Bourbon Street

23 Capítulo Vinte e Três - Olhos vermelhos


Notas iniciais
Voltei o/ Queria agradecer ao Léo Junior por ter recomendado a história :3 Muito obrigada, sério ;) Espero que gostem deste capítulo. Beijos :*

Eu corria sem me preocupar com os obstáculos, esbarrando em todo e qualquer móvel. Mas, por mais que eu corresse, mais longo parecia o caminho que me levaria até a porta.

— Enzo, espera — Rafael me pegou pelo braço.

— Me solta, Rafael — livrei-me do seu aperto com um só puxão.

— Não — novamente me segurou, dessa vez com mais força — Não podemos sair de casa apenas de cueca — suspirou — Venha, vamos vestir roupa e depois podemos ir.

Com muita relutância aceitei.

“— É o Nick.

— O que tem o Nicholas? — meu coração acelerou ao máximo.

— Ele sofreu um acidente.

Por um instante inteiro eu fiquei estático, sem reação, até que a voz do outro lado da linha se manifestou.

— Sinto muito, Enzo. Preciso desligar.

— Espera, espera — implorava — Por favor, não desligue. Em qual hospital ele está?

— New Orleans East Hospital — respondia — Algo mais?

— Não. Obrigado.

— Enzo — eu já ia desligar quando a ouvi me chamar — Não fui autorizada a falar com ninguém sobre isso.

— Não vou causar problemas.”

— Enzo, espere — ele andava pela sala com as mãos no zíper do jeans.

— Rafael, por favor — implorei, sentindo uma lágrima descer pela minha bochecha — Por favor, eu preciso vê-lo o mais rápido possível.

Ele respirou fundo e assentiu, subindo o zíper de uma só vez.

— Você não vai dirigir meu carro nesse estado — pegou as chaves ao parar de frente para mim — Vamos.

Às pressas, entramos no carro. O trânsito estava pesado, mas Rafael parecia conhecer vários caminhos para o hospital e, quando menos percebi, estávamos no estacionamento do mesmo.

Meu corpo todo tremia enquanto eu me rendia à emoção, tentando esconder meu desespero e abafar meus soluços, mas não adiantava. Nunca adiantaria.

Rafael, inteiramente em silêncio, apertou minha mão com a sua e ergueu meu rosto até estar bem próximo do seu.

— A mulher dele estará lá dentro — sua voz era um sussurro — Precisa ser forte por ela.

Funguei, assentindo de leve.

— O que eu falo para ela?

— Fale o que o seu coração quiser — sorriu de lado, tentando me passar força.

Assenti.

Saímos do carro e começamos a andar pela calçada.

— Esqueci meu celular no carro e eu não posso ficar sem ele — Rafael me parava na metade do caminho — Te encontro lá dentro.

Assenti mais uma vez.

Assim que adentrei o hospital, caminhei rumo à recepção, aguardando a recepcionista me atender.

— O senhor precisa de ajuda? — a moça perguntou.

— E-eu... eu preciso ver Nicholas Phillips — apoiei-me no balcão.

Ela fez uma careta de entendimento e se virou para o computador, pedindo que eu esperasse um minuto. Eu não tinha um minuto.

— Qual o seu nome? — indagava sem me olhar.

— Enzo Carter. Por favor, será que não dá para ir mais rápido?

Ela não respondeu por quase dois minutos inteiros.

— Sinto muito, Sr. Carter, mas a entrada foi negada para todos que não estão na lista — parecia estar entediada.

Deixei minha cabeça cair entre minhas mãos, não conseguindo conter meu desespero. Eu não podia esperar mais, precisava entrar e ver o Nicholas antes que meu coração se desintegrasse de tanta dor.

— O que está acontecendo aqui?

Braços fortes envolveram meus ombros e a voz aveludada — mais uma vez — pareceu me acalmar. Mas não por muito tempo, pois novamente uma lágrima escorreu pelo meu rosto.

— Sr. Pucket — a mulher parecia surpresa — Não imaginava vê-lo por aqui hoje.

— Pode me dizer o que está acontecendo? — ele continuava sendo educado.

— Esse homem quer visitar um paciente, mas não é possível.

— E por quê?

— O nome dele não está na lista.

— Em qual quarto Nicholas Phillips está?

— Só um segundo, senhor.

Rafael olhou para mim, sorrindo de lado, incentivando-me a permanecer inteiro. Precisando de colo, deitei a cabeça em seu ombro e fiquei até que a moça voltasse a falar.

— Quarto 507.

— Obrigado — ele sorriu para ela e começou a andar na direção de dois seguranças fortes, levando-me junto — Bom dia — sorriu também para eles, que liberaram nossa passagem.

Andei cabisbaixo por todo o caminho, apoiando-me em Rafael de vez em quando só para ter certeza de que não estava sozinho. Ele parecia conhecer muito bem o caminho, pois o fazia rapidamente. Ao chegar ao quinto andar, avistei Denise sentada em um dos bancos azuis. Ela estava acompanhada de um casal de idosos e do seu filho com Nicholas. Todos estavam em completo silêncio, o que aumentou minha pulsação.

Eu precisava ser forte não só para mim, mas também para ela. Entretanto eu não sabia nem mesmo cuidar de mim, como cuidaria dela também? Respirei fundo, limpando meu rosto com as costas da minha mão direita enquanto com a outra, apertava a de Rafael.

— Está escuro demais — referia-me aos meus sentimentos.

— Então segure a minha mão — sorriu de lado, apertando meus dedos entre os seus.

Assenti, tentando ter a mesma força que ele.

Aproximei-me aos poucos.

— Denise?

— Enzo — sorriu ao me ver, estendeu os braços na minha direção e me puxou para um abraço apertado — Que bom que está aqui.

Dei um passo para trás, ficando ao lado de Rafael. A mulher trocou olhares entre nós dois antes de cumprimentá-lo com um aceno.

— Como ele está? — fui direto.

A expressão dela mudou tão de repente, que pareceria que iria desmaiar. Ajudei-a a se sentar, afastando a franja dos seus olhos.

— Precisa me dizer — suspirei.

Ela ficava cada vez mais branca.

Pegando um lenço da sua bolsa, a idosa se levantava e andava na minha direção. Levantei-me, vendo-a limpar os olhos avermelhados ao tentar parar de chorar.

— Você é o Enzo — afirmou.

Assenti.

— Sou a mãe do Nicholas.

Ela olhou para Rafael por cima dos ombros.

— É muito bom te ver, meu filho — sorriu para ele.

— Só precisava ser em outra situação, Sra. Phillips.

Ela assentiu, fungando.

— Ainda não sabemos como ele está — voltava a me encarar — Talvez aquele médico possa nos dizer.

Olhei para trás. Um médico vinha na nossa direção. Eu esperava que ele desse uma boa notícia.

— Sra. Phillips — o médico franziu a testa — Eu não gosto de dizer certas coisas, mas faz parte do meu trabalho.

Eu tinha medo de que meu coração não suportasse a notícia.

— Nicholas está em Coma.

— Não, não — a idosa berrava — Meu filho, não — caía de joelhos no chão, pondo as duas mãos no rosto.

O idoso tentava erguê-la, mas ela berrava e se debatia em meio ao choro. Dois enfermeiros — com muita dificuldade — a seguraram e a levaram para um dos quartos.

— Vou passar um calmamente para ela — disse o médico, olhando para mim.

Eu não concordei, não disse nada, sequer me mexi. Meu corpo paralisado estava completamente arrepiado e gelado, como se um fantasma tivesse passado por mim naquele instante. Lágrimas escorriam dos meus olhos, passavam pelo meu queixo e tocavam o chão.

Rafael tentou me abraçar, mas eu me esquivei, lançando-me velozmente pelo corredor. Não fui muito longe, pois ele me agarrou pela cintura, tentando me manter quieto. Deixei que ele se distraísse e corri novamente, dessa vez me posicionando de frente para a tela de vidro do quarto 507.

Não teve como ele me puxar. Tenho certeza que não conseguiria. Então — por muito tempo — fiquei parado ali, observando o homem de cabelos negros deitado sobre a maca, repleto de aparelhos por todo o corpo. Seu peito nu estava enrolado com uma faixa assim como sua cabeça e sua mão.

— O que aconteceu? — desesperado, chorava em prantos, encostando a cabeça no peitoral de Rafael.

— Se acalme — ele pediu — Tudo vai se ajeitar.

Eu queria acreditar naquilo, mas tudo o que eu via pela vidraça, tirava minhas esperanças. Eu estava parado ali, observando-o morrer sem ao menos poder me despedir.

— É tudo culpa minha.

— Não, Enzo. Não é culpa sua.

— É sim, eu não deveria tê-lo deixado sozinho — desesperava-me mais.

— Você não pode fazer nada — abraçou-me com força — Nada.

Ficamos abraçados por um bom tempo até que o mesmo médico apareceu e nos explicou o que havia acontecido. Nicholas havia levado dois tiros no peito ao trocar tiros com bandidos em uma boate. Um deles estava morto enquanto os dois outros, presos.

O médico falou também que acabou precisando dar um calmante para a mãe do mesmo justamente por estar bastante nervosa. Quando Denise se aproximou, ele pediu que apenas um de nós ficasse para passar a noite com o paciente e foi aí que começou a discussão.

Eu queria ficar com ele, mas Denise lutou com unhas e dentes para não sair dali e, por ainda ser mulher dele, acabou ganhando. Solidária à mim, disse que eu poderia passar a próxima noite ao seu lado, mas que precisava daquela. Rafael me fez aceitar a proposta e ficou ao meu lado pelo resto do dia inteiro, consolando-me.

Já era quase meia noite quando Denise me mandou ir embora, então eu fui, acompanhado de Rafael, que parecia extremamente cansado.

— Onde vai dormir? — ele me perguntava já dentro do carro.

Parei e pensei.

— Na sua casa.

Ele assentiu com um aceno.

Ao chegar ao local, movi-me feito um zumbi para o banheiro. Despi-me e tomei um banho quente, visando relaxamento. Assim que voltei ao quarto, encontrei Rafael deitado sobre os lençóis. Tinha os cabelos molhados e bagunçados, olhos levemente fechados e o corpo visivelmente cansado misturado aos lençóis.

— Rafael — chamei.

Ele abriu os olhos.

— Hã — fiz careta — Posso dormir com você?

Rafael puxou o edredom e indicou a cama com uma das mãos. Ele tentava sorrir.

Deitou-se de barriga para cima e ergueu a mão na minha direção. A peguei, ajeitando-me sobre ele. O rapaz puxou o edredom e nos envolveu. Tremendo de frio, o abracei, sentindo-o fazer o mesmo.

Deitei a cabeça em seu peitoral e suspirei, vendo uma lágrima escorrer pelos meus olhos.

A noite seria longa.

Notas finais
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