Boukou
3 Capítulo II: Shiraberu
Notas iniciais
Capítulo II: Shiraberu
Ato de Investigar
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2014, março
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Era para ter sido apenas mais uma chamada.
Não foi.
Às vezes, paro para pensar em como meu trabalho, ao longo dos anos, pode tornar um homem quase indiferente à barbárie humana. Ossos do ofício, eu sei. Afinal, quando se testifica muitas vezes a mesma coisa quase todos os dias, por um período extenso, dificilmente algo pode te surpreender, te arrancar dessa casca de insensibilidade.
Ironicamente, é assim que me sinto hoje: eu fui arrancado da minha.
Como policial, e vindo de uma família que está nesse ramo há tantas gerações, tornando tudo praticamente uma tradição, aprendi que se torna mais fácil se você encarar cada fato friamente, como mais um dígito a ser somado às estatísticas que os telejornais tanto adoram comentar.
No princípio, quando ainda era um novato entre meus camaradas mais experientes, observava seus comportamentos analíticos com certa curiosidade — talvez até com um toque de incredulidade. Como podiam?; eu costumava me perguntar. Como faziam?
Hoje, eu mesmo entendo muito bem a resposta, conheço o esquema. Desligue-se, é o segredo, e veja o fato como mais um número. É só um número a ser incorporado mais tarde em um relatório imparcial.
Enquanto me afasto do repórter e do cinegrafista para quem acabei de conceder uma entrevista — e eu certamente não faço isso, mas hoje decidi abrir uma exceção, pois a mídia não descansaria enquanto não arrancasse as informações certas —, eu penso novamente no meu Otouto e em como ele reagirá a isso.
Sinto uma pressão incômoda na têmpora só de imaginar sua face quando ouvir o que houve da minha boca.
Passo pelas fitas amarelas que isolam o prédio da agência e mantém os curiosos afastados. Sei que é uma questão de tempo até que mais repórteres cheguem aqui, sedentos por mais informações e, por isso, suspiro exausto. Tudo indica que tenho um longo dia pela frente.
Pelo menos, Sakura já está bem longe daqui e, por sorte, com Naruto para acompanhá-la. Ele é um bom rapaz, vai mantê-la calma e oferecer o consolo de que ela precisa por enquanto.
A caminho do local onde o delito ocorreu, encontro com Kisame. É um sujeito alto, de aparência um tanto bruta, mas é um policial competente. Ele despenteia o cabelo preto-azulado com uma mão.
— A garota, Itachi... Como ela está?
— Enviei-a com Deidara e Naruto para que os exames de corpo de delito possam ser feitos.
— Mais provas contra o filho da puta, então — ele sibila e eu aquiesço.
Sei que será um processo invasivo para Sakura e ela já estava bastante abalada quando a encontrei, mas eu insisti que era crucial que o material do delito fosse colido imediatamente. Pele sob as unhas, pelos e fios de cabelo arrancados, e a prova principal: o sêmen. Eu senti um mal-estar novamente só de imaginar o que aquele homem deve ter feito com ela...
— Itachi? — Kisame me chama e eu desperto do meu pequeno devaneio. — Vamos rever a cena do crime? É melhor ter tudo acertado para quando a perícia chegar.
— Sim, você tem razão.
— Você está bem? Pode lidar com isso? — ele me pergunta e eu me mantenho em silêncio.
É diferente dessa vez, digo a mim mesmo. É Sakura, a menina que você viu crescer, que brincava com Naruto e com o seu irmãozinho desde que você pode se lembrar. É realmente diferente. Suspiro.
— Vamos logo — murmuro, apressando-me pelo corredor e passando por Kisame.
O camarim de Sakura é logo à direita e nós entramos. Está um caos ali dentro. Rapidamente passo meus olhos pela mobília: há um sofá branco, encostado na parede bem à minha esquerda. Há uma penteadeira à minha direita, o imenso espelho acima dela está trincado. Há cabides e araras com dezenas de figurinos no fundo, bem ao lado do que restou de uma cadeira de espaldar. Vidros de perfume quebrados reluzem no chão, o líquido contido nos seus frascos escorreu pelo carpete.
Mais uma vez, a boca do meu estômago se contorce. Mas reprimo a náusea e me aproximo o suficiente do sofá para examiná-lo superficialmente sem comprometer nenhuma prova. Há pequenas manchas no couro claro: as avermelhadas sem dúvida tratam-se de sangue da vítima, as de coloração mais clara posso apenas imaginar o que são.
Kisame começa pela penteadeira, evitando os cacos afiados dos vidros de perfume que se espatifaram no chão acarpetado. Ele aponta para os isolantes acústicos que revestem todas as paredes.
— O local é completamente vedado, por isso, ninguém escutou os gritos da moça.
— Você pegou o testemunho do Naruto — lembro, afastando-me do sofá com um aperto no peito.
Peças de roupas rasgadas estão jogadas sobre o chão, próximas a uma lata de lixo, provavelmente, as roupas que ele arrancou do corpo dela.
Eu me agacho até a lata de lixo e observo seu conteúdo sem tocar. Fora alguns lenços demaquilantes usados, não há mais nada.
— É, o loirinho disse que veio procurar a vítima no camarim porque tinha algo para lhe perguntar, assim que abriu a porta, deu de cara com o filho da puta em cima dela. Ele puxou o cara pelo colarinho e deu uma boa lição nele — Kisame não esconde o sorriso quando conclui.
— Você quer dizer que eles entraram em uma luta corporal — corrijo ao me empertigar.
Uma cadeira de espaldar está quebrada, provavelmente atingida pelo corpo de Zaku quando Naruto arremessou o criminoso por cima dela. Dei uma boa olhada no rosto do sujeito antes de empurrá-lo para dentro da viatura. Sei que não devo, mas sinto uma satisfação imensa por Naruto ter feito o que fez.
E antes Naruto do que meu irmãozinho. Sasuke, indubitavelmente, teria o matado. Conhecendo a natureza dos sentimentos que meu irmão nutre por Sakura, eu não duvido nem por um segundo disso.
— Foi Naruto quem chamou a polícia também, não é?
Kisame confirma com um aceno da cabeça.
— A prisão em flagrante vai manter o desgraçado por um tempo na cadeia, ao menos, até que reunamos as provas para o inquérito.
— Fora Naruto, temos alguma outra testemunha?
Kisame cruza os braços sobre o peito e suspira.
— Aparentemente Zaku teve ajuda para entrar aqui. O porteiro foi subornado, pelo que parece, para não só deixá-lo entrar como para indicar onde ficava o camarim da moça. Estou mantendo-o sob custódia para lhe fazer mais perguntas.
— Certo — aquiesço. — E você conferiu os antecedentes criminais do Zaku?
— Nada de mais na ficha dele. Uma queixa sobre uma briga em um bar há alguns meses em que ele se envolveu, uma reclamação de um vizinho no prédio em que ele mora por perturbação da ordem... Mas nenhum histórico de agressão sexual.
Então Sakura foi a primeira; reflito e me lembro do seu rosto vermelho quando cheguei aqui, dos olhos inchados de tanto chorar, da boca trêmula e todas as equimoses e escoriações que cobriam o seu corpo, já começando a ganhar uma coloração mais forte...
— A profissão dele? — indago para me distrair dessas lembranças e desanuviar minha cabeça.
— Ele tem um escritório a algumas quadras daqui, mas realmente parecia ter um comportamento acima de qualquer suspeita. Bem, esses maníacos são imprevisíveis, de qualquer forma.
Kisame fica em silêncio, tenho a ligeira impressão de que está debatendo consigo mesmo, hesitando em me falar algo. Por fim, ele se decide:
— Itachi, eu não quero te chatear nem nada do tipo, mas você sabe como a legislação funciona nesse país. Um delito como roubo é visto como mais hediondo do que um estupro. É vergonhoso, nós sabemos. Mas não podemos fazer muito para manter esse cara atrás das grades se a própria lei o beneficia.
“Eu entendo que você conheça a garota e isso só dificulta ainda mais situação. Mas eu posso apostar que o caso de Haruno Sakura não será muito diferente de centenas de outras moças que passaram por essa mesma situação nas mãos de filhos da puta como esse Abumi Zaku. Eu só estou te prevenindo para o pior, sabe? É fato que dessa vez terá uma repercussão dos diabos, mas não se surpreenda se, dentro de algum tempo, a justiça decidir soltar esse cara”.
Suspiro e volto a encarar a figura de Kisame.
— Você raramente discursa tão eloquentemente — observo e ele repuxa um dos cantos da boca numa careta.
— Eu só queria te lembrar de como as coisas funcionam por aqui.
Preparo-me para deixar o camarim e Kisame me segue. Logo a perícia estará aqui para examinar mais minuciosamente a cena do crime. Já do lado de fora, nós seguimos pelo corredor.
— Talvez seja a hora de reavaliarmos o modo como enxergamos esse tipo de crime. Outras nações estão à nossa frente com relação a punições por violações de ordem sexual.
— É, não seria nada mau, de fato — ele concorda.
Nossos passos ecoam no corredor. Uma vez lá fora, busco pelo aparelho celular no bolso do meu paletó. Eu o apanho e procuro pelo número de Sasuke na discagem rápida.
— Boa sorte para contar ao Sasuke — Kisame se despede, afastando-se com um aceno.
Apesar do dia claro e do sol a pino, tenho a sensação de que ainda vai chover hoje. E eu não costumo me enganar quanto a isso.
Sasuke atende no quinto toque, sua voz soa rouca:
— Nii-san?
— Oi, Sasuke. Será que podemos conversar?
Ele hesita do outro lado e me responde depois de um tempo, levemente preocupado. Eu sei que deveria tentar amenizar o peso nas minhas palavras e no meu tom, mas sendo sincero sei que não sou capaz de fazer isso.
— Aconteceu alguma coisa, Itachi?
— Você está no seu apartamento? — respondo sua pergunta com outra e ele assente.
— Sim, acabei de sair do banho. Sobre o que quer conversar comigo?
— Estou a caminho daí. — É tudo o que lhe digo antes de encerrar a ligação.
Ainda não estou certo de como contar a ele o que aconteceu. Talvez, no percurso, eu consiga pensar em alguma coisa. Estou preocupado com Sasuke, por isso, entro no meu carro e dou a partida.
Meu irmão mora em um apartamento do outro lado da cidade.
O trajeto é longo, mas não tanto quanto realmente desejo que seja. Ainda estou pensando nas palavras certas para dizer a ele. De fato, não há um meio de suavizar a verdade, sei que vou ter que sobrecarregá-lo com ela de qualquer jeito.
Mais ou menos vinte minutos depois que falei com meu irmão, estaciono meu carro na garagem subterrânea do prédio dele. É óbvio que Sasuke já está me esperando.
Suspiro e saio do automóvel. Ao invés do elevador, escolho a escada de serviço. Subo os degraus depressa e logo estou no sexto andar. Estaco à frente da porta do apartamento dele e bato de leve com os nós dos meus dedos.
Ele abre a porta e me encara com seriedade. De nós dois, Sasuke é quem mais se parece com a mamãe. Ele tem os seus traços suavizados enquanto eu herdei a compleição rígida do papai.
— E então o que aconteceu? — ele me pergunta ainda à porta e eu peço permissão para entrar.
Sasuke me concede passagem e fecha a porta. Posso ver que está começando a ficar impaciente com minha demora em lhe contar o que está havendo. Eu o olho novamente: os olhos escuros severos, a boca curvada para baixo, os braços cruzados.
Eu suspiro novamente. Não posso mais adiar.
— É sobre a Sakura — murmuro e seu semblante muda: os olhos se arregalam, a boca se aparta, os braços ficam rígidos ao lado do corpo.
— Ela está bem?
Não o respondo e isso só faz a tensão crescer entre nós.
— Itachi, a Sakura está bem? — ele torna a me questionar com um tom mais alto, mais urgente.
— É melhor você se sentar, Sasuke — recomendo, mas ele me ignora e me fulmina com o olhar.
Como sei que qualquer tentativa minha de acalmá-lo a essa altura será repelida — conhecendo a personalidade impulsiva do meu irmãozinho —, eu me rendo e eu mesmo me sento no sofá de couro preto da sua sala de estar.
— Itachi? — ele me chama para me lembrar de que ainda está esperando minha resposta.
Por fim, eu o digo.
— Sasuke, eu não sei exatamente como lhe dizer isso, mas... — pauso o suficiente para mais um expirar profundo.
Esfrego os dedos nas minhas pálpebras cerradas. Não vou aguentar ver a expressão dele quando o disser.
— Sasuke, a Sakura foi estuprada.
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