Borrões
1 Carta 1
Sempre apeteceu-me permanecer horas escutando as mais loucas elocuções. As palavras são fascinantes, capazes de nos transportar para novos horizontes. Jamais precisei pisar em um avião para conhecer tantos lugares, isso coube aos vôos da minha imaginação. A única viagem cujo o auxilo das palavras não foi o suficiente, foi a viagem na qual procurei desvendar você em toda sua profundidade.
Me questiono se o nosso vocabulário é suficiente para traduzir a complexidade pertencente a alguém e opto por não me limitar. De certa forma, a subjetividade me fascina também. Tudo aquilo que se expressa sem necessidade, com toda a intensidade e se interpreta sem pudor no âmago de cada ser. De diferentes maneiras, para quais não são impostas barreiras. Foi assim entre nós.
Se me fosse permitido, faria com que aquele domingo se repetisse até que a vida se esvaísse de meu corpo mirrado. Graças a qualquer força maior, isso não é possível. Seria uma vida um tanto quanto medíocre se a ela fosse concebida uma experiência só. Afinal, o que nos impulsiona para o aprendizado? Os conselhos, cheios de palavras, são capazes de afagar o coração, mas a chama só se acende e a dor só se cura diante de uma decisão e suas respectivas consequências.
Tolice é pensar que somos livres. Enquanto vivermos sob condição humana, somos e sempre seremos escravos. Escravos da nossa própria liberdade. E um dia, minha liberdade me levou até você. Me levou até o mais alto dos penhascos de onde minha alma resolveu saltar. Seria pedir demais, se o indagasse para salvá-la?
Dorathy Fontes, 15 de julho
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