Bouina
4 CAPÍTULO 04
Amanheceu quente e úmido, como de costume na pequena vila ribeirinha. Alguns dias haviam se passado desde que o peso do sonho de Brisa se abateu sobre ela, e ainda assim, cada lembrança parecia fresca, gravada na pele e na mente. Hoje era o aniversário de Safira. Brisa se arrumou com cuidado, escolhendo o vestido que sua mãe havia guardado para ocasiões especiais: tecido azul profundo, leve, que ondulava com o vento e refletia sutilmente a luz do sol. Seus cabelos negros foram penteados em tranças soltas, que caíam sobre os ombros úmidos do frescor matinal, e sandálias simples, de couro marrom, completavam o visual.
O trajeto até a casa de Safira foi silencioso.
O barco, remado por um de seus vizinhos próximos, deslizava sobre o rio com o mesmo som familiar de remos cortando a água. Mas o coração de Brisa estava pesado; o reflexo do sol sobre as águas parecia ofuscante, quase agressivo, e cada sombra que se projetava na superfície parecia lembrar-lhe do escuro do rio em seu sonho. Parecia que o rio a assombrava, tanto quando estava acordada, quanto quando estava dormindo.
Por que agora, só agora, estava vendo coisas? Se perguntava. Estaria eu realmente maluca?
Chegou junto de Alana ao local, os barcos pararam quase que ao mesmo tempo à margem do rio. Sua amiga vestia um vestido leve lilás, cabelo preso em um coque improvisado e olhos brilhando de expectativa.
— Nossa, Brisa, você está linda! — disse, chegando perto da amiga sorrindo e apertando levemente seu braço.
Ela tentou sorrir de volta, mas o coração apertado não cedia. Safira estava lá, rodeada de parentes e amigos, rindo, cercada de cores e sons da festa. Mas entre ela e Brisa, existia um espaço gelado, uma barreira invisível, que para ela era difícil compreender.
O quintal da casa da avó estava vivo com cores e sons: bandeirolas de tecidos vermelhos, verdes e amarelos balançavam com o vento, e uma mesa longa, cuidadosamente arrumada, exibia toalhas de algodão estampadas com flores miúdas, que pareciam quase saltar sob a luz cinzenta do céu.
Nos bancos de madeira alinhados ao redor da mesa, familiares e amigos se acomodavam, alguns rangendo levemente sob o peso, outros ainda se equilibrando, tentando não sujar a roupa. O aroma do arroz com peixes defumados, do tacacá e dos bolos caseiros se misturava ao cheiro úmido do rio próximo, criando uma sensação única e quase palpável.
No centro da mesa, o bolo chamava atenção: camadas perfeitamente cobertas de glacê branco, flores de açúcar cuidadosamente distribuídas e pequenas velas coloridas esperando para serem acesas. Brisa observava cada detalhe, os olhos fixos na perfeição aparente do bolo, e por um instante sentiu uma pontada de desejo e dor: logo seria seu aniversário, e ela queria também uma festa. Mas sabia que sua mãe não permitiria; o pensamento apertou seu peito e deixou um gosto amargo na boca.
Mesmo assim, ficou sentada à mesa por quase toda a festa, tentando se misturar, sorrindo de leve quando alguém fazia uma piada ou tentava se aproximar. Sua mãe, Marina, ria com os parentes, distribuía pratos e conversava com conhecidos, e Brisa sentiu uma pontada de tristeza, percebendo que sua mãe também se divertia, mas que aquela alegria era distante, quase inalcançável para ela.
Alana tentou permanecer ao seu lado, mas logo se viu sendo puxada por outros colegas da escola, rindo, brincando e participando dos jogos improvisados no quintal. Brisa ficou sozinha por alguns minutos, observando o movimento, os rostos alegres e coloridos, e sentiu o peso da distância que existia entre ela e todos aqueles mundos: a festa, a família, Safira e tudo parecia um outro universo do qual ela não fazia mais parte.
A festa e o dia passaram rápido para ela. Quando se deu conta, já estavam no fim da tarde.
E cada gesto da prima parecia um lembrete cruel de como as coisas mudaram entre elas. Ela não conseguia deixar de notar a distância no olhar de Safira e a forma como desviava o olhar. O coração apertava, e o vestido azul parecia pesado como chumbo sobre seus ombros.
Alana percebeu a tristeza profunda nos olhos da amiga, o jeito em que ela se encolhia sobre si mesma, olhando fixamente para o reflexo do céu no rio. Aproximou-se devagar e tocou suavemente o braço de Brisa.
— Vamos caminhar um pouco? — sugeriu com a voz suave, quase implorando para que a amiga não permanecesse tão sozinha. — Você parece precisar de um pouco de ar.
Ela hesitou, olhando para as mãos de Alana, ainda tremendo levemente. Um suspiro escapou de seus lábios, e ela finalmente assentiu, levantando-se com cuidado. As duas começaram a andar pela margem, cada passo na terra úmida, sentindo o cheiro de lama e folhas molhadas, o som distante do rio se misturando ao bater de seus próprios corações.
— Quer brincar de desafio? Vamos? — perguntou Alana com um sorriso travesso iluminando seu rosto.
Brisa arqueou uma sobrancelha.
— Que tipo de desafio?
— Algo diferente. Mas lembra do que nossas mães dizem? — Alana olhou para o rio, depois para Brisa. — Tem que pedir licença antes de entrar na floresta ou tocar o rio. Até a água e as árvores precisam de respeito.
Brisa concordou silenciosamente, lembrando-se das palavras da própria mãe. Mas Alana insistiu:
— Você tem coragem de entrar sem pedir licença? — apontou em direção a mata.
— Minha mãe sempre disse que a floresta é viva, que cobra o preço se não pedirmos licença… Não podemos brincar assim, Alana.
Rindo baixo, com os cabelos negros presos em um rabo de cavalo que balançava a cada passo, Alana retrucou:
— Você ainda é uma menina boba e medrosa, sabia? Tudo isso não passa de uma lenda antiga que contam para nós assustar. — provocou, os olhos brilhando de diversão. — Se quer provar que é corajosa, a hora é agora.
Brisa franziu a testa com o coração acelerado.
— Não sei… E se acontecer alguma coisa?
— Aconteça o que acontecer, você vai sobreviver. — Alana deu um passo mais perto, pousando a mão no ombro de Brisa. — Olha, vamos fazer assim: cada uma entra e fica cinco minutos sozinha. Só cinco. Eu farei isso também. Vamos decidir quem irá primeiro no pedra, papel e tesoura. Tá bom?
Brisa assentiu, não sabendo ao certo se estava tomando uma boa decisão. Seu coração estava acelerando e algo dentro dela a alertava de que era uma péssima brincadeira.
Alana sorriu, colocou a mão atrás do corpo e fez a velha contagem com a voz curta e leve:
— Um, dois, três.— Brisa hesitou por um segundo, o coração batendo tão forte que parecia querer saltar da garganta, tentou pensar em qualquer outra coisa que não fossem as sombras da floresta. As mãos de ambas se abriram num movimento rápido.. Alana mostrou tesoura; Brisa mostrou papel.
Ela perdeu.
— Vai você — disse Alana, num misto de riso e desafio, recuando dois passos para dar espaço. — Cinco minutos, lembra? Eu conto.
Brisa respirou fundo, as costelas comprimindo o ar. Os olhos de Alana, gentis e marotos ao mesmo tempo, deram a ela uma coragem de sopro. Brisa ajeitou o vestido, colocou uma mecha de cabelo que lhe caíra no rosto atrás da orelha e caminhou para onde a sombra se adensava. O tronco molhado rangeu sob seus pés; por um instante o som pareceu alto demais.
— Eu volto logo! — murmurou, mais para si mesma do que para Alana. — São só cinco minutos.
Alana assentiu, com o dedo indicador no pulso, pronta para contar. Sentou-se na beira do caminho, o corpo ligeiramente curvado para frente, olhos fixos na entrada verde-escura da mata.
— Isso, menina valente. — Alana tentou incentivar, observando Brisa se afastar mais para dentro da sombra densa da floresta. — Eu estarei aqui do lado de fora, esperando você. Cinco minutos. Só cinco.
Brisa deu o primeiro passo e a floresta a recebeu como se prendesse o ar. A luz do dia pairava sob as folhas espessas; o cheiro de terra molhada e folhas podres enchia o nariz dela, misturado com um perfume antigo, algo que lembrava resina e água parada. A umidade grudava nas pernas do vestido, os sapatos de couro rangiam. Cada raiz que surgia para tropeçar seus pés parecia testar sua coragem.
Ela caminhou até um ponto que lhe parecia distante o suficiente para que Alana ainda pudesse vê-la, e então mergulhou mais fundo nas sombras. O som do rio foi diminuindo até ficar um rumor longínquo; o único som que restou foi o de seus próprios passos e, vez por outra, o estalo seco de um galho. O tempo ali dentro tinha uma espessura diferente: segundo e minuto arrastavam-se como se a floresta os puxasse.
O ar tornou-se mais denso. A luz filtrada pelas copas altas era insuficiente; cada sombra parecia se mover, e o som do rio, foi substituído por um silêncio pesado e expectante. De repente, um grito cortou a floresta, ecoando entre as árvores. Era o grito de um homem e logo depois o de uma mulher, após, ambos gritaram em conjunto, de maneira agonizante, tão alto que os pássaros saíram voando ao seu redor. Ela abraçou o próprio corpo, sentindo um arrepio agonizante dos pés à cabeça.
Ela correu, tentando alcançar o som, olhos arregalados, cabelo colado à testa de suor e orvalho.
— Quem está aí? Precisam de ajuda? — gritou, sua voz soando pequena e frágil diante da imensidão da floresta.
Mas não havia resposta, apenas o som de folhas sendo esmagadas por seus próprios passos e o vento uivando entre as árvores. Agora parecia que ela havia entrado mais fundo na mata e a luz do sol mal passava entre as folhas.
De repente, uma voz profunda surgiu, parecia sussurrar próximo de seus ouvidos, girando ao seu redor, o que a fez se sentir tonta, dando uma leve impressão de que também girava junto a voz:
— Mulheres de tua linhagem se tornarão Boiuna. Nas luas cheias, a partir das quinze voltas do grande sol, os primeiros sinais aparecerão.
Ela olhou para os lados com olhos atentos, procurando o dono da voz.
— Quem está aí? — a voz falhou num misto de medo e incredulidade. — Quem falou isso?
A floresta estava escura e densa, cada galho projetando sombras longas e tortuosas. Outra voz, mais distante, ecoou:
— Assim será. Que Tupã e Yby sejam testemunhas.
— Enterre-a na floresta! — a voz desta vez era diferente e repetia a mesma frase diversas vezes, cada vez mais forte, mais próximo.
Ela caiu de joelhos, o corpo trêmulo, e ouviu a voz de sua mãe ecoando incessantemente:
— Não quero me tornar Boiuna, não me tornarei isto… — Ela parecia chorar enquanto falava. — Eu darei-lhe o que quiser… em troca da minha liberdade.
Outras vozes começaram a se juntar, indistintas, repetindo palavras, lamentos, ordens e promessas, e Brisa se encolheu no chão, chorando, soluçando, incapaz de compreender ou controlar.
De repente, uma mão tocou seu ombro. Ela gritou, virando-se horrorizada. Era Alana, com olhos cheios de preocupação. Ela a abraçou, firme, e Brisa afundou o rosto no ombro da amiga, chorando como se nunca mais pudesse parar.
— O que houve? — perguntou Alana, firme e incrédula com a cena que via. — Por que demorou tanto para voltar? Por que está assim? O que houve?
Brisa, soluçando, perguntou entre lágrimas:
— Você não ouviu? Não percebeu? Está feliz em me pregar essa peça? Isso não foi bacana! Eu não quero mais te ver, Alana.
A amiga a segurou com firmeza, negando:
— Eu não fiz nada, Brisa! Eu só queria te distrair um pouco… Eu não sabia que te assustaria tanto!
Brisa ergueu o rosto, lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Você realmente não fez nada? — perguntou, a voz falhando.
— Não! — Alana confirmou, olhos marejados. — Mas você precisa de um tempo… esquecer a sua prima e todos esses problemas. Tudo isso mexeu demais com você.
Ela soltou um suspiro pesado, o corpo ainda trêmulo do medo. Apenas sorriu, fraco, e deixou que Alana a apoiasse, sentindo o toque firme da amiga no braço. Cada passo pela borda do rio era lento, quase como se o próprio chão tentasse segurá-la. O vento frio passava entre as árvores e espalhava o cheiro úmido da água; o rio à sua esquerda parecia observar, silencioso, sussurrando com ondas que pareciam conhecer todos os seus medos.
— Não estou me sentindo bem… — murmurou Brisa, a voz quase um fio de ar. — Acho melhor eu ir pra casa.
Alana franziu levemente a testa, mas não insistiu. Apenas segurou sua mão mais firme por um instante e disse:
— Tudo bem. Eu te entendo. Fique bem, amiga. Quer que eu te acompanhe até em casa?
— Não precisa. Eu realmente preciso de um tempo sozinha. Vou caminhando, se minha mãe perguntar, diga-lhe que fui pra casa e que não precisa se preocupar. O barco vou deixar pra ela voltar.
Alan assentiu e assistiu a amiga se afastando cada vez mais.
Brisa seguiu o caminho até em casa, sentindo à sensação estranha deixada pela floresta; cada passo parecia arrastar o peso de toda a experiência da noite: o medo, a raiva, a tristeza e a estranha sensação de que algo dentro dela já estava mudando.
O rio parecia a encantar, era como ouvi-lo sussurrar chamando por seu nome, mesmo à distância, enquanto andava ao lado dele, sentindo o frio penetrar nos ossos e o coração pesado com o que não podia compreender.
Ao chegar em casa, fechou a porta atrás de si, respirou fundo e deixou o vestido molhado escorregar pelo corpo, sentindo a pele estremecer com a mudança de temperatura. Colocou o pijama rápido, os dedos ainda trêmulos, e caminhou até a janela, observando o rio que parecia invisivelmente mais profundo e cheio de segredos, mais do que ela jamais poderia compreender.
— Talvez amanhã tudo seja diferente… — murmurou, sem realmente acreditar, antes de deitar-se na cama da mãe. O silêncio da casa parecia pesado demais, mas ali, finalmente, pôde fechar os olhos e tentar esquecer, pelo menos por algumas horas, as vozes e a floresta que ainda chamava seu nome.
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