Notas iniciais
PENÚLTIMO CAPÍTULO DE EXILE :) Infelizmente nós estamos vivendo esse momento delicado com a Pandemia de Corona Virus. Torço daqui para todos vocês aí estejam bem. Antes de qualquer coisa: LAVEM AS MÃOS. Hidratem-se. Só saiam de casa se for necessário. Pense nos seus entes queridos. Agora, vamos falar de EXILE: Esse é o penúltimo capítulo da segunda temporada e eu estou bem WOW com todo o desenrolar da trama. Nossa Willa cresceu tanto! Eu não esperava que uma reviravolta acabasse acontecendo, e os personagens me entregaram de bandeja e disseram: RESOLVA ESSA TRETA ISSO. Eu ainda estou embasbacada com tudo que rolou e muito feliz. Recebi um comentário por esses dias que me lembrou do meu amor por essa história e a nossa protagonista. Essa história tem um significado íntimo para mim que, esse comentário redespertou exatamente quando eu mais necessitava da companhia de Willa e esses personagens. Torço para que vocês se sintam abraçados pela Willa e a turma nesse momento. Um grande beijão! Conheça os meus outros trabalhos: https://amzn.to/2Qywp1K :)



Antigas instalações da HYDRA
Norte de Berlim.

O plano era simples: conter, prender, eliminar os que se mostrassem uma ameaça e chegar até Willa.
Para isso, Steve colocou Bucky liderando a equipe interna que, seguiria pela instalação a dentro. Pietro e Wanda o acompanharia na missão por, como ele, conhecerem as instalações da HYDRA como a palma de sua mão. Para trás ficaria ele e Natasha com Sam e Visão que, insistiu em participar por não desejar deixar Wanda desamparada. As informações preliminares em torno da situação da HYDRA foi conseguida através de pesquisa por Natasha. Apontava para um renascimento das forças da HYDRA através da liderança de Syn, filha do Caveira Vermelha. Até então, ela vivia as escondidas, protegida por seguidores da ideologia de seu pai. Ela encontrou uma oportunidade em uma ocasião. Natasha também não sabia dizer até que ponto Zemo teria envolvimento nesse surgimento.

Bucky considerou importante contar a eles sobre o passado do filho do Barão. Omitiu o envolvimento de Willa com aquela época, não era ainda relevante para a missão — e não cabia a ele contar a eles detalhes de um passado ainda não tocado por ela. Ele lembrava do rapaz magro, alto e astuto. Ele era esperto, introspectivo, amendrotado. Respeitava o pai cegamente e indubitavelmente o apoiava. Ele não se surpreenderia se ele tivesse um desejo oculto de tornar-se seu reflexo. Como filho do Barão, ele deveria ter algum interesse nesse retorno da HYDRA... O que Willa teria haver com isso? Bucky não sabia dizer. Ainda, mas pediu precaução aos amigos; o mínimo que eles entregassem de informação a Zemo o manteria nas rédeas e Willa protegida de qualquer investida inesperada.

Eles prosseguiram com o plano. Todos tinham os comunicadores ligados para mantê-los a par. Antes de pousarem o jato eles deixaram o veículo ainda no ar entrando em combate com os primeiros soldados que captaram a chegada do grupo.

Wanda fez um campo de força expulsando o flanco frontal para longe do alcance deles. Pietro derrubou um grupo deles usando a sua velocidade, e pegou do bolso de um deles, sorrindo, a chave da entrada da Instalação. Bucky neutralizou alguns dos homens nas laterais e no alto, abrindo caminho para o flanco traseiro, liderado por Steve.

O grupo separou-se na entrada da instalação. Sinetas anunciavam por todo o perímetro a chegada do grupo. Luzes vermelhas iluminavam sua trajetória. Natasha arremessou a Bucky um dispositivo que mostrava o movimento do GPS da Willa. Ele e o seu grupo abriram caminho por entre os soldados e ele os direcionava até onde o ponto vermelho piscava. Eles fariam o resgate dela. Wanda lembrava de caminhos secretos típicos das estruturas da HYDRA e Pietro usava a vantagem da sua alta velocidade para ir e vir, informando quantos soldados encontrariam ainda de pé no caminho pelo comunicador.

Steve ficou para trás com Sam e Natasha cuidando da retaguarda do grupo, sua missão também jazia em capturar Syn e leva-la para o RAFT em segurança. Eles destruiriam a emersão da HYDRA naquele dia.

O número de soldados era duas vezes maior do que Steve esperava. Ele acreditava que o grupo encontraria um empecilho, seus recursos poderiam esgotar antes de alcançarem Willa e Syn, mas eles passaram por situações mais delicadas e se defenderam até as últimas consequências. Eles conseguiriam.

Pietro invadiu um dos corredores e escorregou, em um milésimo de distância do tempo normal, contando uma dezena de soldados marchando em sua direção com armas e facas nos coldres. Ao longe, ele reparou dois soldados seguindo pelo caminho oposto, um tanto mais alto que o segundo que parecia ter a altura de Willa e caminhava como ela: sem maneirismos, firme, equilibrado. O soldado baixinho olhou para trás, como se tivesse escutado os pensamentos do velocista e ele sorriu, escapando dali com sua agilidade e reagrupando com Bucky e Wanda, protegidos em um corredor deserto com um rastro atrás deles de soldados desmaiados e feridos.

— Euencontreiela! — Pietro sussurrou derrapando com seu sotaque mais marcado pela empolgação.

Bucky conferiu o equipamento e o ponto vermelho encontrou-se enfraquecido.

— Mostre o caminho.

O trio seguiu pelo caminho feito pelo velocista derrubando sem muito abalo os soldados. O sinal enfraquecido no disposto desapareceu, para desespero de Bucky. Pietro levou o trio até o corredor onde ele tinha visto a dupla de soldados e eles se encontravam em um lugar sem saída.

— Eles não podem ter desaparecido no ar. — Wanda pontuou mantendo a sua atenção no corredor, pronta para defendê-los. — Deve ter uma saída secreta em algum lugar por aqui.

Bucky pensava nisso. Ele conhecia as passagens secretas entre as salas da HYDRA, pois elas foram montadas para proteger o Caveira e o Barão em uma fuga emergencial. Os corredores também tinham passagens, para os médicos, cientistas e operadores transitarem com agilidade. Não havia portas falsas nem paredes falsas.

— Se o sinal dela desapareceu talvez tenha sido por quê ela está em algum lugar que corte o sinal.

Isso era óbvio, Bucky pensou sem muita paciência. O garoto queria ajuda-lo genuinamente, mas não lhe dava muito. Cada segundo longe de Willa era um passo atrás de Zemo e isso estava começando a entrar na pele de Barnes. O que cortava sinal nos edifícios da HYDRA? Antenas. Algumas máquinas. Dutos de ar.

— Desaparecido no ar — repetiu as palavras de Wanda atraindo a atenção dos Maximoff, baixando sua arma. Ele deixou seus olhos perambularem pela parede até altura de um duto de ar. Ele passou a mão diante do painel e ele não abriu. Isso não era para acontecer, só se alguém tivesse acionado para trancanfiar aquela passagem. — Wanda, você consegue estourar essa abertura?

— Posso tentar... — Ela aproximou do duto coletando energia entre os dedos. — Me deem espaço, rapazes.

A dupla obedeceu, e lado a lado, desconfortáveis pela proximidade um com outro, se colocaram no corredor, atentos aos movimentos da Feiticeira — precisos, mas exigindo um pouco mais de sua energia do que ela esperava. — e dos passos aproximando em marcha pelo corredor Oeste, deixando-os preocupados com uma nova horda de soldados.

— Quando Wanda abrir o duto vá com ela e acaba com a raça desse sedutor de araque que enfeitiçou Willa. — Pietro rosnou as palavras sem deferir um olhar para o soldado com os punhos cerrados. — Eu fico para trás cuidando dos soldados.

— Você está certo disso, Pietro? — A voz de Steve estourou nos comunicadores.

— Sim, eu me viro bem. — Ele estalou o pescoço com os olhos grudados no inicio do corredor. — Além do mais, Willa não vai ouvir ninguém além dele. — Ele deferiu um olhar para Bucky e curvou os lábios em um sorriso presunçoso com um pouco de ciúme.

— Vamos tentar alcança-lo. Mantenha-se a salvo.

Pietro trocou um olhar com Wanda que, não escondeu sua preocupação, mas assentiu lhe passando a confiança que ele precisava para prosseguir. Bucky repousou a mão sobre o ombro dele, impedindo-o de seguir.

— Eu vou trazê-la. — Pietro manteve seu olhar distante do soldado, mas assentiu, grato, as suas palavras e Bucky comprimiu um sorriso. — Agora se cuide ou ela vai acabar com a raça de todo mundo se algo te acontecer.

Pietro conteve um sorriso e arqueou as sobrancelhas.

— É algo que eu queria ver acontecendo... — E em um milésimo, ele desapareceu pelo corredor deixando um raio acinzentado para trás.

Em um estouro que tremelicou as paredes da Instalação e ecoou por todo o perímetro, Wanda conseguiu abrir a passagem e a dupla seguiu por ela.

Zemo tinha seus olhos em Willa deitada na maca conectada a máquina. Seus olhos fechados e seu corpo sem uma reação. Ele tinha sua mão nos cabelos dela, acarinhando com uma preocupação inundando sua inexpressão.

Através do buraco da fechadura um fio de energia avermelhada atravessou agarrando-se a maçaneta. Uma explosão estourou a fechadura e maçaneta, a porta dupla metálica e pesada abriu com um empurrão das pernas de Barnes. Zemo sobressaltou levantando a sua arma para a porta. Se Syn encontrou as instalações antigas, ele não teria outra chance de enfiar uma bala na cabeça dela, antes de ser metralhado. Riddle viveria. Syn não a queria morte — ainda. Mas, não era ela... e ele não sabia dizer ser isso era bom para ele.

Wanda moveu uma massa de energia contra a arma na mão de Zemo arremessando-a para longe do alcance dele. Ele desgostou do ato e não reagiu. Bucky apontou a sniper para o peito dele e moveu para ele se distanciar da maca. Wanda caminhou até Willa, conferindo sua pulsação.

— Se afasta lentamente dela.

— Desse modo gentil? — debochou levantando as mãos. — É difícil negá-lo.

Zemo crispou um sorriso prepotente, obedecendo à ordem. Bucky olhou para Wanda buscando por uma resposta. Ela distanciou a mão do pulso da amiga, suspirando.

— Há pulsação, mas bem fraca. Precisamos removê-la.

— Vocês não podem fazer isso. — Zemo interrompeu inexpressivo recebendo olhares da dupla. — Ela está em meio ao processo. Ela pode morrer se o fizerem.

Um estalo na mente de Bucky o incomodou. Ele se permitiu olhar em seu perímetro. Aquela sala. As maquinas dos anos 70. Os armários com medicamentos e arquivários. A maquina na qual Willa tinha seu corpo e mente ligada. Ele conhecia aquela sala. Aquela era a maquina de remodelagem. Ele nunca passara pelo processo antes. A maquina necessitava de uma lasca do tesseract, enfiada dentro do seu compartimento ao alcance dos seus olhos. Ele escutou histórias. Era uma maquina traiçoeira. A pessoa podia ter a mente modelada, de acordo com as escolhas de quem a controlava. Um passo em falso e a pessoa poderia se transformar em um peso de papel: incapaz de viver, de pensar, de lembrar.
Zemo tinha o controle e isso bastava para o soldado levantar a arma para a cabeça de Helmut que só alargou seu sorriso e Wanda preocupou-se colocando-se próximo ao soldado.

— O que você fez com ela?

— Eu estou dando a ela o que lhe foi negado: seu passado. — Ele manteve seus olhos no soldado.

— Porque você está fazendo isso por ela? — Zemo olhou para Wanda digerindo a sua pergunta.

— Eu tinha uma... dívida com Riddle. — Ele olhou para Willa com afeto transbordando em seu olhar. — Nós viemos de um caminho bem longo até aqui. Eu e você, James. — Ele conectou seus olhares e levantou o queixo. — Eu não a obriguei nada. Ela escolheu estar aqui. — Ele assentiu. — Comigo.

— Por pouco tempo — retrucou frio. Ele abaixou a arma e inclinou a cabeça para Wanda que manteve seus olhos dele a Helmut.

Bucky alcançou Willa. Ele levou a sua mão enluvada a dela, causando em Zemo um olhar de repulsa. O soldado uniu seus dedos pela primeira vez em tanto tempo. Sentiu os olhos inundarem de lágrimas. Ele almejava o calor, o toque de Willa. Recebeu imobilidade e frieza.

— Ei. Willa. — Sua mão encontrou morada no rosto dela, igualmente frio, e acarinhou com as pontas dos seus dedos. — Você precisa voltar. Tem um monte de gente que precisa de você aqui. Quem vai colocar ordem na casa, não é? Sam fica perdido sem você. Steve está deixando uma barba repugnante crescer. — Ele abafou um riso frouxo, sentando em uma cadeira.

— Nós a encontramos com Zemo. Eu vou enviar a localização para vocês. — Wanda informou pelo comunicador mexendo no dispositivo do GPS.

— Ela está bem? — A voz de Sam estourou no comunicador.

— Ela está com a pulsação fraca, mas não podemos removê-la da maquina ainda.

— Maquina? Que maquina? — Pietro questionou sobre a voz dos outros.

— Venham para cá o mais rápido possível. — Ela prefirou não entrar em detalhes para não dispersar de Zemo.

— A caminho. — Steve encerrou a comunicação e Wanda pegou Zemo encarando o soldado conversando intimamente com a ninja.

— Pietro se faz de difícil comigo, mas eu consigo vê-lo por trás de toda aquela carcaça. Nós não somos muito diferentes, sabe? — Ele deu de ombros massageando a palma da mão dela. — Ele é doidinho por você. Tem como não ser? — Ele sorriu percebendo que os olhos dela se movimentavam por baixo das palpebras. Ela estava sonhando. — Eu não sei onde você está agora, talvez esteja com seu irmão em alguma memória feliz e eu nunca iria querer tirar-lhe isso, mas você não está sozinha aqui desse lado, ok? Você pode voltar. Voltar para nós, para mim.

“Você... Você respeitou o meu desejo de ficar na Wakanda, mesmo não concordando. Você disse que pensava em centenas de possibilidades, lembra? Eu não esqueci. Você não aceitou, mas me respeitou e eu faço isso aqui hoje. Eu te respeito se você quiser ficar com suas memórias. Eu não tiraria isso nunca de você. Mas, me permita ser um tanto egoista? Você é a minha garota e eu não posso te perder sem antes... sem antes ter a chance de te dizer isso e tantas outras coisas. Eu tenho medo de não tê-la mais aqui e eu não quero esse mundo. Eu quero

o mundo onde nós temos um futuro. Volta. Volta para mim.”

Suas palavras foi dispersadas no ar. Steve, Sam, Natasha e Pietro se reuniram a Wanda em meio a conversa de Bucky. Natasha tirou algemas do seu cinto e prendeu Zemo que demonstrou descontentamento, mas não lutou contra com seus olhos em Willa e Bucky.

Pietro reuniu-se com Wanda, preocupado com Willa na maca, mas manteve-se distante ao escutar a confissão do soldado. Wanda que, percebeu como as palavras de Bucky afetavam o irmão segurou a sua mão com carinho e proteção e ele retribuiu o gesto, mascarando seus olhos cheios de lágrimas.

Sam se aproximou da maca, seus olhos em Willa tinham um alivio de encontrá-la bem, ao olhar Bucky a preocupação o adornou — ele por outro lado, estava por um fio.

— Como podemos ajudá-la a retornar? — Steve retrucou para Zemo, entristecido, deferiu um olhar de Willa a ele.

— Não tem como. Uma vez no processo, ela só pode deixá-lo sozinha.

A tensão penetrou cada um deles. Steve olhou para Bucky, questionando até que ponto ele sabia se as palavras de Zemo eram verdadeiras. Ele abaixou os olhos, confirmando seus temores. Eles só podiam esperar.

Um minuto, uma hora, uma semana.

Willa não escutava mais nada.

Não sentia gosto na boca.
Não sentia cheiro.
Ela não gritou.

Nem sentia a batida de seu coração.
Pela primeira vez, ela era o vazio e ele a tomou ao sentir uma dor agonizante morrer e nascer em cada fibra de seu corpo.

Até que na distância ela escutou o seu despertar:

Isso é culpa sua.

E a última pessoa que ela viu antes de morrer foi Zemo.
Até que ela viu sua vida passando diante dos seus olhos.

E despertou.
E a primeira pessoa que ela viu ao renascer foi James.

Ele tinha as suas mãos interligadas sobre o estômago dela e a cabeça abaixada sobre a cama.

— James! — Ela sussurrou o olhando e ele levantou a cabeça. Ela sentiu movimentos distintos no ambiente. Havia outras pessoas entre eles. Seus olhos se encontraram e ela sorriu. — Oi, sumido.

— Você... — Ele repousou a mão no rosto dela e sorriu. — Você voltou.

— Eu... acho que sim. — Ela apertou os olhos levando a mão a testa.

— Você está sentindo algo? — Sam interrompeu, aproximando. — Você nos deu um susto.

— Não, só uma pressão na cabeça. — Ela tentou se sentar e Bucky e Sam a ajudaram. Wanda pediu para ela ir com calma. Ela repousou as mãos no ombro de Bucky para se estabilizar, sentindo-se um tanto tonta. — Onde está Helmut?

Bucky semicerrou os olhos por sobre o ombro dela. Willa o encontrou sentado em uma cadeira com Steve ao seu lado. Ela crispou os lábios e não escondeu seu remorso pelas escolhas feitas no passado por ele. Zemo não esperava uma atitude diferente.

Ela encontrou os olhos de Steve e sorriu saudosa. Pouco a pouco, ela encontrou todos os amigos aliviados com seu retorno. Por fim, seus olhos caíram em Pietro que, abriu o seu melhor sorriso, seus olhos não correspondiam a ele.

— Você... lembra de tudo? — Bucky questionou com cuidado.

— Tudo. — Ela sorriu sentindo os olhos se encherem de lágrimas. — Tudo sobre a minha família, sobre você, a HYDRA, a Natalia... — Ela olhou para Natasha, e todos, menos Zemo, demonstraram surpresa.

Ela revirou os olhos com um sorriso.

— Eu acho que o coelho está fora da cartola.

— Nós temos muita coisa para conversar, camarada. — Willa levantou uma sobrancelha.

— Você paga a vodka e eu levo as facas, pequena.

Um apito surdo ecoou por todo o perímetro surpreendendo a todos.

— Esse som... — Zemo levantou os olhos, tenso. Ele olhou para Bucky que, naquele instante, dividiu com ele a mesma memória.

— Pessoal! — A voz de Clint irrompeu nos comunicadores deixando Zemo às cegas, mas Willa conseguia escutá-lo com clareza. — Nós estamos em uma enrascada por aqui. A ruiva dos infernos pegou um jato com um grupo e eles estão atirando na gente e eu não sei se vamos conseguir suportar por mais tempo.

“Contagem de 3 minutos para a destruição em massa” uma voz feminina anunciou pausadamente.

— O que? — Sam gritou. — Você só pode estar de sacanagem.

— Clint, prepara o jato para a nossa chegada. — Natasha informou pelo comunicador pegando Helmut pelos braços e puxando-o para a saída. — Nós vamos sair dessa jaula.

— Como você pretende fazer isso? Explodindo as paredes? — Pietro retrucou trazendo a irmã para perto.

— Nós sabemos como sair daqui. — Zemo anunciou e olhou para a ninja. — Eu e Willa.

Ela tinha seus olhar perdido nele por um instante. Perdida em suas memórias. Ela lembrou se de um dos tantos dias que ela e Helmut retornaram de uma das tantas saídas de Jeep para reconhecer o perímetro. A garagem de caraga ficava a leste, ao menos, uns dois quilômetros dali.

— A saída será a leste, Clint saberá onde é com facilidade: tem um declive da descarga de veículo. — Willa informou, contemplativa. Natasha passou as informações a Clint que, garantiu estar à caminho. Steve e Bucky trocaram um olhar que dizia muito sem palavras. — Temos menos de dois minutos e meio para sairmos. — Willa levantou apoiada por Bucky, suas pernas fraquejaram e a visão enturveceu, por sorte, ele a apoiou fazendo menção de pegá-la.

— O tempo está a nosso favor. — Pietro levantou a sobrancelha cortando o espaço entre ele com sua velocidade. — Vem, Willa. Eu te tiro primeiro, depois retorno para pegar a Wanda para ajudar Clint.

— Não, eu consigo. — Ela insistiu exigindo que as suas pernas ficassem em pé.

— Não é hora para isso, Willa. — Steve interrompeu aproximando-se. — Você precisa mostrar o caminho para Pietro te levar e retornar. Tudo bem?

— Sim, Capitão. — Ele sorriu para as palavras dela. Pietro crispou um sorriso malicioso para Bucky enquanto ele passava Willa para os braços do velocista. Willa meteu a mão no compartilhamento pegando a lasca de tesseract e enfiou no bolso. Ela não escondeu sua debilidade quando ele a pegou nos braços. Ela envolveu seus braços no pescoço dele, encontrando segurança. Sussurrou por onde eles deveriam seguir. Bucky assistiu a tudo com a cabeça baixa.

— Se segura, princesa — sussurrou em sokoviano para ela e desapareceu diante dos olhos dos outros.

Zemo indicou o leste para seguirem por onde eles deveriam seguir. Bucky não revelou que também conhecia o caminho. Testava o sokoviano. Até que ponto ele estava sendo sincero com as suas intenções com Willa? Ele descobriria.

O único empecilho no caminho de Pietro e Willa foi o portão lacrado. Ele precisou larga-la momentaneamente, apoiada contra a parede e correu até o portão tentando desengatar o gancho preso no chão e no alto em um engate. Ele não teve sucesso e eles tinham menos de dois minutos para escapar.

— O gancho de cima, ele pende para a esquerda... — Willa explicou e ele contemplou sua explicação. — Tenta puxar para a direita.

Ele a obedeceu e um clique ecoou no espaço. Pietro empurrou uma das portas e a quebra de som espantou a dupla: hélices rodopiando muito perto. A entrada revoada de neve era uma distração. Pietro não perdeu tempo, pegou Willa em seus braços e saiu em disparada pela neve. O jato não se encontrava distante da passagem, Clint tentava pousar no momento que Maximoff entrou no jato escorregando pelo chão. Clint lançou um olhar por sobre o ombro, desgostoso.

— Bate na lataria antes de entrar, garoto — resmungou. — Oi, Willa. Tudo bem, querida?

— Para ela é querida, para mim é garoto e bla bla bla — ralhou Pietro repousando Willa no lugar vago do co piloto.

— Pietro! Sua irmã! — Willa o lembrou e ele assentiu, repousando as mãos dramaticamente na cintura.

— Sei, sei. Tô de olho em você, velhinho — antes de escutar a resposta de Barton, Pietro desapareceu da vista deles.

— Velhinho! Ele quem tem cabelo branco e eu sou o velhinho — bufou, mantendo a aeronave no ar por precaução. Ele a olhou de soslaio. — Tudo bem com você?

— Sim, sim. — Ela apertou a mão dele com carinho. — Onde está a Syn e a sua tropa?

— Ela fugiu. Eu acho que ela se cagou de medo quando viu o Visão. — Ele apontou para trás.

Em sua forma humana, Visão deixou o corredor vestindo um suéter verde musgo e um sorriso largo ao encontrar Willa.

— Senhorita Fairchild é muito bom tê-la de volta.

— É bom estar de volta também, Vi! — Ela sorriu.

Um zap acinzentado cortou o ar e Pietro ressurgiu com Wanda. Ela desceu do seu colo e aproximou de Visão. Eles trocaram um abraço e evitaram exagerar na demonstração de afeto diante do sokoviano.

— Pietro, você não tem nada para fazer não? Tipo, parar de secar sua irmã? — Willa implicou.

Ele bufou, resmungando que não estava secando ninguém. Em poucos segundos, eles assistiram o grupo deixar os portões. Natasha foi a primeira a entrar com uma cara de poucos amigos empurrando Zemo pelos braços e costas pelo corredor; ela ia encarcera-lo na sala de interrogatório do jato. Steve e Bucky entraram em seguida com Sam na retarguarda conferindo o perímetro.
Todos entraram em segurança e ainda fechando a rampa, Clint subiu o jato.

— Que sorte! Nem pegamos a explosão! — Sam comentou.

A instalação explodiu em um baque surdo sacudindo o jato no ar atirando cada um dos membros para um canto da nave. Willa retornou para a cadeira colocando o cinto e acompanhou os amigos buscarem um lugar seguro para estabilizar-se. As chamas subiam e subiam buscando alcançar as nuvens e engolir o jato. Clint conseguiu lutar contra o impacto e manter a nave no ar sem danos. Seguros, os amigos trocaram olhares garantindo que todos estavam bem.

— Sam, por favor, na próxima vez, não comemore — Bucky pediu largando-se no sofá olhando para o teto.

Sam nem teve o que discutir quando todo mundo concordou, inclusive Natasha que retornou para a sala seguindo direto para Willa. Ela precisava de cuidados médicos, ela não ignoraria os ferimentos recentes na pele da amiga e nem que Zemo poderia ter mexido na mente dela sem sua autorização. Ela cuidaria dela, como cuidou antes mesmo dela se tornar a Viuva Negra e a amiga Willa.

— Não, eu preciso falar com o Helmut. — Ela conseguiu ficar de pé sem ajuda e tonteira. Natasha cruzou os braços habituada com a teimosia da amiga. — Nós temos assuntos não resolvidos — retrucou.

— Eu acredito que ele não vai a lugar nenhum. — Steve ponderou suave trocando um olhar com Natasha. — Precisamos checar os seus ferimentos e qual foi a última vez que você comeu alguma coisa?

— Eu não estou com fome. — Uma verdade. Ela se habituara a horas sem alimentação através de meditação e exercícios de controle de desejos na Casta. Por outro lado um pouco de água cairia bem. — Eu estou bem. Eu juro. — Tentou convencer Steve. — Eu não vou conseguir fazer nada se eu não tirar as coisas que estão na minha cabeça.

— E nós ficaremos tranquilos se garantirmos que você está bem. — Steve repousou a mão sobre o ombro dela. — Por favor?

— Antes que eu te prenda lá com a ruiva e as facas dela. — Pietrou bufou.

— Ok. Vocês venceram. — Willa deu de ombros. — Vamos, Nat.

As duas mulheres seguiram lado a lado até a enfermaria sob os olhares do grupo.

A enfermaria tinha o básico para cuidados emergenciais. Willa subiu as banquetas até sentar na maca sem necessidade de ajuda, enquanto Nat recolhia o que necessitaria para os cuidados preventivos. Trouxe também uma bebida isotônica, ela precisava repor a energia perdida. Ela entregou a bebida a ninja que, abriu o rolho e bebericou o conteúdo pouco a pouco para não enjoar. Natasha começou a cuidar primeiro dos ferimentos visíveis com um algodão e esterilizante.

— Sente dor em algum lugar? Costelas? Ossos? — Willa negou com a cabeça. — Isso é bom. Posso te fazer uma pergunta?

— Claro.

— Qual seu nome completo? — Willa levantou a sobrancelha.

— Então é sobre isso? — Ela se distanciou do seu toque. — Vocês não estão preocupados com meus machucados, mas se eu continuo sendo eu.

— Você sabe que não podemos ignorar a sua situação. — Ela recolheu a mão. Willa mordeu a língua. Era como se ela fosse uma leprosa. — Eu te avisei, Willa. Isso não terminaria bem.

— Você está enganada. Terminou tudo bem. — Ela proferiu certa de suas palavras. — Ele não mexeu com a minha cabeça. Eu sei disso.

— Ele pode ter alterado pequenas coisas para sua conveniência. — Ela retornou a limpar seu ferimento com um olhar cuidadoso. — Você não respondeu a pergunta.

— Riddle Rebecca Rand. Eu sou filha de Wendell e Heather Rand. Eu tenho um irmão, Daniel. Ele foi dado como morto, como eu também, mas reapareceu a poucos meses em Nova York. Até apareceu na televisão. Minha família era dona de uma empresa, tinha fortuna e vivíamos em Nova York. — Ela crispou um sorriso, engolindo em seco. — Éramos felizes. Até o acidente de avião que matou meus pais e ele foi causado pelo Tentáculo para capturar a pedra. — Natasha uniu as sobrancelhas. — Uma relíquia encontrada pelos meus pais em uma expedição. Eles me deram e eu a adorava — não saia de casa sem ela. Por alguma razão, a HYDRA queria essa pedra e contratou o Tentáculo para conseguí-la para o Barão. Eles conseguiram e me levaram como um trunfo, um brinde. O Barão não quis me matar por razões que eu desconheço. Ele me acolheu sob sua asa como uma pupila. Me colocou em aulas e treinos. Me preparava para ser uma soldado, uma seguidora de seus princípios. A pedra ficou em sua posse por todo o tempo e a HYDRA ainda possuí a sua localização.

— Lembra de alguma coisa sobre essa pedra? Algo que poderia explicar esse desejo dele possuí-la?

— Ela era importante. O Barão a guardou em suas posses. Lembro de ter pedido a ele uma vez para vê-la. Ela me lembrava minha família, me fazia bem. Ele me deixou vê-la, e até usá-la em alguns jantares e festas, acho que ele queria mostra-la para os seus aliados e inimigos. Eeu sempre tinha que devolvê-la no final. — Ela puxou a lembrança da memória. — E teve aquela vez... — Natasha se empertigou. — Antes do avião ser derrubado, a pedra aqueceu no meu peito e começou a irradiar uma energia...—

— Como se quisesse te avisar do perigo.

—É. Pode ser — Ela tirou as roupas do soldado da HYDRA ficando de sutiã e calcinha. Natasha concentrou nos ferimentos da sua costela. Pegaria outras roupas para ela ao concluir os cuidados. — Mas, nunca mais aconteceu. — Ela arqueou uma sobrancelha. — Nat, a Syn queria a pedra para trazer o pai de volta, o Caveira Vermelha.

Natasha moveu seus olhos para a amiga com um vinco entre as sobrancelhas.

— Precisamos reaver essa pedra. Tem uma ideia por onde devemos começar a procurá-la?

— Não, mas eu suspeito que Syn e Zemo também não saibam ou para me tirar definitivamente do caminho ela teria me matado quando teve a chance. — Natasha apequenou os olhos mantendo a mão firme na esterilização do ferimento dela.

— O que mais você se lembra?

Willa contou alguma das tantas lembranças que inundava sua mente.
Era libertador sentí-las, recordá-las, falar de cada uma delas. Sem amarras, sem sentir se enclausurada.

Lembrou-se dos finais da tarde na HYDRA que ela entrava escondida na sala de treinamento e praticava os passos de balé com as viúvas negras, tentando escapar dos olhos da “MÃE” que era doida para puní-la, mas reprimia tal desejo por conta do Barão. Ela queria se manter como uma aliada. Natasha era a única que lhe dava atenção e até a ensinava a melhorar alguns passos. O seu alongamento perfeito foi oriundo dos ensinamentos da ruiva. Yelena implicava com ela a chamava de ratinha intrometida, beliscava seu braço, tentava lhe tirar do sério e uma das tantas vezes que ela se escondeu nas aulas de Balé, Yelena lhe pegou no flagra e ameaçou que ela acabaria morta se ela continuasse se metendo onde não era chamada. Natasha começou a ajudar Willa a invadir as aulas depois disso e até passava seu tempo livre com a menina, dançando, cantando músicas russas e lendo. Ela a adorava. Via a ruiva como uma irmã mais velha que aquele inferno lhe derá. Sua chegada coloriu seus dias cinzentos.

Contou outras lembranças com os Rand, os passeios nos fins de semana no Central Park eram os seus favoritos, ela esperava a semana inteira para tomar sorvete com a família e brincar no parque com o irmão. Ela cuidava de Danny, era a irmã mais velha dele e sentia-se responsável por ele, protetora e carinhosa, ela fazia de tudo pelo irmão, inclusive até se metia em encrencas para protege-lo — e ele fazia o mesmo por ela. Ela recordou dos seus amigos naquela vida. Joy Meachum, a irmã mais nova de Ward. Elas costumavam brincar de boneca em seu quarto e trocavam vestidos de barbie, enquanto Ward e Danny brincavam em outra parte da casa. Isso quando o irmão mais velho de Joy não estava implicando com Danny e Willa tratava disso com suas próprias mãos. Quantas vezes que sua mãe a tirou de cima do menino por ele ter chamado o irmão de covarde ou molenga. Joy dizia que ele gostava dela. Willa achava que ele gostava de ser atacado por ela. No final tudo se resolvia. Suas famílias eram amigas, almoçavam, passavam feriado juntos e até viajavam. Era birra de adolescente. Como eles estariam hoje, seriam ainda amigos de seu irmão?

Calou-se ao perceber que Natasha se encontrava satisfeita. Willa não demonstrava incerteza nas suas memórias. Não se confundiu ao detalhar eventos, lembrou diálogos, sentimentos, memórias, fatos. Zemo poderia ter aberto essa porta, mantido tais lembranças vivas para quando questionada, ela não titubeasse, mas haveria uma falha, na sua noção de emocional e ela não escorregou. Ela era... ela.

— Agora que você se lembra de tudo que viveu na HYDRA, sua relação com Zemo, seus sentimentos mudaram de alguma forma quanto a HYDRA?
— Não! De jeito algum. Depois de tudo que eu sei, que vivi naquele lugar, meus sentimentos pela HYDRA não são tão distintos ao que eu sentia antes, ao que eu sinto pela Casta. Acredite quando eu digo que eu tenho como prioridade deter a Syn. — Ela levantou o queixo, resoluta. — Ela não pode conseguir colocar as mãos na pedra.

— Nem ter o controle da HYDRA. Nós iremos alcança-la, mas antes, nós precisamos resolver nossos problemas mais urgentes. — Willa levantou a sobrancelha. — O acordo ainda pesa sobre os nossos ombros. Tony e o General são irredutíveis. Eles querem a nossa assinatura. — Willa revirou os olhos. Isso estava longe de ser uma preocupação para ela. — Não podemos seguir como estamos, Willa. — Nisso ela tinha razão mesmo que ela não confessasse. Ela não suportava mais fugir. — Eu só consigo chegar até certo ponto com Steve. Eu acho que você pode alcança-lo no resto do caminho e mostrar a ele que precisamos do posicionamento dele para colocarmos um fim nesse acordo. Ele precisa falar com o Tony. — Era mais fácil o sol tornar-se negro. Natasha queria que eles se encontrassem no meio desse caos. Não dava para continuar como eles estavam segurando pontas de cordas que eles nunca encontrariam os fins. Lutando nas sombras, olhando pelas rachaduras para buscar a luz, quando ela estava sobre eles esse tempo todo. — Uma hora toda essa merda vai voar sobre as nossas cabeças e nós precisamos ter um plano.

— Eu tenho — contemplou, pensativa. — Surpresa? Esqueceu da Mansão da família Clampett? — O refúgio para os seus amigos, a sua família. Um recomeço para todos eles. O lar dos vingadores secretos. Natasha assentiu. — Ela está pronta. Eu sei que isso está longe de ser o ideal, mas é uma opção. Eu tomei conta desse projeto pessoalmente. É um lar com o melhor sistema de segurança do mundo. Tudo da melhor qualidade. É também um QG para treinarmos e nos prepararmos para missões. Podemos ir para lá, conhecer a casa e conversarmos sobre toda essa situação com todo mundo. Eu acho que depois disso tudo, nós podemos nos dar alguns dias de descanso. — A mansão seria um refugio muito ansiado.

— Quanto a Zemo, eu vou entrar em contato com o General. Será uma demonstração de boa fé nossa entrega-lo a ele.

— Um sinal de que nós podemos trabalhar juntos sem ferir os ideais de ninguém. — Ela suspirou e repousou a mão contra a testa. Ela lutou para retomar o controle do seu passado, mas por conta dessa escolha, o seu futuro estava condenado. — O general não vai querer só o Zemo, ele vai querer a minha cabeça junto.

— Vai, mas eu tenho uma carta na manga. Tony. — Willa uniu as sobrancelhas. — Ele te protegeu quando o general quis manipulá-lo e nós estávamos em lados opostos da moeda. Eu acho que agora, ele vai ter gosto de coloca-la sob a asa dele ao saber os motivos para você ter caído na lábia de Zemo.

Caído na lábia dele. Ela abafou uma risada. É, foi isso que ela fez, não é? Ela se deixou enrolar na sua teia. Ela acreditou em uma intuição que, poderia ser falha. No fim das contas ele lhe deu o que ela buscava e o que ele prometera, seu passado, mas a que preço?

— Eu devo uma a Tony por isso. Me deixa tratar disso com ele, ok? — Natasha assentiu. — E... — Ela pegou o uniforme da HYDRA do chão e retirou do bolso a lasca do Tesseract agora, entre os seus dedos. — Eu peguei isso da maquina. Eu acho que a Princesa Shuri vai gostar de brincar com isso no laboratório. Talvez ajudar o Bucky. — Ela deu de ombros com um sorriso singelo. — Um passo de cada vez, não é Nat?

— Um passo de cada vez, pequena. — Ela sorriu repousando a mão no rosto dela com carinho, hoje, saudoso daqueles tempos nas salas de treinamento onde elas rodopiavam e dançavam. Ela uma adolescente e Natasha não muito distinta de quem aparenta fisicamente hoje.

Natasha deixou a enfermaria prometendo retornar com algumas roupas limpas, algo para ela comer e uma escova para ela pentear os cabelos. Willa agradeceu encontrando-se sozinha com seus pensamentos, com quem ela era em sua plenitude, pela primeira vez depois de mais de 15 anos.

Ela sorriu. Sorriu com toda a sua alma. Havia uma luz no fim do túnel. Danny.

A sala de interrogatório era menor do que Willa lembrava, ela pensou olhando pelo vidro, acompanhada de Natasha, Steve, Sam, Bucky e Pietro. A espiã a lembrou que ela não precisava disso. Steve apoiava a decisão que a amiga optasse, mas estava com Natasha; não via motivo para Willa se colocar a frente desse homem novamente. Sam assistia a tudo distante e quieto, deu um breve aceno a amiga, confiando nos seus instintos e pronto para meter um soco nas duas caras do alemão. Diferente dele, Pietro declarou apoio a Natasha: ele não queria ver Willa por mais nenhum segundo perto de Zemo e, pela primeira vez, Bucky concordou em algo com ele. Todavia a decisão final estava nas mãos de Willa: sua vida não era uma balança para eles pesarem as suas apostas. Ela precisava falar com Zemo por uma última vez.

Ela entrou na sala em um suspiro. A sala parecia mais escura e claustrofóbica do seu lado. Fechou a porta suavemente e encontrou com Helmut Zemo sentado do outro lado da sala, com sua postura eximia, os braços separados sobre a mesa com algemas nos punhos, presas em correntes fixadas ao chão. As mãos entrelaçadas com seu semblante tranquilo, pacífico, sonso. Ele sorriu para ela, tamanha alegria não casava com a pequenez dos seus olhos. Ela sentou na cadeira metálica com desconforto com um nó sufocando a boca do estômago. Os olhos de Helmut estavam sobre ela, analisando sua fisionomia, suas pequenas reações, seus traços, suas emoções perspassando no tamborilar dos seus dedos sobre a coxa. A sala bloqueava os sons externos, o que a impossibilitava de escutar vozes, suspiros, sussurros, os corações dos seus amigos. Encontrava-se enclausurada com o som do seu próprio coração, em uma tormenta de sensações desaguando em seu corpo e o coração de Helmut Zemo, calmo como um rio em busca de sua saída para o oceano.

— Nos encontramos aqui novamente. — Ele alargou seu sorriso com aquela calma desconfortante. — Você está feliz, Rid? — Ela inclinou a cabeça para o som do seu nome nos seus lábios, tão familiar, tão gentil. — Está feliz por se lembrar do seu passado?

— Satisfeita. — Ela crispou os lábios. Felicidade ainda era um sentimento distante. Se é que um dia seria alcançável depois de tudo que ela sofreu, sobreviveu e causou. — Eu estaria mais perto dessa felicidade se nós tivéssemos pego a Syn.

— É, perdê-la foi uma pena — respondeu inexpressivo como seu coração. — Não era parte do seu plano, certo?

Plano. Willa mastigou o canto da bochecha. Eles tinham, de fato, um plano: recuperar as memórias dela. Depois disso, ela tinha um plano: acabar com a Syn. Todavia, ele nunca demonstrou esse interesse, só declarou que fingiu estar do lado de Syn, por isso atirou nela para contê-la na presença da filha do Caveira Vermelha, mas na primeira chance, declarou que ele estava dedicado à causa de Riddle.

— Não. Eu não desejava que ela continuasse livre, ainda mais com o poder da HYDRA. — Ele assentiu singelamente deixando um sorriso escorregar no canto dos lábios. — No entanto, ela desconhece o paradeiro da pedra. Isso é, de bruto modo, reconfortante. — Ela sorriu suavemente.

— Você também está longe de possuí-lo. — Havia algo não lapidado nos olhos castanhos de Zemo. Algo obscuro. — Meu pai levou esse segredo para o tumulo.

Willa inclinou a cabeça contemplando as suas palavras.

— E você não lembra de nada que pode indicar isso? — Ele negou com a cabeça com o sorriso comprimido nos lábios. Seu coração imudável. — Você está mentindo. — Ela sorriu sem surpresa. Ele arregalou minimamente os olhos, impressionado. — Isso é parte do seu plano, não é? — Ela empertigou a postura apoiando os braços sobre a mesa. Ele estava guardando a carta na manga para arremessa-la na hora certa do jogo. Ele era um repetidor de jogada. Ele não era tão inteligente como fizera ela e os outros acreditarem. Ele era esperto, manipulador, organizado, sorrateiro, mas sem um pingo de criatividade em seus atos. — Não me contar o que você sabe e usar isso de artificio para conseguir algo que você queira de mim no futuro.

— Ou que eu queira agora. — Seus olhos faiscaram aproximando-se minimamente dela.

— E o que você quer? — Aproximou sua cabeça dele com fascínio no seu olhar.

— O que é meu por direito. — Ele proferiu por entre os dentes seu coração vacilando em uma batida descompassada e furiosa.

Willa fechou os olhos. A razão esteve na sua frente o tempo todo. Ela repousou a mão nos lábios reprimindo a emoção. Ela vendou os olhos. Ele tinha razão. Ela vendou os olhos e enxergava o que lhe convinha. Um homem com escolhas dúbias que perdeu uma família em uma tragédia e resolveu vingar-se com as próprias mãos. Ele tinha ódio dos vingadores por causarem a morte da sua família só que era mais complexo do que isso. Os vingadores podem ter sido a causa, mas também foram a consequência da perda de algo que sedimentava Helmut. A sua libertação de ser filho de seu pai. Ele via na sua família uma oportunidade de recomeçar, de ser um homem comum e, não o filho do Barão, dono de um império, da HYDRA. Ele ansiava por essa mundanidade. Ele desejava abandonar o passado e as suas tragédias, substituí-lo por um presente ao lado da mãe dos seus filhos. Quando ele perdeu tudo isso, ele encontrou-se sem nada, sem ninguém a quem se ancorar, além do seu desejo de vingança e pode. O passado o clamou como a montanha clamara por Willa. Helmut retornou ao seu lar, a HYDRA. Ele nunca a deixou verdadeiramente. Syn era nada mais do que um peão para ele conseguir o que era do seu direito: o poder da HYDRA nas suas mãos.

—Na fazenda... Foi você que ordenou aquela missão. Desde do começo foi você. — Zemo apequenou os olhos, contemplando ela. Ela lembrava daquele dia como se ele tivesse acontecido a horas. Ela e Clint foram extrair Laura e as crianças da fazenda para levá-los para outro lugar, sob a proteção de Nick Fury, eles teriam mais segurança e não correriam risco de serem encontrados pelo governo. Só que eles não contavam com a HYDRA. Eles chegaram de repente e atacaram Clint e Willa com armamento pesado. Willa conseguiu proteger Nathaniel se escondendo em uma geladeira quando um míssil foi acionado para destruir a propriedade. Foi quando ela escutou um dos soldados proferir em uma linha telefônica que Willa estava morta e sob o comando do Barão, matou-se por não ter conseguido leva-la com vida. Mais tarde, após ter sido sequestrado por eles, Clint revelou que os soldados buscavam por Bucky. Tudo se encaixava. Aquela foi uma missão de Zemo que, tentou desde o princípio colocar suas mãos em Bucky e nela. Não conseguiu de maneira direita, então, ele foi por outra vertente, a de coloca-los um contra os outros até que suas fraquezas se revelassem e expusessem um por um.

— Foi a única oportunidade que caiu sob o meu colo de chegar até você. — Ele levantou singelamente uma sobrancelha e sorriu. — Falhamos. Não negarei meu erro. Eu não esperava a sua destreza para escapar dos meus soldados. Capturar o Gavião foi uma artimanha, uma tentativa de tirar algo de proveitoso daquela situação e eu posso não ter conseguido o que queria, no fim das contas, mas consegui algo muito melhor. — Ele assentiu. — Eu descobri o calcanhar de aquiles do seu grupinho de heróis. O senso de família, de proteção, de amor. Eu sabia que sequestros e ataques só funcionariam até certo ponto. Eu precisaria de mais sorte do que estratégia, e eu nunca fui um de confiar meu destino na sorte dos outros. Eu sabia que você não morreria tão facilmente em uma explosão... — Willa fechou os olhos lembrando do corpo imóvel de Laura com as crianças inconscientes em seus braços. — Era só questão de tempo de você retornar ao meu radar e, quando essa chance aparecesse, eu não falharia. Com nenhum de vocês. Eu daria a você o que você clamava: a verdade. Riddle... Só precisei de um nome para entrar na sua cabeça.

Foi assim que tudo isso começará. O general foi manipulado por Zemo. Ele garantiu ter informações, mas que só daria a ela. Ele o convenceu e montou tudo do jeitinho que convenceria ela que precisava dele para conseguir o que ela buscava, a verdade de quem ela era. Ele confiou que ela estaria perdida, pois ele, em sua inteligência e conhecimento, sabia que se ele confiasse nos pontos fracos de Willa, ele não teria sucesso. Ele se agarrou aos seus pontos fortes: sua destreza, inteligência, habilidade para investigação e auto suficiência. Ele sabia que ela seguiria cada pista como João e Maria. Ele sabia que ela pegaria cada informação e devoraria pedaço por pedaço, até chegar em uma dor de estômago que ela só poderia resolver colocando tudo para fora ou com um antidoto que só uma pessoa teria, ele.

Com ela em seu domínio, ele só precisava convencê-la de que ele era necessário e de sua boa intenção. Um homem arrependido pelos atos de uma criança. Um homem sofrendo pela perda de sua família. Um homem inteligente que conhecia os pontos fortes e fracos de todos os seus inimigos – inclusive, os dela. Ele sabia que ela o leria, ele sabia que no primeiro sinal de raiva, fúria, mentira, ela o devolveria ao RAFT. Então, ele precisava de tempo. Ele precisava, entre todos os vingadores, estuda-la de perto. Ele conheceu a Riddle, mas a Willa... ela era uma mulher diferente. Ele saberia como lidar com o amor de sua juventude, mas como ele poderia aprender a domar a ninja?
Ele nunca pretendeu despertar o Bucky. Ele queria encontra-la, descobrir se ela tinha suas memórias da juventude, precisava conhecer seus pontos altos em luta e sua capacidade emocional super humana. Ele precisava saber se ela era, como eles, manipulável para os seus interesses. Ele despertou seu interesse naquela tarde. Ele entrou na sua cabeça e reclamou um lugar para ele. Ele sabia que precisaria de tempo e ele teria, na prisão.

Preso, ele ainda teve a confirmação de que ela estava em sua teia. Ela o visitou quando ele sussurrou seu nome. Ela o eletrocutou. Estava sofrendo por ter uma ligação com um assassino, um monstro. Ela sentia muito e ele aprendeu ali que, esse era seu ponto fraco, se importar. Então, ele treinou com cada choque, cada injenção, cada noite sem comida a mascarar suas emoções a um ponto que os soldados sentisse temor dele pela sua incapacidade emocional. Ele dosaria nos momentos certos, ele a seduziria a acreditar de suas boas intenções. Ela acreditaria que ele só queria corrigir seus erros. O soldado da HYDRA não o ajudava por ser um apoiador do seu pai. Ele o apoiava. Ele nunca tencionou em destruir a HYDRA, destruir o mal feito pelo seu pai, como ele dissera. Ele tencionava em toma-lo para ele e Syn era um peão, talvez o seu braço direito.

Quando Syn chega a eles, e Zemo fez todo aquela atuação para ela, na realidade, era combinado. Syn fingiria estar no controle e ele era só uma marionete em seus dedos finos. Ela tentaria arrancar de Willa o que Zemo não conseguiu descobrir em suas pesquisas e nem conseguiu em seus dias ao seu lado. Ele ganharia sua confiança ao protege-la depois de ferida, nas noites difíceis e ao prometer que a tiraria daquela prisão e lhe daria o que tanto almejava, o seu passado. Ela acreditou em cada palavra. Ele lhe devolveu o seu passado e, como Syn, ele esperava algo em troca: sua memória recobrada. Não do amor juvenil que eles viveram, do culpado da sua memória remodelada, da origem da sua família. Mas, da localização da pedra. Ele, como Syn queria a pedra, para trazer o caveira, para ter o seu poder.

Ele a manipulou. Ele a enganou desde o principio. Ela nunca teve o controle. Ela era a marionete o tempo todo.

— Tinha crianças naquela casa. — Ela sussurrou, deixando as lágrimas escorrerem pelo rosto. — Uma família.

— Vocês não pensaram nisso quando assassinaram a minha família em Sokovia. Por que eu deveria?

Willa bateu as mãos sob a mesa metálica explodindo em um estampido e saltou sobre a mesa segurando ele pelo colarinho trazendo-o para perto de seu rosto. Zemo manteve seu sorriso de bom moço seus olhos vasculhando o semblante dela, os olhos, o nariz, os lábios. Ela não via nada daquele menino por quem se apaixonara quando nova. Ele se transformara em um reflexo distorcido de seu pai, uma alma perturbada, amargurada, maléfica. Uma sombra do passado, um monstro em seu presente e um mal a espreita no futuro.

— Eu amo essa raiva borbulhando em você. — Seus olhos faiscaram sobre ela e seu sorriso alargou excitado. — Você poderia fazer coisas incríveis se a deixasse dominá-la, possuí-la, extasia-la.

— Você é pior do que seu pai.

— É. — Ele sorriu sentindo extase ao ouví-la áspera, sem controle. — Esse foi o meu mal. Buscar reprimir quem eu era por uma ideia, um sonho, uma ilusão. Meu pai desenhou o meu futuro para ser o Barão Zemo, seu sucessor na HYDRA. Aquele que levará a supremacia da HYDRA de volta ao lugar ao qual o Caveira Vermelha o colocou, o lugar de seu direito, o topo, ao qual ele nunca deveria ter deixado.

— Você teve uma chance de ser melhor do que ele e você se deixou levar pelas fraquezas da carne que o tornaram só uma memória fatídica de uma parte da história do mundo. — Ela desfez vagarosamente a expressão dela, secando as lágrimas calmamente com as costas da mão. — A história se repete, Helmut. Você em comparação a ele é só uma sombra reprimida. Um garoto assustado querendo vestir o casaco do papai, andando por aí arrastando o sabre dele, se dizendo ser maior e melhor do que qualquer outro que se sentou no seu trono. Quando no fim do dia você é só o carrasco que esconde a face no capuz com medo demais de se encarar no espelho e ver o papai refletido.

Ele rugiu distanciando dela e sentando na cadeira, perdendo pela primeira vez a sua compostura. Willa retornou para a cadeira, agora, sorrindo.

— Você não me dá medo, Helmut. Você me constrange. Alguém que poderia ter sido tanta coisa e se tornou... — Ela abanou a mão na direção dele com desdém. — isso. Patético.

— Eu te dei o seu passado. — Ele rugiu recostando-se na cadeira e levantando o queixo. — Sem mim, essa criatura patética que você acusa, você só continuaria sendo um receptáculo vazio procurando se sentir completa, com o que, com o amor do seu precioso Soldadin? Talvez com as noites tórridas de paixão com o teste de laboratório ambulante? Ou será que o Capitão, tudo sempre retorna para ele, não é?

— Zemo... — Ela sorriu. — Você não me deu nada que já não me pertencia. Eu nunca em nenhum momento da minha vida deixei de ser a Riddle. Willa, Yanagi... São as minhas sombras que rodeiam a mesma mulher. — Ela apontou para si. — Riddle. Ela estava comigo a cada passo, a cada escolha, a cada decisão. O que você me deu foi clareza. E esse talvez tenha sido o seu maior erro, subestimar o meu conhecimento sobre quem eu sou. Você pode ter me manipulado na sua teia desde o principio, mas enquanto você estava lá me enrolando e enrolando, pronto para me devorar, eu me soltei e prendi você na sua própria teia. — Ela gargalhou e Zemo uniu as sobrancelhas, incerto. Ela levantou com a sua voz sóbria e firme. — Você me devolve o meu passado, inclusive as memórias que mostra que foi você quem supriu a minha memória. Se existe uma pequena parte sua que ainda acredita que eu deixaria isso no passado por acreditar nas suas boas intenções tira isso da sua cabeça. — Ela deu de ombros com desdém. — Eu tenho tudo o que preciso de você. Eu sei onde você estará pelo resto da sua vida: preso e longe da HYDRA. E não se preocupe: a Syn não será líder. Nós vamos impedí-la e acabar com o que resta da HYDRA. Pode levar semanas, meses, anos, mas nós vamos fazer. O que mais? — Ela pensou. — Ah, sim. Eu tenho o meu passado nas minhas mãos, graças a você. Muito obrigada por me devolver minhas lembranças com o James, com a Natalia, com a minha família. E falando nela, é claro, a pedra. Se não fosse por essa nossa conversa tão esclarecedora, eu não saberia onde encontra-la. Agora eu sei. — Ela sorriu empolgada. — Muito obrigada por tudo, Zemo. Deve doer, não é? Você tinha tudo, mas perdeu em um estalar dos dedos. — Ela estalou os dedos erguendo as sobrancelhas. Deu meia volta seguindo para a saída. — Boa estadia no RAFT. Eu tenho certeza que ela será inesquecível.

E sem lhe dar mais nada que lhe pertencia nem as suas palavras, nem seus sentimentos, muito menos sua presença, Willa deixou o seu passado onde ele deveria ter ficado, para trás. Deixou a sala permitindo a porta selar a sala com Helmut em um baque, deixando-o sozinho com sua solidão e seus pensamentos.

Willa não olhou para o lado e seguiu direto para os braços de Natasha, onde ela se encontrou em um abraço carinho, com sabor de casa e um ombro onde encaixou seu rosto como morada, livre para chorar tudo que ela reprimira naquela sala, tudo que ela não desejava dar a ele, e sentiu-se, finalmente, que as cordinhas que a prendiam a Helmut Zemo soltarem-se no ar.

Willa não tinha mais amarras lhe prendendo.

Ela era livre para viver a sua história como quem ela era em sua alma.
Riddle Rand.

Notas finais
O que você espera do final de temporada de Exile? :)