Bouina

3 CAPÍTULO 03


A noite envolvia o rio com um manto de silêncio e mistério.

Brisa mergulhava nas águas escuras do rio como se fosse parte dele. A superfície refletia a lua cheia, fraca e pálida, lançando fios de luz prateada que atravessavam a água e iluminavam seu rosto sereno. Ela nadava com calma, os movimentos leves, quase etéreos, como se observasse a si mesma de dentro da própria água. A sensação era estranha, como se cada respiração estivesse sendo absorvida pelo rio, sem pressa, sem esforço.

Ao fundo, o som dos botos chegava como uma música distante, pura e melódica, ressoando entre as ondas submersas. Eles a rodeavam, deslizando junto a ela, cantando em notas que pareciam flutuar pelo corpo da menina. Não havia sorriso em seu rosto, mas uma felicidade silenciosa pairava em seu semblante, uma alegria contida, profunda. Ela rodopiava submersa, girando e girando, a água envolvendo cada centímetro de sua pele, cada fio de cabelo escuro ondulando ao redor de seu rosto.

O brilho da lua era o único guia. A água, antes translúcida, começou a escurecer de repente. Um arrepio percorreu seu corpo. Algo passou rapidamente por trás dela, arrancando o ar de seus pulmões e empurrando-a para baixo com força. Os cabelos se espalharam sobre seu rosto e, ao tentar afastá-los, Brisa sentiu uma onda de calor estranha se espalhando por seus braços. Sua pele começou a se transformar, tornando-se escura, opaca, como carvão queimado. Em alguns pontos, surgiam escamas finas, refletindo a luz da lua em brilho metálico, tão contrastantes e reais que seu toque parecia sentir a aspereza como a pele de peixe.

Mesmo com a mudança, ela podia ouvir o canto dos botos, mas agora misturado ao som distante e inquietante de pássaros noturnos. Um medo gelado apertou seu peito. Tentou gritar, mas nenhum som saiu da garganta. A própria visão a assustou ainda mais: sua mão estava negra, completamente convertida em algo estranho e sólido, e o processo se espalhava pelas pernas também. Uma delas já exibia escamas negras, serpenteando até o joelho.

Brisa tentou nadar para a superfície, desesperada, mas o corpo não respondia. Cada movimento parecia empurrá-la mais para baixo, como se o rio tivesse virado um manto pegajoso que a puxava. A sensação de afundar, aliada à transformação de sua pele, gerava um pânico sufocante. O coração acelerado martelava nos ouvidos, cada batida ecoando na escuridão aquática.

Então, em um instante de horror absoluto, ela acordou.

Por um breve momento, ficou imóvel, com seus olhos arregalados e o peito arfando como se ainda estivesse submersa. A respiração vinha em soluços curtos, tentando alcançar o ar da realidade. Aos poucos, seus olhos se ajustaram à penumbra do quarto.

A janela estava entreaberta, deixando entrar a luz fria da lua. Seu telhado simples rangia suavemente com o vento; tudo estava no lugar. O silêncio noturno, quebrado apenas pelos grilos e o farfalhar distante das árvores, contrastava brutalmente com o caos do sonho.

Um suspiro trêmulo escapou de seus lábios. Estava em casa. No seu quarto. Segura.

O alívio desceu sobre ela como uma onda morna, dissipando parte do terror que ainda latejava em sua mente. No entanto, a sensação pegajosa da água parecia persistir na pele; seus cabelos estavam úmidos, colados à testa, e o corpo inteiro estava molhado como se tivesse realmente emergido do rio.

O cheiro da água e da terra ainda parecia pairar ao redor dela, misturado com o medo que latejava em suas veias.

O rio estava distante, mas a lembrança da transformação permanecia viva em sua pele, como se o sonho tivesse deixado marcas reais.

Ela se levantou da cama. A água escorria por sua nuca, misturado à sensação estranha deixada pelo sonho.

Primeiro retirou as roupas da cama com cuidado, sentindo a textura fria e encharcada do lençol. O colchão, pesado e firme, foi erguido e apoiado no canto do quarto, criando espaço para que pudesse caminhar sem tropeçar. Depois, trocou suas próprias roupas e saiu do quarto. Cada passo era medido, silencioso, quase suspenso, enquanto os pensamentos corriam acelerados em sua mente, lembrando do calor da água e do toque estranho de sua pele no sonho.

Quando chegou à porta do quarto de sua mãe, pousou a mão sobre ela, respirando fundo, tentando acalmar o coração que ainda batia descompassado. O corredor estava vazio, envolto em sombras longas projetadas pelo luar.

A porta do quarto da mãe estava entreaberta. Pela fresta, Brisa podia ver a figura serena de quem sempre representava segurança. Sua mãe dormia tranquila, respirando ritmicamente, alheia ao tormento que a filha acabara de viver. Brisa deslizou para dentro do quarto, com passos leves e cuidadosos, e se deitou ao lado dela.

A mãe a envolveu com um abraço imediato, como se instintivamente percebesse o que a filha precisava naquele momento. O calor do corpo materno trouxe um conforto súbito, e o cabelo molhado de Brisa encostou-se na pele seca da mãe.

Desde sempre, eram só as duas. Brisa nunca conheceu o pai e nem sabia quem ele era. Alguns diziam que ela era filha do boto, mas para ela, isso não passava de fofoca e nunca se importou em descobrir quem ele era. Sempre que tentava perguntar, a mãe desviava o assunto e pedia que não procurasse saber mais sobre isso. Dizia que bastava serem apenas as duas, para sempre.

— Brisa… — murmurou ela, a voz arrastada pelo sono, misturando reprovação e ternura — Já avisei para não nadar de noite no rio, filha. Dorme, por favor.

Brisa fechou os olhos, encostando o rosto no ombro da mãe, sentindo o batimento lento e constante de seu coração, o cheiro familiar de pele e lençol limpo envolvendo-a. Por um instante, o medo do sonho e a sensação da transformação estranha se diluíram, substituídos por essa segurança silenciosa. A respiração da mãe a embalou, e a menina se deixou relaxar, mesmo que apenas por alguns momentos, antes que o mundo real voltasse a invadi-la.

O dia amanheceu com um nevoeiro espesso cobrindo o rio.

A lembrança do sonho ainda ardia em sua mente; vívida, pulsante e para ela era como se tivesse acontecido de verdade.

Levantou devagar. O chão de madeira estava frio sob os pés descalços. A casa cheirava a fumaça e café recém-passado. Lá fora, os pássaros começavam a romper o silêncio com cantos dispersos, e o som da água batendo contra o cais vinha suave, era quase um sussurro.

Enquanto se vestia para ir à escola, Brisa observava as mãos, ainda as mesmas, mas parecia haver algo estranho nelas. A pele parecia mais úmida e mais viva. Quase como se tivesse sido renovada.

Encostou-as no rosto, e o arrepio voltou.

Será que estou ficando louca? — pensou.

Tentou se convencer de que era apenas um sonho. Talvez sonambulismo. Sim, talvez tivesse saído dormindo, mergulhado de verdade, e voltado sem perceber. Mas o medo permanecia, denso e grudento como a lama do rio.

Durante o café, a mãe falou pouco. Ela também. As duas se entendiam no silêncio. Quando o barco da escola apitou ao longe, a menina prendeu o cabelo, pegou o caderno e saiu sem olhar para trás.

O trajeto até a escola era sempre o mesmo; o cheiro do rio, o som dos remos cortando a água, o vento frio batendo no rosto. Mas naquele dia, o rio parecia diferente. Ela também parecia diferente. Mais pensativa. Distante.

O rosto sereno de antes carregava agora uma inquietação muda, algo que ela mesma não sabia explicar. Era um misto de sentimentos que não sabia nomear; medo, curiosidade, cansaço e um vazio que parecia vir de dentro.

Cada batida do remo na água trazia uma lembrança do sonho, do corpo afundando, da pele que não era mais sua.

O vento frio que vinha do rio tocava-lhe o rosto, e por um instante, ela sentiu como se a própria água a chamasse. Era uma sensação quase física, um arrepio que começava na nuca e descia pelas costas. Tentou ignorar. Respirou fundo e olhou para a mata nas margens e as árvores pareciam mais próximas, os galhos se curvando como se quisessem tocá-la.

Sacudiu a cabeça, forçando-se a voltar à realidade.

Eu preciso parar com isso. — pensou.

Mas as palavras não acalmavam o coração acelerado. Desde a noite passada, o medo parecia ter ficado preso dentro dela, como um segredo que não conseguia contar pra ninguém. Era como se algo estivesse despertando, e ela, sem entender, tentava fingir que não sentia nada.

As águas estavam mais escuras, e por um instante ela jurou ver uma sombra grande deslizando sob a superfície. Seu coração acelerou, recuou o corpo com os dedos tremendo ao segurar a borda do barco.

Ela piscou várias vezes, e rapidamente, sumiu.

Estou vendo coisas… — pensou, sentindo um arrepio subir pela nuca.

A dúvida ficou. O rio nunca a assustou antes. Cresceu dentro dele, aprendeu a nadar antes de aprender a andar. Só que agora, cada curva de água parecia esconder algo, cada bolha que subia à tona pareciam observá-la.

Encostou uma das mãos na testa e ficou alguns segundos parada, observando o espelho escuro. O som dos pássaros parecia distante, abafado, como se o mundo tivesse prendido a respiração.

Será que estou ficando maluca? Por que só agora estou vendo essas coisas? Por que agora? — pensou.

A lembrança do sonho da noite anterior veio como um golpe. O toque da água em sua pele, o corpo se transformando, as escamas negras brilhando sob a lua e o medo. O mesmo medo que agora voltava a apertar seu peito. Olhou as próprias mãos, esperando encontrar algo; uma marca, uma mancha, qualquer sinal. Mas estavam normais. Frias e trêmulas, mas normais.

Tentou rir de si mesma, mas o som não saiu. Então apenas se ajeitou no barco, olhando o homem remando e algumas meninas conversando.

Na escola, as vozes dos colegas ecoavam animadas. As férias se aproximavam. Todos falavam de viagens, festas, e do tempo livre que viria. Brisa, porém, mal conseguia se concentrar. As palavras se misturavam na cabeça; sonho, água, escamas, prima.

Foi então que a viu.

Safira estava encostada no corrimão de madeira, rindo com outras meninas. Brisa se aproximou, hesitante e com o coração apertado.

— Safira ... — chamou, quase num sussurro.

A prima virou o rosto, o sorriso se apagando.

— O que foi?

— Eu... queria saber se está tudo bem? — Brisa tentou sorrir. — Ontem eu achei que tinha te visto no rio.

Safira arqueou as sobrancelhas, um brilho duro surgindo no olhar.

— Me viu onde?

— No barco de noite. Eu acho que te vi. — As palavras saíram trêmulas, confusas.

A prima riu, seca. Como se estivesse nervosa ou sem saber o que responder.

— Tá me espionando agora? Cuida da tua vida, Brisa.

— Eu só fiquei preocupada, achei que poderia ter se machucado.

— Eu disse pra cuidar da tua vida! — Safira cortou, a voz firme, o rosto tenso. — E se continuar se metendo, eu juro que nunca mais falo contigo.

As outras meninas se calaram. Brisa sentiu o rosto arder.

— Mas... por quê? O que eu fiz?

Safira desviou o olhar, com os lábios trêmulos por um instante e sem falar nada mais, virou as costas e saiu andando deixando Brisa imóvel, ouvindo o barulho dos passos da prima se afastando. Seu peito doía.

Ela era como uma irmã e por que agora me olha assim? — pensou.

Ela sentiu o rosto quente e seu olhar estava perdido. As palavras de Safira ainda ecoavam em sua cabeça, cortando como algo que não podia ser desdito. Sentia-se pequena, envergonhada, como se todo mundo ao redor tivesse ouvido.

Evitou olhar para trás. Caminhou sem rumo até a beira do rio, onde o chão úmido grudava nos pés e o ar carregava o cheiro pesado da terra molhada.

Ali, encontrou um tronco caído e se sentou. O silêncio do lugar parecia maior do que nunca.

O sol tentava romper o nevoeiro, espalhando uma luz fraca que se refletia na água como uma lâmina partida. Brisa observou o reflexo por um tempo, hipnotizada pelas pequenas ondas que se formavam e se desmanchavam sozinhas.

Por dentro, o peito pesava. Não era apenas vergonha, mas a sensação de ter perdido algo que nem sabia nomear. Safira sempre foi mais que uma prima; era quase uma irmã, uma parte viva da infância. Agora, parecia uma estranha.

Ela suspirou, com o som se perdendo no ar. Encostou os cotovelos nos joelhos e deixou o rosto cair entre as mãos, tentando conter a vontade de chorar.

O vento trouxe o cheiro do rio, aquele mesmo cheiro que desde criança a confortava. Mas, dessa vez, não havia consolo algum. Havia apenas o eco do que o sonho lhe mostrara e o medo de que algo dentro dela estivesse mudando de verdade.

Sentiu uma pontada no peito, uma mistura de raiva e tristeza. Levantou o olhar e viu o reflexo do sol tremendo sobre a superfície da água; uma luz fria, pálida, que a cegava por um instante.

Foi assim que Alana a encontrou, sentada sozinha, os olhos baixos, o corpo pequeno diante do rio imenso.

— Brisa? O que houve?

Ela tentou responder, mas a voz falhou. Apenas balançou a cabeça, e as lágrimas vieram. Alana se sentou ao lado dela, o silêncio entre as duas era mais compreensivo que qualquer palavra.

— Safira me tratou como se eu fosse uma estranha... — sussurrou. — Sempre fomos próximas. Agora nem olha mais pra mim.

— Às vezes as pessoas mudam. — respondeu com a voz calma. — E a gente nem entende o motivo.

Brisa limpou as lágrimas com o dorso da mão.

— Eu só não quero ficar sozinha.

Alana respirou fundo, olhando o rio com um brilho triste.

— Preciso te contar uma coisa... — disse. — Minha mãe decidiu que eu vou pra São Paulo depois das férias.

Brisa arregalou os olhos.

— O quê?

— É. Vou ficar com uma prima dela. Ela tem filhos pequenos e precisa de ajuda. Em troca, vai pagar meus estudos, os cursos, tudo.

O silêncio caiu pesado entre as duas. Brisa apertou a mão da amiga.

— Você não pode me deixar aqui. — a voz saiu embargada. — Se você for... não vai sobrar ninguém.

Alana a abraçou forte com os olhos marejados.

— Eu vou ficar até o teu aniversário. Prometo. E talvez até o fim das férias. Mas depois... eu tenho que ir.

Brisa chorou baixinho, o rosto escondido no ombro da amiga.

Quando o sino da escola tocou, as duas se separaram devagar. Brisa caminhou até o barco, o corpo pesado, o coração ainda mais. O rio estava calmo. A água refletia o céu acinzentado.

Ela sentou-se na borda, observando o horizonte distante, onde o sol se escondia atrás das copas das árvores. Tudo o que queria era ir embora também. Ver o mundo. Ser livre.

Mas o peso da mãe, da solidão e do medo a prendia.

Sabia que se partisse, deixaria para trás a única pessoa que sempre lhe deu abrigo.

E enquanto o barco deslizava pelas águas, ela sentiu o rio chamá-la outra vez; um sussurro fundo, familiar, vindo das profundezas.

Brisa apertou os dedos na borda do barco com o olhar fixo na linha distante do horizonte. A voz do rio parecia misturar-se aos pensamentos que giravam em sua cabeça, um redemoinho de tudo o que estava perdendo; Alana indo embora, Safira afastando-se, a mãe cada vez mais cansada, e aquele sonho que agora já não parecia só um sonho.

O corpo ainda doía de um jeito estranho, como se algo dentro dela continuasse mudando, mesmo sem sua permissão. Às vezes, era uma dormência; em outras, uma sensação quente, viva, que subia pelos braços e deixava a pele formigar.

Ela não entendia o que estava acontecendo, e isso a deixava com raiva. Raiva de não poder controlar o próprio corpo, de não poder impedir que as pessoas partissem, de não poder escapar do rio que parecia segui-la até nos sonhos.

As águas batiam suavemente no casco do barco, e Brisa pensou em como o rio era bonito e cruel. Ele dava vida, mas também levava. Trazia alimento, mas escondia monstros. E, talvez, levasse embora tudo o que ela amava.

Uma lágrima escorreu, e ela não tentou conter.

Olhou para a imensidão da água e pensou que o rio a conhecia melhor do que qualquer pessoa. Conhecia suas alegrias, seus medos, suas perdas. E, no fundo, talvez fosse dele que ela tivesse vindo e para ele que um dia voltaria.

O sol descia devagar, tingindo o rio de dourado e cinza. Brisa respirou fundo, deixando o ar pesado encher o peito.

“O rio dá... mas o rio também tira.”