costumes, gestos, o mesmo modo de falar e se expressar, o que assustou as suas irmãs. – Ele tinha idade de ficar lá comigo, porque ele quis ficar aqui?!
-Elia calma! – Elisa pediu segurando seus ombros. – Respire fundo... – Elia olhou nos olhos da irmã. – Alguém tinha que cuidar de Dragoi...
-Porque Elora não foi? – Ela perguntou alto, na qual a mais velha recuou um pouco e fez um gesto para ela abaixar a voz.
-Eu estava em Interlok! – Elora revidou.
-Meninas... – Elisa colocou a mão em seus ombros acalmando os ânimos. – Se comportem!
-E Ethan não poderia ir? – Elia perguntou apertando os pergaminhos de Sísifo.
-Ele é o Conde! O Conde de Interlok! Porque ele iria para Dragoi?
-Não era para Eamond se tornar Conde? Ele já tem idade não? Então Elaena iria para Dragoi?! – Elisa deu uma risada nervosa e novamente tentou afastar as duas.
-Nem pensar, você está agindo como a Artemisa, ou melhor, como Eveline. Escandalosa, querendo tudo o que não pode ter e não entendendo qual é o seu lugar que é aqui em Dragoi! Não naquela loucura do outro lado! – Resmungou Elora.
-Artemisa! Não a chame assim! – Elia a defendeu. – E ela não fez nada errado, queria o que era dela por direito.
Foi quando Elisa parou e se colocou entre as irmãs.
-Chega, chega. Sem brigas. – A Rainha de Calasir respirou fundo, passando a mão pelos cabelos se acalmando para não deixá-las mais agitadas. – Primeiro, sem gritar, somos apenas nós três. – Ela se virou para Elora. – Somos irmãs, somos amigas, família, independente das nossas escolhas momentâneas. – Elora olhou para o lado se acalmando também, Elisa se virou para Elia. – Então não vamos ficar julgando ou tentando ser melhor que a outra.
-Mas a Elora... – Elia começou com a voz chorosa. – Poderia...
-Não, ela não poderia ficar em Dragoi, é lá onde Evan mora. – Elisa disse acariciando o rosto da mais nova ficando na altura de seus olhos. – E onde já foi decidido que você moraria lá também, para manter em ordem e harmonia as crenças de Deragona.
-Sísifo não poderia ir também? – Ela perguntou com a voz embargada, as duas irmãs trocaram olhares apreensivos.
-O Rei Perseu nunca o deixaria vir para Calasir... Foi um acordo justo. – Elora falou com a voz controlada e gentil. – Ele só deixa você vir porque, você nasceu aqui. Não fique chateada, você vai ver que o Evan é perfeito para você.
-Perfeito? – Era uma palavra muito grande para seu irmão, desde nova, Evan lhe foi destinado tudo lindamente planejado, nenhum engano, nenhuma troca; seria: Evan e Elia. Ela não tinha ainda treze anos para concordar. Elia apertou as páginas sobre o peito e olhou para o lado.
-Para você. – Elora deu um sorriso. – Porque, bem Ethan é perfeito para mim, assim como Eilon é perfeito para Elisa e...
-Artemisa me disse que Elisa roubou Eilon dela. – Elisa abriu a boca já fazia anos aquilo e que nunca teria dado certo. – Então Artemisa era perfeita para Eilon, não era?
Antes de ela poder dizer algo houveram suaves batidas na porta, na qual a Rainha olhou para cima aliviada agradecendo aos céus pela interrupção. Não iria ficar relembrando e explicando o passado porque iria envolver sua mãe e seu falecido pai, era muita coisa.
-Entre... – A porta se abriu com cuidado e August apareceu, um pequeno menino de cabelos loiros aparados, fofo de olhos azuis escuros. – Oi August, o que você precisa comunicar? – Ele sorriu para a Rainha, a Condessa e a Princesa, recebendo expressões fofas o que fez ficar vermelho e se encolher na perna do pai, Max.
-Um dia ele consegue. – Max, o Conselheiro disse com um uma expressão calma. – O Rei está aguardando para a refeição. Estão as esperando. – Ele assentiu e em seguida fechou a porta devagar.
-Certo. – Elisa bateu uma mão na outra com delicadeza. – Elia, nós não queremos fazer você se sentir obrigada a fazer algo que não queria. Por favor, pode tentar conversar mais com o Evan? – Ela apertou novamente as cartas na mão, o que fez Elora massagear seu ombro e em seguida pegar os bilhetes com cuidado.
-Eu vou guardar isso. – A garota não protestou. – Depois eu te devolvo, prometo.
Elia acompanhou as irmãs para o almoço, a bela iluminação do salão de jantar, a mesa grande e retangular com muitos alimentos, taças e pratos e, em contraste com Saphiral, vazia. Apenas membros da Corte Real se sentavam ali, em lugares específicos. Evan puxou a cadeira para ela que agradeceu quando se sentou. Á mesa os de sempre, seus irmãos cinco irmãos-cunhados; seus dois pequenos sobrinhos: Eamond e Elaena de Eilon e Elisa, o Conselheiro Max, sua esposa Annie com August, não contando com a pequena Charlotte e nem o bebê que crescia no ventre da dama de companhia.
-Trouxe presentes dessa vez? – Elaena perguntou entusiasmada na cadeira, na qual Eilon apenas inclinou a cabeça fazendo a pequena se acalmar. Elia deu uma pequena risada.
-Colares e braceletes. – A menina comemorou entusiasmada, enquanto o mais velho juntou as sobrancelhas. – Capa de lobo preto e colete de couro para você. – Ethan olhou indignado.
-Sério Elia? Não trouxe mais nada? – Ela revirou os olhos se divertindo.
-Trouxe lembranças para todos. – Houve uma pequena pausa enquanto ela mexia a comida em seu prato. – Mamãe também mandou presentes... Assim como Artemisa. – Não houve uma surpresa, embora Eilon não pode evitar de pigarrear.
-Ela mandou? – Dúvida genuína em sua pergunta. – Por qual ocasião? – A irmã deu um sorriso suave.
-Aniversário de casamento do Rei e da Rainha de Calasir. – Elisa deu uma pequena risada baixa.
-Do que você está rindo? – Eilon perguntou sem entender.
-Apenas surpreendida que ela tivesse tido essa ideia. – Eilon revirou os olhos, não queria um quadro absurdo dos dois, muito menos uma escultura vexatória; então ele tentou mudar de assunto.
-Como estão as coisas do outro lado? – Ele perguntou como sempre fazia, e ela sabia que todas as demais perguntas seriam as mesmas.
Ela se ajeitou na cadeira para poder responder todas as perguntas seguintes:
-Artemisa está viva e positiva, Maia está crescendo bem, não é chorona e ás vezes esquecemos que ela está no mesmo cômodo. Mamãe está grávida de novo. – Ela suspirou baixo, sabia que os irmãos desgostavam quando sua mãe ficava grávida de Perseu.
-E como a gravidez está indo? – Elisa perguntou.
-Incomoda. Mas, ela é forte. – Foi quando Ethan estralou os dedos.
-Tá faltando um irmão na sua fala Elia. – Ela corou e olhou para o irmão com a expressão de não saber o que ele estava falando. – Artemisa, Maia... Cadê o de cabelo azul?
-Sísifo. – Elora comentou em tom suave, como se desse uma dica para Elia se controlar.
-Ah, ele está bem também, já sabe escrever e ler. – Houve um silêncio na mesa, ela pressionou os lábios.
-Ele não tem cinco anos? – Annie perguntou surpresa e chocada. – Como assim ele sabe ler e escrever?
-Sísifo é muito mais esperto do que aparenta. – Ela respondeu com um doce sorriso. – Ele conseguiu montar na Nêmesy e ficou alguns minutos em baixo da água. – Seu sorriso e empolgação foram crescendo. Elisa começou a tamborilar os dedos sobre a mesa tentando chamar a atenção da irmã.
-Nêmesy é o que? – Eamond perguntou confuso, poderia ser um dragão, um Guardião, um deus, qualquer coisa.
-Uma dragona aquática gigante. – Elia abriu os braços, o rosto corando. – Sim, ele era pequeno, mas além de ter sido errado e perigoso o Sísifo foi corajoso.
-Elia... – Elisa murmurou quando Evan começou a prestar atenção no semblante dela. – Elia...
-Por mim, eu teria ficado em Saphiral para o aniversário dele. Ele tem uma hidra! Vocês fazem ideia do que é uma hidra? – Ela perguntou empolgada e animada para todos na mesa, mas o que se seguiu foi um silêncio desconfortável e tenso. – (...) Bom, é um dragão com várias cabeças de serpente. – Ela murmurou baixando o tom e olhando para o próprio prato.
-Que bom que todos estão bem. – Max completou quando o clima pesou e a princesa concordou.
Após aquilo o resto da refeição foi silencioso, com comentários suaves e bons relatórios. O olhar de Evan estudava o rosto de Elia com uma faísca de curiosidade, mas também chateação e o que se assemelhava a inveja. Não sabia se deveria ter esse tipo de reação, aliás, o outro lado era fascinante mesmo não estava culpando Elia; entretanto o sentimento de que ela parecia muito mais interessada em Sísifo do que ele era incomodo. Podia ser só um pequeno detalhe e coincidência.
Ele era muito mais novo que Elia, Evan não deveria se preocupar. Mas ao olhar para seus irmãos e até para o Conselheiro Real, significava que ele tinha que tomar uma decisão.
O resto do dia noite foi mais agradável, muito melhor que o almoço. Houve um pequeno passeio com os irmãos para rever os dragões, havia mais no covil, filhotes o que animava Elia. Á tarde ela foi a passeio com as garotas, um piquenique reservado na biblioteca de Elisa que Eilon construiu para ela, em um pedaço de ilha, parecia um pequeno palácio, tinha o ar romântico e minimamente dedicado a Rainha de Calasir. Mania de grandeza; parecia correr no sangue de Estevão e dos seus filhos. O que não era o caso do filho de Perseu e pelo resto do dia ficou evidente para todos que ela estava distante em pensamentos.
O jantar foi mais sobre os filhos de William e claro o deboche anual com Ethan; que sem eles saber fazia parte de algo mais antigo como: Estevão e Mandrik zombando William e vice e versa.
-Ah, mas não é uma competição. – Ethan levantou as mãos revirando os olhos. – Se fosse vocês estariam muito atrás de Orion. – Apontou de Elisa para Eilon e Max.
-Não é culpa nossa que ele se casou com duas mulheres. – Eilon falou em tom irônico. –Ele não conseguir se decidir entre duas mulheres é problema dele. – Elia observava o desenrolar da conversa com animação. Não era uma competição, mas se fosse Orion estaria na frente com quatro filhos e um quinto a caminho. Novamente não era uma competição.
-Você devia se preparar para competir com seu meio irmão – Brincou Max na qual Ethan revirou os olhos com desgosto e negou com a cabeça.
-Ele é meu primo! – Nada na vida o faria se sentir filho de William, quem o criou foi Estevão sendo assim ele era seu pai. – Não vão me irritar. – Ele segurou no pulso de Elora levando aos seus lábios. – Não importa quantos filhos ele tenha o primogênito dele não vai ser melhor que o meu.
Elora retirou a mão com delicadeza o rosto ficando levemente corado. O que fez todos ficarem boquiabertos.
-Não acredito! – Annie exclamou.
-Elora, como não nos contou antes? – Ela deu de ombros e deu um sorriso suave e grandioso. Houve vários comentários a parabenizando pela sua primeira gravidez, Elia a parabenizou também, assim como seu irmão Ethan.
O final do jantar foi divertido e suave e animado, quando se dirigiram para a sala de chá mais tarde enquanto conversavam, Evan estendeu sua mão para tocar nos cabelos de Elia, testando qual reação ela teria. A menina olhou para Evan e devagar foi tirando as mãos do colar que Sísifo havia lhe dado e olhando para o irmão.
-Você é mais inteligente do que aparenta. E isso é bom. – Ele se apoiou no chaise em que estavam e apontou para o colar em seu pescoço. – Mamãe te deu isso?
Elia ficou em silêncio por tempo demais o que apenas fez Evan assentir com a cabeça como se tivesse entendido. – Eu não acho que você pode aceitar joias de outros meninos; nós somos uma parceria. – Ele estendeu a mão pedindo o colar sem dizer nada.
Entre os dois reinou um silêncio pesado, carregado de tensão sem saber que estavam sendo monitorados pelos olhares de Ethan e Eilon; ela retirou o colar com cuidado, sem fazer um escândalo e se esforçou para não chorar e estragar o momento de Elora. Afinal era um bom sinal, se sua irmã estava grávida significava que ela poderia voltar para Saphiral mais cedo, o acordo com os Cléota ainda era válido e ela não via a hora disso acontecer, poderia pegar suas cartas de volta e seu colar. Ela foi deitar mais cedo do que o esperado por causa disso.
Naquela noite a escuridão tomava conta do seu quarto na fortaleza, ela sentia a cama afundar levemente ou parecer mais desconfortável do que de costume mesmo com a luz da lua entrando no seu quarto tudo parecia escuro e vazio, principalmente porque ela não tinha nada familiar de Sísifo para segurar e se sentir protegida, ela não conseguia explicar, mas precisava. De repente a porta do quarto se abriu, ela não estava dormindo, assim que ela se sentou viu primeiro Eilon, segurando um candelabro, foi quando viu Elisa com uma lanterna.
-O que houve? – Ela perguntou levando a mão ao pescoço imediatamente esquecendo que não estava mais com o colar.
-Elia; nós conversamos entre nós e segundo os desejos do nosso pai Estevão. – Sua voz era calma e tentava soar consoladora. – Você vai permanecer em Calasir por um tempo.
-Algo como alguns anos... – Elisa disse se aproximando se sentando na cama perto do seu corpo pronta para segurar a sua mão.
-Mas Eilon! Elisa, não, por favor... – Ela pediu, sentindo Elisa a segurando para ela não sair correndo. – Não! Eu preciso voltar! Eu preciso estar lá.
-Por quê? – Eilon perguntou se aproximando dela que já estava chorando. – Porque precisa estar lá? Você é desse lado, é desse lado que você tem que ficar irmãzinha...
-Vai ser o melhor. Do jeito que precisava ser. Nós te amamos e vai dar tudo certo. Prometemos. – Elisa a abraçou limpando suas lágrimas com cuidado e proteção. Ethan entrou no quarto se aproximando dela.
-Precisamos que você devolva a ave para o outro lado avisando. – Ela negou o pedido de Ethan que olhou para Eilon que se agachou um pouco. – Elia isso é importante. Então não complique as coisas, onde está a ave? – A menina deu de ombros, ela não iria retornar tão certo.
-Elia... – Elisa disse com uma voz consoladora. – Por favor; dói agora, mas logo vai passar, eu prometo. Estamos aqui para você. – Elora surgiu a abraçando por trás, era mais um movimento para ela não correr e fugir.
-Somos sua família e temos um grande legado para continuar. – Elora dizia acariciando seus cabelos. – Te amamos muito. Não pode ficar entre os dois lados. Esse é o seu lado.
Evan apenas olhou para ela e respirando fundo virando-se para a janela.
-A ave só volta quando Sísifo sair do Refúgio, não é Elia? – Sua voz saiu baixa, com uma mistura de dor e culpa. Era o certo, mas não queria a ver sofrendo. Ela concordou entre soluços. – Podemos avisar ao Navi quando ele for para Saphiral.
-Ou interceptamos a ave.
Elia os olhou conversando por um longo tempo. Eles decidindo por ela, conversando, como isso poderia estar certo? Ela fechou os olhos. Precisava voltar, precisava entregar os narcisos roxos para Sísifo, ela havia os plantado, seria um presente, ela colocaria uma bela fita azul e o daria de presente. Mas aparentemente eles não vão florescer tão bem na primavera e nem na próxima.
Fale com o autor