Boukou

2 Capítulo I: Ronjiru


Notas iniciais
Primeiro capítulo. Boa leitura!

Capítulo I: Ronjiru

Ato de debater.

2014, março

Eu queria realmente bocejar. Mas vovô acharia falta de educação e me daria uns pontapés ou, quem sabe, uns cascudos na cabeça, que eu estava disposto a dispensar e, por causa disso, utilizei toda a minha força de vontade para não cometer aquele erro grave e apanhar depois.

– Olhe para a televisão, irmão – comentou alguém bem alto ao meu lado e ao do meu avô que parecia gostar muito do seu chá, não deu nenhuma importância para o cara que fazia aquele barulho absurdamente chamativo. – Não é aquela atriz famosa que faz aquele dorama novo?

Os dois eram bem grandes, poderia dizer que eram o triplo de mim se tivesse com vontade de me rebaixar a esse ponto, mas eu não estava. Eu seria forte e grande como Naruto, aquele ator da televisão que vive pregando a paz, tenho certeza que ele é tão legal que conseguirá fácil!

Se bem que nem Naruto chegava perto desses aí, os dois eram bem grandes e fortes, diferentes da maioria das pessoas presentes. Ambos tinham uma pele mais escura e um jeito de falar engraçado que eu nunca vi, eu não conseguia ver bem os olhos do animado, mas pelo irmão, eu tinha certeza que eram japoneses mesmo, ainda que não fossem daqui da região.

Vovô continuava interessado em sua xícara de chá enquanto eu avaliava os seus cabelos: será que eles eram tão velhos quanto o vovô? Porque os dois tinham cabelo branco, mas eles também poderiam ser daquele tipo que meu avô falou para eu nunca ser, que fica assistindo desenho o tempo todo e enlouquece fazendo furos na cara e pintando a cor do cabelo.

O irmão somente olhava para a televisão junto com o outro, escutando a notícia que até meu avô pareceu ouvir instigado. Quando encarei a televisão, vi aquela atriz bonita chorando ao lado de Naruto e do antagonista dele no dorama que eles trabalhavam e que eu gostava muito de assistir com o vovô, sempre dizia que se lembrava de si mesmo quando trabalhava com o teatro.

– O que me importa se ela foi estuprada ou não, Bee? – disse de maneira que parecia bem irritado, continuando a comer sua torrada. – Ela provavelmente fez por merecer o que está passando, sendo da televisão não há nem o que duvidar de que tipo de mulher é essa, tenho certeza que é muito promíscua. Se estivesse em casa ajudando a família, isso não aconteceria.

Eu não entendia muito bem algumas palavras da repórter, fiquei tentado a perguntar ao meu avô sobre o significado daquela em especial que ela tinha dito e parecia muito triste em falar, mas a atenção dele estava voltada aos dois irmãos como eu fazia antes.

– Você está maluco, Kira? – perguntou com uma expressão esquisita, que parecia até que não tinha ganhado um doce igual a mim. Ele retirou os óculos, mostrando realmente que era japonês como eu tinha pensado no início, ponto para mim, e pareceu encarar o outro por algum tempo. – Você sabe quantas mulheres passam por esse tipo de coisa todos os dias?

Vi o tal de Kira bufar, incomodado com o assunto. Meu avô, ao contrário de mim, ainda fingia não prestar atenção, mas eu estava em dúvida se queria ou não ver uma briga daqueles dois, podia sobrar para a gente...

– Eu não quero discutir isso no meu café da manhã, cara – ainda que ele tivesse falado isso, em seguida, acabou comentando e mexendo no que meu avô falava que eram “têmporas”, eu só chamava de “lugar perto da sobrancelha”. – Principalmente porque, como você mesmo disse, um bando de mulheres passa por isso e ninguém fica paparicando as pobres coitadas que nunca fizeram nada para provocar.

– Agora a culpa é delas se um cara é retardado e não consegue chegar direito? – o outro disse de um jeito que pouco entendi, mas continuei prestando atenção para ver no que ia dar. – Sabe, irmão, que culpa a atriz tem se estava no lugar onde ela trabalhava? Você viu que isso foi lá na empresa dela, agência, sei lá o nome dessa porra. Como é que ela tem culpa de estar onde estava se trabalhava lá?

– Trabalha porque quer.

– A gente não está mais no século passado! – irritou-se, batendo o punho no balcão da lanchonete. Eu olhei de canto para meu avô, que acabou fazendo o mesmo que eu para mim. – Ela tem total direito de sair de casa e trabalhar, eu me divirto com a personagem dela, acho muito gata também, outros também podem achar e serem retardados ao ponto de invadirem a privacidade dela.

–Certo, você quer insistir em falar disso enquanto eu só queria comer a merda do meu café da manhã, que era muito mais importante? – perguntou, colocando a xícara de chá em cima da mesa e, se ele olhasse para o irmão dele, teria já se armado para se defender de um soco. – Certo! Você sabe essa mulherzinha que tanto venera? Provavelmente, já dormiu com todo mundo daquela agência, porque é um bando de gente promíscua que só pensa em dinheiro, sexo e drogas para fazer a merda do trabalho que faz, ganhando rios de dinheiro porque existem trouxas como você que dão atenção para essa merda toda e compram as coisas que eles fazem como também assistem.

“Isso tudo se bobear, é ainda uma jogada de marketing para aquela campanha de aumentar a pena para quem estupra ou sei lá o quê! Tudo uma lorota idiota para pegar os trouxas, além das roupas dela que eram absolutamente curtas, se fosse capaz de esconder as pernas... Por favor! Nem sequer isso! A culpa é dela de isso ter acontecido, se aconteceu de verdade!”

– Então, a culpa é da mulher, por que ela gosta de andar com a roupa que quer, seja por si mesma ou para poder atrair um namorado, um pretendente? – perguntou para o outro e, sinceramente, eu queria também saber a resposta daquilo: por que a Sakura não podia andar da forma que ela queria? Vovô me deixava ficar vestido até de super-herói na rua... – Ela é a culpada, embora um cara tenha feito isso enquanto diversos a desejavam? Ela é tão culpada por isso e queria tanto que estava tremendo quando apareceu na televisão e nem conseguiu falar nada? Você acha que ela só está atuando como sempre faz? Pode até ser boa, mas não é boa o suficiente para aquilo, ao menos, se não passou por algo parecido..! Estava na cara que tinha se traumatizado, como pode falar uma merda dessas como se algo tão tenso assim fosse uma jogada de marketing ridícula?

“Uma mulher tem tanto direito quanto eu ou você, ainda que tenha idiotas como você que acham que não, elas são tão seres humanos quanto qualquer homem! São mulheres, como ela ou a mamãe, que nos dão a luz, que nos dão a vida! São elas que passam horas cuidando da gente e, atualmente, estão em jornada dupla ou tripla tentando ajudar em casa e fora pelas sucessivas crises financeiras e familiares! E não venha negar a verdade, você sabe que há várias mulheres que são estupradas em casa, isso acontece por qual motivo? Por que elas saíram de casa? Estão se insinuando quando estão estudando? A gente tem um dos maiores índices dessa merda, cara, tudo porque existem caras como você que tem esse discurso de que elas são objetos para usar e jogar fora... Eu não quero nem saber o que a mamãe diria se te ouvisse falando dessa maneira.”

Quando ele parou para pegar um fôlego, o irmão já fechava a mão várias vezes sobre a xícara, esperando que o outro terminasse de falar para, provavelmente, dar um soco nele. O que não veio, para minha surpresa:

– Você é tão ingênuo, nunca caiu nas garras de uma mulher! – disse meio alto e parecia bem mais incomodado que antes, quando o discurso do seu irmão começou. Ele tinha ódio de mulher? – Sempre vai haver um motivo para um homem chegar nela, seja um olhar ou um rebolado! Você trata a mulher como se ela fosse santa, mas elas são demônios bonitos que atazanam a vida de cada um de nós. Elas são dissimuladas e enviam sinais de acasalamento que a gente até desconfia e, quando chegamos, se fazem de vítimas como se não quisessem nada conosco desde o início, correm e fazem propaganda de inocentes quando todas são um bando de put...

– É melhor calar a boca – o tom do tal de Bee, acho, foi tão baixo que até eu me assustei com o seu jeito engraçado sumindo por completo. – O que você sabe sobre mulher se fala esse tipo de coisa? Só porque a Samui não te quis? Você era violento com ela, como ia querer ficar do seu lado? Ela tinha razão, você tratava Samui como se não fosse nada e nem tivesse opinião própria, acabou te largando porque você se achava superior ao ponto dela querer se afastar, a sorte é que você tem a noção de o quão errado é tocar uma mulher sem a permissão dela, se tivesse feito algo, tenho certeza que ela ia cortar suas bolas...

– Não fale merda! – reclamou o tal do Kira. – Eu não faria isso porque a Samui não me deu liberdade para tal, ela com certeza deve ter dado...

– E você estava lá para ver?

Pisquei os olhos algumas vezes ao perceber que tinha sido vovô a interromper a conversa dos dois, encarei-o por algum tempo enquanto os caras diferentes também faziam isso.

Olhei para a expressão de cada um dos dois e, pelo que notei, o tal de Bee estava com um sorriso satisfeito no rosto enquanto o outro não parecia nada contente com a intromissão.

– Valeu, vovô! – disse Bee, fazendo com que eu o olhasse estranho, ele não era meu parente... – É isso aí: quem é você para julgar o negócio se nem sequer estava lá presente?

– Julgar ou não é trabalho da polícia – respondeu o irmão que não me parecia muito simpático com meu avô. – E eu estou julgando a partir do que eu conheço do mundo artístico, as pessoas não prestam lá e por que essa seria exceção a regra?

– E por que ela não seria? – vi a contra-resposta do meu avô, depois um suspiro do mesmo. – Eu trabalhei anos no teatro e, vai por mim, a maioria de lá, por querer tanto trabalhar, acaba fazendo coisas que até Deus duvida. Você não pode julgar ninguém pelo que acha que conhece, como também não pode afirmar ou apontar o dedo em relação aquilo que não presenciou. Tanto um quanto o outro, talvez esse seja o problema da juventude, formam tanta opinião que nem sequer param para pensar nos fundamentos de cada uma delas.

“Vocês devem pensar: e se fosse comigo? Independente da situação, quem está com o problema maior? Quem teve o nome manchado? Quem foi agredido? É justo dizer que alguém faz ou deixa de fazer algo sem conhecê-lo? Por que usar uma roupa é culpa de alguém? E se for pelo trabalho que faz e passa encanto para as pessoas? Por que um trabalho deve ser tão mal visto se é um mero trabalho que agrada ao público e, por isso, arrecada tanto dinheiro, necessário para o mundo capitalista? Levando em conta os fatos e também a revolta da repórter, além dos amigos da vítima, cujo um eu conheço pessoalmente e muito bem, tenho certeza que não há qualquer armação na história. A partir desse ponto, tendo certeza que não há qualquer jogada de marketing em cima desse tema que atualmente é seriamente discutido, o que pensa a respeito é o que importa e não, o que é realmente. Não acha?”

Observei meu avô terminar seu chá da mesma maneira que fazia todos os dias, buscar pela carteira no bolso e dar o dinheiro ao nosso conhecido Teuchi, que em seguida, ofereceu-me um doce de chocolate de graça. Vovô adorava quando isso acontecia!

Nenhum dos dois homens respondeu a qualquer pergunta do meu avô e, mais tarde, acabei notando que nem eram para responder, porque a gente deve escutar os mais velhos e pensar no que eles nos dizem direito e não, responder de qualquer maneira.

Vi meu avô fazer uma reverência antes de sair e os dois homens a responderem tal como Teuchi, peguei em sua mão para ir embora e acenei me despedindo, principalmente ao dono do Ichiraku, a minha lanchonete preferida em todo o mundo e com o melhor chefe de cozinha também!

– Você sabia que Naruto costumava vir muito aqui quando era pequeno? – vovô perguntou para mim, iniciando um assunto e deixando o anterior para trás. – Um dia, você vai ter sorte de encontrá-lo e, quem sabe, um dia encontremos todo o time Sete reunido aqui, não é mesmo? Velhos tempos...

Olhei para o lado, por reflexo, vendo alguém muito parecido com Sasuke na televisão da loja de eletrodomésticos, perguntei a meu avô e percebi que estava no mesmo canal do que o do Ichiraku. Um sorriso escapou dos lábios do meu avô quando o observou e me disse que aquele era Uchiha Itachi, um policial muito competente e tão incrível quanto Menma, o ninja.

Eu realmente era apaixonado pela história daquele ninja, Menma, e suas altas aventuras com seus amigos de equipe! Na verdade, sempre sonhei em encontrá-los e pedia a Deus, mas, hoje, eu pediria para que minha heroína número um estivesse bem, antes de nos vermos, ‘ttebayo!

Notas finais
Todas as pessoas possuem suas próprias opiniões, às vezes, são formadas em uma base lógica, às vezes, não. Cada opinião que é formada sobre um assunto pode ser considerada coerente ou não, e não depende do dono da opinião que a aceitemos, depende de nós e o que vemos/ experienciamos da vida e da lógica para isso. Esse capítulo é uma amostra e uma tentativa de mostrar as diversas opiniões para o assunto e depende de você ver qual delas mais se encaixa em suas predileções. Aqui, todos os pontos de vista são abordados e esperamos que vocês se identifiquem e reflitam sobre a lógica que coexiste dentro de vocês e vejam se elas seguem o padrão do mundo que está do lado de fora. O que julgam certo ou errado é certo ou errado? Ou não? Reflitam e respondam para gente, se quiserem. Att, Srta Pezzino.