Bourbon Street
22 Capítulo Vinte e Dois - Sentimentos cegos
Notas iniciais
Para dizer a verdade, minha noite não fora tão ruim. Pois apesar do fato de ter tido diversos pesadelos, eu não estava sozinho. O calor do rapaz sob mim acalmava-me de uma forma que eu sequer imaginava acontecer algum dia. Diferente do que aconteceria se eu estivesse sozinho ou até mesmo com Nicholas, quando acordava assustado, suspirava, fechava os olhos e adormecia. Tão simples.
Quando realmente acordei, ouvindo o toque suave dos pingos de chuva no teto, soltei um suspiro calmo e suspendi meu rosto. O ar pareceu escapar dos meus pulmões quando encontrei um par de olhos azuis sorrindo para mim.
Envergonhado, voltei a deitar a cabeça sobre seu peitoral, encolhendo-me.
“Não se mexa, por favor” — eu havia dito ao deitar sobre ele.
“Não vou” — ele respondera.
E ele não se movera. Nem mesmo por um centímetro sequer. Enquanto sentia meu corpo se remexer por sobre o dele durante toda a noite, ele permanecera imóvel.
Mãos quentes deslizaram pelos meus braços e se detiveram em meu rosto, afagando-o suavemente.
— Você não se mexeu durante a noite inteira — murmurei aos sussurros.
Ele sorria, eu podia sentir.
— Eu prometi.
Eu não sabia o que era aquilo que se manifestava dentro do meu peito, mas era tão suave, que dançava pelos meus músculos e pensamentos. Suas mãos quentes acariciando minha pele tinham a mesma textura de uma pluma e me acalmavam como o sussurro de um anjo. Fazia-me pensar que tudo estava bem.
— Tudo está bem — disse — Estamos bem.
Respirei fundo, sentindo meu coração se apertar.
— Rafael — minha voz saía falha.
Segurando-me pela cintura, Rafael me virou na cama, deixando-nos de lado e de frente um para o outro. Seu calor ainda me envolvia e seus olhos não largavam os meus.
— O quê?
— Posso pedir um favor?
Ele erguia uma única sobrancelha, curioso.
— Quantos quiser.
Suspirei.
— Quero falar com o seu eu profissional agora.
— Vai ter que pagar primeiro — riu de lado — Estou brincando, pode falar — acariciava meu rosto com as pontas geladas dos seus dedos.
Abaixei o olhar.
— O que te incomoda? — ele ficou sério de repente.
Soltei-me das suas mãos, colocando-me de barriga para cima.
— O que eu sou? — tentando esconder minha vergonha e confusão, permaneci observando o teto.
— Como assim o que você é? — parecia confuso também — Você é um ser humano.
— Não, Rafael.
— Uê, não é não?
Sorri sem perceber, desviei o olhar para ele e percebi que ele também sorria.
— Eu estou falando da minha sexualidade — o encarei — O que eu sou, afinal?
Rafael respirou fundo.
— Bem... Você precisa me explicar primeiro — ele franziu a testa.
Minha respiração pesou e, com os olhos semicerrados, encarei o teto branco. Tão branco que chegava a deixar meus olhos irritados.
— Sei que está nervoso e sei que é bastante normal — ele deslizou a mão para a minha num gesto de compaixão — Tente me dizer o que está acontecendo.
Virei a cabeça para o lado, encarando-o.
— Vou confiar em você.
— É tudo que eu peço — continuava sério — Seria um bom começo para eu te ajudar. Você não precisa ficar com medo de me falar sobre seus problemas, Enzo. Eu já disse que sei como é difícil para você se abrir para as pessoas, porém, para eu conseguir te ajudar, tenho que saber primeiro como te ajudar e só saberei isso se você me disser o que está acontecendo com você.
Estreitei os olhos, olhando fixamente para o rosto dele.
— Hã, eu... hã...
Ele apertou meus dedos imediatamente, como se me incentivasse. Seus olhos fixos em mim e sua mão por sobre a minha deixavam-me tão mais livre, que eu chegava a sentir uma certa eletricidade ultrapassar minhas veias. Lentamente, ele começou a mover os dedos no dorso da minha mão, acariciando-me. Foi tudo tão natural e suave, como se ele tivesse passado os últimos anos da sua vida fazendo aquilo. Como se pertencêssemos um ao outro. E, por incrível que pareça, aquele pensamento não me assustou.
Fortificado com sua força, soltei:
— Quando eu assumi minha sexualidade diante à minha esposa, fiquei perdido e completamente sozinho, mas então eu conheci Nicholas e, dentro do meu peito, acendeu um fogo que eu nunca havia sentido. Eu tive a confirmação de que, sim, era aquilo que eu queria. Eu queria estar com ele, mas também não queria estar só com ele. Queria aproveitar minha estadia como um homem livre, mas então me vi perdidamente apaixonado por um homem que sequer se importava comigo — funguei — Tentei esquecer ele, mas a cada dia que passava, eu ficava mais e mais perdido. Foi quando eu decidi acabar com tudo de uma só vez — Rafael assentiu, escutando atenciosamente cada palavra que eu dizia. Parecia prestar atenção em cada detalhe meu, desde minhas reações físicas até expressões faciais — Eu estava tão hipnotizado pelo Nicholas que acabei me decidindo que se eu não estivesse com ele, minha vida não faria sentido.
— E porque pensou assim?
Virando o rosto para o lado oposto do quarto, suspirei.
— Não sei — com os olhos fechados, uma lágrima deslizou pela minha bochecha.
Rafael pareceu perceber e, segurando meu queixo com os dedos, puxou-me na sua direção.
— Não chore — sussurrou — Estou com você.
Consenti, envolvi minha mão na sua e me coloquei sentado bem à sua frente.
— A verdade é que eu não sei mais se estou hipnotizado por ele. Não sei o que pensar sobre ele, sobre você e eu, sobre o que eu sou realmente — dei de ombros — Ontem, quando você me encontrou, eu tinha acabado de sair da casa do Nicholas, estava com a mulher dele e... hã... nós quase transamos.
Rafael pareceu surpreso, mas não expressou nenhuma mudança.
— Entendo... — balançava a cabeça de forma incessante — E você a desejou?
— Por um instante, sim — assumi — Ela estava tão frágil e... sabe? Com medo — abaixei a cabeça — Eu não queria vê-la sofrer.
— Eu percebi nas suas expressões que há uma insegurança enorme dentro de você, precisamos trabalhar nisso.
— Eu não sei não — sorri de lado — Melhor acabarmos por aqui, não vamos fazer isso ficar mais estranho do que está.
Levantei-me, mas Rafael me segurou pelo braço, sentando-se também.
— Precisamos terminar — firmou — Tudo bem para você se eu falar um pouco?
Respirei fundo, pensando em sua pergunta. Ele parecia estar interessado no que eu havia falado e, com um aceno de cabeça da minha parte, ele sorriu, conseguindo minha aprovação.
— Hã, você me fez uma pergunta e, sinceramente, não sei se minha resposta irá agradá-lo, mas a direi da mesma forma — suas mãos envolveram as minhas, mantendo-as unidas assim como seus olhos nos meus — A verdade é que, para mim, você não se importa com o sexo da pessoa, e, sim, com o que ela pode te proporcionar.
— Está dizendo que eu sou interesseiro? — ergui uma sobrancelha.
— De certa forma.
— Como é? — eu começava a me enfurecer.
Ele percebeu e, tudo o que fez, foi acariciar minha bochecha com as pontas dos dedos enquanto um sorriso sincero brincava em seus belos lábios.
— Eu acho que você não se sente atraído pelas pessoas, mas sim pela atenção que elas te dão, o que é bom de certa forma — deu de ombros.
— Está me dizendo que eu sou assexuado?
Ele riu.
— Não — conservava o sorriso — Você seria assexuado se não sentisse atração por nenhum dos dois e o que acontece é justamente o contrário.
Assenti.
— Não quero te deixar mais confuso — disse, olhando diretamente para os meus olhos.
Virei o rosto para o outro lado de repente.
— Não é só isso que está te incomodando — soltou — Estou certo?
Tentei esconder meus olhos carregados de lágrimas, mas ele viu. Entretanto, nada fez além de esperar.
Demorei, mas assenti.
— Quer falar sobre?
— Não era isso que meu pai queria para mim — soltei de repente, sentindo as lágrimas embaçarem minha visão — Ele queria que eu me casasse e tivesse filhos.
Limpei meu rosto com as costas da mão.
— Se ele estivesse aqui para ver...
— Ele se orgulharia do filho que tem — sorriu para mim, acariciando meu rosto com naturalidade, limpando lágrima por lágrima até que não tivesse mais nenhuma — Você é um vencedor, passou por tanta coisa e ainda está aqui — e com um beijo na minha bochecha, o que eu achei repentino demais, ele se levantou da cama.
Ele usava apenas uma boxer cinza, que delineava sua bunda durinha com sensualidade.
A manhã, como todas as outras, estava quente. O clima era o ápice da cidade, tendo manhãs quentes e ensolaradas e noites frias e nubladas.
Andou até a porta, parou e se virou para mim.
— Vamos? — tinha um belo sorriso nos lábios.
Sem falar nada, andei até ele e segurei em sua mão.
Rafael nos guiou até a cozinha do primeiro andar, que ficava bem ao lado de uma academia particular. Preparou panquecas para mim e, enquanto eu as comia, ele preparava seu café da manhã.
— Agora sei por que corre tão rápido — apontei com o queixo para a academia à minha frente.
Rafael não olhou, apenas sorriu sinceramente.
— Achou que eu havia criado resistência fugindo da polícia? — riu baixinho.
— É uma opção — sorri também.
Rafael continuava a picar as frutas, colocando-as em uma travessa pequena e redonda.
— Porque não quis as panquecas?
Ele içou o olhar por um instante, encontrando o meu.
— Preciso manter a forma — sorriu largamente — Eu não queria dizer nada, mas você está saindo com um idoso.
— Ah, para com isso, você nem é velho.
— Não? — cerrou os olhos — Quantos anos você tem?
— Vinte e sete.
— Viu? Eu tenho trinta e três.
— A diferença não é tanta — fixei.
Ele sorriu de lado, finalmente começando a comer.
— Aceita?
— Não — fiz careta — A vida é muito mais feliz com bacon.
Ele riu alto.
— Ah, é? Então me diz uma coisa, como conseguiu esse físico incrível?
Seus olhos famintos devoraram meu corpo de cima a baixo, parando mais do que o necessário no volume por sobre minha boxer verde musgo e, cessando apenas quando encontraram meus olhos.
Ele desviou o olhar.
Eu dei de ombros.
— Genética, eu acho — sorri um pouco desconcertado — Todos os homens da minha família são assim.
— São metidos também?
Rimos juntos.
— São verdadeiros.
Ele sorriu e, teria falado outra coisa se não fosse pelo meu celular nos atrapalhando. Ele tocou e tocou até que eu corri até ele e atendi a ligação. Sequer vi quem era.
— Alô.
— Enzo — era Amélia, parecia desesperada.
— Amélia, está tudo bem? O que aconteceu?
Rafael apareceu ao meu lado, parecendo preocupado.
— É o Nicholas.
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