Bouina
2 CAPÍTULO 02
O sol despontava preguiçoso sobre o Rio Negro, tingindo a água de tons dourados e bronze. O canto das aves se misturava ao som da correnteza, criando uma melodia que parecia dançar entre as folhas verdes da floresta. No meio daquela calmaria, Brisa, com seus quatorze anos, faltando pouco menos de um mês para completar quinze, mergulhava nas águas mornas do rio, rindo cada vez que a correnteza brincava com seus cabelos escuros.
À margem, alguns parentes e vizinhos ribeirinhos observavam a menina, conversando em voz baixa, balançando redes armadas entre os troncos das palmeiras ou encostados nas varandas das casas. Uma pequena ponte de madeira, simples e rústica, ligava a margem à área onde os barcos descansavam sobre a água ou eram presos às estacas, prontos para deslizar rio abaixo. As tábuas rangiam sob os pés de quem atravessava, e o cheiro úmido da madeira misturava-se à fumaça das fogueiras matinais.
As casas flutuantes ou suspensas sobre palafitas se espalhavam ao longo do rio. Cada construção parecia nascer do próprio ambiente: paredes de madeira de lei, cobertas com telhados de palha, janelas abertas para a brisa e varandas estreitas onde redes e utensílios domésticos conviviam lado a lado. Algumas casas tinham pequenas hortas suspensas em vasos improvisados, enquanto outras guardavam canoas amarradas logo abaixo, balançando suavemente com o fluxo da correnteza. O reflexo das palafitas e das palmeiras sobre a água criava imagens duplicadas, quase mágicas, que encantavam os olhos de quem passava.
— Brisa! — chamou Marina, sua mãe, da varanda de sua casa de madeira. — Vem logo, filha! Vai se atrasar para a escola!
— Já vou, mãe! — respondeu, espirrando água para todos os lados. — Só mais um minuto!
O rio pulsava como o coração daquela comunidade. Crianças corriam de um lado para o outro sobre a ponte e as palafitas, mulheres lavavam roupas nas margens e homens ajustavam redes ou barcos, todos fazendo parte de uma dança diária que parecia seguir o ritmo do próprio Rio Negro.
Ela saiu da água e subiu a margem enlameada, sentindo a madeira fria sob os pés descalços. Brisa tinha a pele parda, bronzeada pelo sol, e cabelos pretos, lisos e sedosos, que caíam até um pouco abaixo da cintura, ondulando suavemente nas pontas. Seus olhos amendoados, puxados, brilhavam com curiosidade, e o rosto delicado, em forma de coração, ainda carregava a doçura angelical da infância, embora seu corpo magro já começasse a ganhar formas que sinalizavam a chegada da adolescência.
O aroma do almoço já preenchia a casa: tambaqui assado na brasa, farofa de tucupi e banana-da-terra cozida.
Brisa se sentou com Marina à mesa, balançando as pernas sobre as tábuas da varanda, olhando para sua mãe com olhos atentos.
Sua mãe era uma mulher de beleza serena e natural, possuía a pele morena, bronzeada pelo sol, refletia saúde e vitalidade; os cabelos lisos, que caíam pouco abaixo dos ombros, brilhavam sob a luz da manhã. Os traços do rosto, redondo e harmonioso, traziam a força das origens indígenas, com um nariz levemente achatado e olhos castanhos amendoados que observavam a filha com cuidado e ternura.
— Mãe… — começou Brisa, mordendo a ponta de uma banana-da-terra — Safira falou que ia fazer uma festança quando fizesse quinze anos. Disse que a tia e a nossa avó já estavam planejando tudo.
Marina parou de comer, limpou as mãos no pano de prato e olhou para a filha com um olhar firme, carregado de cuidado e autoridade:
— Brisa, não vai se enfeitar com essas ideias da prima, não… — disse, com voz baixa, mas clara. — Sua tia e sua avó estavam apenas especulando se dá ou não pra fazer festa, e tu não tem nada a ver com isso.
Brisa desviou o olhar, um pouco desapontada, e continuou, com o coração batendo mais rápido.
— Mas… eu vou fazer quinze em alguns meses… eu também queria… queria uma festa, sabe? Chamaria uns colegas da escola…
Marina bateu o prato com força na mesinha de centro de madeira, fazendo a mesa ranger:
— Brisa! Para de sonhar com festa! — disse, com um tom que misturava cansaço e impaciência. — Tu nunca vai ter uma festa dessas. Tá pedindo demais.
Brisa engoliu a comida com um nó na garganta, sem saber o que responder. Silenciosa, levantou-se, deixou o prato meio cheio e foi para o quarto, sentindo o peso da frustração se misturar com o cheiro do rio que entrava pelas janelas abertas.
Ela trocou de roupa rapidamente, ajeitou o cabelo, e desceu até o pequeno barco ancorado à margem. O remo já esperava. Deu um último olhar de desapontamento para sua casa e entrou na embarcação. O rio a recebeu com o mesmo abraço tranquilo de sempre, levando-a para mais um dia de escola.
— Bom dia, Brisa! — disse Alana, sorrindo. — Preparada pra aula? Hoje o professor vai mostrar como fazer as redes de pesca na aula de artes!
— Bom dia! — respondeu rindo. — E você? Parece animada!
Enquanto deslizavam pelo afluente estreito, a conversa naturalmente se voltou para Safira, a prima de Brisa, que faria quinze anos em poucas semanas.
— Eu ouvi que Safira já está contando os dias! — comentou Brisa, batendo levemente os dedos na água. — Ela vai ganhar aquela pulseira artesanal da nossa avó, ela sempre da para todas as mulheres de nossa família… sabe, a que dizem que dá sorte.
— Sorte ou não, vai ficar linda em você também! Você está ansiosa pelo seu aniversário?
Brisa desviou o olhar para o rio, onde a luz do sol refletia como prata líquida sobre a água escura. Um arrepio leve percorreu sua espinha, mas ela riu, sacudindo a cabeça. Ainda faltava quase um mês para seus quinze anos, e por enquanto a vida era simples, alegre e cheia de pequenas aventuras à beira do rio.
O barco deslizava suavemente, ladeado por pequenos igarapés onde a água refletia a copa das árvores e o céu azul. Ao longe, o murmúrio da floresta parecia sussurrar segredos antigos, mas Brisa ainda não podia imaginar o quanto aqueles segredos a tocariam em breve.
Chegando à escola, o cheiro de terra molhada se misturava ao som de risadas e passos correndo entre as árvores. As crianças corriam descalças, jogando pedrinhas na lama, enquanto os mais velhos se reuniam perto do barracão de madeira onde aconteciam as aulas.
Brisa e Alana se sentaram lado a lado num dos bancos compridos, animadas com a aula prática de redes de pesca que o professor prometera.
— Eu aposto que a minha rede vai ficar melhor que a tua! — provocou Alana, rindo.
— Duvido muito! — respondeu empurrando de leve a amiga com o ombro.
Foi então que Safira se aproximou. Estava mais calada que de costume, os cabelos presos de qualquer jeito e o olhar distante. Brisa, querendo puxar assunto, sorriu:
— Safira! E aí, eu tava pensando… sobre a tua festa. Vai ser no terreno da tia, né? Vai ter música?
Safira parou por um instante, os olhos fixos em Brisa. A expressão dela endureceu.
— Para de falar de festa, Brisa! — respondeu num tom frio, quase cortante. — Não vai ter mais nada. Eu não tô nesse clima.
Brisa abriu a boca para retrucar, mas algo a fez congelar: por um breve instante, os olhos de Safira pareceram mudar de cor, assumindo um amarelo intenso, quase brilhante, como o reflexo da lua sobre a água escura. O coração de Brisa acelerou, e ela deu um pequeno passo para trás, engolindo em seco.
“Eu tô ficando maluca?”, pensou, tentando disfarçar o susto.
— Tá… tudo bem — disse, forçando um sorriso. — Mas também não precisa ser grossa, né?
Safira desviou o olhar, apertando os braços contra o corpo como se quisesse se proteger de algo invisível.
— Eu não tô bem pra ficar aqui. — murmurou, virando as costas e saindo em passos firmes, desaparecendo entre os corredores improvisados de madeira.
Brisa ficou parada, com Alana ao lado, tentando fingir normalidade. Mas no fundo, um arrepio frio percorreu sua espinha. Aqueles olhos… não era impressão. Era real.
— O que foi aquilo? — Alana perguntou, arqueando uma sobrancelha curiosa.
— Não sei… — Brisa respondeu, ainda um pouco distraída, pensando se Alana se referia ao jeito estranho de sua prima, ou aos olhos que mudaram de cor. — A Safira sempre foi a mais animada. Desde pequenas, a gente sonhava com a festa de quinze anos e pra ela desistir assim, do nada… alguma coisa deve ter acontecido. Mas… você viu os olhos dela?
Alana soltou uma risadinha debochada, balançando os cabelos castanhos.
— Ai, Brisa, não é nada demais. Aposto que é amor. — Ela fez uma expressão dramática, colocando a mão no peito. — Deve estar apaixonada por algum garoto. O amor deixa as pessoas assim, todas estranhas e de cara fechada… E sobre os olhos dela.. é o olhar de desilusão. Aposto que levou um fora.
Brisa por um instante tentou se convencer de que estava vendo coisas.
— Alana! Para com essas bobagens! Você sabe muito bem que minha mãe e a tia não deixam a gente ter “namorico” ainda.
— Ah, eu sei. — respondeu rindo ainda mais. — Mas isso nunca impediu ninguém de suspirar escondido… ou de dar uns beijinhos.
Brisa revirou os olhos, tentando disfarçar o rubor que insistia em colorir seu rosto. No fundo, não conseguia tirar da cabeça o brilho amarelo intenso que vira nos olhos da prima, algo definitivamente não estava normal.
Antes que Alana pudesse fazer mais piadinhas, uma voz firme ecoou pelo pátio.
— Crianças! Vamos lá, todos para a beira do igarapé! — disse o professor Raul, professor de artesanato, que vestia calças largas e camisa xadrez, batendo palmas para chamar a atenção da turma. O som das risadas e conversas dispersas foi aos poucos se silenciando, substituído pelo barulho de passos na terra úmida.
Brisa e Alana pegaram suas redes e caminharam lado a lado. O ar fresco da manhã trazia o perfume da mata molhada, e o céu, ainda cinzento, refletia na água calma como um espelho quebrado por leves ondulações.
— Depois a gente fala disso! — sussurrou Alana, ainda sorrindo maliciosamente.
— Não vai ter “disso” nenhum. — retrucou Brisa, fingindo irritação enquanto ajeitava a rede no ombro.
Apesar do esforço para se concentrar na atividade, a mente de Brisa vagava. Safira nunca tinha se afastado assim. Desde pequenas, faziam tudo juntas: subiam nas árvores, ajudavam na pesca e planejavam cada detalhe das festas que ainda viriam. Algo estava errado e ela sentia isso.
Quando a noite caiu silenciosa, envolvendo a pequena vila em um manto úmido e prateado. Brisa apoiou os cotovelos no parapeito da janela de madeira, observando a paisagem com os olhos meio perdidos. A lua cheia refletia-se no rio como um espelho encantado, espalhando feixes prateados que dançavam sobre a correnteza lenta.
Por um instante, ela sentiu… algo.
Não era um som comum. Não havia vozes, mas era como se o rio a chamasse; não com palavras, e sim com um sussurro que vibrava por dentro da pele. A brisa noturna trouxe um canto suave, quase imperceptível, que fazia seu coração bater devagar, como embalado por uma força antiga. Era hipnótico. Brisa teve a impressão de sentir a água fria deslizando por seus braços, mesmo sem ter saído do quarto.
De repente, um som seco — o estalar de um remo cortando a água — quebrou a conexão. Ela piscou, ofegante, e viu ao longe o pequeno barco de sua tia que remava rapidamente. Dentro dele estavam também a sua avó Solange e Safira enrolada em uma manta cinza espessa, mesmo com o calor abafado da noite.
Os olhos de Brisa se fixaram na prima e por um segundo que parecia eterno, teve a sensação de que Safira a encarava diretamente nos olhos, mesmo àquela distância. Um brilho amarelo intenso tomou os olhos da prima, como o reflexo de um fogo invisível. O estômago de Brisa se contraiu. Sem pensar, ela se abaixou sob a janela, encostando as costas na parede de madeira fria sentindo seu coração bater descompassado, como se tentasse sair pela boca.
— O que foi isso? — sussurrou para si mesma, sentindo um arrepio percorrer-lhe a espinha.
Uma tontura repentina a dominou. O mundo pareceu girar, e um gosto amargo subiu à garganta. Ela tentou correr para fora do quarto, mas sem conseguir, vomitou entre uma crise de tosse. Nesse instante, a porta se abriu com força.
— Filha?! — a voz de Marina cortou o ar. A mãe correu até ela, os olhos arregalados. — Menina, o que aconteceu?
Brisa limpou a boca com as costas da mão, pálida, o corpo ainda trêmulo.
Ela queria explicar, mas nem sabia por onde começar.
— Brisa?! — Marina segurou os ombros da filha, preocupada. — Me diz o que houve, menina… você tá branca que nem cera!
Brisa respirou fundo, tentando firmar os pés no chão de madeira. O quarto girava devagar, como se ainda houvesse um eco daquela força estranha dentro dela.
— Eu… — começou, mas a voz saiu fraca, trêmula.
Os olhos dela vagaram para o nada, fixando-se num ponto qualquer da parede, como se estivesse longe dali. O coração ainda batia acelerado, porém a língua parecia presa.
— Não foi nada, mãe… só… tontura. — murmurou, quase automática.
Marina franziu a testa, desconfiada.
— Tontura, é? Tá se alimentando direito? — Ela ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha da filha e a fez sentar na beirada da cama. — Eu já disse que esses banhos de rio de manhã cedo ainda vão te dar uma friagem.
Brisa apenas assentiu, os olhos ainda meio perdidos, como se parte dela tivesse ficado lá fora, junto ao reflexo prateado da lua.
Marina suspirou e saiu para buscar um pano úmido. Sozinha novamente, Brisa abraçou os próprios joelhos e fitou a janela entreaberta. O luar ainda entrava por ela, suave e silencioso, por um segundo, jurou ouvir novamente aquele canto distante, sussurrando pelas frestas.
Marina voltou com um pano úmido e se agachou diante da filha, limpando com cuidado os cantos da boca dela. Brisa permaneceu imóvel, os olhos ainda dispersos.
A mãe a observava em silêncio, por tempo demais. O olhar, antes apenas preocupado, agora se tornará atento, quase como se procurasse algo escondido no rosto da filha.
— Brisa… — disse em tom baixo, quase cauteloso. — Me diz uma coisa… você viu alguma coisa lá fora?
Brisa ergueu o olhar devagar. O coração acelerou outra vez.
— Viu, ou sentiu, alguma coisa diferente? — insistiu Marina, inclinando-se um pouco mais, como quem sonda cada reação e por um instante, Brisa teve a sensação estranha de que a mãe escondia algo. Que aquele tom não era simples curiosidade, mas de medo disfarçado.
— Não, mãe, não vi nada. Foi só tontura. Vai ficar tudo bem.
Marina manteve o olhar desconfiado por alguns segundos, antes de suspirar.
— Espero que sim… — murmurou, mais para si mesma do que para a filha.
Ela ajeitou o pano na bacia e se levantou, e com uma calma prática, limpou o chão com cuidado. Enxugou as mãos no avental já gasto, lançando um último olhar demorado para Brisa antes de apagar a lamparina e sair. A menina ficou sozinha no escuro, sentindo que as perguntas da mãe escondiam algo maior, algo que ninguém queria lhe contar.
Encostada na parede fria, abraçou os joelhos e deixou a mente vagar. A imagem do rio iluminado pela lua voltou com força e aquele canto silencioso, aquele chamado sem palavras… Era como se a água tivesse vida própria, como se a chamasse de volta para algo que ela não compreendia.
E então, a cena no barco se impôs em sua memória: Safira, encolhida sob a manta cinza, os olhos queimando num amarelo intenso, quase sobrenatural.
“Por que ela estava enrolada daquele jeito?”, pensou sentindo um arrepio subir pela espinha. “E por que… os olhos dela brilharam assim? Como fogo?”
Ela fechou os olhos, tentando encontrar respostas, mas só encontrou silêncio e a sensação incômoda de que, a partir daquela noite, nada seria igual.
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