Bourbon Street

21 Capítulo Vinte e Um - Início depois do fim


Notas iniciais
Boa leitura ;)

— Você me paga, Rafael — gritei em meio a gargalhadas.

Corria a toda velocidade atrás do homem, que parecia ter mais aptidão física do que eu. Era tão rápido que sequer perto dele eu estava.

O que me tranquilizava era o fato de que todas as luzes estavam apagadas, sendo assim, meu mal desempenho não queria dizer que eu era um sedentário e muito menos cego. Só dizia que eu não enxergava quase nada por sob o brilho das estrelas, certo?

— Quando vai começar a correr? — respondia sorrindo.

Parei de correr por um segundo e, apoiando meu corpo nos joelhos, respirava ofegante.

— Já desistiu?

Eu conseguia ouvir sua risada debochada e, decidido a não suportar aquilo, ergui o olhar e o fitei. Rafael estava de frente para mim, não muito distante.

— Eu vou te pegar — rosnei entre dentes.

— Verdade? — alargou seu sorriso — Não parece.

Em um impulso certeiro, corri na sua direção. Ele pareceu surpreso, mas se safou bem rápido quando ameacei me aproximar.

Confesso que estava cansado e, o desempenho dele naquilo era tão bom que, eu já desistia de superá-lo. Percebendo a longa distância entre nós, Rafael se virou para mim com um sorriso de orelha a orelha enquanto continuava a correr, desta vez de costas.

— Cadê todo aquele papo de que você ia me pegar? — instigava.

— Eu vou — pulei de repente, jogando todo o meu corpo para frente.

Caí em cima do rapaz com toda força, ouvindo um gemidinho de dor e, em um estrondo alto, batemos com força na grama e rolamos até colidirmos com uma rocha pesada.

Nossos corpos permaneceram unidos até que uma risada alta interrompeu o som das nossas respirações ofegantes. Um pouco tonto e cansado, saí de cima dele, ainda mantendo nossos rostos muito próximos e os olhares fixos.

Rafael tinha um lindo sorriso estampado nos lábios e seus olhos chegavam a brilhar. Parecendo hipnotizado, ele suspendeu a mão e tocou a pele do meu rosto com uma delicadeza esplendida. Suspirei ao mesmo tempo em que fechava os olhos suavemente, pronto para sentir seu carinho.

Quando ele fazia isso todo o meu corpo reagia, encolhendo-se ao sentir o carinho delicado dos seus dedos. Mas com minha mente era diferente. Meus pensamentos confusos embolavam-se uns contra os outros e me deixavam com uma confusão mental tão grande que chegava a machucar meu coração e minha alma.

Por um minuto inteiro meu coração se encheu de sentimentos bons. Mas quando senti seus lábios tocando os meus, tudo mudou.

Afastei-me tão depressa dele, que parecia ter sido repelido. Minhas costas bateram de encontro com o chão e meus olhos só enxergavam o vazio escuro do céu enquanto minha alma se enchia de dor e, meus pensamentos, de confusão. O ar parecia ter sumido dos meus pulmões e meu corpo inteiro formigava.

— Ei, Enzo — ele tentara me tocar no rosto outra vez, mas o afastei.

Seus belos olhos azuis pareciam bastante assustados.

— Eu te assustei? — perguntava, roçando as pontas dos dedos pelo meu peitoral — Ei, Enzo, me responda.

A única coisa que consegui fazer foi assentir. Rafael soltou um suspiro pesado e moveu o olhar para as estrelas, talvez pensando em sua atitude. De repente seus olhos voltaram para mim.

— Eu não queria te assustar — dizia com confiança — Apressei demais, certo?

— Só estou confuso.

— Eu errei, sinto muito — parecia realmente arrependido.

Mantendo o olhar baixo, assenti com um suspiro.

Rafael se jogou ao meu lado e permaneceu calado. Tudo que eu ouvia eram seus suspiros.

Meu estado paralisado não durou mais de dez minutos, mas mesmo sendo tão pouco tempo, meus pensamentos voaram para lugares outrora visitados.

Os lábios do moço ao meu lado — por menos tempo que eu tenha tocado-os — eram doces e suaves, mas eu não podia pensar naquilo sem me lembrar dos olhos negros de Nicholas me repreendendo e, lembrar-me dele fazia com que eu matutasse os últimos acontecimentos freneticamente.

Rafael me fez esquecer todos os meus problemas em menos de uma noite com seus belos sorrisos e palavras de conforto enquanto Nicholas, diante do mesmo tempo, estragava tudo. Eu não colocava os dois em uma balança, mas era quase impossível não pensar no óbvio.

E quando meus pensamentos foram interrompidos pela voz doce e confiante de Rafael, aquela pergunta insistente voltou a amaldiçoar meus pensamentos.

Eu queria mesmo esquecer Nicholas?

— O que acha de irmos embora?

O fitei, deixando um sorriso sincero delinear meus lábios. Eu tinha a resposta que precisava.

— O que acha de acender as luzes da cidade?

— Uma ideia e tanto, hein? — aquele sorriso esperançoso voltava a dominar seu rosto.

— E então, vamos?

— Que tal irmos até o trem fantasma? — Rafael se sentava, acalorado.

“— Rafael, o que estamos fazendo?

— Nunca fez nada errado, Enzo? — ele piscou ao sorrir.

Sacudi a cabeça.

— Eu só nunca invadi um local público — assustava-me ao vê-lo pairar já do outro lado do portão.

— Este parque é particular e nem é tão errado assim, certo? Só vamos nos divertir um pouco e ir embora, afinal é para isso que os parques servem.

— Mas... — tentei argumentar, mas ele me interrompera.

— Nada de mas, Enzo — se aproximou do portão e tocou minha mão por através da grade — Pule antes que eu comece a acreditar que tem medinho.

O olhei nos olhos, sentindo todo o meu corpo implorar para provar para ele que eu não era medroso.

— Você vem ou não? — tinha um sorriso gentil.

— É claro que eu vou”

— Que tal continuarmos falando em forma de pergunta pela próxima hora?

Ele riu alto.

— Chega de conversa, vamos logo — levantou-se em um salto, puxando-me pela mão.

— Ah, você estragou tudo — dizia balançando a cabeça, revoltado.

Ele riu novamente.

— Quero ver essa animação toda depois que sair do trem fantasma — apontava para a enorme projeção negra por trás de todos os brinquedos do parque — Você tem medo?

— Você tem?

— Não começa com isso de novo — ria.

Sorri também, andando ao seu lado na direção do trem fantasma e, quando saí do brinquedo, tive a maior certeza de toda a minha vida.

Eu nunca gritei tanto em toda a minha existência nesse mundo.

Rafael ria da minha aparência e da minha palidez, segurando-me pela cintura para que eu não cambaleasse para o lado e caísse de cara no chão. Eu tinha a impressão de que se estivesse sozinho, me deitaria no chão e ficaria amuado até o dia nascer. A verdade é que meu estomago estava tão embrulhado, que eu sentia o gosto de vômito sem sequer ter chegado a vomitar. Todo o meu corpo doía e tremia enquanto minha cabeça girava e minha visão escurecia de forma que nunca havia acontecido.

Certamente eu não sentia só medo. Ia muito mais além do que só medo.

— Enzo, como se sente?

Tentei colocar-me de pé.

— Bem — engasguei com minha própria saliva.

— Bem mal — suspirou, virando-me de frente para si — Dá pra ver.

Fechei os olhos levemente.

— Vou melhorar, só me dê um segundo.

Rafael me deitou no chão sobre seu colo e passou os braços por mim, aquecendo-me. A noite estava fria e, mesmo com seu paletó em mim, eu sentia meus ossos tremerem. Naquele momento eu não me importava com nossa aproximação, eu só queria ficar bem.

— Deveria ter me dito que tinha medo — ele me reprovava.

— Aquele susto me acertou em cheio — sussurrei aos murmúrios.

— Qual susto? — realmente haviam sido muitos.

— Aquele.

Rafael riu baixo ao relembrar o momento em que eu mais gritei. Parecia que meu coração acelerado fugiria pela boca de tão tenso que fiquei.

Por um tempo ficamos em silêncio, apenas observando a lua e a luz das milhares estrelas espalhadas pelo céu. A noite esfriava cada vez mais e meus dentes chegavam a bater uns contra os outros, enquanto meu corpo inteiro tremia.

Rafael pareceu perceber meu desconforto e rapidamente se manifestou:

— Vamos embora — levantou-me com delicadeza — Já passou da hora de criança estar na cama

Eu sorri de lado.

— Preciso ler uma historinha para você? — debochei — Talvez Branca de Neve?

— Há-há, você deveria ganhar o premio Nobel de piada mais engraçada do dia — revirou os olhos teatralmente.

— Não era uma piada — abracei seu braço ao guiá-lo pelo parque.

— Até porque não teve graça — ele sorriu, olhando nos meus olhos.

Por um instante aqueles olhos azuis me hipnotizaram, mantendo-me paralisado, mas aquilo mudou assim que ouvimos um barulho ensurdecedor.

Era o alarme?

— Droga — Rafael rosnou entre dentes, segurando minha mão com força — Porque tinha que disparar logo agora?

Não passou nem um minuto direito e já ouvíamos as sirenes dos carros de polícia. Não pareciam estar muito distantes e aquilo acelerou não só o meu coração, mas também o do homem ao meu lado.

Rafael me puxou pela mão com tanta força, que meu corpo sofreu um espasmo. Tentei me concentrar e correr tão rápido quanto ele, mas Rafael quase carregava todo o meu peso junto justamente por ser o mais rápido. Ele murmurava palavras de incentivo enquanto tentava atravessar todos os obstáculos sem cair.

— Não estamos vendo nada — ouvimos vozes distantes.

Ao ouvir aquilo, Rafael se apressou a me puxar. Paramos diante a cerca mais próxima e seus olhos se voltaram para mim.

— Precisa pular — disse.

— O quê? Vamos morrer se passarmos por aí — certamente eu estava assustado.

— Eu desliguei a cerca elétrica quando chegamos, quando eles descobrirem isso, a religarão, então temos pouco tempo — apertou minhas mãos com as suas — Precisa se apressar.

— E você?

— Estarei logo atrás de você.

Assenti com convicção.

Comecei a escalar a cerca e, pensando em me ajudar, Rafael apoiou as mãos na minha cintura e me empurrou para cima. Ao chegar lá em cima, desejei não ter subido. Era muito alto.

— Liguem as cercas — ouvi — Ninguém sairá daqui.

Meu peito estalou ao olhar para baixo e ver que Rafael estava na metade da cerca. Ele também parecia assustado e aquilo encheu meu peito de angústia.

— Pula — murmurou um pouco mais alto.

— Só vou se voc...

— Pula logo — grunhiu entre dentes.

— Não — firmei.

Eu só iria com ele.

Rafael se apressou e, em poucos segundos estava ao meu lado. Com a mão por cima da minha, olhou nos meus olhos e sussurrou:

— Vamos juntos.

Assenti.

Sequer inspirei novamente e o senti me puxar pela mão. Nossos corpos bateram de encontro com a grama alta, provocando um estrondo alto.

— Ouvi algo, chefe — eu continuava a ouvir vozes, dessa vez, mais perto.

— Enzo? — Rafael soltou em meio a grunhidos de dor — Tudo bem com você?

Com muita dificuldade me sentei. Olhei nos olhos dele e sorri.

— Depende.

Ele erguia as sobrancelhas.

— Do quê?

— De como você está.

Ele abriu um largo sorriso, deslizando sua mão até tocar a minha.

— Estamos bem.

— Por aqui, chefe — do outro lado da cerca, dois homens vestidos de farda nos observavam.

Rafael, mesmo dolorido, levantou em um pulo e me levou consigo. Estava escuro e, por isso, não víamos os homens com muita clareza. Ele apertou minha mão e me puxou até que eu estivesse próximo do seu corpo e com os olhos fixos nos seus.

— Temos que chegar até o outro portão, pegar o carro e sair daqui — respirou fundo — Tudo isso o mais rápido possível.

Assenti.

Seus lábios tocaram minha bochecha por um instante inteiro antes de suas mãos me puxarem para o lado contrário. Todo o meu corpo se aqueceu com o seu toque, mas a rapidez do homem não me deixou senti-lo por mais tempo.

Corremos de mãos dadas por quase três minutos até chegarmos ao carro. Os homens corriam ao nosso lado pelo o outro lado da cerca, procurando não nos perder de vista, mas assim que entramos no carro e Rafael pisou no acelerador, não nos viram mais.

Por quase quinze minutos ficamos em completo silêncio, apenas ouvindo as sirenes dos carros de polícia sumirem á medida que nos afastávamos mais e mais. Por todo o caminho nossas respirações ficaram aceleradas e nosso peito, dolorido. Rafael apertava os dedos no volante de acordo com que a tensão aumentava e seu corpo se endurecia. Parecia um robô.

— Estamos bem — sussurrei.

Passou trinta segundos.

Um minuto.

Cinco minutos.

Até que eu desisti de receber uma resposta e me virei para o lado, observando a neblina densa sobrevoar o norte da avenida.

— Estamos bem — ele sussurrou.

Sobre a minha mão, a sua repousou.

O olhei novamente, delineando seu belo sorriso com meus olhos.

— Está cansado?

— Não — era verdade — E você?

— Um pouco — sorria — Mas eu prometi uma noite dos deuses e é isso que vamos ter.

Fomos obrigados a parar no sinal.

— Não precisa — tentei — Podemos encerrar aqui.

— Não, vamos lá — suspirou — Sua vez de escolher.

O sinal abriu e ele foi obrigado a desviar o olhar.

Esperou por segundos e até por minutos pela minha resposta, mas não a teve.

— E então? — virou o rosto na minha direção, sorrindo.

— Hã — murmurei atordoado — Como é?

Ele pareceu desentendido, mas soltou um sorriso simpático ao voltar a atenção para o trânsito à sua frente.

— Eu disse que pode escolher o que faremos agora.

Não sei por quanto tempo fiquei balanceando os atos dele e os de Nicholas, procurando entender meus pensamentos confusos que só batiam na mesma tecla. Eu tinha a minha resposta, queria recomeçar e criar uma vida feliz ao lado de alguém que me fizesse feliz, mas e o Nicholas?

Tudo que vinha à minha cabeça era uma visão única com todos os momentos que vivemos juntos e as emoções sentidas ao seu lado. Tivemos momentos bons, mas em suma, eu havia sofrido e não foi pouco. Acreditem em mim, lá estava eu, parado, balanceando tudo e tentando entender meus pensamentos, que cada vez mais se embolavam.

Rafael fazia com que eu me sentisse em outro mundo, mas eu não o amava. Não da forma como amava Nicholas e aquilo mais do que tudo me deixava confuso.

O que fazer?

Eu ainda não tinha essa resposta.

Talvez fosse melhor pensar com calma. Talvez.

— Enzo? — o carro estava parado no acostamento de alguma rua.

Saindo do meu momento de torpor, o fitei.

— S-sim?

— Está tudo bem?

— Eu não sei — assumi — Pode me levar para casa?

— Mas... — suspirou profundamente — Eu fiz algo errado?

Neguei com a cabeça.

— Então...?

— Só quero descansar — o interrompi.

Ele me olhou com curiosidade.

— Tudo bem — voltou a ligar o carro — Hã — suspirou, apertando minha mão com a sua e soltando um sorriso lento — Quer dormir comigo?

— O quê?

— Quero dizer, na minha casa.

— Não acha que está apressando as coisas?

— Ah, não — exclamou — Não quis dizer isso — apressou-se em dizer — Só o chamei para dormir na minha casa, porque certamente vou ficar preocupado com o fato de você dormir sozinho.

Assenti de leve. Eu não sabia se queria aquilo, mas antes que eu pudesse pensar direito, vi-me dizendo:

— Está bem.

Ele sorriu antes de tomar o volante em suas mãos e voltar a dirigir.

xXx

Na casa dele fui tratado muito bem. Dando-me roupas quentes e toalha, Rafael me mostrou o banheiro. Tomei um banho quente na enorme banheira de hidromassagem e voltei para o quarto, colocando organizadamente minhas coisas por sobre a cômoda.

Claramente Rafael levava uma boa vida, podia-se ver pela estirpe de cada cômodo. Contemplando cada detalhe em especial, segui para a cozinha, encontrando-o de frente para a mesa farta. Era tanta comida, que eu sequer sabia por onde começar.

Assim que terminei de comer, o ajudei a arrumar a cozinha e voltamos lado a lado para seu quarto. Peguei uma manta em cima da cama e já ia saindo quando ele me chamou.

— Enzo?

— Sim? — virei-me.

— Para onde está indo?

— Para o sofá — indiquei a saída com uma das mãos.

Rafael revirou os olhos.

— Enzo, tem vários quartos onde você pode dormir e você escolhe justamente o sofá?

— Ah, não tem problema.

— Além de que...

Ele pareceu perder a fala.

— Hã — fez careta — Dorme comigo?

— Rafael, eu...

— Prometo não fazer nada errado — se antecipou — É sério.

O pior de tudo é que eu confiava nele.

— Tudo bem.

Rafael puxou o edredom e indicou a cama com uma das mãos. Ele tinha um belo sorriso no rosto e olhos calorosos e brilhantes.

Deitou-se de barriga para cima e ergueu a mão na minha direção. A peguei, ajeitando-me sobre ele. O rapaz puxou o edredom e nos envolveu, protegendo-nos do frio insano. Seu calor parecia abranger cada centímetro do meu corpo e seus dedos gelados acariciando a pele dos meus braços faziam-me arrepiar de cima a baixo. Tremendo de frio, o abracei, sentindo-o fazer o mesmo.

Deitei a cabeça em seu peitoral, roçando a ponta do meu nariz ali.

Ele suspirou baixinho.

— Não se mexa — pedi — Por favor.

— Não vou — prometeu — Boa noite, Enzo.

— Boa noite.

E, se não fossem os pesadelos constantes, aquela realmente seria uma noite boa.

Notas finais
Ei pessoas, comentem o que acharam ;) Beijos e até o próximo ;)