Bourbon Street

24 Capítulo Vinte e Quatro - Pro dia nascer feliz


Notas iniciais
Espero que gostem ;)

Meu corpo dolorido estava — há muito tempo — acostumado com aquela dor, meu coração não parava de espalhar angústia pelas minhas veias e meus vasos lacrimais já não possuíam mais lágrimas.

Sentado ali, eu observava o homem — há muito tempo — adormecido. Ele não só parecia mais magro, como estava. Havia perdido oito quilos durante sua estadia naquele hospital, ficando sempre mais pálido e abatido.

Passei o segundo dia ao seu lado e, assim, fui revezando com sua mulher e seus pais. Mas há muito tempo eu não os via. Denise havia parado de passar as noites no hospital assim que conheceu um rapaz novo. Eles se conheceram melhor, começaram a namorar e possuem um relacionamento estável. Fazia quase dois meses que sequer perguntava sobre o estado de saúde do marido, que continuava sem saber do que acontecia ao seu redor. À respeito dos pais de Nicholas, eles não apareciam mais há quase três semanas. Ninguém sabia o paradeiro dos dois, nem mesmo Rafael, que tentava a todo custo fazer contato.

E, sentado de mau jeito em uma poltrona do outro lado da sala, Rafael dormia. Andava tendo problemas extremos dentro da empresa e, resolvê-los, consumia muito da sua energia. Energia, a qual, ele parecia perder cada vez mais com o passar silencioso do tempo. Ele tentava ser forte por mim, sempre sorrindo e me ajudando. Consolava-me quando eu estava prestes a chorar, sorria quando sentia minha tristeza e me abraçava quando eu implorava para ficar sozinho. No trabalho não exigia muito de mim e não deixava que marcassem consultas comigo na parte da noite. E, por mais que eu gostasse de não ficar sozinho todas àquelas noites em um quarto de hospital, não gostava de vê-lo dormindo mal. Cada dia que passava estávamos mais acabados, aquilo realmente estava nos detonando.

— Ele vai ficar bem — dizia para mim mesmo ao andar até a janela no canto esquerdo da sala — Ele vai ficar bem.

E, como se minhas palavras tivessem se transformado em azar, um homem de jaleco adentrou o vazio depressivo do quarto, acendendo a luz sem se importar se acordaria Rafael ou não.

A sorte é que ele nem se mexeu.

— Boa noite — tentou parecer disposto — Mais uma.

Tentei sorrir.

— É verdade — aquilo começava a se tornar uma piada interna entre nós dois.

O médico fez um gesto com a mão, pedindo que eu me sentasse e, assim que o fiz, ele puxou um banco e se sentou também. Seus olhos fixos nos meus — por um instante — me assustaram. Ele não podia trazer mais notícias ruins, podia?

— Quase quatro meses convivendo com você e ainda não sei qual o seu grau de parentesco com ele — apontou para o homem sobre a maca.

Respirei fundo, fitando seus olhos.

— Ele era meu namorado.

O médico pareceu surpreso. Ele mordeu o canto da boca antes de ajeitar os ombros e se curvar para frente.

— Nunca pensei que presenciaria isso — bufou.

— O quê? Um casal gay? — começava a criar pré-conceitos na minha mente.

— Não — sorriu de lado — Nunca pensei que veria um ex-namorado cuidando melhor de um paciente do que a própria família do mesmo.

Fiquei em silêncio.

— Admiro você.

Tentei sorrir.

— Não estou sozinho nessa — apontei com o queixo para Rafael embrulhado em um lençol branco no outro canto da sala.

O médico o avaliava.

— É seu atual namorado? — perguntou.

— Não sei — dei de ombros — Estamos assim há muito tempo, sabe? Trabalhamos durante o dia, passamos a noite aqui e... bom... diante à toda essa situação... — olhei para Nicholas por sobre a maca — ... não tem como saber, entende?

— É, eu sei como é complicado — deu de ombros — Eu tive dois irmãos que ficaram em Coma depois de sofrerem um acidente de carro — suspirou.

— O que aconteceu com eles? — não resisti à pergunta.

Ele esperou um tempo.

— Um deles faleceu depois de dois meses, o outro acordou depois de uma semana.

Fiquei em completo silêncio.

— Foi por isso que eu decidi ser médico — tentou sorrir — Queria salvar a vida das pessoas justamente por entender a dor delas.

— Admiro você.

Ele sorriu, dando de ombros.

— Tenho esperança que ele possa acordar — apontou para Nicholas — E é por isso que estou aqui. Quebrando regras.

— Como é?

— Já se passaram quase quatro meses, Enzo. Os outros médicos já pensaram até mesmo em desligar os aparelhos.

— Mas isso é crime.

— É, eu sei — suspirou — Mas não é crime se ninguém souber que foi de propósito.

Meu coração pareceu pesar dentro do meu peito.

— Eles não podem fazer isso — minha voz saiu falha — E-ele é... — soltei um suspiro pesado — Ele significa muito para mim.

— Deu para perceber — ele disse — Meu plantão dura o dia inteiro, Enzo, vou ficar aqui e cuidar dele para você, mas o que acontece depois disso é com você. Eu só peço que não use meu nome para nada.

Assenti.

— Obrigado, doutor.

Ele sorriu de lado.

Antes de sair do quarto, andou até a maca e observou Nicholas.

Assim que me vi sozinho com meus pensamentos novamente, apaguei a luz e me sentei na cadeira desconfortável. Eu queria passar o resto da noite pensando e procurando uma solução, mas o sono foi mais forte do que eu.

xXx

Aquele foi um dos dias mais corridos da minha vida sem sombras de dúvidas. Nunca foi tão difícil resolver um problema.

Assim que contei a Rafael minha conversa com o tal médico, ele teve uma ideia. Fomos até a delegacia onde Nicholas trabalhava, fizemos uma denuncia e pedimos sigilo, tomando cuidado para não usar o nome do médico. Amélia prometeu enviar homens de sua confiança para passarem as noites e os dias na porta do quarto. Aquilo me deixou mais calmo, mas não completamente.

Ao terminarmos a conversa, Rafael se levantou com um sorriso nos lábios e disse:

— Preciso ir, estou atrasado para um compromisso.

— Até breve — Amélia sorria para ele.

— Não quer que eu vá com você? — cerrei os olhos, confuso.

Ele acariciou meus ombros com os dedos firmes.

— Não precisa, tente relaxar um pouco.

Assenti.

— Ah — ele já ia embora quando se virou, procurando pelos meus olhos — Quer jantar comigo hoje?

— Rafael, precisamos ir ao hospital e...

— Tudo bem — me interrompeu — Esquece.

E assim ele saiu, deixando a brisa fria entrar com o seu sair.

Observei seu andar até que um pigarro alto tomou minha atenção. Era Amélia.

— Você não parece ser psicólogo — disse.

— Como é? — levantei uma sobrancelha.

— Não consegue ver, não é mesmo?

— Não consigo ver o quê? — eu não fazia ideia do que ela dizia.

Ela suspirou pesadamente.

— Vamos sair daqui — levantou-se bruscamente, seguindo para fora do estabelecimento.

Deixei um dinheiro em cima da mesa e a segui de longe.

— Para onde estamos indo? — falava alto.

Eu andava encolhido no meu casaco, colocando as mãos nos bolsos e mantendo a cabeça baixa. A neve cobria sete centímetros do chão e, os flocos que ainda caíam, cobriam as pessoas. O vento frio parecia gelar até mesmo meus ossos.

— Você vai ver.

Dez minutos depois estávamos diante à vista da cidade inteira. Olhei para os lados e só vi a nós mesmos, sozinhos. Amélia se sentou na neve e, mesmo confuso, fiz o mesmo.

— Porque me trouxe aqui?

Ela deu de ombros.

— Para conversarmos a sós.

— Sobre o quê? — eu estava curioso.

— Sobre a burrada que está fazendo — olhou-me nos olhos — Não consegue ver, não é mesmo?

— Eu não estou entendendo nada.

— Está na sua cara.

— Então não estou conseguindo ver.

— Foi o que eu disse.

— Será que dá para explicar? — perguntei um pouco alterado.

Ela voltou a me olhar nos olhos, dando um sorriso de canto de boca.

— Lembra de quando nos conhecemos?

Olhei para o horizonte, pensativo.

— Acho que sim — suspirei — Não tenho mais certeza de nada.

— Você passou por mim, algemado e calado — tentou sorrir — Eu lembro que te achei lindo.

Sorri sinceramente.

— Devo agradecer?

— Não precisa — ficou fria de repente — Foi naquele mesmo dia que você conheceu Nicholas. Você parecia ser dono de si mesmo, mas com o tempo tudo o que você parecia ser era um cachorro com uma coleirinha no pescoço.

Ela respirou fundo, concentrando seus olhos em mim.

Continuei com o olhar fixo no horizonte, tentando de todas as formas, escapar.

— Não precisamos ter essa conversa — murmurei.

— Você está errado — disse, cerrando os olhos — Em tudo.

— Não tem como você saber.

— Você precisa de um choque de realidade, Enzo — ela dizia com a voz afetada — Então fique calado e me ouça.

Eu fiquei.

Merecia aquilo.

— Todas as suas ações se resumiam ao Nicholas e só a ele. Você até mesmo tentou se matar. Como pode ser tão idiota? — parecia indignada.

— Eu só queria que tudo acabasse.

— Você é um completo idiota.

— Talvez eu realmente seja — voltei a fitá-la.

Ela revirou os olhos.

— E quando eu penso que tudo está se ajeitando, vocês brigam novamente...

— Por culpa dele — justifiquei.

— Não importa de quem é a culpa — rosnou.

Assenti.

— Aonde você quer chegar com tudo isso, Amélia? — meus olhos enchiam-se de lágrimas.

Ela sorriu com melancolia após envolver minha mão com as suas.

— Você realmente não vê — parecia falar consigo mesma.

— Não — minha voz quase não saiu.

— Eu quero chegar naquele moço de olhos azuis que está ao seu lado dia e noite — ela fungou ao ver uma lágrima escorrer pela minha bochecha — Quero te mostrar que sua vida sem ele seria muito mais difícil do que é, querido.

— Eu sei — concordei, mas ela não pareceu ouvir.

— Quero te mostrar que o amor dele por você é tão grande que ele está suportando a sua dor e a dele em completo silêncio — suspirou pesadamente — Quero te mostrar que você está tão hipnotizado pelo Nicholas, que não vê o quanto está magoando o Rafael.

— Eu não quero magoá-lo, mas... o Nicholas está em uma situação difícil e...

— Eu sei, Enzo. Consigo compreender — ela apertava minhas mãos com mais força — Mas você precisa parar de olhar apenas para frente, abra sua cabeça e enxergue ao seu redor. Já pensou que talvez o Nicholas possa não sair dessa?

— Amélia...

— Eu não estou azarando nada, Enzo. Muito pelo contrário. Só estou tentando te mostrar que a vida não se resume só a uma coisa. Não quero que abandone o Nicholas, mas você também tem sua vida, então cuide dela, cuide de quem cuida de você e tente ser feliz por mais difícil que isso seja, porque lá na frente você vai olhar para trás e vai se arrepender de alguma coisa. Digo isso porque sei, aconteceu comigo.

Engoli em seco, minha garganta latejava de dor.

— Não sei se consigo cuidar de alguém.

Ela sorriu de lado.

— Se você é capaz de amar, é capaz de cuidar.

Tentei sorrir.

Ela soltou minhas mãos e voltou a observar o horizonte. Envergonhado e confuso, fiz o mesmo, procurando pensar com mais clareza.

Desde sempre eu quis ser escutado pela sociedade. Encontrar o amor era meu principal objetivo e — prometi a mim mesmo — que faria de tudo para encontrá-lo. Por mais difícil que o caminho fosse, eu queria segui-lo, pedra por pedra, passo por passo. Eu precisava do ardor da paixão e do carinho do companheirismo. Mas com o passar do tempo fui desistindo das minhas ambições, vivendo apenas por viver. Em prol dos outros. Ou de um único alguém.

O silêncio se quebrou com um chamado. O do meu celular. Olhei para a tela e respirei fundo ao ver quem era.

Amélia se ergueu, sorrindo.

— Espero que faça bom proveito dessa conversa.

Assenti.

— Eu vou.

Não esperei ela se afastar para atender ao telefone. Era ele.

— Enzo — a voz do outro lado da linha murmurava — Como você está?

— Podemos dormir em casa hoje?

O telefone ficou mudo por quase um minuto inteiro.

— Rafael?

— Achei que precisássemos ir ao hospital — se posicionou.

— É, talvez não hoje.

— Hã, podemos — parecia sorrir do outro lado da linha — Mas porque isso?

Eu não queria dizer nada pelo telefone.

— Precisamos de descanso.

— É, precisamos — concordava — Tenho uma reunião com Douglas Chapman agora. Te vejo mais tarde.

— Cuidado com ele — um resquício de ciúmes pareceu brincar no meu peito.

Eu me lembrava muito bem de como o Sr. Chapman era.

— Certamente — parecia sorrir.

Assim que eu desliguei a chamada, vi-me sozinho novamente, então me apressei a concluir minhas tarefas antes que o dia terminasse e fosse hora de voltar para casa.

Meus nervos não suportariam não ver Nicholas pelo menos uma vez naquele dia, então foi para lá que eu fui depois de escapar do paraíso branco solitário que Amélia havia me levado. Assim que cheguei ao corredor, vi dois homens fortes parados à porta do quarto 507. Andei até eles, ouvindo vozes dentro do quarto.

— Quem está lá dentro? — indaguei.

Um deles olhou para baixo, observando-me.

— Quem é você?

— Enzo Carter — suspirei — Posso entrar?

Os dois homens trocaram olhares indecisos, mas um deles assentiu para o outro, liberando minha passagem. Então entrei, encontrando um médico e uma enfermeira ao lado da maca.

— Enzo — o homem sorriu para mim — Achei que viesse mais anoite.

— Preciso falar com você.

Ele assentiu, parecendo preocupado.

— Pode nos dar licença? — olhou para a enfermeira.

Esperamos a mesma sair antes de nos sentarmos de frente um para o outro.

— Vá em frente — sorria para mim.

— Eu... — suspirei — Tem algum problema se eu não passar a noite aqui hoje?

Ele cerrou os olhos.

— Não — deu de ombros — Está tudo bem?

— Está sim — tentei parecer mais solto — Preciso cuidar de outra pessoa.

Ele sorriu largamente.

— Finalmente percebeu?

— Como é?

— Finalmente percebeu que aquele rapaz é louco com você?

Cerrei os olhos.

— Só eu que não via isso? — falei comigo mesmo.

— Acho que sim — deu de ombros, sorrindo.

Olhei para baixo, encarando o piso.

— Está confuso?

— É, eu estou — olhei para ele com os olhos lacrimejando.

Ele sorriu, solidário.

— Não fique.

— E se ele pensar que eu estou o abandonando? — apontei para Nicholas, sentindo uma lágrima deslizar pela minha bochecha.

— Tenho certeza que ele sabe quem você é — sua confiança me fortalecia — Não vai pensar isso de forma alguma.

— Eu espero que não.

O homem se levantou e andou até mim, dando-me um tapinha no ombro.

— Você vai ficar bem — disse — Tudo vai se ajeitar.

Assenti, vendo-o sair do quarto.

Fiquei ao lado da maca até perder o horário e, quando dei por mim, já eram oito e meia da noite.

— Eu te amo muito — deixei um selinho na testa do homem — Sempre será o meu primeiro amor, nunca me esquecerei de você, Nicholas.

Quando saí dali, desesperado, deixando a vida do meu primeiro amor com dois seguranças, corri para casa. Ao chegar, corri para a cozinha procurando por Rafael, mas não tinha nada além de um banquete farto por sobre a mesa. Então subi as escadas e adentrei o quarto.

A cena que se seguiu acalmou meu coração. Lá estava ele, envolto nos lençóis, com a cabeça tombada no travesseiro e a boca levemente entreaberta. Parecia em paz, sossegado. Aquilo acabou por me acalmar, cada medo meu foi abraçado enquanto cada sentimento ruim, devorado.

Eu não estava com sono, mas não me importei. Apenas tirei as roupas, ficando apenas de cueca. Com leveza, deitei-me por sobre ele, aleitando meu rosto em seu peitoral.

— Enzo — acordou assustado — Eu... desculpe-me, eu... e-eu, fiz um jantar para nós dois, mas eu... eu acabei dormindo, e e-eu...

— Ssschhh — coloquei o indicador nos seus lábios — Pode dormir.

Foi preciso apenas ouvir minha voz para que ele fechasse os olhos novamente.

Deslizei meu dedo pela sua pele, acariciando cada centímetro macio do seu rosto bem desenhado. Ele era lindo.

— Pode dormir — repeti aos sussurros — Não vou parar de te olhar.

Eu seria a sentinela do seu sono.

Durante a noite inteira.

Notas finais
E então? A história está na reta final, galera ;) Terminará no capítulo trinta e três :* Beijos :*