Bourbon Street

20 Capítulo Vinte - Iniciar processo


Notas iniciais
Oi :3 Peço desculpas por demorar a postar o capítulo e a responder os comentários, a verdade é que eu fiquei sem internet novamente :( Enfim, queria muito agradecer ao Marcus Miller pela recomendação ;) Foi realmente linda, como todas as outras. Quando a história terminar, agradecerei formalmente cada um que recomendou a história. Obrigada ;) Boa leitura :*

— Levante-se, você vai vir comigo.

Encarei o homem de cima a baixo, parando mais tempo do que o apropriado no volume exposto em sua calça. Rafael ficava realmente muito bonito dentro de um terno.

Lambi meus lábios, sentindo a excitação eletrizar meus poros. Aquilo provinha tanto do momento anterior quanto do homem à minha frente. Rafael se encostou ao carro e me lançou um olhar reprovador antes de levar uma garrafa de Whisky até a boca.

Fiquei observando seus lábios envolverem o gargalo e o líquido molhando seus lábios, até que percebi que estava dando muito na cara. Então suspirei, balancei a cabeça e tentei ajeitar meu jeans com uma das mãos.

— Eu procurei você por algum tempo, estava preocupado por causa da sua ligação, não sei por que, acho que seu tom de voz me indicou algo, ou sei lá — ele murmurava com os olhos fixos em mim — E agora que eu finalmente te encontrei, quero que venha comigo.

— Não vou com ninguém — levantei-me bruscamente e comecei a caminhar para o lado contrário a ele.

— Por favor, Enzo, quero que fique bem.

Parei onde estava e o observei pelo canto do olho.

— Se quer que eu vá com você, terá que me arrastar.

— Eu não faço esse tipo — bradou firme — Ou você vem comigo por vontade própria ou não vem. Não vou te forçar a nada.

Permaneci contemplando seus olhos azuis por um tempo que não pareceu tão longo, justamente porque eu estava ocupado demais pensando se deveria ir ou não. Se eu acabasse indo com ele, poderia apreciar outro caminho conhecido pela maioria das pessoas como felicidade, também poderia melhorar meu estado de espírito e o mesmo ocorreria com minha autoestima, que — dependendo dos próximos acontecimentos — voltaria para o primeiro lugar do meu pódio particular. Além de que pararia de me deprimir tanto por causa de um homem que não confiava em mim, mentia e sequer me amava. Mas também existia outro motivo por qual eu me deixaria levar por Rafael, que era o fato de que indo com ele, acabaria descobrindo mais coisas sobre Nicholas.

Afinal, porque eu não parava de colocá-lo em tudo que eu fazia na minha vida?

— Pode me dar um pouco? — apontei para a garrafa em sua mão.

Talvez tudo o que eu precisasse fosse um pouco de álcool para clarear minha mente perturbada.

Rafael riu baixinho e direcionou seus passos a mim.

— Não beba muito — ordenou assim que me entregou o objeto — Não quero te deixar inconsciente.

Não concordei com nada, apenas levei a boca até a garrafa e virei o líquido garganta a baixo. À medida que o mesmo escorria pela minha garganta, queimando-a, eu fechava os olhos com força e tentava me concentrar só naquilo.

Um toque desesperado, mas ao mesmo tempo calmo fez com que eu os abrisse rapidamente.

Rafael segurou a garrafa, retirando-a da minha mão com uma calma impressionante. Seus olhos não sabiam onde permanecer, em contato com os meus ou em meus lábios. Parecia estar apreciando cada gota de desejo e excitação que passava pelos nossos corpos sem mesmo haver um simples toque. O homem estava tão próximo, que eu chegava a prender a respiração e fortalecer meus músculos.

— O que eu disse sobre não beber muito? — outra vez aquele tom sedutor era usado e eu estava tão concentrado na imensidão azul dos seus olhos, que não percebi sua aproximação cautelosa — Parece que você se molhou um pouco — ele ria baixinho. Quando ia fechar os olhos, pronto para sentir seu perfume invadir meus pulmões, ele tocou meu rosto com seu polegar. Porém, antes mesmo que pudesse limpar o fino fio de álcool que escorria do canto dos meus lábios, ele parou, cerrou os olhos e alargou ainda mais seu sorriso — Pensando bem... — antes mesmo de colocar um ponto final na sua frase, ele aproximou seu rosto do meu e fechou os olhos suavemente.

Eu já não era dono dos meus atos e, quando senti sua língua quente e macia escorregar pelo meus lábios, ergui minhas mãos e forcei sua cintura, puxando-o para mim.

Todo o meu corpo reagiu a ele, meus poros estavam eletrizados e minha respiração já não era mais a mesma. Minha pele parecia queimar e vários arrepios inconstantes percorriam minha espinha.

Tentei alcançar seus lábios de forma mais acalorada, mas a única coisa que ele fez foi se afastar, colocando um sorriso divertido em seu rosto. Ele estava tentando ser forte, eu tinha noção disso, podia ver toda a sua força de vontade explicitada em seus olhos.

— Tente não se sujar da próxima vez — riu baixinho.

— Ah... eu... hum... tá — gaguejei e, ao encontrar seus olhos novamente, não consegui mais me pronunciar.

Rafael balançou a cabeça ao mesmo tempo em que acariciava seus lábios com a própria língua.

— E então... — coçou a barba, intrigado — Vou ter companhia para sair ou vou precisar voltar sozinho para casa?

Balancei a cabeça, ainda sem saber direito o que estava fazendo.

— Vou com você.

— Como é? — levantou as sobrancelhas — Eu não entendi — sorriu, fingindo desentendimento — Estou só brincando — riu baixinho ao ver que eu havia feito careta — Venha.

Apanhei sua mão, que estava erguida na minha direção e deixei que ele me conduzisse. Antes que pudéssemos entrar em seu carro, ele me virou de frente para si e passou o seu paletó sobre meus ombros, tentando me proteger do frio. Mal ele sabia que o calor estava sendo quase que incômodo para mim, mas não reclamei, apenas agradeci com a cabeça e continuei olhando para baixo.

— Não tenha vergonha de mim, Enzo, e também não fique com medo — ele sussurrava.

Quase deitei minha cabeça em sua mão ao sentir o acariciar carinhoso dos seus dedos em meu cabelo.

— Pode olhar nos meus olhos — com uma leve dificuldade, ergui o olhar e encontrei a feição satisfeita do rapaz — Eu sei que você quer chorar essa noite, há tristeza nos seus olhos, mas não abaixe sua cabeça em momento algum e, por favor, não chore.

— Estou tentando.

Estávamos encostados na lateral do seu carro. Rafael segurava minha cintura com uma das mãos, enquanto com a outra, acariciava meu rosto.

— Eu sei como você se sente por dentro, já passei por isso antes — fez uma careta.

Ele passava um ar de sinceridade.

— Você ainda vai ser muito feliz, então não leve todos esses acontecimentos a sério.

— Você está mentindo — acusei.

— Eu nunca mentiria para você — sorriu — Podemos não nos conhecer tão bem, mas eu estou aqui para você e eu quero te ajudar a superar isso, não precisa fazer tudo sozinho — fechei os olhos ao sentir seu corpo se juntar ao meu — Amanhã você se sentirá melhor — quando seus braços circundaram meu corpo, senti como se estivéssemos unindo nossos corações. Uma lágrima fugiu dos meus olhos ao finalmente entender o que era ganhar um abraço sincero e sorri melancólico ao pensar que Rafael talvez não possuísse intenções de me machucar — Só me deixe mostrá-lo que há beleza no mundo e que você só precisa enxergar.

E outra vez, Nicholas voltou à minha mente. Eu tinha que parar com isso.

— Eu quero enxergar — suspirei rapidamente — Tira o Nicholas da minha cabeça, por favor?

Outra lágrima escorreu pelo meu rosto, mas outra vez Rafael estava lá para limpá-la.

— Não vai ser tão fácil assim, eu sei por que já...

— Eu não vou estar sozinho — o interrompi — Ou vou? — eu mantinha meu olhar fixo naqueles olhos azuis intensos.

O clima foi quebrado por um carro escuro que passou em alta velocidade, tocando funk em uma altura que incomodava até mesmo as partes mais internas do meu ouvido. Rafael e eu fechamos os olhos com força e só voltamos a abri-los quando o silêncio foi restaurado.

— Odeio isso — murmurou — É só ouvir funk, que eu já sinto um pau batendo na minha cara.

Não consegui conter minha reação. Uma gargalhada alta fugiu da minha garganta e eu acabei tendo uma crise de riso, consequentemente, tendo que segurar minha barriga que chegava a doer de tanto que eu ria. Assim que consegui abrir os olhos novamente, dei de cara com um Rafael sorridente. Sorri também, dessa vez, sinceramente.

— Ganhei o meu dia — sua mão foi parar no meu pescoço, acariciando o lóbulo da minha orelha.

Reprimi um arrepio e olhei para baixo ainda sorrindo.

— Já é quase meia noite — sussurrei — Não compensa ganhar o dia a essa altura.

Ele riu. Com os dedos, levantou meu rosto, fixando seus belos olhos em mim.

— Não ganhei só o dia de hoje — alargou seu sorriso — Vou sorrir como um idiota pelo resto da semana, não tenha dúvidas disso — fez uma careta fofa — Além de que o dia também não acabou — suspirou — Depois da meia-noite nós vamos acender as luzes dessa cidade juntos.

Rimos juntos. Aqueles minutos pareceram ser eternos. Pensei que talvez pudesse conhecer um novo mundo ao lado de Rafael, um mundo que me fizesse ter vontade de viver, mas decidi não me precipitar e muito menos me enganar. Um mundo perfeito não existia.

— Eu vejo nos seus olhos o que você quer e tenha certeza que se deixar eu irei te dar — seu sorriso valia mais do que mil palavras — Hoje vai ser melhor do que ontem e amanhã vai ser melhor do que hoje — apertou minha bochecha com carinho e sorriu — Sua vida vai ser assim daqui para frente, eu prometo.

— Você não pode prometer isso — grunhi.

— Talvez eu não possa, mas te dou a minha palavra que irei fazer de tudo para isso acontecer.

Sorri ao ouvir suas palavras e, sem sequer perceber, olhei para baixo. Algo em Rafael me deixava extremamente envergonhado.

— Só não se esqueça de olhar em meus olhos — seus dedos ergueram meu rosto — Eu olho para os seus mesmo estando com uma vontade louca de avaliar seu jeans — ele riu, malicioso.

— O-o quê? — gaguejei enquanto o via rir.

— Vamos — ele nem mesmo terminou de falar e já se afastava.

Permaneci parado por alguns segundos antes de perceber que ele já estava dentro do carro e só então eu também entrei.

— Eu deveria perguntar o que aconteceu? — eu sabia que em algum momento ele faria aquela pergunta.

Bufei, olhando para o teto do carro.

— Olha. Eu não preciso saber tudo, então se não quiser falar, tudo bem para mim. Eu só queria saber como descobriu que eu já tive um relacionamento com o Nicholas — ele se ajustou no banco ao mesmo tempo em que dava partida no carro.

A posição que ele mantinha fazia com que ele parecesse bastante impositor. Eu gostava daquilo nele, era como se ninguém pudesse destruí-lo.

— Eu não sei por onde começar... — murmurei deslocado — Hum... bom... a mulher dele me contou — eu o contaria tudo e assim o fiz, narrando todos os acontecimentos desde o momento em que cheguei à minha própria casa.

Ele ficou calado durante todo o tempo, inclusive quando se sentiu assustado pela forma que expulsei Nicholas. Eu podia ver que seus músculos se tencionavam cada vez mais de acordo com o que eu contava e eu tive medo de ele ter alguma impressão errada de mim.

Quando acabei de relatar os acontecimentos, ele virou o rosto de leve e me encarou com aqueles olhos carregados de dúvidas. Prendi a respiração, mas não abaixei o olhar, apenas o encarei da mesma forma que ele fazia. E então ele voltou a olhar para as ruas à sua frente.

Eu não sabia no que ele estava pensando, mas certamente não era algo que eu acharia agradável, afinal, sua feição não era nada boa.

— Você sequer conversou com ele antes de expulsá-lo? — Rafael parecia preocupado.

— Eu não suportaria falar com ele.

— E onde ele está agora?

— Não faço ideia.

— E não está preocupado, nem nada?

— Eu não quero sentir mais nada por ele.

— Enzo — ele apertou os dedos no volante — Isso não pode acontecer...

— O que não pode acontecer, Rafael? — inflei o peito, começando a me enfurecer.

— Não pode deixá-lo sozinho.

— Ele não está.

— É claro que ele está, Enzo — seus olhos pararam em mim por um segundo — Poxa, a Denise está contra ele e, agora que ele finalmente assumiu a sexualidade, a sociedade está contra ele.

— A sociedade está contra todo mundo — bradei — Só não está contra os ricos e é exatamente por isso que eles não sofrem.

— Eles sofrem sim — Rafael usou o mesmo tom que eu.

— A diferença é que eles sofrem lá no Caribe.

— Eu tenho dinheiro e nem por isso eu deixo de sofrer, Enzo — ele parecia nervoso.

Virei a cabeça para o lado e tentei enxergar através do vidro escuro. Respirei fundo diversas vezes, tentando disfarçar meu nervosismo e fechei os olhos. Com o passar silencioso dos minutos, minha respiração foi voltando ao normal e eu não precisei de muito mais tempo para perceber que estava errado naquela discussão, então virei-me para o homem ao meu lado e tentei reparar meu erro.

— Desculpe-me, eu estou criando um pré-conceito na minha mente, e...

— Tudo bem, eu não ligo — seus olhos estavam fixos no caminho.

— Não, é sério, desculpe-me.

— Não sou de desculpar ninguém, Enzo, não me acho digno de oferecer o perdão, mas eu estou dizendo que está tudo bem, então fique tranquilo.

Respirei fundo mais uma vez e pisquei, ainda olhando para ele.

— Porque está defendendo o Nicholas? Achei que ele tivesse te enganado também.

— E enganou — suspirou — Mas eu não o deixaria sozinho nunca, principalmente depois de tudo o que ele passou com você.

O que ele passou comigo? Está insinuando que eu fiz mal a ele?

— Estou dizendo que ele está sofrendo, Enzo. E você sabe por quê?

— Eu não quero saber.

— Porque ele te ama.

— Do que você está falando? Enlouqueceu?

— Ele nunca disse eu te amo para ninguém além de você, nem mesmo para a mulher, então o que você conclui disso? — seus olhos se fixaram em mim outra vez e assim que o sinal abriu, ele voltou a olhar para frente — O que eu concluo é: você é quem ele ama.

Parei por alguns instantes, preso em pensamentos intensos e lembranças avassaladoras. Ele disse que me amava sim, mas algumas de suas atitudes provavam justamente o contrário, o que me deixava ligeiramente confuso, mas outras atitudes e gestos me faziam pensar que talvez a conclusão de Rafael estivesse certa. Meu coração começou a bater rapidamente e uma lágrima idiota escorreu pela minha bochecha. Entretanto, eu não chorei mais, apenas respirei fundo e me virei para Rafael, eu não queria mais pensar em Nicholas.

— Eu quero esquecê-lo — tomei uma decisão.

— E por quê?

— Ele mais me faz sofrer do que sorrir.

— Tem certeza?

— Você disse que estaria ao meu lado.

— E eu estou, mas...

— Porque continua o defendendo? — eu estava bastante curioso com aquilo há bastante tempo.

Percebi que seus músculos se contraiam ainda mais, certamente ele havia ficado desconfortável com aquela pergunta, mas eu não desistiria da minha resposta, eu precisava dela.

— Porque eu sei que é difícil superar — suspirou — E eu só consegui porque tinha alguém ao meu lado.

Assenti afirmativamente e olhei para baixo, perguntando-me mentalmente quem era esse tal alguém.

— Eu consigo entender que o Nicholas foi um grande babaca, Enzo, mas pense bem, ele está sem casa, sem amigos, sem a mulher, sem o filho e... s-sem você... — engoliu em seco — A solidão lá fora é massacrante e nem mesmo o pior dos assassinos merece tal castigo, então porque você acha que ele mereceria?

Balancei a cabeça, sem saber o que responder.

— Você disse que... q-que sofre... — eu gaguejava. Ele olhou para mim por um segundo.

— Sim, eu disse.

— Está sofrendo agora?

— Isso importa?

— Para mim, sim — suspirei.

— Estou — ele falou de forma tão seca, que parecia querer colocar fim na conversa, mas eu não estava decidido a terminá-la.

Esperei um tempo, preferindo deixar que ele amenizasse as coisas.

— Você disse que tinha alguém te ajudando — continuei e ele assentiu — No passado?

— Sim, eu tinha — bufou — Não tenho mais.

— É esse o motivo do seu sofrimento? Saudade?

— Chegamos — ele anunciou com um sorriso no rosto, mas eu sequer desviei o olhar.

— Não quer falar, não é mesmo? — balancei a cabeça — Tudo bem — tentei sorrir.

Ele ficou parado por alguns segundos, respirando com dificuldade antes de assentir e sair pela porta. Eu não olhei pela janela e nem prestei atenção no caminho que havíamos feito, mas devido a algum motivo, eu não sentia medo. Rafael me deixava confiante.

Ao ver onde estávamos, soltei um sorriso sincero. Eu nunca havia estado ali, mas havia desejado e muito. Antes que eu pudesse dar um passo a diante, senti o calor de Rafael parar bem ao meu lado. Prendi a respiração e continuei olhando para frente, seu perfume invadia meus pulmões. Eu não reclamaria, seu cheiro era delicioso. Entretanto, há uma grande diferença entre gostar do perfume de alguém e querer segurar sua mão. Portanto, assim que senti seus dedos tocarem os meus, eu olhei para baixo, contemplando a cena.

Eu podia ouvir o riso do rapaz e sentir seu calor confortável. Eu gostava daquela emoção de estar perto de alguém o bastante e sentir medo de fazer algo errado, mas eu não queria sentir aquilo. Não ali e não naquela hora, já que meus pensamentos ainda estavam confusos por causa de Nicholas.

Soltei todo o ar preso nos meus pulmões e me fiz uma pergunta importante.

Eu queria mesmo esquecer Nicholas?

Notas finais
O que vocês acharam? Comentem aí ;) Até o próximo, beijos :*