Notas iniciais
CHEGUEI!!! Depois de 84 anos eu estou aqui com um NOVO capítulo de Exile. Eu peço desculpas pelo sumiço. Eu precisei engavetar essa história por um tempo. Ela não estava fluindo do jeitinho que eu gosto, eu estava sentindo falta da participação dos leitores e eu acabei me dedicando a outros trabalhos. Foi ótimo, sabe? Prefiro me afastar de um texto a escrever algo por escrever e perder a essência. Esse ano eu me joguei nos estudos e no trabalho. No tempo livre eu trabalhei nos vídeos do meu canal (Hey, Mates - https://www.youtube.com/channel/UCxvszz9V_YrqhuYBV_MYWHQ) e nos meus livros (você pode saber mais sobre meus trabalhos no meu twitter e instagram @ImBarbaraHerdy). Escrevi alguns capítulos de Exile e planejei os caminhos para o ÚLTIMO LIVRO da nossa trilogia. Sobre isso falarei no último capítulo de Exile que, eu pretendo e torço, sairá mais rápido do o retorno do RBD. Hoje, eu deixo vocês com o capítulo HIPERMEGABLASTER da nossa trilogia onde descobriremos como Riddle Rand morreu. Aconselho a leitura do capítulo anterior para refrescar a memória :) Por fim, eu quero agradecer aos novos leitores (e aos antigos). Batemos 17k de leituras e isso é tudo graças a vocês e a paixão que vocês desenvolvem por essa história. Obrigada por tudo :) Bom capítulo!

O traço do rosto de papai era anguloso, e eu sempre errava quando tentava replicar o a lapidação da sua bochecha. Parecia redondo demais quando aos meus olhos era só um pouco elevado. Por outro lado, consegui desenhar com perfeição a cabeça inclinada de mamãe dormindo tranquilamente sobre o ombro dele.Brincava com a pedra amarela presa no cordão de couro com um sorriso bobo olhando para eles, aninhados e apaixonados.

— Os olhos estão iguais — Danny sussurrou sonolento.

— Acordou, pestinha? — impliquei, repousando o caderno na bandeja.

— Eu não consigo dormir. — Ele coçou os olhos, inclinando o corpo para ver o desenho. — Esse está tão bonito. Você deveria colocar ele naquele concurso.

— Não. Eu já escolhi o desenho do concurso. — Ele levantou os olhos curioso e sorri, movendo as páginas até encontrar a replica do retrato de nossa família sob os meus traços. Papai e mamãe em pé, abraçados e sorrindo. Eu e Danny no chão, próximos e rindo. — Eu quero colocar esse.

— Você acha que consegue ganhar com ele?

— Não ligo de ganhar. Só quero competir com algo que me dê orgulho. — Apertei a bochecha dele, rindo. — E vocês me dão orgulho.

— Você é tão piegas. — Ele abafou uma risada, mas não distanciou com seus olhos fechando um pouquinho. — Está mais frio agora, não é?

Conferi no monitor onde nós estávamos cruzando. Os picos do Himalaia aproximavam-se vagarosamente.

— Vamos passar em alguns minutos sobre o Himalaia. Isso deve estar afetando a temperatura — expliquei, guardando meu caderno e fechando a bandeja. Soltei o cinto e passei por Danny, seguindo pelo corredor.

— Riddle? — Mamãe chamou a minha atenção em um sussurro.

— Vou pegar outro cobertor para o Danny.

Mamãe parecia um tanto perdida em sua mente e aconchegou um pouco mais nos braços de papai. Prossegui passando pela aeromoça e o atendente conversando. Na próxima curva encontrei os cobertores na última prateleira. Me estiquei e não alcancei. Prendi meu pé na prateleira e dei impulso com as mãos subindo a outra prateleira e alcançando o cobertor. Não tinha pose para descer, então saltei, caindo sobre os meus dois pés. As aulas de escalagem na educação física me serviram. Abracei o cobertor e uma quentura me dominou e não era preenchida pelo algodão fofo, e sim, sobre meu peito. Encontrei a pedra amarela brilhando e pulsando vivamente. Eu só a vi fazendo isso uma vez, quando a toquei pela primeira vez.

— Mamãe? — Estranhei aquilo, caminhando para retornar ao meu lugar.

A aeromoça e o atendente se aproximaram e eu escondi a pedra na minha mão, dispensando eles. Mamãe já estava de pé quando a alcancei e papai acordava. Soltei a pedra e o seu brilho intensificou.

— O que está acontecendo? Wendell! — Ela chamou papai em alerta, ele soltou o cinto e aproximou-se de mim agachando-se e admirando a pedra com um olhar assombrado.

— Como você se sente? — Ele me perguntou segurando meu rosto. Danny me olhava curioso.

— Um pouco tonta.

— Deve ser por causa da viagem. — Mamãe não pareceu muito crente em suas palavras. Ela trocou um olhar com papai e ele assentiu. — Volte a dormir, meu amor.

Papai beijou minha testa e mamãe me acompanhou até o lugar. Guardei a pedra dentro do casaco e sentei, fechando o cinto. Cobri a mim e a meu irmão, ele agarrou meu braço como ele fazia nas noites de pesadelo. Mamãe nos aconchegou e apagou a luz da minha cabine. Ela ia fechar a janela, mas eu gostava de ver o céu noturno e ela respeitou meu gosto. Acarinhou me rosto e o avião deu uma sacolejada pesada.

— É só uma turbulência, queridos.

Ela nos tranquilizou, deixando um beijo no rosto de meu irmão e acariciando o seu rosto.
Outra sacolejada e a luz para colocar os cintos acenderam. Papai chamou por ela em alerta e ela se virou a tempo de ver a aeromoça e o atendente sentando em seus lugares aterrorizados e prenderem o cinto e ela indicou para a passageira fazer o mesmo. Danny chamou por mim assustado e apontou para a janela. Através dela a massa de nuvem misturava densamente com uma menos fina e mais escura. Tentei identificar o que aquilo parecia e antes que conseguisse um estouro tornou a asa do nosso lado devorada por chamas.

Gritamos e escutamos um baque a frente. O avião embicou e mamãe se agarrou nas poltronas tentando se segurar nos encostos. Tentei me soltar, mas mamãe gritou para não fazer isso. Minha mão não soltou o cinto e senti Danny entrelaçar meus dedos.

— Ela não vai fazer nada errado! — Danny berrou apavorado.

Mamãe não nos ouviu. Ela sorriu com os olhos cheios de lágrimas e aproximou-se de nós, agora separados por uma fileira de poltronas. Papai se soltou e começou a caminhar em seu alcance, gritando para ela manter-se segura. Nós pedíamos para eles se segurararem.

Um novo estouro irrompeu nossos ouvidos e a parte da frente desapareceu em um estalo carregando a aeromoça e o atendente e mais a frente o piloto e co piloto. Agora havia apenas fumaça, fogo e frio. Olhei para mamãe e senti seus olhos sobre mim marejados. Seus lábios moveram em um Eu Te Amo e senti Danny segurar-se apertado a mim. Nossa fileira começou a sacudir violentamente. Papai segurou a mão de nossa mãe e eles se olharam uma última vez antes de serem tragados pela violência do vento e desaparecendo na neblina.

Olhei para Danny e a neblina embaçava minha visão, senti seus olhos sobre mim e nos abraçamos. Sentimos o banco ser elevado e arrancado do chão e atravessar o que pareceu o frio e o fim mais longo. Eu só queria que vivêssemos... Eu só queria que tivemos uma nova chance.


Acordei.
Eu estava deitada encarando o teto branco e liso. O cheiro de madeira era forte e o frio Norueguês crepitava por baixo da janela fechada e encoberta pelas cortinas pesadas.

Eu tive uma nova chance. Meu irmão, nem tanto. Nem meus pais. Seus corpos nunca foram encontrados. Eu, por outro lado, fui encontrada por uma equipe do meu agora, tutor. O despertador tocou e encarei as luzes vermelhas dando um soquinho para o som parar. Cinco da manhã. Era um domingo de junho de 1992. Fazia um ano e três meses do acidente que matou minha família e minha nova vida começou.

Era regrada. Acordava as cinco. Tomava banho frio por alguns minutos. Me vestia com um dos vestidos comprados pelo Senhor Zemo. O de hoje era um azul com gola branca triangular. Sobre o tecido deixei o cordão com a pedra amarela destacar-se, mas ela não brilhava, a muito tempo. Prendi meus cabelos em um rabo de cavalo e me perdi nos meus olhos, tão azuis como de papai. O sorriso era reprimido e fofo como o de mamãe. Os meus cabelos loiros enrolando nas pontas eram iguais a rebeldia dos cabelos de meu irmão. Eu amo vocês, sussurrei para seus espectros marcados em mim.

Calcei os sapatos e conferi cada aspecto no espelho de pé. Eu estava de acordo com o esperado pelo Senhor Helmut. Peguei minha bolsa de ombro, encontrando o material das aulas do dia: livro de inglês e francês. Livro de geografia, sociologia, filosofia, Crime & Castigo era a leitura da aula de literatura e o material da aula de alemão, todos eles em alemão. Meu fichário também estava guardado com as canetas e lápis. Tudo perfeito. Segui pontualmente. Ao lado da minha porta um dos soldados bateu continência para mim. Hail, Hydra. Assenti e tranquei a porta. O soldado me acompanhou a certa distância em silêncio. Sentia falta de James. Ele estaria implicando com o meu rabo de cavalo a essa altura.

O longo corredor terminava em uma escadaria. Desci calmamente, notando a paz reinar na mansão. O Senhor Zemo deveria estar nas instalações a trabalho. Os poucos soldados em serviço estavam concentrados em sua tarefa: guardar a mansão e proteger a segurança do filho do Barão e de sua enteada, eu.

Segui para a sala de refeições. A mesa comprida estava tomada por comida de ponta a ponta, como em toda manhã. Repousei minha bolsa na poltrona ao lado da lareira e segui até os pratos, pegando o meu e me servindo. Não demorou para eu não estar mais sozinha.

— Você está atrasado — sussurrei em alemão, trocando um olhar cúmplice com Helmut.

— Eu não conto se você não contar — ele rebateu parando ao meu lado e pegando um cacho de uvas. Me olhou por alguns instantes até seus olhos encontrarem os meus lábios e ele abaixar o rosto com as bochechas coradas. Seu olhar encontrou os soldados na porta e em um sinal, eles fecharam a porta. Era assim todos os dias. Nós tínhamos pouca privacidade, mas quando a conseguimos nós a aproveitávamos como podíamos. — Você tem tempo livre hoje?

— Hoje eu tenho o dia cheio.— Peguei dois croassaints, a minha quantidade diária e segui para os frios. Ele deveria saber disso. Ao menos, eu sabia que o dia dele era bem parecido com o meu. — Só fico livre depois do jantar.

— Eu queria te mostrar uma coisa — ele confidenciou e eu o olhei curiosa sentindo uma quentura em meu rosto. — É segredo.

— Seu pai não vai permitir que saiamos em dia de semana. — Afastei tal proposta antes de gostar dela.

— Se não formos hoje, amanhã eu não sei se estará lá. — Ele levantou a cabeça, pegando dois croassaints e um bolinho. Mordisquei meus lábios, pegando algumas fatias enroladas de queijo. — Vamos, Rid. Eu te garanto: papai estará ocupado essa noite.

— Como você sabe disso? — ponderei, repousando meu prato no meu lugar cativo.

— Eu o ouvi conversando com um dos Generais. — Helmut disse cheio de si. — Ele vai visitar uma das instalações a Noroeste.

— E se você sabe disso, é porque estava planejando essa surpresa. — Sorri, mesmo que minhas bochechas quentes declarassem minhas emoções afervoradas. Helmut repousou seu prato ao meu lado e abaixou sua cabeça em um aceno. — Você gosta de mim.

— Papai nunca deveria ter te colocado naquelas aulas de espionagem — Ele não conteve um sorriso, negando com a cabeça.

— Você precisa confessar, eu sou muito boa em descobrir as intenções das pessoas — disse pomposa.

— É da sua natureza. — Ele estava diante de mim, deixando sua mão pesar do lado de meu corpo e seus dedos tocaram singelamente os meus. — Eu queria ser capaz de descobrir o que pensam de mim.

— Não é difícil. — Entrelacei nossos dedos e ele comprimiu um sorriso arrastando um pé, encurtando o espaço entre nós. — Está no modo que a pessoa te olha, no jeito que as suas mãos se comportam em repouso quando a pessoa falava, como o corpo reage a sua presença.

— E todas as minhas reações te apontam que eu gosto de você? — Ele abaixou a cabeça para ficar próximo a meu rosto.

— Não, eu tenho minhas duvidas, mas você perguntar isso me mostra que eu tenho razão em minha dedução. — Ele aproximou seu rosto do meu e eu senti o ar escapar dos meus lábios.

O som da porta crepitou pesadamente e nos afastamos em um átimo, cada um sentando em seu lugar e mantendo os nossos olhares distante.

Senhor Helmut entrou na sala de refeições vestindo seu uniforme de comandante da HYDRA e parou, aguardando nós levantarmos, o que fizemos prontamente, batendo continência a ele. Ele seguiu até seu lugar na ponta da mesa, enquanto um dos seus soldados preparava o seu prato de comida. Mantivemos em silêncio, esperando ele para começar a comer.

Com seu prato servido o outro soldado experimentou tudo que fui posto para ele e após alguns segundos, o Senhor levantou a sua xícara de suco, liberando que começássemos a tomar café.

O fizemos em silêncio, na maior parte do tempo, os poucos momentos que ele dirigiu a palavra a nós foi para saber o que nos faríamos naquele dia e assim que terminou de comer, nós também paramos e prosseguimos atrás dele com nossas bolsas.
Ele deixou a mansão acompanhado dos seus soldados com um grupo deles a sua espera do lado de fora e nós prosseguimos acompanhados dos nossos soldados a poucos passos atrás de nós.

— Então, você vai se encontrar comigo? — Ele sussurrou sem me deferir um olhar.

— Eu vou estar no lugar de sempre.

Respondi em um suspiro e virei a esquerda, seguindo para a minha sala de estudos e Helmut seguiu para a direita, para as suas aulas do dia. O meu coração acelerado ansiava pela noite.

O dia se arrastou. O meu tutor era didático e um amante da disciplina. Eu não podia bocejar que ele batia a régua contra o quadro. O meu alemão aprimorava muito bem por conta das aulas, mas as vezes, eu me pegava sentindo falta da simplicidade da gramática inglesa. O almoço foi solitário. Helmut deve ter ficado preso em alguma atividade. Acabei comendo sozinha naquela sala grande demais para uma pessoa.

Desgastei as calorias caminhando até o Centro de Treinamento arrastando meus pés sobre a neve fofinha, aquecida em meu sobretudo com o chapéu protegendo o topo de minha cabeça. Após alguns minutos, cheguei ao centro e encontrei ele abarrotado de treinadores ensinando soldados novatos e os antigos treinando pesadamente em equipamentos, lutando entre si e alguns seguindo para a área de tiro com o instrutor. Segui para o vestuário e passei o código do meu armário, abrindo em um estalo. Guardei minha bolsa e peguei meu uniforme de treino. Vesti a roupa preta com o símbolo da HYDRA em vermelho no meu braço.

O meu instrutor era Bennet. Um homem nos seus quarenta anos que falava um russo enrolado e um alemão grosseiro. Ele estava me treinando nesses dias, por conta da ausência de James. Ele estava em missão nos Estados Unidos e eu não tinha ideia de quando ele voltaria, mas torcia para que fosse logo ou eu congelaria de ter que correr 20 quilometros no gelo. O treino no tatame era uma mistura de golpes, defesa e ataque com armas brancas. Bennet era bom com golpes, mas a defesa dele era fraca. Eu não sentia que evoluía sendo instruída por ele. Ou esse era o meu jeito de me alertar que sentia falta de James.

Peguei um pouco de peso e segui para a sala de mira, treinando com as facas. Eu não era autorizada a mexer com armas.

Troquei o uniforme pelas roupas mais leves. A sala de treino de dança ficava no subsolo e era pouco frequentado pelos soldados, aquele lugar foi montado especialmente para mim. O Senhor Zemo queria que eu fosse disciplinada e o balé é o melhor professor. E eu gostava. Com a chegada recente das agentes do KGB para treinar com a equipe da HYDRA, eu dividia o meu espaço com mulheres altas, esguias e lindas com seus olhares mortíferos sobre mim. Menos uma.

— Oi, pequena — disse Natalia em russo, passando por trás de mim com sua roupa de treino e os cabelos ruivos curtos preso em um coque. — Quer uma parceira?

— Por favor!

Eu pedi animada. Iniciamos com um aquecimento só para soltar os músculos. Começamos uma série básica de saltos e rodopios e prosseguimos com uma interpretação de uma cena de Cisne Negro. Ali, eu me encontrava comigo mesma e me perdia no tempo. Ao ponto de sobressaltar ao escutar uma salva de palmas. Parei e encontrei James na entrada da sala com os cabelos despenteados e oleosos. Sem um trisco em seu rosto, ele vestia o seu uniforme negro que reluzia seu braço metálico com a estrela em vermelho vivo. Natalia estava ao seu lado com um sorriso indescritível para mim.

— Eu disse. — Ela olhou para James e seguiu para fora, acenando para mim. — Eu estarei no tatame.

James assentiu as suas palavras e eu corri até ele, abraçando-o.

— É tão bom tê-lo de volta — sussurrei, olhando-o com um sorriso frouxo. — Como foi a missão?

— Você sabe que não falamos sobre os meus trabalhos.

— Só queria saber se foi tudo bem.

— Eu estou aqui. Então sim. — Ele assentiu e bateu a mão no topo de minha cabeça. — Como tem sido seus dias?

— Estudando, treinando, tentando ficar bem aos olhos do Barão — sussurrei e James me olhou de soslaio levando o indicador aos lábios. — Tem sido dias difíceis.

— Eu imagino, mas eles terminarão. — Olhei para ele cheia de esperança. — Estamos mais perto de conseguir o que queremos.

— Quanto tempo? — sussurrei, seguindo para longe da entrada para caminharmos em torno da pista de dança, assim disfarçando caso alguém desconfiasse de nossa conversa.

— Metade do que esperávamos. — Duas semanas? Seria possível? — Por isso, continue o que você está fazendo. Está dando certo. Prepare aos poucos o que você levará. Em alguns dias eu vou conseguir os documentos com um informante da Nat e aí lhe darei novas instruções.

— Eu não acredito. — Sorri emocionada. — Nós vamos conseguir.

Deixar esse lugar. Começar uma vida em um lugar distante das guerras da HYDRA. Da sua perversidade. Do seu mal buscando alastrar em nós. O Barão nunca escondeu o que a HYDRA fazia, mas aos seus olhos, distorcidos, ele via o que fazia como uma benfeitoria, ele se achava um herói quando era um monstro. Só precisaria suportar mais alguns dias. Fingir que era a enteada submissa e cativa do Barão, uma seguidora fiel dos seus costumes horripilantes, uma soldado em desenvolvimento, a portadora da joia, o seu legado. Mas, então, Helmut veio em minha memória e os meus sentimentos se transformaram em um caos.

— O que foi, Riddle? — Ele repousou sua mão em meu rosto e seu dedo secou uma lágrima escapuliu de meu rosto. — Foi algo que disse?

— Não. Eu me lembrei do Helmut. — James respirou fundo, pensativo.

— Eu pensei que era ele. — James parecia preocupado. — Você não pode contar para ele o que pretendemos fazer.

— Eu não posso ir embora sem me despedir dele. — Neguei com a cabeça, eu nunca me perdoaria. Se a minha vida tem sido o mínimo tolerável naquele lugar foi graças a presença de Helmut e James. Que tipo de pessoa eu seria se partisse e deixasse uma carta para trás?

— Ele é filho do Barão. — Eu não precisava que ele me lembrasse disso.

— Ele não concorda com o que o pai faz.

— Isso não quer dizer que ele vai concordar com a sua partida ou você acha que ele vai querer que você vá embora daqui para sempre, comigo? — Não. Ele não ia querer isso. Ele tinha ciúmes do James. Ele tinha ciúmes de qualquer um que chegasse perto de mim.

— Tudo bem. Eu não contarei nada.

— Boa menina. — James beijou minha cabeça e sorriu. — Eu não disse, mas você estava dançando muito bonito. — Sorri, assentindo e ele distanciou, seguindo para a saída da sala. — Vou estar no tatame.

Assenti novamente, sem forças para falar. Sentei no meio da pista de dança e abracei meu corpo. Eu tinha certeza que eu queria fazer isso? Nós não tínhamos uma saída. Ou tínhamos? Eu podia viver ali pelo resto da minha vida, me tornar um membro da HYDRA? Eu não suportaria. Barão me mostrava para os seus seguidores como uma conquista, um legado ao lado de seu filho e me treinava para ser uma arma. Eu não era um se rhumano para ele. Era uma aquisição. Eu não teria uma vida ali. Por mais que o futuro incerto fosse amendrontador, James estava comigo desde a minha chegada. Nós sairíamos juntos e por mais que eu não desejasse deixar Helmut para trás, eu odiaria deixar a chance de ter um futuro escapar dos meus dedos. Meus pais e meu irmão iam querer que eu tivesse essa chance. Meu reflexo no espelho confirmou minhas certezas.

Retornei ao meu treino como se não houvesse o dia seguinte. Deixei o ginásio decidida a ser a melhor submissa para o Barão e viver os melhores momentos com Helmut.

Naquele fim de dia, eu tomei um banho e me arrumei para o jantar. Como de costume, coloquei uma das roupas selecionadas pelo Barão, um terninho social. Seria um jantar com os oficiais e alguns generais. Deixei meus cabelos soltos e passei um pouquinho de batom, pensando em Helmut, mesmo que minhas bochechas se avermelhassem com esse pensamento.

No jantar, sentei entre um oficial Belga e Helmut sentou diante de mim, participando das conversas como seu pai instigava e em alguns momentos, eu pegava seus olhos me espiando com um sorriso comprimido. Seu pai, por sua vez, estava atento a todos os meus movimentos ou eu estava me tornando paranoica por saber que estava traindo a sua confiança. Comi e terminei antes do Barão. Quando ele levou os convidados para a sala de entretenimento, eu fui liberada para aproveitar meu tempo livre. Helmut seguiu com o pai, provavelmente seguiriam com as conversas da mesa. Assunto que mulheres não deveriam participar.

Como prometi para Helmut, eu segui para a biblioteca. Sentada no acolchoado da janela, admirei a neve cobrindo todo o chão e salpicando as arvores pontiagudas de neve. Ao longe as montanhas tomadas de neve e uma cor perolada dominando os céus. Me senti inspirada e peguei uma copia de Crime e Castigo na estante, prosseguindo a minha leitura para a aula de literatura. Não sabia quanto tempo se passara, mas escutei uma batida no vidro e sobressaltei. Helmut segurou meu antebraço, sussurrando para eu ficar calma que era ele.

Abri a janela deixando o espaço necessário para sair com auxilio do apoio de Helmut passei pelo trecho e desci o parapeito e pisando na neve fofa me equilibrando com ajuda dele. Não nos prendemos ao momento. Ele segurou minha mão e me guiou para um caminho conhecido por ele. Tapei meu nariz com o cachecol protegendo do frio enquanto adentrávamos a floresta em passos ágeis. Passamos as escondidas por alguns soldados, o que serviu de treinamento de furtividade, eu era muito boa nisso e ele era bom em me seguir. Helmut se guiava pelo céu e ele encontrava-se banhado em um verde turvo. Uma agitação acometeu meu coração. Seria noite de aurora? Sorri com a expectativa e corri na neve fofa para alcançar os passos de um Helmut de pernas longas e ágeis. Ele garantiu que após cruzarmos a grade partida e seguíssemos pela floresta adiante, nós estaríamos seguros. Mesmo assim, a expectativa me incapacitou de manter uma conversa com ele sem soar ridiculamente nervosa e curiosa.

Chegamos a uma clareira que hoje encontravasse tomada por neve e banhada pelas cores esverdeadas e translúcidas da mais bela aurora boreal que os meus olhos tiveram o prazer de ver. Isso porque essa era a primeira que eu via na vida, mas era de longe, a mais bonita.

Deixei escapar uma exclamação de admiração me encontrando hipnotizada pelos céus. Aquele verde tão claro delineava a noite escura acompanhado de amarelo e cinza no céu azul escuro como as fitas de uma dançarina serpenteando o seu mundo ao dançar.

— Isso é lindo! — Levei as mãos aos lábios buscando gravar em minha memória cada detalhe por trás daquela pintura desenhada pela natureza. Eu conseguiria imprimi-la nos meus desenhos? Não chegaria aos pés. — É a coisa mais linda que eu já vi.

— É. — A voz de Helmut morreu em um sussurro e ao baixar meu olhar encontrei Helmut me olhando comprimindo os lábios em um sorriso nervoso. O vermelho intensificou em suas bochechas quando nossos olhos se encontraram e eu desconfiava que não tinha nada a ver com o frio. Ele pigarreou, olhando para o céu. — Não dá para vê-la da mansão, se não nem precisaríamos fugir após o toque de recolher, poderíamos ver na sacada mesmo.

— Eu não me importo. — Sorri agitado, me aproximando dele em um passo. Helmut parecia confuso e eu preferi explicar as minhas palavras. — O que eu quero dizer é que se você estiver comigo, eu não me incomodo em cometer alguns delitos.

— Eu não ligava. — Ele riu coçando a nuca por trás do cachecol. Ele parecia envergonhado. — Mas, é mais divertido fugir quando eu estou com você. Qualquer coisa é mais divertida com você.

— Até aula de aritmética avançada? — Minha tentativa de soar engraçada só aumentou o rebuliço em meu estomago. No inicio eu culpava as comidas quentes típicas da região, mas agora, eu sabia que o causador de tal efeito era Helmut. Ele e seu sorriso. Ele e seu olhar sobre mim. Ele e seus lábios pronunciando meu nome.

— Não exagera. — Ele bufou negando com a cabeça. Deixou seus olhos vagarem de mim para o céu e eu sorri ao notar uma mecha de cabelo dele cair sobre a sua testa e ele tentar afastá-la com as pontas dos dedos.

Era o momento perfeito. Se eu não fizesse agora, eu não faria mais. Dei mais dois passos e fiquei nas pontas dos pés, deixando meus lábios tocarem a sua bochecha gelada e macia. Era para ser rápido, mas pareceu durar uma eternidade. Apoiei a minha mão sobre seu ombro, temendo me desequilibrar. O beijo estalado foi recebido com surpresa por Helmut. Ao me afastar, ele estava com os olhos arregalados e os lábios abertos embasbacado. Eu fiz uma tremenda burrada.

— Eu só queria agradecer — disse sentindo minhas bochechas arderem. Continuei falando por temer o silencio. — Foi muito legal você me trazer aqui.

Ele engoliu em seco, piscando os olhos algumas vezes até que senti um toque gélido em meu rosto. Os seus dedos entrelaçaram em uma mecha dos meus cabelos e colocou atrás da orelha deixando os nós dos seus dedos acarinharem minha bochecha.

— De nada. — Ele sussurrou em alemão e inclinou seu rosto até a direção do meu. Sem reação me mantive imóvel.

Sua mão espalmou meu rosto em um carinho e me segurou pela cintura, me mantendo equilibrada sobre a neve, próximo ao seu corpo. Quando os seus lábios tocaram os meus, me encontrei por um momento sem ação. Aquilo estava acontecendo? Ele retribuía os meus sentimentos! Eu queria opular de tanta alegria, mas antes, eu queria curtir mais aquele beijo. Nossos lábios se conheciam sem urgência, como em um quebra cabeça, buscávamos o nosso encaixe. Eu estava fascinada com a possibilidade dele ser o meu encaixe. Naquela noite fugimos dos nossos quartos para admirar a Aurora Boreal e acabamos fascinados pelos sentimentos que moravam em nós, como aquela aurora vivia sob os nossos olhos.

Aquela foi só a primeira de muitas noites que encontramos um jeitinho de escaparmos do casarão ou escalávamos as paredes até alcançarmos a janela um do outro e passávamos a noite conversando, eu desenhava e ele lia e namorávamos. Bem Romeu e Julieta. Eu não sabia que podia ser tão feliz.
Por isso, durou pouco.

Os dias se transformaram em semanas e James retornou da sua última missão trazendo consigo a realidade. Nós iríamos fugir nos próximos dias. Estava tudo pronto. Ele conseguiu o veiculo, os passaportes, o dinheiro e o lugar. Eu ansiava por esse momento. Eu dormia e acordava unicamente na expectativa de recuperar a minha liberdade.

Até Helmut surgir e ficar em minha vida. Os meus dias eram recheados de expectativa e as noites eram as nossas moradas. Eu ansiva pela minha liberdade com James. Pouco a pouco ela perdeu o significado se ele não estivesse ao meu lado. Eu não podia ter um e viver sem outro. Com isso pensei na possibilidade de contar tudo a Helmut. James não tinha gostado quando sugeri isso na primeira vez. Tudo mudaria, inclusive a nossa perspectiva. Falar com o filho do Barão seria como colocar um alvo em nossas costas. Ele podia não concordar com isso agora, mas ele poderia entender meus motivos no futuro. Ele podia aprender a confiar em Helmut, como eu aprendi – e até gostar dele. Eu não sabia, se a liberdade de Bucky valeria o que eu sentia por Helmut.

Mais uma vez tivemos que cancelar nossa partida. Bucky teve uma missão de última hora com Natalia. Quando retornassem, partiríamos sem postergar mais nenhum dia. Naquela mesma noite Helmut me levou para patinar no lago congelado. Mal sabíamos que aquela noite seria a nossa despedida.

Sobre o gelo patinamos um no em torno do outro. Brincamos como crianças, nos beijamos com timidez, nos abraçamos com um carinho tão puro que eu ainda sentia aquecer minha pele. Ele arriscava tanto para estar comigo. Ele não teria mais que correr riscos por mim, por nós. Não haveria mais nós.

Haveria uma vida. Em algum lugar para mim. E ela começaria no próximo raiar do sol.

Acordei abruptamente com um apertão em meu braço. O sol estava penetrando o meu quarto pelas frestas da cortina. Eu adormeci e perdi a hora? Teria Natalia vindo me buscar e eu não escutei seu chamado? Era outro alguém com outras intenções? Fechei minha mão no cabo da minha faca embaixo do travesseiro, só que não o senti em minha mão. Tateei e tive meu corpo puxado para cima com brutalidade distendendo um músculo do meu braço que me arrancou o ar e libertei um gemido. De pé sobre minhas pernas trêmulas deparei-me com James. Não havia vida em seu olhar, nem emoção na curva dos seus lábios, muito menos afeto em seu toque. Sua mão metálica envolvia o meu braço dominante em um aperto dolorido arrancando-me outro gemido. Ele estendeu a minha faca entre nós e largou sobre a cama.

Ele me puxou para fora do quarto.

— Não! — pedi em alemão, implorei em inglês, tentei ser um peso morto para ele não conseguir me levar para fora do quarto e isso só serviu para ele me atirar sobre o seu ombro, facilitando a sua tarefa. Chamei por James, pedi para o meu amigo me salvar, para se lembrar de nossos momentos juntos, como quando ele me ensinou a pegar adagas no ar e leu as partes difíceis de Moby Dick para mim. Ou quando eu disse que ele era o mais perto de família para mim... Nada. Ele não lembrava de nada.

Eu estava no meu pijama sendo levada pelo Soldado Invernal para o encontro do Barão. Eu não precisava de palavras para saber que nós fomos descobertos e o nosso destino seria a morte. Quando meus olhos encontraram o grupo das moças da Sala Vermelha seguindo em fila para a sala de jantar eu não esperava me deparar com Natália entre elas. Ela tinha os seus olhos cravados no horizonte, seus cabelos ruivos se encontravam perfeitamente escovados no seu corte Chanel e seu uniforme de treinamento nunca esteve tão impecável como a sua postura e braços estendidos para trás. Seus olhos nem piscaram com os meus gritos. Silenciei incapaz de prosseguir pela dor na garganta, pela dor da traição. Ela nos traira? O que ela ganharia do Barão com isso? Uma posição na HYDRA? Do que isso importaria, eu estaria morta antes do amanhecer.

No andar do subsolo, James me levou para a sala de controle. O Barão nos esperava na companhia dos seus seguranças. Ele me colocou sobre os meus pés e manteve-se parado ao meu lado com o seu olhar perdido no horizonte.

O que o barão fez com ele?

— Chegou ao meu conhecimento que você e o meu soldado planejavam ir embora. — Abaixei meu olhar apertando os nós dos meus dedos. — O que tem a dizer sobre isso, Riddle?

— Nós... — engoli em seco unindo as minhas sobrancelhas. Olhei para James sem perceber um sinal do meu amigo naquele homem. Ele não me via, mas eu ainda o enxergava. — A idéia foi minha. — Olhei friamente para o Barão. — Eu não queria continuar dominada por você.

— Depois de tudo que eu fiz por você, seu verme, é assim que me retribui, com traição? — Ele acertou um tapa em meu rosto. Mesmo antevendo seu movimento eu não o impedi. Não seria prudente. Os seus soldados detiveram seus olhos em mim sem mover um músculo. O olhar vazio de emoção de James me atormentou.

— Eu agradeço pelo teto e o alimento, mas abomino no que você me tornou. — Cuspi o sangue que ele arrancou com o tapa. — Você me transformou em uma arma para o que, me dominar como você faz com o James, com eles? — Apontei acusatória para eles, meus lábios trêmulas perderam o domínio das palavras. — Eu não sou sua para me usar como você deseja.

Ele gargalhou.

— Nisso você tem razão. Você não é minha. Não mais. — O que ele queria dizer com isso? Ele olhou para James e ele assentiu e distanciou-se de nós. O Barão seguiu para uma bancada e atrevi o acompanhar, até sentir o soldado me segurar pelo braço. Enfiei meu cotovelo em sua cara e chutei suas partes intimas. Peguei uma bandeja metálica para arremessar contra a cabeça do segundo segurança que ousou se aproximar, acertando em cheio na sua cara e ele caiu no chão antes de atirar em mim. Senti uma agulha picar em meu pescoço e meu corpo amoleceu imediatamente. A última sensação que tocou minha pele foi o frio do piso duro.

Entre a luz e a penumbra assisti James me pegar em seus braços e me levar até uma estrutura onde me repousou. Metálica e gelada. Pedi para ele me tirar dali. Chamei por ele entre lágrimas. Homens com jalecos brancos surgiram em meu campo de visão ligando fios em minha cabeça e tórax e furando agulhas em meus braços conversando entre si sobre o que ele pretendia fazer comigo. Envolvia choque, envolvia ácido, não teria anestésico. Tentei mexer minhas pernas, mas não as senti. Meus braços também. Eu estava presa? Imobilizada ou perdi minha locomoção? O que o Barão injetou em mim? James mantinha-se ao pé da minha cama com os seus olhos cravados em minha figura submissa. Queria alcançá-lo. Pedi para ele lembrar de mim, implorei para ele me salvar. O silêncio foi a sua resposta. Barão surgiu sobre os meus olhos com um mordedor de plástico em uma mão e um sorriso sádico com meu nome.

— Suas últimas palavras, senhorita Rand?

— Esse não é o fim.

Seus olhos delinearam meu rosto e seu sorriso desfez-se sordidamente. Ele levou sua mão até o cordão com a pedra amarela sobre meu tórax e puxou para a sua posse. A pedra encontrou-se segura e apagada entre as pontas dos seus dedos. Gritei sentindo a ira me dominando. A pedra brilhou incerta por uma última vez diante dos meus olhos. Deparei-me com Zemo no lugar de seu pai. Ele entregou ao filho a mordedura e ele me olhou nos olhos e eu podia jurar ter visto em seu olhar algo que eu nunca percebi antes em seu olhar. Ódio. O plástico da moderdura era duro e moldou-se a minha boca abruptamente. As pás metálicas foram entregues pelos médicos nas mãos de Helmut Zemo. Seus olhos penetraram dolorosamente em mim. Ele tinha o poder. Ele podia me salvar ou me matar. Era isso, não era? Sempre foi uma questão de me ter. Eu era uma posse para ele. Nunca pertenci ao Barão. Eu pertencia a seu filho, Helmut Zemo. O horror devorou o frio do medo e me consumiu em um fogo que queimava em meu coração. Ele fez a sua escolha.

— Isso é culpa sua!

Helmut Zemo penetrou as pás nas laterais da minha têmpora e senti o metal frio perfurar minha pele. Cada fibra do meu corpo recebeu uma carga violenta de energia, minha pele e músculo tremiam com o impacto do choque e perdi todo o controle de mim, de quem era. Minha cabeça doía de ponta a ponta. Não os ossos, mas o seu interior. Pontadas, ferroadas, facadas, apertões. Meu corpo esquentara como se eu tivesse me afundado em um tanque com água a mais de cinqüenta graus. Meu coração parecia uma britadeira e sentia que cada batida seria a última.

O ar escapou dos meus lábios pela última vez

dos lábios de Riddle Rebecca Rand.

Morrer não era difícil. E então,

Eu fiz a minha escolha.