Borrões
2 Carta 2
Peço-te para salvar-me pois já não posso mais aguentar o frio que acaricia meu rosto nessa queda tão lenta. Por que há de ser sempre assim? Queria eu ser corajosa o suficiente para colidir com aquele chão que aguarda ansioso a chegada de minha alma, para transportar-la a algum outro mundo. Já não temo mais o desconhecido, pois tudo que eu havia de temer, era perder você. Mas de fato há algo que me impede de atender a porta para a morte, são teus cigarros no cinzeiro. E tuas camisetas que ficaram por aqui e queimam minhas narinas, liberando no ar teu cheiro que agora, é arma para me sufocar. É, meu bem, ainda me seguro nos braços da esperança.
Naquele primeiro dia, eu era uma ovelha que implorava a ti, a oportunidade de compartilhar com você o calor de minha lã. Lembro com clareza dos teus olhos calmos e cansados, já um tanto entorpecidos pela substância que queimava no papel de seda, me prendi a eles quase que como uma criança se prende a seu primeiro pirulito. Você, nem de muito perto, poderia acompanhar todas as coisas que se passavam pela minha mente perturbada naquele momento. Todos os planos que já havia feito para nós. Mas eu me enganei, talvez tenha sido até um pouco prepotente e pude perceber isso no exato momento em que você se afastou daquela árvore centenária e de teus amigos babacas para ajeitar as madeixas de meu cabelo, permitindo que se soltassem dos meus lábios. A tua voz soou como o pandeiro que agita as morenas no samba, ela animou cada pedacinho meu.
-Tu és tão afoita. -Teu toque frio se tornou neutro em contato com minhas bochechas já coradas e quentes, desde ali o desejo de que tu me tocasses era praticamente incontrolável. Queria você. Queria que pegasse minha mão mais vezes e me tirasse daqueles lugares comuns. Queria te conhecer, te tirar o fôlego com beijos. No fim daquela tarde fresca conclui que era quase injusto almas terem tanto em comum. E eu sabia que aquilo só aconteceria uma vez na minha vida. Sim, querido, eu era afoita. Afoita por amor.
Fiquei apreensiva de não mais te encontrar, não tínhamos trocado telefone ou coisa parecida. Tomamos todo nosso tempo com brincadeiras bobas, olhares e conversas eternizadas em minha memória. E pra falar a verdade, eu nem queria ir pra'quela festa. Já estava me cansando daquele cheiro de erva e das pessoas caindo no chão após longas bebedeiras. Eu precisava de algo menos vazio, mais real. Hoje penso que foi exatamente isso que me levou até lá. Mas não acho que seja uma boa hora para continuar lhe contando tudo o que senti naquele dia. Para continuar lhe mostrando o meu ponto de vista sobre toda a nossa história. Já é tarde e ainda há muito sorvete, muitas lágrimas e comédias românticas pr'eu enfrentar. Eu amo você, com todo meu coração.
Eternamente sua,
Dorathy.
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