Branco & Azul
3 Com carinho, da sonhadora
Notas iniciais
Elia nasceu no final do inverno, começo da primavera, com seus ondulados cabelos brancos e belos olhos verdes claros quase cinzas. Sísifo nasceu no Solstício de verão em Calasir de maneira um pouco apressada e quente. Com a diferença de que seus cabelos nasceram da cor anil, azul como o mar, como o céu. Seus olhos eram verde azulado, dependendo da luz pareciam cinza também.
Á primeira vista, era um tranço por ser filho de Perseu, mas, além disso, era porque Sísifo mesmo nascendo do outro lado do portal, ele era um Subimortal completo com sangue real. Não houve uma ligação imediata com Elia; Perseu jamais permitiria que seus filhos se relacionassem entre si, como Estevão permitia. Então, um vinculo entre os meio-irmão era de grande alegria e o suficiente.
No começo apenas Sísifo que dava alguma coisa á Elia. Cascas brilhantes de ovos de dragão, conchas cantantes, plumas coloridas, tudo o que fosse chamativo, porque tudo que se destacava das outras coisas, Sísifo se lembrava de Elia, para ele, a cor dos cabelos, dos olhos, o sorriso era diferente dos outros Subimortais; talvez fosse assim com os seus pais, e diferente o deixava feliz. Elia era a mortal que Sísifo admirava, era especial e com o tempo começou a compartilhar pequenos segredos.
Para o Príncipe aquilo era uma amizade, com um afeto, mais intenso ao longo dos anos; especificamente onde com ela, ele aprendeu a lidar com suas emoções interagindo com alguém perto da idade dele, eles interagiam entre si quando estavam juntos, pois no Refúgio o máximo de comunicação que eles tinham, era por Alba, a fênix que Artemisa, Elia e Sísifo dividiam entre si e Saphiral, ás vezes Ruphira e raramente com Calasir. Porém, quem usava mais eram os dois.
Sísifo aprendeu a escrever pequenas frases aos cinco anos, um pouco mais atrasado que os demais Subimortais. Era cedo demais para se levantar, tarde demais para voltar a dormir quando Elia ouviu um piado conhecido e baixo, ela se virou para o lado na cama luxuosa levantou com cuidado o dossel de seda e esfregou os olhos olhando para a varanda e vendo Alba, a fênix com algo amarrado nas duas patas e um colar brilhante no pescoço. A menina se levantou e correu para pegar um pouco de comida para a ave e apenas depois retirou os pergaminhos das patas com um olhar curioso e ansioso.
“De Sísifo, do Refúgio para Elia, em Dragoi:
Sua estação deve ter chegado. Aqui o sol foi dormir, a noite caiu, as estrelas apareceram, você ganhou algum presente? Queria te dar presente legal, mas, não tem nada aqui no refúgio. Alba levou um presente pequeno, se você não gostar, tudo bem, pensarei em algo melhor na próxima vez.
Com todo o carinho e veneração, seu irmão, Sísifo.”
Elia riu ao ler a carta, a letra não era a melhor e pela escrita ele deve ter tido ajuda. Ela se aproximou para pegar o outro pergaminho para ler, gostava de receber algo de Saphiral, ela estava esperando algo como conchas, tecidos ou tintas, coisas que ele sabia que iria agradar ela; sim. Ela tinha feito nove estações á algumas luas, houve uma grande celebração, ela ganhou presentes dos seus irmãos, sua mãe havia aparecido junto com Artemisa, foi um bom aniversário, mas, ela queria algo mais: “surpreendente ou inesperado” que era o que Sísifo sempre fazia.
“Minha irmã, adorável Grã Princesa de Saphiral.
Antes de você ir para o outro lado, vi que você brilha quando está aqui. Brilha para mim quando sua mão segurou a minha. Espero que não demore á retornar voltar. Pompeii quer que eu diga coisas boas para você. Espero que dessa vez você se divirta. Mas, não muito.
De: Sísifo.”
Elia parou e puxou devagar o colar que estava na fênix. Era um belo colar de prata de três fios com pedras preciosas, em formato de rosas com um toque de azul. Sempre azul. Não era um presente pequeno, era muito maior do que ele poderia arrumar, o que a fez imaginar onde ele teria arrumado aquele colar estando no Refúgio? Deixou o pensamento de lado e se levantou, ficando de frente para o espelho tentando colocar o colar que tinha um fecho fácil de colocar e tirar.
Se olhar no espelho com o colar com a camisola de seda a fazia sentir-se linda, de um modo que ela não sabia explicar. Houve um suspiro genuíno dela, fazendo a corar, o colar era quente como o abraço dele, antes de emanar chamas, quente, acolhedor, animado. Ela não via nada de errado no modo em que Sísifo mostrava carinho por ela, era tão genuíno, e o sorriso dele era como uma chuva de pétalas de rosas, chamativo, único, com um centímetro torto para o lado esquerdo.
Suas recordações se dissiparam quando bateram na porta de seu quarto, avisando que o desjejum estava pronto e que o Conde Evan estava esperando. Pensou por um momento se devia ou não permanecer com o colar, porém, se lembrou de que depois iriam para Drakoj, então ela retirou o colar o guardando em um baú que Perseu havia lhe dado de aniversário. Ele era feito de madeira de cerejeira, com vários desenhos esculpidos como flores, forrado com veludo rosa e com um fundo longo, onde ela poderia guardar qualquer coisa, pois apenas a palma da sua mão abria o pequeno baú. Assim que o guardou deu um longo suspiro e espreguiçando olhou ao redor do quarto, pegando um pedaço de papel para responder á Sísifo o agradecendo.
“Caloroso e surpreendente irmão, Sísifo Príncipe de Saphiral.
Um colar é um presente grande demais, onde você achou isso? Não estou brigando com você, admirei imensamente por não ter se esquecido desse momento tão único. O presente vindo de maneira tão cautelosa e linda me deixou muito feliz. Obrigada por ter me presenteado com algo brilhante, isso foi muito gentil e espero que a sua acomodação no Refúgio possa animar você durante esse período protegido. Imagine eu beijando suas bochechas com grande gratidão.
Com carinho, de sua irmã mortal, Elia Condessa de Dragoi.”
Assim que colocou a carta na pata da fênix, Alba acariciou a testa de Elia com a sua cabeça antes de levantar voo, o que fez a menina sorrir com leve empolgação, Sísifo escrevia com complexidade, mas, de maneira errada. Era como se ele escrevesse com a mente, mas, sua mão e caligrafia não seguia o que sua mente e coração expressavam, o que ela aprendeu a ler. Em seguida, começou a colocar a roupa de montaria, por alguma razão, usar vestido para montar os dragões em Calasir parecia contra as regras; ela se vestiu e se dirigiu em silêncio para a mesa pequena e redonda que ficava na torre do solário.
-Bom dia... – Evan disse colocando alguns bolinhos no prato do outro lado da mesa com um sorriso. – Dormiu bem?
-Bom dia. Sim, eu dormi bem. – Elia respondeu se sentando e observando os bolinhos com mel, fatias de queijo com pão e chá de amora, ela inclinou a cabeça curiosa. – Parece o bolinho que a Anniglesa faz... – Evan negou com um sorriso.
-Navi quem tinha a receita, ele disse que você poderia ficar enjoada vindo de Saphiral para cá. – Ela apoiou a cabeça sobre a mão no braço da cadeira e deu um suspiro saudoso. – Tem certeza que você dormiu bem? – Elia bocejou um pouco e concordou colocando um pouco de chá em sua xícara.
-Porque Artemisa não pode se reunir conosco? – Perguntou tomando um gole de chá.
-Porque ela é do outro lado, não pode simplesmente sair todo dia, toda lua e vir para cá. – O irmão falou em um tom sério. Observando a expressão da menina, ele continuou. – Ok. Nós poderíamos até tentar chamar ela algum dia; só precisamos que Eilon e os outros concordem...
Evan já tinha doze anos e como era a tradição da família Balaur, era com Elia que ele deveria se relacionar, embora fosse difícil se relacionar, já que todo ano ela estava em um Reino diferente, o que poderia ser difícil para ela construir sentimentos com ela. Enquanto ambos terminavam o desjejum, ele começou a contar como Dragoi vinha crescendo, já havia moradores e seguidores o suficiente que cuidavam dos jardins, dos templos, limpeza, dos cultos e do quanto a sua mãe estaria feliz com a cidade que o pai deles construiu para ela.
-(...) – Houve um pequeno silêncio. – Perseu também fez uma Aldeia para mamãe. – Elia respondeu comendo o bolinho. – Mamãe ganha muitas coisas dos homens que se apaixonam por ela... – Evan deu um pequeno sorriso e pegou o bolso uma caixa pequena de veludo vermelha, estendo na direção da Elia. – Uh. – Ela colocou o bolinho sobre o prato e ficou em silêncio com um sorriso tímido. – O que estou vendo?
-É para você. Abre... – Evan disse de forma gentil, com um sorriso entusiasmado no rosto, ansioso para ver a reação dela. Elia estreitou os olhos e abriu devagar a caixa; era um belo par de brincos dourados, com pedras em formato de gota misturando azul e vermelho como ondas. Ela sorriu sem jeito e colocou a mão sobre a bochecha.
-Nossa! – Seu rosto ficou ruborizado. – É tão lindo, maravilhoso... Uau Evan! – Ela exclamou entusiasmada retirando os brincos quase os colocando, então olhou para ele observando a sua expressão. – Você fez isso? – Evan deu de ombros levemente sorrindo. – Incrível! Achei maravilhoso. Lindo... Obrigada! – Ela agradeceu segurando a mão dele com força, dando um grande sorriso. Ela pressionou os lábios antes de abraçar Evan como agradecimento.
Ele a ajudou a colocar os brincos antes de irem para Drakoj, durante o voo, ela montada em Crysta com as mãos sobre a cabeça do dragão e apoiando seu queixo nelas. Seu penteado se desfazendo aos poucos, ela se deixou levar pelo vento, pelos aromas, pela sensação; então olhou para Evan, o presente foi lindo, especial e inesperado. Não queria reclamar, mas, faltou uma carta atenciosa. O que fez com que Crysta desequilibrasse um pouco pelo sentimento que ela estava sentido.
-Elia? – Evan se aproximou montado em Aurys preocupado. – Tudo bem?
-Está. Estava apenas pensando... – Ele ergueu a sobrancelha vendo ela com a cabeça apoiada no dragão.
-Que pensamento foi esse que desequilibrou seu dragão? – Elia virou o rosto para frente pensativa.
-Seria ótimo se mamãe estivesse aqui conosco...
-(...) – Evan inclinou a cabeça suspirando, também sentia saudades da mãe; ela sempre estava a alguns momentos de distância, mas, não era a mesma coisa. Nunca seria. – Bom, ainda tem eu, nossos irmãos... Estamos com saudades de você! – Sua voz soou animada.
-Eu sei. – Ela sorriu para ele.
Das três filhas de Estela e Estevão, parecia que seria ela quem casaria com um mortal, apaixonada por um subimortal, como sua mãe fez não igual. Era por esse caminho que as coisas estavam andando. Ela respirou fundo acariciando Crysta, Evan tinha a idade perfeita para ela. Porém, Sísifo parecia ser perfeito para ela. Era impossível não ser recíproco.
Quando chegaram em Drakoj e se dirigiram para a fortaleza, houve um breve silêncio antes deles serem recepcionados pelo Rei e a Rainha de Calasir, Eilon e Elisa que a abraçaram por tê-la novamente daquele lado do portal. Elisa a soltou e sorriu.
-Você está linda! – Elisa falou arrumando os cabelos da irmã que haviam bagunçados durante o voo. – Nossa que brincos lindos! – Eilon olhou orgulhoso para Evan assentindo disfarçadamente e voltando seu olhar para a irmã caçula.
-Realça seus olhos... Que bom que você voltou! Estávamos com saudades...
-Também senti saudades. – Ela disse com um sorriso gracioso.
-Ah! Pelo grande dragão! Você voltou! – Elora Condessa de Interlok correu com seu vestido azul farfalhando enquanto corria em direção á Elia a abraçando demoradamente. – Senti tanta saudade! Achei que esse ano você não viria...
-Claro que eu viria...
Elia correspondeu o abraço, sentia saudades de sua irmã, embora percebesse que faltava variedade de cores em Calasir, eram infinitos tons de azul e vermelho, o que ela aprendeu a apenas aceitar, não queria ser uma reclamona e receber um afastamento dos irmãos, como aconteceu com Evan quando ele voltou de Saphiral.
-Você está grande! Linda! – Elora segurou firme no pulso de Elia e apontou animada para Elisa. – Precisamos colocar a conversa em dia!
-Podem fazer isso durante o almoço. – Eilon interveio, Elisa inclinou a cabeça dando um pequeno sorriso e acariciando o queixo do marido antes de beijar rapidamente.
-Claro, também o faremos durante a refeição. – Assim que as irmãs sumiram pelos corredores sorrindo, Ethan apareceu secando as mãos em pano e jogando em uma moita.
-Elia chegou?
-Sim. – Os dois irmãos responderam em uníssono.
-E como estão? – Ethan ergueu a sobrancelha, curioso cruzando os braços e dando um sorriso quase malicioso. – Já conversou com ela? – Evan suspirou.
-Eu ainda não tive oportunidades! Ela,ainda está muito avoada com Saphiral. – Eilon passou a mão nos cabelos brancos e respirou fundo.
-Ethan, Elia ainda tem dez anos.
-E daí? Quer mesmo que ela faça igual à mamãe e se case com um esquisito do outro lado?! – Ethan já tinha seus 17 anos, e era implacável com seus ideais, e sobre todos os acontecimentos da sua outra linhagem genealógica, tudo parecia sem rumo. – Ela tem que ver Evan como o futuro marido, como deve ser. – Eilon revirou os olhos.
-Não me agrada ela passar os anos do outro lado do Portal, mas, foi um combinado com a mamãe; e não queremos decepcionar ela.
-Não é decepcionar, é a vontade do nosso pai! – Não importava que seu sangue não era de Estevão, Ethan era filho de Estevão e sempre que podia lembrava disso o mais alto que podia. – Se depender de mamãe, o que vai acontecer? Elia vai se casar com um Príncipe de lá? Você vai deixar Evan?
-Ethan, para! Ela está feliz, mamãe ficou feliz, ela sempre aparece agora! Apenas para de me dizer o que fazer! – Evan retrucou e Eilon afastou os dois.
-Entendo o ponto de vista dos dois. Só que Elia precisa se sentir a vontade aqui, se for muito rápido, ela vai ver Calasir como perigo, e não queremos isso.
-Os dois concordaram acompanhando o Rei de Calasir para dentro do castelo, tentando pensar em boas técnicas que não fizesse a irmã caçula se assustar e recuar; seria muita coisa para eles entenderem o que ela aprendeu em Saphiral, e como poderiam tornar Calasir em uma casa perfeita.
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-Nos diga tudo, não esconda nada! – Disse Elora animada repousando nas almofadas da sala aquecida, batendo as mãos. – Como foi?
-Elora... – Elisa tocou no ombro da irmã. – Calma, deixe Elia falar...
Elia olhou para a sala recém-reformada, o azul claro de Tyrax brilhava em cada canto, suas bochechas queimaram, aquela cor lembrava os cabelos de Sísifo, a atmosfera quente e acolhedora a fazia se lembrar do abraço do irmão. E pensar na carta e no presente que ela ganhou a deixou sorrindo olhando para cima.
O que suas irmãs estavam achando, era que ela estava pensando nos presentes de Evan, elogios, do modo que ele estava a tratando a fazendo se apaixonar por ele; o que deixou ambas animadas. Depois de minutos em silêncio em um suave suspiro apaixonado ela continuou.
-Foi como sempre, talvez diferente dessa vez, ele se esforçou tanto... – O sorriso no rosto das irmãs aumentava de ansiedade, enquanto Elia mantinha um olhar romântico. – Eu espero não chatear mostrando para vocês...
-Não! Claro que não! – Elora disse estendendo a mão ao ver Elia retirando os pergaminhos de Sísifo e entregando para elas cada bilhete. – Que fofo!
Elia estava feliz vendo a expressão das irmãs, porém, suas expressões foram mudando aos poucos, para expressão de duvida e confusão. A caçula recuou um pouco em duvida.
-O que houve?
-Evan escreveu isso? – Elisa virou o pergaminho confuso, na qual Elia pegou negando e sorrindo, suas irmãs não entendia o Saphiral. – Como assim não?
-Foi Sísifo quem mandou. – As duas se entreolharam.
-Como? – Elora perguntou incrédula. – Ele só tem cinco anos!
-Mas, ele é muito esperto! É como se ele tivesse nove ou dez anos... – Elora pressionou os lábios, poderia ser um pequeno equivoco.
-Certo, e o que o nosso irmão escreveu? – Com o tempo ela aprendeu que não chamar Sísifo de irmão era uma dor de cabeça. Elia ficou de pé toda orgulhosa e começou a ler para as irmãs.
-... Antes de você ir para o outro lado, vi que você brilha quando está aqui...
Elia começou lendo com entusiasmo tentando demonstrar o quão adorável pareceu quando receber aquilo; Elora e Elisa se olharam disfarçadamente, não era isso que elas estavam esperando, era para ela estar elogiando e falando sobre Evan; fazia meia estação desde que ela voltou de Saphiral, era para ela ter se conectado emocionalmente com Evan, era para estarem em sintonia. Mas, observando a irmã ela parecia tão suave falando de Sísifo que se não o tivessem visto quanto nasceu poderiam até pensar que estava falando de alguém mais velho, era a primeira vez que elas tinham conhecimento daquilo. Agora parecia ser crueldade a fazer parar de sonhar, Perseu nunca iria aceitar, e aquele não era o plano de Estevão. Ela era uma Balaur, estava no seu sangue, e Sísifo, era filho de Perseu, não combinava. Apenas.
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