Born to Die | Exile
37 Exile | Dead
Notas iniciais

Willa abriu os olhos. Seu corpo estava repousado em uma cama tão macia que por um instante, ela pensou estar no seu quarto. Ela encarou o teto com cores azuis claras e desconheceu aquele lugar. Onde ela estava? O que tinha acontecido... Helmut atirou nela?
— Você... — A voz masculina a sobressaltou e ela se sentou olhando para quem estava ao seu lado, e levou mais um susto: o homem não tinha rosto. Ela via que ele tinha um, mas ela não o enxergava estava embaçado, distante, irreconhecível. Ele usava um moletom escuro e os seus cabelos loiros enrolados emolduravam o rosto sem traços. — Você ainda não se lembra de mim, não é? — Ele soou tão triste que, ela por um instante não conseguiu não sentir empatia pelo desconhecido.
— Onde eu estou? — Ela olhou para o ambiente buscando alguma coisa reconhecível, a presença de alguém ou uma arma. Tudo que ela via parecia não estar no seu alcance. — O que é isso?
Ela desceu da cama nos tropeços e alcançou a maçaneta da porta. Ela abriu a porta e escapou para um corredor acinzentado com moveis simples, porém modernos. Ela entrou na primeira porta e deparou-se com o chão a metros de distância de sua cara e o desequilíbrio a levou a desabar no taco de madeira. Prostrada no chão, ela sentiu seu corpo latejar pelo impacto.
— Desculpe por isso. — O rapaz soou sincero.
Ela olhou para cima encontrando a porta aberta e pendendo no ar, o corredor estava intacto, seus móveis não se moviam, mesmo estando de ponta cabeça. Ela olhou para o rosto sem traço e sentiu um desconforto em seu estômago. Ele era desse planeta? Um feiticeiro?
— Eu ainda estou aprendendo a controlar os ambientes astrais. Não estou tendo muito sucesso, como você pode ver. — Sua simpatia era muito familiar para ela que guardou as suas palavras em sua memória. Ambientes astrais? Wanda não falou algo assim algum dia?
— Quem é você? — Willa repetiu colocando-se de pé e fechando os punhos. Ela olhou para o canto da parede e descobriu que tinha bordas. Suas mãos tinham cinco dedos cada. Logo, ela deduziu que não estava sonhando. Aquilo era projetado. Alguém estava mexendo com a sua mente.
Se ela estava presa em alguma ilusão criada por algum superhumano, ela ainda tinha o conhecimento das suas habilidades, ou seja, aquele mundo ainda estava sob o seu controle. Wanda explicou para ela como funcionava o controle astral. Podia ser espectral, como um sonho ela teria controle de suas emoções e pensamentos, mas ela não poderia escapar, como em uma prisão. O que acontecesse ali, ela poderia tentar fugir, mas uma hora, ela seria pega pela narrativa de seu sonho. A sokoviana não entrou em detalhes quanto a isso, mas o nome arrepiou a nuca de Willa.
— Eu não posso interferir no seu conhecimento. — Ele soou pesaroso, levantando-se da cama e seguiu até parar diante dela. — Saiba que eu não estou aqui para te machucar.
— Então, porque está aqui? — Ela arqueou uma sobrancelha, desconfiada.
— Você se lembra desse quarto? — Ele moveu a cabeça no em torno do quarto e Willa acompanhou o seu olhar, sentindo uma pontada curiosa em seu coração.
— Não.
— Você adorava se esconder no armário, tinha muito espaço atrás das roupas e para não perder tempo, os nossos amigos não procuravam ali. — Ele apontou com a cabeça. — Mas, quando era eu contando, você nunca se escondia ali, porque eu sabia que esse era seu esconderijo secreto.
— Eu não me lembro de nada disso. — Ela negou com a cabeça estranhando o desconforto crescendo em seu peito, caminhando para trás até suas pernas tocarem o dorso da cama.
— Você vai se lembrar e quando isso acontecer, eu vou encontrar você, irmã.
Willa arregalou os olhos, sentindo um grito sufocar em sua garganta, quando o rosto do homem por um milésimo ganhou forma, até dissolver-se em um desfoque caótico e o corpo de Fairchild desabou pesadamente.
Um grito irrompeu de sua garganta e seu corpo sobressaltou-se e ela se sentou no que parecia ser uma cama, mas longe de ser tão quente e macia como a de seu sonho assustadoramente real e familiar.
Ela respirou com dificuldade e ouviu por um milésimo de atraso uma batida forte de um coração e a centímetros de ser tocada, ela agarrou a mão de quem estava a seu lado. Puxou o braço dessa pessoa para frente e prendeu-a de bruços contra a cama e apoiando o joelho na costela com a mão sobre o omoplata, ela conseguiu olhar para a pessoa, encontrando Zemo sob a sua posse.
— Onde eu estou? — Ela rugiu a questão.
Uma corrente elétrica dominou toda a sua pele. Incapaz de se mexer, ela sentia seu músculo tremer e ela caiu mole sobre a cama. Zemo empurrou seu corpo inerte para sobre da cama. Pelo canto dos olhos, ela acompanhou ele olhar para um espelho e fazer um gesto, como se fosse para cortar algo. Um segundo depois, ela se encontrou livre do choque e capaz de respirar novamente. Seu peito doía pelo esforço. Ela levou a mão até o pescoço, onde a corrente elétrica iniciara e sentiu uma partícula presa em seu pescoço. Aquela arma maldita penetrou algo em sua pele. Um dispositivo de choque, talvez com outros atributos. Ela tinha que arrancar isso dela antes de descobrir na pele.
Eles não estavam sozinhos. Ela lançou um olhar ao seu redor, descobrindo-se em um quarto. Diferente do quarto do seu sonho (ilusão ótica, controle mental, loucura mental) que era iluminado e possuía uma decoração moderna simplista, ela se encontrava em um quarto retirado do século XVIII. A porta estava fechada, e para a sua surpresa, as cortinas da janela estavam abertas. O dia não estava claro e ela sentia um frio gélido crepitando em sua pele, mesmo com o som de aquecedor ligado. Eles estavam em algum lugar ao Norte da Europa, onde nevava naquela época.
Ela olhou para Zemo e saltou da cama, sentindo seus pés desnudos correrem pesados até janela, à campina diante de onde ela estava encontrava-se dominada por neve e esse cenário perdurava por metros e metros até chegar a uma floresta. Ela levou a mão ao trinco, encontrando ele soldado. Antes que ele pudesse alcançá-la com seus passos firmes e confiantes, ela arrancou o abajur da escrivaninha e arremessou contra o vidro e nada aconteceu. O abajur caiu no chão quebrando a lâmpada e sua estrutura e a janela continuou intacta. Willa repetiu a ação com os seus punhos e ferocidade para desanimo do alemão.
— Não gaste sua energia. A janela é blindada. — Ele caminhara até o alcance dela. A pele dos punhos dela se encontravam rasgados a cada soco forte e feroz contra o vidro. — O que você se lembra de ter acontecido?
— Você atirou em mim, seu babaca! — Ela agachou e atirou o abajur na direção dele e por centímetros, ele seria acertado, mas conseguiu se abaixar a tempo, levantando-se sem perder a sua postura. — Onde eu estou?
— Você está em uma das instalações mais modernas da HYDRA, em Berlim. — Europa, como ela suponha. Pelo pouco que ela conseguiu ver na janela, eles estavam longe da cidade. Pelas montanhas cercando eles com o bosque, aquele lugar deveria desembocar em uma estrada. Ela precisaria de um carro para sair daquele buraco frio, mas antes ela quebraria a cara de Zemo.
— Você conseguiu fugir da sua sentença, como você queria. — Ela rosnou com um olhar furioso sobre ele. — Você conseguiu me enganar com aquela historinha de saber o meu passado. Meu usou direitinho e conseguiu o que queria. — Ela esbravejou cuspindo a sua acusação. — Só que infelizmente para você me capturar foi uma péssima ideia.
— Encontramos o GPS no salto do seu sapato. — Ele piscou um olho e isso intrigou Willa. Sem expressão, ele prosseguiu a caminhar no quarto. Nenhuma molécula de ar entrou no corpo de Willa. — Os seus amiguinhos não tem como te encontrar aqui.
— O que você quer de mim, Zemo?
As portas do quarto foram abertas em um rompante.
— Ele não quer nada de você, querida. — A ruiva belíssima com sua voz de sotaque forte e voz rouca ecoando pelo quarto entrou no quarto acompanhada de dois homens usando roupas negras com emblemas da HYDRA em vermelho estampados nos braços. Willa não sentiu a aproximação deles. Ela deveria ser excelente em furtividade. A ruiva usava uma roupa tática vinho com um belo decote e uma arma presa a sua cintura. Os cabelos ruivos tinham ondas e as suas sardas tinha destaque em sua pele leitosa. — Eu, por outro lado estou fascinada por conhecê-la. Ouvi muitíssimo sobre a portadora da joia.
— Não apenas ouviu como tem me perseguido a meses! — Joia? Ela não sabia do que diabos ela dizia, mas agarrou isso como uma vantagem para se manter viva. Certamente aquela mulher queria algo em troca. Ela não a manteria em um quarto e inteira se não tivesse interesse nela com seu coração batendo.
— Mostre respeito à filha do Caveira! — O olhar de Zemo intensificou sobre Willa e ela uniu as sobrancelhas.
— Quieto, Zemo! — A ruiva ordenou abanando uma mão na direção dele, e imediatamente, ele encolheu-se e abriu caminho para ela que ficou diante de Willa. Ela a admirou de perto, como uma felina cheirando o medo em sua presa. Em Willa, só sentiu o cheiro de desafio. — Então, você sentiu a minha presença?
— Você fede igual ao seu pai. — Willa sorriu convencida. Ela poderia acerta-lhe um golpe nas costelas e arranca-lhe o ar, assim tendo tempo para mobilizar os seus soldados, mas a insubordinação a mostraria quem era seu inimigo.
A ruiva abriu um sorriso diabólico e acertou um tapa na cara de Willa que, desabou no chão. Ela só precisava desse apoio para mirar um chute na canela da mulher, mas antes de acertá-la, um dos soldados apertou um dispositivo e a corrente elétrica retornou a dominar cada músculo do corpo da ninja.
— Eu não quero desgatar você, Barbiezinha, mas eu odeio ser desrespeitada. — Ela debruçou-se sobre o corpo trêmulo de Willa no chão. — Você vai se comportar agora?
Willa era incapaz de falar, mas lançou um olhar furioso sobre a ruiva que alargou o seu sorriso. Ela levantou a mão e moveu o indicador com o dedo médio e o dispositivo foi apertado, levando embora o choque. Ela repousou as mãos no chão, buscando levantar-se, mas seus braços tremeram e ela se encontrou incapaz de se movimentar. Ela sentiu a mão da ruiva segurar os seus cabelos, puxando a sua cabeça para atrás e ela conseguiu vislumbrar Zemo a olhando aterrorizado por breves instantes, até que sua expressão retornou a dureza. Ela estava imaginando coisas?
— O que você quer de mim? — Willa trincou os dentes, concentrando sua atenção para recuperar os movimentos do seu corpo.
— Nossa, tão prestativa! — Ela repousou a mão no queixo de Willa, repousando sua cabeça no ombro dela e cheirou sua pele e Willa nem se moveu. — Eu só quero que você faça uma coisa por mim. — Willa respirou fundo, recuperando os movimentos das mãos e das pernas, mas buscando não demonstrar. Ao olhar para a ruiva, ela viu os seus olhos verdes faiscarem de desejo. — Quero que você morra.
Ela sorriu e gargalhou sadicamente. Segurou a cabeça de Willa com as duas mãos e bateu com as mãos em seus ouvidos com força, empurrou ela contra o chão. Os ouvidos da ninja começaram a zunir dolorosamente. O sangue subiu até os seus lábios e ela engasgou com o que achou ser um dente.
O soldado moveu-se para apertar o dispositivo, mas a ruiva negou com o indicador.
— Eu quero me divertir um pouco.
Zemo reteseu ao escutar suas palavras.
Tonta, Willa buscou levantar-se e foi pega de surpresa com um chute em suas costelas que, lhe arrancou o ar que ela a pouco recolhera. O chute veio acompanhado de outro e outro e outro. Willa não conseguia se recuperar dos golpes. Ela não conseguia antever o que aconteceria quando sua audição estava prejudicada. Suas costelas latejavam. Ela sentia um nó em seu estômago doloroso. A sucessão de golpes era intercalado com socos em sua cabeça e arranhões. Quando ela sentiu algo perfurarna altura do seu pulmão, uma adaga fina, ela cuspiu sangue, sentindo o ar tornar-se escasso. Seu corpo foi virado para cima e ela enxergava a ruiva destoada. Zemo a distância reprimia seu semblante e os soldados assistiam a tudo, obedientes. Ela sentiu as dores em seu corpo desaparecerem e concentrarem no buraco esguiçando sangue de seu pulmão.
— Eu quero que antes de você partir, coisinha imunda, que você se lembre que Syn, filha do grande Caveira Vermelha a arrancou desse mundo e o Capitão assistirá cada um de vocês definhar até a hora dele chegar. — Ela agarrou Willa pelos cabelos, puxando-a para cima, apontando com um sorriso sádico para o espelho. — Dê um sorriso para a câmera! Ele e o mundo todo assistirá o fim da JUSTIÇA!
— Já chega, Syn! — Zemo tomou a frente, segurando a ruiva pelo ombro. Ela largou Willa que caiu pesadamente no chão, incapaz de se mover. — Nós tínhamos um trato.
Syn gargalhou.
— E eu não descumpri ele. Veja bem: ela está viva. — Ela gesticulou teatralmente para Willa imóvel. — Ela ainda respira. — Ela caminhou sensualmente até Zemo, olhando-o lasciva. — Eu não sei quais são os seus gostos, mas garanto que quanto menos arredia ela for mais tempo proveitoso você terá com ela. Aproveite. Levem-na para o calabouço. Lá, o Barão poderá aproveitar os últimos instantes ao lado da sua decepção amorosa, não é?
Ela riu, desfilando para a saída.
— Desliguem as câmeras. Publiquem o vídeo no satélite e envie para o mundo. Eu quero ver a esperança ser drenada dessas pessoas sem pureza. — Ela proferiu altiva. — Ah, e quando você terminar, me encontre no escritório. — Ela apontou para Zemo. — Precisamos discutir sobre os próximos passos daqui por diante. Sem esse empecilho, podemos seguir com o meu plano e você, meu querido, tem um grande papel nisso tudo. HAIL, HYDRA! — Ela gritou e os soldados se viraram repetindo as suas palavras e gesticulando ao comando. Ela olhou para Zemo em silêncio e ele assentiu, comprimindo um sorriso.
— Hail, Hydra.
A porta fechou pesadamente. Zemo conferiu de soslaio o espelho e não quis arriscar. A câmera podia ser desligada, mas algum soldado de Syn podia ainda estar por trás do vidro do espelho, assistindo a tudo. Ela era sádica e desconfiada. Ele não duvidava que Syn teria colocado alguém para vigiar cada um dos seus passos até ela ter certeza que ele era confiável e enquanto ele estivesse na presença de Riddle, todas as suas reações e ações seriam assistidas por Syn.
Ele estava aterrorizado. Willa tinha perdido muito sangue e as escoriações sofridas da agressão eram visíveis a olho nu. Ela tinha um olho aberto e o outro estava inchado. Antes que ele pudesse aproximar dela, os soldados a seguraram pelos braços e a arrastaram no chão, levando-a para o seu destino: a prisão.
Zemo não teria muito tempo para conseguir ajudá-la, mas se ele aprendeu algo nos últimos meses era que a sua determinação era incontrolável e quando ele queria algo, ele conseguia.
— Eu preciso que você se concentre em minha voz, irmã.
Ela conhecia aquela voz. Tão suave, gentil. Soava tão distante, como um eco. Buscou encontrar o seu dono. Sua visão turva mostrou um horizonte obscuro e as suas mãos encontraram um chão áspero. Aquilo trouxe um aflito em seu coração.
— Você está em segurança. — Ela sentiu uma mão tocar sobre o seu coração e vagarosamente, ela sentiu uma calma envolvê-la ternamente. — Eu preciso que você se concentre em sua energia vital.
A voz vinha de todas as partes, e por um instante, ela acreditou que a voz vinha de dentro dela.
— Eu estou com você, irmã.
— O que está acontecendo? Você não é real. Você está morto.
A voz ecoou e ela sentiu o seu tórax subir pesadamente.
— Eu estou te curando.
O turvo dos seus olhos foi substituindo por um brilho amarelo intenso mesclando com uma energia branca acinzentada encontrando tal força em tentáculos e por mais que ela lutasse, ela acabou desvencilhando de suas forças e nada além da escuridão dominou os seus sentindos, enquanto sentia aquele calor terno e força indomável envolver o seu corpo.
Willa sentiu uma pontada sobre o peito e não conteve um sibilo. Abriu os seus olhos, enxergando o homem sem rosto turvo e embaçado fazendo movimentos com os seus braços e as suas mãos, passando por sobre o corpo dela, sem tocá-la, como se estivesse arrancando uma energia invisível sobre o seu corpo e devolvendo a energia dele, limpa e curativa. Sobrepondo a ele um homem de rosto familiar. Seus olhos castanhos a olhavam com preocupação. Ela conseguiu enxergar suas mãos sujas de sangue, com movimentos ágeis ele movia ferramentas cirúrgicas e ela sentia cada uma das pontadas. Queimando, cutucando e rasgando sua pele.
— Aguente! — Ela escutou a suplica do alemão.
— Helmut... — ela sentiu as palavras deixarem seus lábios de forma áspera e dolorosa, o gosto de sangue voltou a dominar o seu paladar.
— Descanse, Riddle. — Ele pediu com um olhar pesaroso, levando aos lábios dela um algodão molhado com água gelada ao qual ela sugou sedenta de sede. — Eu estou acabando. Você vai ficar bem
Ela tentou enxergá-lo com clareza, mas assistiu a imagem dele fundir com a do homem sem rosto terminando uma sequencia de movimentos com os braços e a inconsciência a devorou.
Acordou esbaforida. Sentia seu corpo dolorido, ainda respirava com dificuldade, mas não sentia dor ao fazer isso. Tentou ajustar a sua visão e encontrou-se em uma cela. Tocou a parede metálica e descobriu algo contendo os seus movimentos: ela estava acorrentada nos pulsos e também nos pés. A pouca claridade escapava das frestas da porta dava para ela um vislumbre do quadrado onde ela estava enfurnada. Buscou nas paredes algum sinal de câmera ou um vidro imitando uma janela, mas não havia nada a olho nu. Então, o que ela pensou ter visto foi uma alucinação? Isso fazia sentido. Ela foi deixada ali para morrer. Suas roupas estavam sujas com seu sangue. Ela sentia o suor descendo pelo seu pescoço, mas estava longe de sentir calor. Recostou contra a parede metálica e deixou a sua mão dedilhar seu corpo até o ponto que as correntes permitissem e ela sentiu uma pontada de dor quando seus dedos tocaram sem querer uma área recém-queimada, ou melhor, cauterizada. Zemo esteve ali. Essa certeza renovou as suas esperanças. Por ora, ela precisava recuperar as suas forças. Ela conseguiria meditar para recompor suas energias. A cauterização precisaria de um dia para sarar, com ajuda da meditação ela conseguiria também se livrar das dores musculares, quanto as possíveis costelas quebradas, ela precisaria tentar concentrar essa dor em outro ponto do seu corpo, de preferência um que ela não usasse para lutar.
Outra certeza que ela desvendou ali era que Zemo salvou a sua vida e independente dos motivos dele, ela tinha certeza que ele retornaria e quando fizesse isso, ela poderia tentar ludibriá-lo a conseguir respostas e tentar escapar daquela prisão. Até porque, pelo que ela bem lembrava a tal da Syn queria ela morta. Ela não teria muitas chances.
Buscou descobrir quanto tempo estava presa ali. Ela se lembrou ter sentido sede, então deveria ter passado algumas horas. Resolveu contar o tempo até perceber algum movimento ao lado de fora. Após três tentativas, ela se deu conta que a cada 900 segundos uma pessoa passava próximo a porta e seguia em frente. O corredor tinha um vigia. Syn a deixou para morrer, mas temia que a morta voltasse a vida. Willa conteve uma gargalhada. Ah, ela voltaria e não seria a primeira vez!
Se esforçou para ficar acordada, mas ela perdeu tal domínio após tanto lutar e apagou de cansaço despertando ao sentir um toque em seu rosto.
Movimentou as mãos em uma tentativa de se defender, mesmo que as correntes a impedissem. Ela sentiu mãos segurarem em seus ombros e encontrou Zemo.
— Você... — ela sibilou tentando se desvencilhar de suas mãos.
Ele distanciou-se abaixando a cabeça, por um instante, ela acreditou que ele tinha ficado sentido com as suas palavras. Ela olhou para a porta e a encontrou fechada, ele acendeu um stick de luz e ela pode enxergar melhor o seu cubículo, mas isso se perdeu de seu interesse, quando ela viu ele tirar do bolso um pão embrulhado com uma garrafinha contendo um liquido.
— Toma. Coma e beba rápido. Não teremos muito tempo. — Ele tentou entregar para ela, mas Willa reteseu. — Você acha que eu envenenei a sua comida? Por Deus!
Ele cortou um pedaço do pão e colocou na boca, comendo o conteúdo em mordidas rápidas. Virou um gole da bebida e isso foi o bastante para Willa que tirou a garrafa da mão dele e bebeu o liquido de gosto gasoso rapidamente.
— Vá com calma! Isso é para te dar energia.
Se ela continuasse bebendo naquela velocidade, ela passaria mal. Com isso, ela comeu alguns pedaços do sanduiche, tentando mastigar e engolir o quanto antes.
— Por que você está aqui? — ela questionou com a boca cheia.
— Para te tirar daqui — ele sussurrou próximo a ela.
— Você me colocou nesse lugar. Você acha que eu vou acreditar em alguma coisa que você me diz? — Ela mordeu um pedaço do sanduiche com um olhar furioso sobre o alemão.
— Nós estamos exatamente onde deveríamos. — Willa uniu as sobrancelhas virando um gole da bebida.
— Você sabia que a Syn e a HYDRA iam invadir — ela disse em choque.
— Havia um agente infiltrado no RAFT. Ele é um entusiasta da era de meu pai e estava me mantendo a par sobre as monstruosidades feitas por Syn. — Willa prestava atenção as suas palavras. — Em outro momento eu te darei mais detalhes, mas saiba agora que ela é um problema que necessita ser contido. De qualquer modo, eu não tencionava retornar para a HYDRA por causa dela, e sim por você.
Os sentidos dela ainda estavam instáveis. Era difícil dizer se aquelas batidas de coração eram de Zemo ou de alguém próximo imagina identificá-la como batidas de alguém que diz a verdade ou não.
— Eu pedia informações sobre você a ele, mas pouco o agente sabia. — Willa analisava as suas palavras buscando por alguma falha emocional identificável como mentira. — Foi quando eu tive a ideia de atraí-la até mim. Eu imaginava que depois de ter contato comigo e o soldado invernal suas memórias retornariam aos poucos. — Ele insistia nessa história, no seu passado. — Quando o General anunciou que você aceitou a minha proposta, o agente me deixou a par de tudo. Informou a Syn sobre a sua presença, assim ela poderia invadir e nos trazer para cá.
— Como também ele te deu a chave das algemas... — ela entendeu, assentindo.
— Assim Syn acreditaria mais em minha lealdade a causa dela. — Era um bom plano. Ela não podia negar: faria algo semelhante. Essa similariedade entre eles a levou a piscar os olhos, saboreando aquele sentimento em seu estômago.
— Quanto tempo eu estou aqui?
— Perto de vinte e quatro horas. — Ela estava perto dessa contagem. Ela se sentou com um pouco mais de conforto, aproveitando a sua abertura para lhe fazer uma nova questão. — Nós estamos em uma cidade ao norte de Berlim. — Ela comprimiu os lábios, não precisava mais questioná-los sobre isso. — Essa instalação foi reconstruída sobre o prédio oficial da HYDRA.
— Por que a Syn me quer morta? — Ela não conseguiria descobrir tal resposta utilizando seus dons e aprendizagem oriental. Ela precisa dele para responder-lhe isso.
— Ao que tudo indica, você possui algo que ela quer. — Naquele momento, Willa só conseguia pensar na sua beleza e na sua amizade com Steve. — Você se lembra da sua pedra?
— Não — Ao proferir isso ela entortou os lábios com uma sensação estranha de que estava esquecendo de algo. Novidade! Mas, talvez fosse uma lembrança... — Eu li sobre uma pedra nos arquivos da HYDRA que encontrei sobre mim.
— Sim! — Ele gesticulou com animo. — Essa sua pedra era um artefato poderosíssimo. O motivo inicial para meu pai ter trazido você para as nossas vidas foi essa pedra.
— Eu não reconheço nada disso que você está me contando. — Ela arregalou os olhos negando com a cabeça. — É como se você estivesse falando em grego para mim.
— Mas você sente um comichão dentro de você, não sente? — Ela uniu as sobrancelhas sentindo sua barriga fechar em um nó. — Uma sensação de que você já ouviu algo similar a essas histórias, como um deja vu, uma sensação de falta?
— Vamos dizer que hipoteticamente eu sinta, como você poderia me ajudar? — Ela inclinou a cabeça.
— Eu fico feliz por você me dar essa dose de confiança. — Ele assentiu confiante, comprimindo um sorriso.
— Não — ela proferiu séria. — Eu não confio em você, mas eu preciso entender isso e se você é o caminho, então eu vou atravessá-lo.
— É por isso que nós estamos aqui. — Ele levantou o queixo sem perder sua confiança. — Abaixo do esqueleto dessa construção encontra-se as antigas salas do prédio oficial, como também o arquivário, sistema de segurança e as maquinas utilizadas em teste de aquisição de dons e controle da mente.
— O que eu preciso fazer para usar essa maquina?
— Você... — Ele titubeou com um olhar incredulo sobre a ninja. — você acredita em mim.
— Eu acredito que tem algo faltando dentro da minha cabeça e tudo aponta para a HYDRA ter essas respostas — ela proferiu firme, mas não ousou completar que ele era parte dessa sensação de falta. — Então, como chegamos até lá?
— Você precisa se recuperar antes de pensarmos na possibilidade de fazermos o processo. — Ela grunhiu.
Maldita Syn!
— Eu não tenho tempo a meu favor aqui. — Ela aprumou sua postura na direção dele, sentindo uma pontada em sua costela. — Syn me quer morta, quando ela se der conta que você continua a me visitar quando deveria anunciar a minha morte, ela vai vir terminar o serviço. — Até um sádico se cansa de infligir dor em seu submisso. — Eu estou me sentindo bem.
Bem era relativo para ela.
— Posso...? — Ele esticou a mão com cuidado na direção do rosto dela e Willa assentiu. Ele sentiu a temperatura dela e estava morna, o que era bom, mas não satisfatório para o clima frio. — Tem sentido dores?
— Um pouco, mas eu estou conseguindo neutralizar com meditação. — E um desejo soturno de vingança.
— Eu trouxe dipirona. — Ele tirou um comprimido do bolso e entregou a ela que reconheceu o cheiro do remédio e tomou com o último gole da bebida. Ele sorri para ela. — De qualquer modo, eu acredito que você precise de mais alguns dias para ir na maquina.
— Eu não tenho tempo...—
Ele estendeu a mão interrompendo ela com um menear da cabeça. Ela se calou com o seu pedido, percebendo nele uma delicadeza e educação que ele tentara mascarar diante de Syn.
— Eu vi homens mais saudáveis do que você morrerem nessa maquina. — A dureza e dor em suas palavras não deixaram duvidas em Willa.
— Eu não sou esses homens — ela proferiu altiva. — Você vai me ajudar ou eu vou ter que dar um jeito de fazer isso sozinha?
— Claro que eu vou te ajudar! — Ele estendeu as mãos como se aquilo nem tivesse que ser questionado.
— Obrigada. — Ela foi sincera em suas palavras e abaixou seu olhar, um simbolo de confiança aprendido com Stone. Ao olhá-lo, encontrou com um sorriso comprimido de conforto. — Eu vou precisar de roupas. Ao menos uma arma. Pode ser uma adaga ou uma pistola.
— Mais comida?
— Não se preocupe com isso. Eu já aguentei mais dias sem comida. Isso vai me sustentar. — Ela revelou pensativa e não viu o cenho dele enrugar em conflito. — Você disse que quebrou o meu GPS...?
— Eu menti. — Ela uniu as sobrancelhas, surpresa. — Syn mandou vasculhar você em busca de um GPS e eu encontrei. Eu mostrei a ela e mostrei que quebrava, mas na realidade, eu quebrei a caixa protetora. — Zemo tirou o microchip do bolso e ele piscava vermelho. Ainda funcionava. — Ele está aqui.
— Eles sabem onde eu estou! — Ela exclamou com esperança e Zemo assentiu com um olhar pesaroso, guardando o chip. Ela podia beijá-lo!
— É por isso que eu acredito que podemos esperar por mais alguns dias. — Ela negou com a cabeça. — Assim que os seus amigos chegarem aqui, eles irão conter ela e os seus soldados. — Ela não duvidava que eles estavam a caminho, mas havia algo de desgostoso em esperar naquela cela, na incerteza de uma salvação. — Eles não serão pareos.
— E eu não entrego meu destino a mão do acaso. Vamos prosseguir com o plano — Ela proferiu firme e ele abaixou a cabeça. — Você sabe se precisamos de alguma coisa para usar essa maquina ou chegar até ela?
— Eu estou cuidando disso.
Então ela teria que confiar nele. Ela não gostou disso, mas não encontrou um modo de conseguir ter as redeas daquela situação sem que ele percebe a sua desconfiança.
— Syn precisa ficar ocupada para conseguirmos ter tempo para escapar — ela o lembrou da existência da ruiva do inferno. Ela podia ser uma pedra no sapato.
— Também pensei nisso.
— Tem mais alguma coisa que você pensou? — Ela arqueou uma sobrancelha com insubordinação e os olhos de Zemo passearam dos olhos dela por cada trecho de sua pele, até chegarem nos seus lábios grossos com uma sardinha na beirinha do lábio superior.
Uma batida forte soou contra a porta e Zemo olhou para a entrada, unindo as sobrancelhas e retornou a sua atenção para Willa, repousando sua mão sobre o seu rosto e acariciou com carinho mesmo que ela o olhasse com desconforto.
— Não, eu só tenho pensado em salvar você.
Willa nunca imaginou que encontraria tanta sinceridade e verdade em um olhar. A porta abriu em um supetão e ela imediatamente se fingiu de desmaiada. Eles precisavam acreditar que ela estava debilitada. Ela sentiu os lábios de Zemo tocando sobre a sua testa e sentiu o coração dele bater com uma calma que foi transmitida para ela.
A porta fechou em um baque e ela retornou a escuridão, respirou fundo, certa de que em algumas horas ela teria as respostas que buscava a vida inteira e não sabia.
Quando Zemo retornou Willa se sentia muito mais disposta. Seus sentidos aguçados não estavam em sua melhor forma, mas ela conseguia diferenciar as batidas dos corações do soldado com o de Zemo, conseguia escutar o eco dos pés sobre a madeira e também diferenciar o cheiro de seu sangue com o do metal revestindo as paredes e a pólvora. Ela não se sentia 100% porcento, mas ela não estava com um leque de opções ao seu favor. Ela teria que trabalhar com o que tinha. Por isso quando Zemo entrou na cela acompanhado de um soldado e anunciou que ela estava com falta de ar, ela soube diferenciar as batidas do coração para saber que o homem estava na frente do alemão, por isso quando ele caminhou até a distância em que ela alcançava com as correntes, ela levantou da sua falsa incapacidade e prendeu a corrente contra o pescoço do soldado, agora seguro por Zemo. Ele tentou lutar contra, mas dois contra um venceu na estatística e ele caiu desmaiado. Zemo fechou a cela e pegou um chaveiro do bolso do homem e sem perder tempo, abriu as algemas das mãos e pés de Willa. Liberta, ela massageou as áreas até então apertadas.
— Eu não conseguiria trazer roupas escondidas, então trouxe alguém que aparenta ter o seu tamanho — ele explicou gesticulando para o corpo do soldado. Ela assentiu.
— Ótimo. Me serve. — Ela começou a despir o homem e percebeu que Zemo estava imóvel. — Se você me ajudar a tirar as roupas dele, mais rápido termino com isso.
— Está aí uma frase que eu nunca pensei em ouvir.
Ele a ajudou a despir o homem e quando ela o olhou com uma sobrancelha erguida, ele se encontrou confuso.
— Você espera que eu troque de roupa na sua frente? — Ela apontou o indicador para ele, arqueando as sobrancelhas.
Ele negou com a cabeça e foi para próximo da entrada, de costas para Willa. Ela despiu as suas roupas imundas de sangue e suor e vestiu as peças da farda da HYDRA. Primeiro as calças, a blusa, amarrou o cinto e colocou o casaco negro. Por fim, colocou as meias enroladas no bico da bota e apertou bem os cadarços. Não estava perfeito, mas daria para o gasto. Ela estava vestida como Zemo, como alguém da Hydra. Sentiu repulsa imediata.
Pegou a pistola do cinto, conferindo quantas balas tinha.
— Eu peguei uma coisa para você. — A voz de Zemo chamou atenção dela, ele escutou o gatilho. — Posso virar?
Ela concordou e ele tirou de dentro do seu casaco uma adaga média. Ela pegou comprimindo um sorriso ao sentir o peso da arma e sua ponta afiada. Era uma adaga japonesa legítima. Boa para giros e golpes agéis, igual a que ela usava.
— Eu a vi na sala de armas e pensei em você.
Algumas pessoas viam flores e pensavam em alguém. Willa era lembrada quando passava filme do Bruce Lee na televisão ou em uma sala de armas.
— Obrigada. — Ela sorriu sincera pela primeira vez a ele e Zemo apenas assentiu, incapaz de proferir alguma coisa. Ela girou a adaga e guardando na haste livre do cinto. — Como chegaremos até o lugar?
— Eu tenho o mapa na minha cabeça. — Ele apontou para a cabeça com um sorriso convencido. — Me acompanhe. Se alguém nos parar, eu vou informar que você está comigo para um trabalho. Não fale nada. Eu vou dizer que a Syn cortou sua língua.
— Ela fez isso com alguém? — Willa questionou com horror.
— Vários que se negaram a jurar fidelidade a ela. — Syn era hardcore e agora Willa queria ter um papo um a um com ela mais do que nunca. Os soldados da HYDRA podiam não valer mais do que uma moeda de três dolares, mas esse nível de crueldade era desumano, quantos inocentes ela tocara? — Pronta?
Willa vestiu o capuz do uniforme e fechou a sua aba, só com os seus olhos azuis a mostra no visor rendado. Ela assentiu confirmando estar pronta e Zemo abriu a porta e Willa sentiu o gosto da sua liberdade tão ansiada com gostinho de vitória na ponta de sua língua.
A travessia foi tortuosa para Willa. Cada soldado que cruzava o seu caminho era um soco que ela precisava conter em sua alma. Caminhava lado a lado de Zemo, canalizando a sua melhor interpretação de soldado. Por sorte, nenhum soldado interviu o caminho deles. Foi quando Willa escutou uma batida de coração acelerada e calorosa entre todos que ali estavam, ela parou de caminhar, atraindo a atenção de Zemo que não entendeu o motivo para ela ter parado. Não era só esse batimento. Havia um outro, um batimento que ela não ouvia a tanto tempo e ansiava, mais estável, forte, ritmado. Ela conhecia aqueles batimentos como parte dela.
Quando a sineta de alerta acionou um apito e luzes vermelhas com as luzes centrais apagando, Zemo entendeu: ela escutou algo.
Duplas de soldados passaram por entre eles, com pressa munidos de armas. Eles iam defender a base de um ataque.
— Precisamos seguir agora. — Ele segurou o braço dela, não se incomodando de atrair a atenção de algum soldado. A puxou para caminharem, mas ela conteve seus passos. — Estamos sob ataque — ele sussurrou. — É a nossa chance.
Ela não disse que sabia que eram os seus amigos atacando a base. Por mais que ela estivesse entregando uma dose de sua confiança para ele, algo em sua intuição recomendou que ela privasse Zemo dessa informação, com isso, ela assentiu e seguiu os seus passos prontamente.
Zemo e Riddle viraram uma esquina e ele bisbilhotou os redores, enquanto ela retirava um cano da parede para usar como arma. As luzes vermelhas piscando e o alarme em som alardioso precipitavam a aproximação dos soldados da HYDRA caçando por eles.
— A joia está escondida — Zemo proferiu para Riddle que, uniu as sobrancelhas olhando para o alemão. Isso não era parte do plano. — Ao que tudo indica, Syn não estava atrás de você para conseguir a localização da pedra. — Por que ela era importante então? — Ela estava atrás de mim para saber a localização do corpo do pai dela.
Ela arrancou outro cano e bateu um contra o outro, garantindo a sua resistência para um combate próximo.
— E você estava auxiliando ela.
Ela apontou um cano no pescoço dele e outro contra o estômago, antes que ele pudesse se defender. Ela olhou em seus olhos buscando por um sinal de traição. Ela veria.
— Por quê você ainda está aqui? — ela proferiu rispidamente.
— Eu pensava que as minhas intenções estivessem claras a essa altura — Ele entortou um sorriso.
— Nada está claro — Ela trincou os dentes com um olhar frio sobre ele.
— Eu sei que acreditar na última pessoa que você confia na face da terra é uma tarefa difícil, mas eu não minto as minhas intenções e sentimentos quanto a você. — Ela engoliu em seco, arqueando uma sobrancelha. — Se eu te ludibriei foi unicamente para facilitar a nossa interação e conseguir devolver você a sua memória.
— Você poderia ter me contado tal ideia antes de me eletrocutar — Ela apertou o cano contra o pescoço dele.
— Usando a minha telepatia? Eu precisava ser credível para Syn. — Ela ponderou sua colocação. — Eu tenho pessoas aqui dentro que estão do meu lado, por conta dos caminhos sedimentados pelo meu pai, mas Syn conseguiu levar muitos a seguirem a ideologia dela e de seu pai novamente.
— Eu não vejo muita diferença entre seu pai e o Caveira Vermelha.
— Meu pai podia ser um homem com seus preconceitos, mas jamais mataria pessoas inocentes por uma ideologia. Ele queria que a HYDRA fosse uma supremacia, mas a morte não seria o seu meio. Isso perdeu com Strucker e agora com Syn. Se ela possuir essa pedra, ela trará o pai de volta e não apenas isso...
— Eu não entendo. — Ela negou com a cabeça.
Zemo deixou se aproximar dela com um olhar preocupado.
— Willa, se eu fiz o que fiz, foi para conseguir através desses aliados descobrir o que Syn quer de você, para ela não conseguir ter. — O coração dele não palpitou em duvida. Ele falava a verdade. Ela abaixou os canos. — Eu me lembro dessa pedra. Meu pai tinha grande cuidado sobre ela, me lembro dele me dizer uma vez que o Caveira a caçou através dos mundos por décadas e era uma crença dissiminada por ele que quem portar-se essa pedra poderia controlar todas as almas do Universo, podendo trazer pessoas a vida ou matá-las.
Ding dind ding. Quem podia trazer pessoas de volta dos mortos com um pouco de magia oriental? É, Willa. Tudo estava começando a se encaixar e Willa mais do que nunca estava acreditando que a escuridão em sua mente era parte dela.
— Quem o portar... — Ela começou a falar com os olhos arregalados.
— Se quiser, pode destruir o mundo em um estalar dos dedos. — Ele dramatizou estalando os dedos.
— Por que eu tinha essa pedra? — Ela uniu as sobrancelhas, buscando tal resposta em sua mente.
— Seus pais deram para você. — Isso não fazia sentido. Seus pais trabalhavam com contabilidade e não com artefatos superpoderosos capazes de matar um mundo inteiro. — Nós não conversávamos sobre isso quando vivemos juntos.
Viver juntos?
— Não consigo imaginar o porque eu conversaria com você — Ela se virou, seguindo o seu instinto e guiando-se adiante.
Zemo segurou seu antebraço, e ela olhou para a sua mão, sentindo o seu estômago rodopiar e olhou para os olhos dele, incerta da sua ação. Ela escutou passos se aproximando do Oeste e também do Sul, ele também notou e antes que ela fizesse alguma coisa, ele a guiou para um duto na lateral. Eles ainda só tinham um e outro.
Eles entraram um atrás do outro, o duto fechou automaticamente e eles seguiram a norte, quando o duto abriu lentamente, Willa buscou sinal de alguém, mas encontrou uma sala trancada. Ela assistiu Zemo sair e ele seguiu até um painel de tecnologia atrasada, ele ligou tudo e sentou na cadeira meio mole.
— Onde nos estamos? — Ela olhou no redor, pensativa.
— É a antiga central de segurança da HYDRA. Esse lugar foi desligado, após a queda de Strucker, mas eles não se desfizeram do sistema por conter informações vitais da antiga HYDRA e a atualidade. — Ele concentrou sua atenção em um dos paineis verdes, digitando rapidamente alguns códigos em um teclado antigo.
— E porque eu sinto que você me enfiou naquele duto tencionando vir para cá?
— Por que a Syn não conhece esse lado da estrutura, mas eu conheço detalhadamente. — Ele a olhou, sorrindo. Willa sentiu uma quentura em seu rosto e as mãos gelarem embaixo das luvas do soldado. — Ela vai levar um tempo até se dar conta que existe um prédio embaixo do prédio e quando ela perceber isso não estaremos mais aqui... — Ele clicou no botão de enter e o duto selou em um clique.
— Você nos trancou aqui — ela bradou olhando indignada para a passagem lacrada por uma porta metálica.
— Eu tranquei eles lá fora. — Ele revelou apontando para a parede. —Se eles conseguirem nos captar... — ele abafou uma risada.
Willa o olhou com compaixão por um instante, ele devolveu o olhar e comprimiu um sorriso, mas ela disfarçou, distanciando da janela e encaminhando-se para a porta de metal petrificada de gelo. Steve conseguiria encontrá-la ali com ajuda de Wanda. Há quem ela estava enganando, o capitão e Natasha arrombariam aquele duto com os pés.
— Já que você é o senhor sabe tudo, o que vamos encontrar lá fora? — Ela apontou para os portões metálicos similares a um portão de garagem, mas ali, selava a passagem para um corredor, aparentemente uma região importante daquele lado do prédio.
— Estamos abaixo do nível do solo, então encontraremos neve, frio, poeira e antiguidades.
— Algum animal? — Ela podia lidar com poeira e frio, agora uma matilha de lobos não era uma possibilidade atraente para quem tinha cinco balas e uma adaga.
— Duvido que tenha um urso ou lobos. — Ela suspirou aliviada. — Talvez insetos.
Ela largou os canos na mesa de centro e seus olhos encontraram alguns desenhos incompletos de uma possível maquina. Havia várias descrições em alemão sobre o que ali estava desenhado. Tinha também algumas contas de matemática e física. A cada nova folha o desenho ganhava forma, bruta, grande, cheia de detalhes e maquinaria incompreensíveis para ela, até que ela encontrou o último desenho de 1944, o modelo era muito similar a maquina usada para controlar a mente do Soldado Invernal que, ela viu nos arquivos de James. Seria aquela a primeira maquina criada pela HYDRA?
— É a maquina. — Zemo confirmou sua suposição e ela fechou a folha, dobrando em alguns pedaços para guardar no seu cinto de utilidades.
— Você sabe operar essa máquina?
— Meu pai me obrigou a assistir um dos procedimentos. — Ele se virou para olha-lá comprimindo os lábios finos em amargura. — Nunca mais esqueci — ele proferiu com frieza.
— O que você precisa fazer...? — Ela abaixou o olhar para os desenhos incompletos buscando nos desenhos alguma pista, sentindo o coração apertar.
— Por ora, preciso religar o sistema. Nele, eu vou encontrar os arquivos operacionais do período do Strucker que levarão aos arquivos do período do meu pai. Preciso encontrar o seu arquivo para conferir alguns dados daqui... — Ele tirou o caderno vermelho do bolso e ela reconheceu como o caderno vermelho sobre a sua suposta vida na HYDRA.
— Você tem uma mania péssima de pegar as coisas que não te pertencem — ele rosnou fuzilando-o com desgosto. — O que mais você pegou? Minhas calcinhas?
— Não ficaria bem nelas — ele disse com um sorriso brincalhão. — Eu precisava do seu diário. Aqui tem a voltagem certa das primeiras cargas, tem algumas informações aqui, mas prefiro confirmar no sistema. Meu pai o preenchia pessoalmente. — E ele não erraria essas informações. — Se eu errar isso o procedimento pode ser perdido e eu posso acabar te ferindo. Tudo isso está aqui...
— Os meus gatilhos não funcionam como os do Bucky?
— Não — ele disse frio. — Eu testei, mas você não se lembrou. Eu acho que tem relação com o fato que a memória de James foi contida e a sua foi remodelada.
— Qual eram as minhas palavras? — Ela uniou as sobrancelhas sentindo aquela questão consumir o seu interior.
— Isso é por causa de você.
— Seu pai fez o meu gatilho pensando em você? — A minha questão chegou a ele antes da minha compreensão.
— Como você...? — Ele me olhou atordoado.
— Você disse que viu um procedimento e nunca esqueceu dele. Você disse que nos conhecemos quando eu vivi aqui, pelo modo que você fala, nós éramos bem mais do que conhecidos e se a minha mente foi remodelada, como você diz, duvido muito que como filho do ditador da HYDRA e meu amigo você não seria o primeiro a saber do procedimento. — Ela destrinchou as suas desconfianças e as apresentou para ele com um olhar sério sobre Zemo que a olhava mortificado, escutando em suas palavras tudo aquilo que ele lembrava-se todos os dias como punição por não ter sido capaz de fazer o que estava nas suas mãos. Ela apontou para a tela do computador. — Se você sabe o que fazer, eu só juntei as pontas. Nós éramos amigos?
— Eu te disse o que você deveria saber — ele murmurou embargado.
— Se isso der certo, eu vou me lembrar.
— Agora é tarde demais — ele abaixou o seu olhar, retornando sua atenção para o computador.
— Nunca é tarde demais.
Willa finalizou passando nas costas dele, seguindo em direção a um painel aceso com informações subindo na vertical. Ele a acompanhou de esguelha sentindo uma esperança que ele se punia a não sentir desde que encontrou os seus olhos em Vienna.
Zemo precisou da ajuda de Willa para abrir o portão metálico. Elas ruíram metalicamente carregando no chão uma quantidade absurda de neve do chão com o vento produzido. A camada de poeira atingiu o olfato de Fairchild que tossiu copiosamente, levando o braço para sobre da narina. Zemo caminhou até a máquina desligada e seguindo instruções do diário vermelho começou a mexer nos fios, conectando um a um em um painel.
— Você já pensou na possibilidade dela estar quebrada? — Willa sugeriu fuxicando uma prateleira com vários tubinhos preenchidos de sangue ou um líquido aquoso de aparência morta. As anotações em alemão estavam apagadas das etiquetas por conta do tempo e ela não ousou mexer. Vai saber que vírus podia estaria guardado ali dentro? Para durar todas aquelas decadas não era coisa boa.
— Não nego que pensei nessa possibilidade, mas meu pai pressionava os seus cientistas a criarem máquinas indestrutíveis que, fossem incapaz de ser destruídas pelo tempo e por mãos leigas.
Com essa última palavra proferida, ele ligou a tomada da maquina em seu encaixe e a máquina estourou algumas fagulhas e a dupla buscou proteger sua visão com as mãos e braços. Entre as fagulhas e a fumaça um som similar à de corrente elétrica passando de um cabo a outro iniciou em um ritmo estável.
— Funciona! — Zemo proferiu empolgado.
— E agora? — Willa caminhou até Zemo, observando a maca de couro preto e amarras consumida pelo tempo com uma ruga entre os olhos.
— Eu vou colocar essa lasca ali e ela vai alimentar a máquina, assim vou poder acionar o dispositivo. — Ele tirou do bolso um pano com um objeto enrolado e protegido. Willa olhou atraída para o objeto. — Uma corrente de eletricidade vai passar por entre aquelas pás e eu vou colocá-las por entre a sua cabeça, se tudo der certo, os botões ficarão verdes e eu vou dizer as palavras gatilhos, de resto, você terá as suas memórias de volta.
— E se tudo der errado? — Ela cruzou os braços com um olhar sisudo sobre a maquina.
— Você frita naquela cama. — Ele proferiu sem minucias. Sem meio termo.
Willa arqueou as sobrancelhas. O dia só estava ficando melhor.
— Você pode desistir. — Willa olhou para ele, pensativa. — Eu posso te ajudar a recuperar essas memórias...—
— Eu preciso delas em mim. — Ela negou com a mão. — Se você me contar só serão palavras, uma história que não é minha, mas que pode ser de qualquer um e eu continuaria caminhando nessa vida me sentindo incompleta. — Ela trocou um olhar cúmplice com Zemo e assentiu. — Sou grata pela sua proposta, mas eu prefiro correr o risco. Eu estou pronta.
Zemo não discutiu. Ele seguiu até a máquina iniciando os preparativos. Willa tirou o capuz e o casaco, ela queria sentir os seus braços livres. As botas também. Soltou os cabelos e sentou na maca, assistindo Zemo virar páginas do diário e digitando informações no teclado que, reproduzia tudo ao computador. Ela respirou fundo sentindo uma paz dominar os seus ombros. Quando a luz verde acendeu no painel um pequeno palanque metálico se pôs a frente em um clique, ele tirou do bolso o paninho e abriu, retirando dele uma lasca de uma pedra azul.
— Isso é... — Ela sentia que reconhecia aquela pedra, arregalando os seus olhos admirada.
— Uma das últimas lascas do Tesseract que a HYDRA ainda tem posse. E pela primeira vez, ela será usada para uma boa causa. — Ele mirou a pedra sobre o palanque e olhou Willa. — Pronta?
Ela assentiu deitando na maca e colocando na boca o moderdoro. Olhou para o teto e respirou fundo, fechando os seus olhos.
Zemo colocou a pedra no palanque e conectou os pêndulos sobre as lascas assistindo sua energia emanar e rodopiar em torno do metal e começar a transferir no pêndulos. Era uma força poderosa de cor azul metalizada crescente. Quando o palanque brilhou em amarelo, ele prendeu as amarras no corpo de Willa. Segura e protegida, o alemão pegou as pás e esfregou uma nas outras, sentindo a corrente emanar de uma ponta à outra. E sobre Willa ele a olhou em seus olhos e comprimiu um sorriso, colocando as pás entre a cabeça dela e ela sentiu uma força magnética atraindo sua pele, suas entranhas para aquela força fantasmagorica.
Ela não escutava mais nada.
Não sentia gosto na boca.
Não sentia cheiro.
Ela não gritou.
Nem a batida de seu coração.
Pela primeira vez, ela era o vazio e ele a tomou ao sentir uma dor agonizante morrer e nascer em cada fibra de seu corpo.
Até que na distância ela escutou o seu despertar:
Isso é culpa sua.
E a última pessoa que ela viu antes de morrer foi Zemo. Até que ela viu sua vida passando diante dos seus olhos.
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