Born to Die | Exile
16 Born to Die | Right here with Lolita
Notas iniciais
R I G H T H E R E W I T H Y O U
Right Here with You, David Cook
I can see the way you hide/All the things you keep inside/But all you ever wanted was the light to save you/We could run away somehow/Take the night and tear it down/Never let the stars burn out and fall to pieces/Nothing's going to stop us now/Cause we were born to live forever.
If the sun stops burning/And the world stops turning/I'll be right here with you/And if the sky keeps falling/And the night keeps calling/I'll be right here with you/I'm on your side
Lolita, Lana del Rey
I don't care what they say about me/What they say about me/Because I know that it's l. o. v. e/You make me happy, you make me happy/And I never listen to anyone/Let them all say/Hey Lolita, hey
O cheiro doce indescritível atingiu o seu olfato.
O zumbido em seu ouvido incomodou momentaneamente, então seu cenho enrugou, ao ter reconhecimento de seu corpo: os ossos estalando, os músculos distendidos, o gosto metálico em seus lábios, os roxos latejando em sua pele, os cortes com sangue ressecado e ardendo...
O franzido em seu cenho sucedeu com os seus olhos abrindo lentamente. Um grunhido abandonou os seus lábios. O teto. Branco com rodapés em bege. Ela estava deitada numa cama confortável. Atenuar os seus sentidos não foi uma boa ideia. As buzinas altas, os carros passando nos asfaltos, as conversas das pessoas... A dor de cabeça retornou com tudo, então ela ignorou sua audição. Era claro: ela estava localizada numa região movimentada, centro de uma cidade. Seus pés e mãos estavam livres: ela não estava presa. Ela se mexeu na cama com lerdeza e escutou um descompassar de um coração. Com agilidade, ela olhou para a mesa de cabeceira, agarrando o abajur e o aceitando como sua arma, foi quando ela escutou o som da brisa cortando... E uma sombra cresceu na ponta de sua cama e o abajur pendeu de sua mão.
Os olhos de Willa se encontraram admirando cada detalhe daquele homem diante de si. As suas roupas, o tênis com traços em neon, o jeans surrado, as luvas, a camisa azul-acinzentada, o casaco de couro preto e o seu rosto... A sua barba não havia mudado em nada, com aquele toque para fazer com algumas pontinhas em branco. O nariz anguloso, as sobrancelhas espessas em cinza-escuro e os seus cabelos um pouco crescido com tufos em branco espalhados. E os seus olhos, com aquele mesmo brilho eufórico e...
— Printesa (princesa)? – Willa enrugou o cenho escutando sua voz com uma clareza e realidade absurda e ela riu, repousando a mão sobre a testa. Sua mente gostava de pregar peças nela mesma. – Printesa (princesa), você acordou! – Ele se sentou repousando sua mão sobre o ombro dela e ela podia jurar que ele pesava uma tonelada. — Você está bem? – Ele questionou com urgência deixando as pontas dos seus dedos caloseados correrem pelo ombro dela, até seu rosto, buscando assistir a reação de suas pupilas.
— Pietro... – Ela sussurrou, meneando a cabeça em negativa. – É claro que eu estou bem.
Ela estava sonhando. Como ela não poderia estar bem, sonhando com ele? Aquilo só podia ser um sonho muito bom e muito, muito real. Ela respirou fundo passando os dedos nos cabelos lançando um olhar curioso pelo quarto. Eles estavam num quarto de luxo, aos olhos de Fairchild, era digno de um presidente. Willa não se sentiu tão segura há muito tempo. Ali, ela estava segura, agora, e ela, a ela do mundo real, onde estaria agora?
— Willa? – Era Pietro chamando por si, acariciando o seu rosto e por um instante, ela pode sentir sua espinha arrepiar com tamanha realidade por trás daquele toque. O seu perfume almíscar. O seu olhar tão preocupado e vivo. Será que ela estava tão ferrada, ao ponto de Wanda estar lhe transportando para um sonho bom, pela realidade estar uma enorme bosta? — Oi. – Ele cumprimentou com um sorriso adorável conseguindo arrancar um dos lábios de Willa.
— Você... – Willa embargou as palavras, buscando quebrar o contato dos seus olhos por conta de tamanha comoção. – Você é tão real.
— É, eu sei. – Ele crispou os lábios assentindo. – Mas, vamos falar disso depois, ok? – Ele pediu gentilmente acariciando os seus cabelos, com aquele seu afeto fraterno.- E-eu... Preciso saber como você está sentindo. – Ele murmurou incerto. — Alguma dor, sua cabeça está latejando, talvez esteja com sede, fome?
— Agora entendo o que a Wanda quis dizer sobre ser muito real. – Willa riu reprimindo a sua emoção.
— O que? – Pietro demonstrou confusão se afastando singelamente de Fairchild. – Não entendo... – O inglês ainda era um mistério para o Maximoff daquele sonho, o que fez a californiana rir.
— Isso é um sonho. – Ela proferiu com gentileza repousando a sua mão no rosto do Maximoff, deixando a ponta dos seus dedos percorrerem pela sua barba com um olhar saudoso, enquanto Pietro parecia completamente aturdido. — Um sonho muito, muito bom, após tudo isso que aconteceu, todavia traiçoeiro. – Willa proferiu sentindo a sua garganta embargar incomodamente. – Eu preciso acordar. Eu não posso me apegar a isso aqui, por mais tentador que seja... Wanda precisa de mim, Sam deve estar me procurando, e Steve e Bucky... – Ela escapou de sua posse ficando de pé, mas instável, sentiu sua visão rodopiar e quase desabou contra o carpete verde-musgo do quarto.
Pietro estava completamente atordoado com sua postura e as suas palavras, ele quase não conseguiu segurá-la, impedindo sua queda.
— Willa, você precisa se acalmar. – Ele pediu ajudando-a se sentar na cama novamente, mas ela claramente estava contra aquilo e mostrou incredulidade. Era seu sonho, ela deveria ter algum poder sobre ele. – Você não pode fazer nada por eles agora.
— Se eu acordar... – Se ela acordar, é claro que ela poderia fazer alguma coisa por eles. Ela poderia fazer qualquer coisa por eles.
— Você está acordada. – Pietro proferiu resoluto, recebendo um olhar confuso e quase escarnecido de Fairchild. Ele revirou os olhos, respirando descompassado. Sonhos eram tão peçonhentos quanto najas, te seduziam, apenas para te picar na jugular. – Como nunca esteve antes.
Willa lançou um olhar conflituoso pelo quarto. Ela gritava por um sinal, qualquer sinal de que aquilo era a sua mente pregando uma peça em si. Se o quarto não tivesse dobras, era um sonho. O quarto tinha dobras, na realidade, diversas. Se aquilo fosse um sonho, ela teria seis dedos em cada mão. Ela tinha cinco em cada e um esmalte vermelho horrivelmente descascado. Ela riu completamente descrente e escapou das mãos de Pietro com um sorriso malicioso. Pietro bufou. Se aquilo era um sonho, aquela porta principal daria para uma sorveteria ou talvez Paris porque não, Rio de Janeiro? Correndo até a porta principal sob o protesto de Pietro que correu e ficou facilmente diante de si, lutando para segurá-la em seus braços. Ela sempre conseguia escapar de si e arrastando seu corpo, claramente, cansada, ela abriu a porta... E encontrou um belo corredor com um lindo carpete vermelho- sangue, alguns móveis rústicos, plantas, quadros nas paredes revestidas de papeis decorativos, típico de lugares vintage e chiques com algumas portas com números em dourado. Willa rodopiou pelo corredor olhando aquele ambiente completamente abismada. Aquilo era o corredor de um hotel, muito chique. A distância ela viu um copeiro deixando um quarto distinto com algumas roupas sujas sendo largadas num cesto, mas ele não reparou em sua presença e Willa começou a caminhar para ele, mas foi impedida por Pietro.
Ele repousou seus braços nas suas costas e pernas, rapidamente, prendendo-a contra seu corpo e correndo com sua agilidade para dentro do quarto. Repousou Willa ao chão. Trancou a porta e repousou suas costas contra a madeira com o ar deixando seus lábios, esbaforido.
— Você está proibida de deixar esse quarto. – Ele proferiu meneando o seu indicador com um ar duro para a jovem mulher.
— Que? – Willa questionou completamente absorta. Quem ele pensava que era para achar que tinha algum poder de ordem sobre ela assim?
— Nós estamos clandestinamente aqui. – Os olhos de Willa cerraram sobre Maximoff, como se ela precisasse enxergá-lo com melhor clareza, enquanto ele passava os seus dedos nos fios dos seus cabelos e gesticulava na busca de acalmá-la. – Sim, nós estamos, teoricamente, roubando esse quarto, mas se você ficar quieta, ninguém precisa saber disso, ok? – Ele esbaforiu com um sorriso charmoso.
— Que? – Willa não conseguiu pensar numa melhor palavra para descrever os seus sentimentos.
— Eu te salvo de ser presa, apenas para você acabar presa? – Ele gesticulou nervoso. – Não faz muito sentido, certo?
Não, não faz sentido algum.
Nada daquilo fazia sentido para Willa.
— Que? – Agora ela estava apavorada deferindo um passo para trás, estendendo seus braços à frente buscando criar uma barreira invisível entre eles, entre a sua imaginação e a realidade. – Isso não está acontecendo. Eu não estou...— Ela buscou por ar. — Isso não pode... – O ar não quis adentrar seus pulmões e ela lutou para conquistá-lo para si. — Você não está aqui... – Foi em vão tal conquista. — Isso não é real.
Ela repousou a mão no rosto, batendo levemente numa tentativa vã de despertar, apertando a sua bochecha com a sua respiração instável, como os seus pés de gelatina. Ela se apoiando, ou melhor, sendo apoiada pelas mãos de Maximoff caçando olhar em seus olhos, preocupado. Ele chamava pelo seu nome, mas ela não respondia, aturdida. Ela estava ali diante de Pietro Maximoff, no mundo real! O ar faltava dos seus pulmões, o seu corpo lutava contra a gravidade e seu coração acelerava dramaticamente num ataque de pânico. Se ela continuasse assim, colapsaria num desmaio, ou pior, num enfarte.
E sem pensar muito, Pietro resolveu arriscar distraí-la. Ele repousou suas mãos na nuca dela, trazendo-a para a si e uniu os seus lábios com urgência e paixão. Demorou, mas ela retribuiu, sentindo o toque dos seus lábios sobre os seus, o seu gosto tocar a ponta de sua língua e o seu carinho desbravá-la, então ela fechou os nós dos seus dedos contra a camisa dele e empurrou Pietro para longe com os seus olhos azuis arregalados em espanto.
— Eu vou precisar mostrar as minhas cicatrizes para você entender o tão real que eu sou? – Pietro sussurrou tais palavras com um olhar caído com seu rosto inclinado para ela.
— Você... – Willa não conseguir verbalizar em palavras a sua confusão menta. — Isso é um sonho. – Ela buscou reafirmar sua sanidade, para si mesma.
— Não, não é. – Pietro lutou para mostrar-lhe a verdade diante de seus olhos.
— Você não está vivo. – Ela rebateu bruscamente, olhando-o nos seus olhos azuis gélidos e ele riu.
— Eu estou vivo, Willa. – Estava aí algo que ele podia lhe garantir.
— Eu enterrei você, com a sua irmã. – Ela sussurrou com um pesar áspero em suas palavras com os seus olhos inundando de lágrimas.
— É, você me enterrou, mas eu voltei, por causa de você. – Essas palavras acertaram Willa em cheio. Ela fechou seus olhos sentindo suas mãos tremelicarem. Pietro assentiu buscando um meio de conseguir fazê-la acreditar nele. Ela abriu os lábios, negando com sua cabeça incapaz de verbalizar. Pietro pensou numa coisa. — Escuta. – Ele foi mais rápido do que os seus sentidos poderiam prever. Pietro pegou a sua mão e ela soltou o ar pesadamente sentindo o seu toque quente arrepiar sua pele. Ela estava completamente hipnotizada a sua presença. Ele levou a mão dela até a altura de seu coração, respirando fundo e esperou... – Escuta o meu coração. – Willa olhou para as suas mãos unidas e a instabilidade em sua respiração marcou o seu nervosismo. — Me diga: eu estou ou não vivo?
Ela fechou os seus olhos.
Ela calou as vozes em sua mente.
Ela calou a confusão da metamorfose de sons a dominar o mundo fora daquele quarto.
Então, ela estava na escuridão dos seus sentidos e o único som em sua mente era o batucar firme e estável. O coração de Pietro.
— Pietro? – Ela sussurrou em reconhecimento, abrindo os seus olhos com emoção transparecendo em seu semblante.
— Oi, Willa. – Pietro cumprimentou com um sorriso caloroso.
— Pietro! – Ela exclamou comovida, abandonando os seus braços nas costas de Pietro e o abraçando carinhosamente. — Eu não acredito. – Ela sussurrou enrugando o cenho ao sentir seu coração apertar, não se atrevendo a cortar aquele contato retribuído. — Meu deus. Você... – Ela apenas cortou tal carinho, quando ele choramingou por ar em seus pulmões. — Você está aqui. – Ela repousou a mão em seu rosto, acarinhando. — Você está vivo.
— E eu não quero me gabar, mas eu te salvei de uma bela encrenca naquele aeroporto. – Pietro queria se gabar.
— Ah, aquilo...— Willa se calou ao se dar conta do que aquilo tudo significava. Pietro estava vivo. Ela trouxe Pietro de volta dos mortos. A batalha no aeroporto aconteceu e ela não foi presa por Ross e o seu Comando Especial. Mas os outros... — Oh não! Wanda e os outros... – Willa repousou sua mão contra o estômago, olhando-o preocupada. — O que aconteceu? Onde eles estão? Onde nós estamos?
— Calma aí, printesa (princesa). – Ele gesticulou encaminhando Willa para sentarem no sofá da sala de estar do quarto. — Uma pergunta por vez. – Ele pediu arrumando as almofadas rapidamente atrás das costas dela com um divertido ar brincando com seu semblante. — Eu sou muito rápido, mas não mentalmente. – Um sorriso caiu no canto dos seus lábios e ela apertou o seu antebraço em brincadeira. — Eu não sei o que aconteceu, mas sei o que a Wanda me disse mentalmente... – Pietro começou a explicar.
— E o que ela lhe disse? – Willa estava transbordando em curiosidade.
— Ela estava cercada por agentes, acompanhada de um cara de roupas de metais com coisas vermelhas... – Scott, Willa proferiu apontando o indicador ao Sokoviano que deu de ombros. — Não sei quem é, só sei que ela me mandou ficar longe dos agentes. Eles tinham ordens para matar qualquer um que resistisse a prisão. Eles estavam sendo presos para ser levados a um tal de Raft. — Willa assentiu, compreendo o que sucedeu. — Eu queria salvá-la, mas... – Pesar inundou suas palavras. — Ela não me deixou, ela não...
— Quer te perder novamente. – Willa sussurrou e foi a vez de Maximoff apenas assentir, em compreensão.
— Então, ela me mandou ir atrás de você. – Pietro inclinou a sua cabeça, buscando traduzir as palavras corretamente. — Ela sabia onde você estava e como o bom irmão mais velho, eu a obedeci e te encontrei, quase... – Ele proferiu com sentimento. Ele tinha perdido Wanda diante de seus olhos, perder Willa também acabaria com ele. — Quase eu a perderia para aqueles caras, mas eu consegui te salvar deles. – Ele espalmou as mãos, gesticulando. — E agora estamos aqui.
— Quem foi pego? Você se lembra?
— Lembro da Wanda, aquele cara de roupa estranha, Clint estava sendo arrastado por um brutamonte... – Pietro foi descrevendo, franzindo o cenho, pensativo.
— Sam, o cara das asas de falcão? – Willa aprumou sua postura repousando sua mão abaixo de seu queixo. Pietro meneou a cabeça em negativa.
O silêncio acomodou-se momentaneamente entre eles.
— Ah, lembro de alguém numa maca... – Os olhos de Willa se arregalaram e a sua mão apertou contra o seu coração. Pietro estava absorto em sua lembrança.
— Sam?
— Não, era aquele cara que tem armadura que nem o Stark... – Pietro estalou os seus dedos, buscando relembrar o nome do cara.
— Rhodey. – Willa disse e ele assentiu, percebendo o alivio suavizar o rosto de Fairchild, mas o pesar mesclado de preocupação, ainda tinha morada em seu olhar.
— Ele não parecia nada bem. – Ele não podia esconder isso de Willa. E ela recebeu a sua sinceridade com gratidão.
— Alguma coisa sobre o Steve, qualquer coisa? – Pietro levantou os ombros negando com sua cabeça. A cabeça de Willa pendeu sobre suas mãos.
— Desculpe. – Ele pediu inconformado com a tristeza morando no semblante de Willa e massageando suas costas. – Eu não pensei duas vezes ao pegar você e fugir do aeroporto, só parei quando eu enxerguei as marquises desse hotel.
— E roubou um quarto. – Ela brincou com um sorriso sapeca.
— Teoricamente, surrupiei o cartão de entrada, coloquei um nome falso no sistema e vim para cá. – Pietro explicou com aquele seu sorriso cheio de si. — Liguei a televisão, para encontrar alguma nova informação, mas nada... – Ele apontou para a televisão no mute, num comercial de uma rede de supermercados. O silêncio voltou a brincar com a dupla. — Se algo tivesse acontecido, Wanda tentaria falar comigo, não é? – Pietro questionou ingenuamente.
— Claro. Ainda mais agora que ela sabe que você está... vivo. – Ele sorriu. Willa sentiu uma leveza cair por sobre seus ombros. Ele estava ali, com ela, vivo. — Pietro, você está vivo. – Ela sorriu.
— É, eu estou. – Isso era uma luz na escuridão. Ele sussurrou segurando o seu rosto entre suas mãos e beijou a sua testa, com respeito. – E estou aqui por causa de você. – Ela enrugou o seu cenho,sentindo a gratidão nas gentis palavras de Maximoff. — Willa, você me trouxe de volta.
— Eu... eu fiz isso. – Willa também sentiu a responsabilidade por trás do que seus atos.
— Fez. – Pietro revelou, assentindo. — O Stark me contou.
— Tony? – Willa acreditou em sua prematura surdez. — Tony contou a você que eu tentei te salvar? – Pietro piscou os olhos, incerto do funcionamento dos neurônios de Fairchild. — Você falou com Tony?
— Tentou?- Ele riu, rouco. — Willa, eu estou aqui. – Ele gesticulou para si, sentado no sofá e Willa assentiu. — E sim, eu falei com ele.
— Eu preciso me sentar. – Ela comunicou repousando sua mão sobre o ombro de Maximoff.
— Você está sentada. – Willa arregalou os seus olhos ao descobrir estar, realmente, sentada. Pietro estava, realmente, preocupado. — Eu acho que você precisa de um médico. – Ela estava confusa, inquieta, ansiosa. Ela não estava bem. — Não acha melhor irmos num hospital ou algo assim? – O algo assim foi à incapacidade de Pietro de traduzir para inglês: médico, curandeiro, xamã.
— Eu não quebrei nada, o que é um milagre. – Ela tinha averiguado isso, antes de levantar da cama. — O resto eu posso cuidar. – Pietro não pareceu muito convencido. Ele não acreditava que ela podia cuidar de uma concussão com gases e álcool. – Só preciso de um kit primeiro socorros... – Pietro revirou os olhos. Ele conhecia a teimosia feminina e ele era incapaz de vencê-la. Então numa brisa Pietro foi e voltou com uma caixa vermelha repleta de medicamentos, linha, esparadrapos e outras coisas. A mecha dos cabelos de Willa voou e caiu. Willa riu. – Você é eficaz.
— Eu tento. – Ele brincou com um sorriso charmoso. — Quer algo para comer, beber?
— Eu aceitaria um pouco de água... – E lá foi ele. Pietro saiu do quarto e retornou girando nos seus calcanhares com uma bandeja repleta de bebidas em latas, garrafas e um copo vazio servindo-a com um belo sorriso. Os cabelos de Willa foram e retornaram. – Eu falei água. – Ela comentou surpresa com todos os mimos.
— Eu pensei que você pudesse mudar de ideia. – Ele comentou um pouquinho temeroso por ter exagerado.
— Em milésimos? – Willa arqueou uma sobrancelha se perguntando se ela era tão bipolar assim.
— Você pode me surpreender. – Ele brincou coçando a nuca.
— Não tem café? – Willa perguntou comprimindo os lábios, e então ele sorriu convencido quando ela percebeu que ele tinha razão e desgostosa por não encontrar um sinal de cafeína ali.
— Não achei prudente. – Willa cerrou os olhos sobre o Maximoff que se manteve decidido. – Você bateu sua cabeça, ficou inconsciente... – Willa não estava convencida. — Cafeína é energético. – Ele explicou com um olhar resoluto sobre Fairchild. — Pode acabar te incitando a um enfarto.
— Você é fofo preocupado. – Pietro sorriu. Ao menos, ele é fofo. Willa pegou uma garrafa de água com gás, abrindo e despejando o liquido no copo de plástico. Bebericando com satisfação, reparando no olhar preocupado do Maximoff sobre si. O silêncio estava sufocando Pietro. Ele sacudiu a perna, nervosamente e ela semicerrou os seus olhos sobre sua postura. Quem acabaria enfartando ali seria ele.
– Você precisa comer algo.
Antes que Willa pudesse negar e mandar o garoto sossegar os pés, Pietro foi e voltou, ao menos três vezes, sacudindo os quatro cantos do quarto, com comida em bandejas e carrinhos com comida para, ao menos, umas cinco famílias. Um pouco incerto, ele olhou para Willa.
— Se quiser, posso conseguir alguma coisa americana, tipo aquela comida do palhaço que todo mundo gosta. – Pietro sugeriu repousando uma mão na cintura, administrando um olhar analítico no quarto.
— Comida do palhaço? – Willa questionou acreditando que quem tinha batido a cabeça ali, era ele.
— É, aquele com M lá... – Pietro gesticulou coçando a nuca, embaraçado pela palavra escapar de seus lábios. Aquilo estava soando muito comum para o rapaz, após ele retornar dos mortos.
— McDonald cairia bem. – Willa brincou na inocência com um riso frouxo e Pietro estalou os dedos e desapareceu numa só passada. – Não... – E voltou com ao menos cinco pacotes pardos com o logo do M em suas embalagens e um isopor de papel com quatro bebidas bem geladas. – Deveria ter dito isso.— Ele sugou pelo canudo um pouco de coca cola, olhando inocente para Fairchild. – Você leva tudo muito a sério, Pietro.
— Eu estou em pânico. – Ele murmurou com o cenho enrugado sentindo o cérebro gelar pela bebida. — Não sei como te ajudar.
— Eu sei como. – Pietro arregalou os seus olhos azuis, ansioso por tal descoberta por ser útil. — Largue tudo isso por aí, sente aqui e me ajude na sutura.
Prontamente, Pietro abandonou o que tinha em suas mãos utilizando a sua agilidade, ele sentou-se ao seu lado, obediente aguardando o seu comando. Sem ter ele correndo de um lado a outro, ela podia se concentrar nos seus ferimentos superficiais. Willa não exigiu dele um conhecimento anatômico, mas pediu o seu auxilio e paciência. Segurando o seu braço e pedindo para lhe passar o que ela precisava e até mesmo, algo bobo, como soprar as suas feridas, para arder menos com o contato dos remédios. O silêncio ainda era um problema para os nervos de Pietro, mas poder ser útil para Willa era o que mantinha ele são. Willa buscou foco, mesmo que em sua mente, ela repassava tudo que aconteceu nas últimas horas e agora, acontecia ali.
Bucky e Steve escaparam.
Os seus amigos estavam no Raft. Sam estava bem, mas Rhodey não. E Pietro estava vivo, por causa dela.
Ela terminou as suas suturas enfaixando com gases e esparadrapos. Pensou em tomar um banho, para relaxar os músculos e a mente, mas estava alerta e nervosa para se ausentar e deixar Pietro sozinho. Roupas não seria problema, Pietro arrumaria isso numa corrida. Então, ela limpou o sangue de sua pele com uma toalha quente, umedecida por Pietro. Ele, como sempre antecipando as suas necessidades. E por fim, tomou um analgésico, buscando matar a sua dor de cabeça e aliviar as suas dores corporais.
Agora, era apenas ela e Pietro.
Ali, naquele quarto de hotel, em algum lugar da Alemanha com comida e bebida para umas oito famílias. Willa não podia fazer muito pelos seus amigos, além de recuperar suas forças, ficar alerta e preparar-se para o que se aproximava.
O que? Ela não sabia, mas queria estar pronta. Ela seguiu o seu olfato, pegando o saco pardo com um McFish e batatas. Ela abriu a caixinha e derramou as batatas na parte lisa, tacando catchup e mostarda, devorando uma a uma com uma paciência de Jô. Pietro, por sua vez, quis terminar a sua coca cola até fazer aquele barulhinho irritante de fim de bebida.
— Você realmente precisa fazer isso? – Ela reclamou sentindo seu ouvido zunir igual a quando uma chaleira apitava sua água aquecida.
— Está muito bom. – Ele balbuciou com um olhar adorador ao copo.
— Tem outro ali. – Willa apontou para o copo com uma batata pendendo dos seus lábios.
— É seu. – Pietro negou com a cabeça, cruzando os braços sobre o estômago.
— Eu não me importo de dividir. – Pietro moveu a cabeça formando um círculo no ar, olhando dela ao copo e suspirou, correndo, deixando para trás apenas o traço azul acinzentado de seus movimentos, retornando para a cama com o canudo do novo copo de coca cola nos lábios. – Você não parece ter mudado em nada. – Willa comentou após alguns segundos de análise, sorrindo saudosa.
— Ah, eu mudei. – Ele comentou com os lábios ocupados. — Mudei muito. – Ele completou afastando o canudo dos lábios, buscando as palavras em inglês para explicar, mas não encontrou muitas. — Por dentro e por fora. – Continuava sedutoramente charmoso esse Pietro.
— Um corte de cabelo não te faz diferente, Pietro. – Ela brincou rindo suavemente.
— Doze cicatrizes de bala fazem. – Ele soltou sarcástico inclinando sua cabeça em ponderamento.
Fairchild abandonou a batata na caixinha. Não encontrando as palavras para expor os seus sentimentos, ela optou pelo silêncio, enquanto Pietro lutava sentido por ter tornado o clima tenso e pesado.
— Eu sinto muito. – Os olhos de Willa se encheram de lágrima e ela afastou a comida diante dos seus olhos ao sentir um embrulho em seu estômago. – Eu não queria que soasse assim.
— Não, não foi você. – Ele gesticulou se aproximando dela, repousando seu braço sobre os ombros de Willa, trazendo-a carinhosamente para ele. Ele não podia ver suas garotas chorando, isso acabava com ele. — Foi eu... Fui eu. – Ele corrigiu. — Eu não soube medir as minhas palavras.
— Faz quanto tempo que você...? – Ela perguntou apontando timidamente o indicador para ele.
— Voltei? – Ele completou pendendo a cabeça de lado, pensativo. — Sete, quase oito meses. – Ele respirou fundo massageando o ombro dela. — Foi como acordar de um pesadelo.
— Eu sinto muito por você ter passado por isso sozinho. – Willa proferiu repousando carinhosamente sua mão sobre a dele. Pietro sorriu deixando os seus dedos se entrelaçarem, observando tal gesto saudoso. Era tão bom sentir o seu calor novamente, era tão bom estar com ela.
— Eu não estava sozinho. – Ele revelou carinhoso e Willa arregalou os olhos. — O Visão disse para o Stark que disse para um tal de Fury que falou para mim que se eu contar isso a alguém nossas vidas estarão em risco, mas eu acho que como você é uma das envolvidas não tem problema você saber. Na realidade, você precisa saber! – Perdida era pouco perto de como Willa se sentiu com tal explicação eufórica de Pietro.
— É, eu acho que isso faz sentido. – Ela disse levantando as sobrancelhas e crispando os lábios, incerta de suas palavras.
— Tá, vamos começar a oito meses atrás, quando eu despertei... – Ele respirou fundo unindo as mãos e concentrando sua mente nos fatos.
Pietro sentou bruscamente, sentindo-se sufocado com aparelhagens médicas o monitorando através de circuitos e agulhas. Um grito sufocado abandonou a sua garganta e a respiração instável acelerou o seu coração, o que fez um aparelho apitar desgovernado. Apavorado, Maximoff levantou de sua maca, com as forças dos nós de seus dedos, percebendo esta-
— Espera, você estava numa maca? – Willa o interrompeu, gesticulando, como se fosse capaz de congelar o tempo diante de si e assim passar lentamente tal cena na sua imaginação. — Onde você estava?
— Posso terminar de explicar, garanto que as respostas virão com maior clareza se você for paciente. – Ele implicou com um sorrisinho desembocando no canto dos lábios.
— Tudo bem. – Ela assentiu movendo as mãos a frente, para ele prosseguir. — Você percebeu...
Ele percebeu estar vestindo nada mais do que uma camisola de hospital.
— Você estava pelado? – Willa interrompeu novamente obviamente interessada em tal detalhe.
— Porque isso é importante? — Pietro grunhiu, olhando-a desconfiado.
— É contextualização. – Ela explicou unindo as sobrancelhas, buscando mostrar o seu total fascínio. — Quero imaginar com rigor de detalhes.
— Willa, você...— Willa tinha um olhar tão inocente com seu indicador apoiado na base de seu nariz que Maximoff perdeu a capacidade da fala e não resistiu. — Sim, eu estava pelado.
— Ok, consigo imaginar agora. – Willa murmurou olhando para cima, pensativa.
Pietro revirou os olhos. Não o Pietro na cama de hospital, mas o Pietro de agora. Enfim, continuando, Pietro abandonou a cama, arrancando todos os aparelhos com agilidade e destreza. Ele não sabia onde estava, mas só tinha um pensamento em sua mente: Wanda. Por conta de sua ligação, ele conseguia lembrar do seu grito por ele em Sokovia, quando a morte lhe abraçou. Essa era a memória mais viva de sua experiência perante a morte em sua mente e ele precisava encontrá-la, precisava dizer-lhe que estava bem, ele se feriu, mas estava bem agora e eles podiam seguir juntos. Então, decidido em buscar sua irmã, Pietro arrancou uma agulha de seu punho e ali encontrou uma cicatriz redonda e profunda. Num lampejo ele lembrou do tiro atingindo sua mão, mas naquela altura, não havia mais dor em seu corpo. Os tiros fatais já tinham lhe tocado. Ele... Levou aqueles tiros? Ele... Ele não deveria estar bem depois de todos aqueles tiros. Como ele sobreviveu a tudo aquilo? Então, ele a viu.
— Quem? – Ela questionou inclinada para frente, completamente imersa na história.
— Cho. – Ele proferiu com um ar de mistério.
— Helen? – Fairchild arqueou uma sobrancelha, pensativa.
— É, Helen Cho. – Ele confirmou assentindo.
— O que ela estava fazendo nesse hospital? – Willa questionou com os lábios crispados.
— Não era um hospital e ela estava me monitorando. – Ele explicou com um menear do indicador.
— Onde você estava, então? – Willa perguntou erguendo os ombros levemente perdida na narrativa.
— Eu.estou.tentando.contar.uma.história.aqui. – Ele proferiu palavra por palavra com os seus dentes cerrados e um olhar levemente ameaçador sobre a ninja.
— Desculpa. – Ela pediu sentida. — Continua.
Helen Cho entrou na sala, vestindo um jaleco branco por sobre roupas sociais confortáveis e seus cabelos pretos enrolados num atraente coque, gesticulando apreensiva por Pietro, delicada e ponderada como um anj...
— Eu entendi, você em algum momento, pegou a Helen. – Willa gesticulou como quem enrola um novelo de lã, recebendo um olhar malicioso e jocoso de Maximoff. — Agora dá para continuar com o que importa?
— Está com ciúmes? – Ele questionou rouco, inclinando-se um pouquinho para a sua frente, com um olhar passeando de seus olhos aos lábios, sedutoramente buscando entorpecê-la.
— Estou. – Ela confessou com um intenso olhar sobre Pietro e ele sorriu sedutor. E então, Willa ergueu o seu McFish e mordeu com grande vontade. — Com fome. – Ela disse de boca cheia, empurrando-o para trás. — Continua.
Helen entrou flutuando como um anjo e buscou acalmar Pietro. Ele tinha uma memória distante de quem ela era, algo relacionado com Ultron, mas sua incerteza e temor o fez lutar contra ficar num ambiente desconhecido com uma estranha e ele buscou correr para o mais longe dali... E caiu de cara no chão.
— Você caiu...— Willa não conseguiu conter uma gargalhada.
— Minhas pernas estavam há muito tempo sem movimento. – Ele tentou explicar apontando para as suas pernas.
— E você estava pelado? – Ela quase se engasgou tentando proferir tais palavras, recebendo um olhar morto de Maximoff.
— Eu acho que isso ficou bem claro. – Ele moveu os dedos sem um pingo de bom humor.
— Deve ter sido uma cena e tanto. – Ela comentou secando uma lagrima no cantinho dos olhos.
— Eu vou continuar... – Ele grunhiu meneando a cabeça negativamente.
Com a cara no chão, Helen ajudou Pietro a levantar. Explicou que ele estava prostrado naquela cama por quase dois meses, e mesmo com a fisioterapia diária, suas pernas não responderiam ao comando do seu cérebro só por ele desejar. Seu cérebro precisava de tempo, como Pietro também. Helen o ajudou a sentar na cama, aproveitando para conferir a sua pupila e pressão. O rapaz queria apenas saber o que diabos estava acontecendo. Uma voz robótica anunciou que ele estava prestes a ter um ataque de ansiedade e Pietro assentiu, concordando com quem diabos tinha proferido aquilo. Cho não perdeu tempo em dar um copo de água ao rapaz e uma dose de um calmante, pedindo-o para respirar. E foi quando ele brotou no quarto, passando pela parede.
— Visão? – Willa proferiu apontando seu indicador a Pietro, analítica.
— Como sabia? – Ele mostrou assombro por tal descoberta.
— Ele fazia isso o tempo todo com a Wanda. – Willa comentou abanando a mão.
— Ah. – Pietro compreendeu, então seu cérebro traduziu o significado daquela frase. — Espera. O Visão entrava no quarto da minha irmã, passando pela parede, o tempo TODO? – Pietro ficou tão vermelho que Willa achou melhor abaná-lo, antes dele entrar em ebulição.
Willa arregalou os olhos, enchendo a boca com o sanduíche, apontando para os lábios, indicando não poder falar. Pietro respirou pesadamente jurando enforcar aquele androide na primeira oportunidade que recebesse.
Visão mostrou preocupação por Pietro.
“Senhor Maximoff, é formidável tê-lo entre nós. Como o senhor se sente?” E muito calmo, Pietro respondeu: “No inferno. O que diabos está acontecendo aqui?”
— Eu consigo ouvir você gritando. – Willa proferiu com seriedade, apontando para o ouvido.
— Eu não gritei. – Ele esganiçou ofendido percebendo o olhar julgador de Fairchild e ele encolheu os ombros. — Talvez tenha grunhido um pouco.
Gritando ou não, Pietro queria explicações, queria sua irmã, queria que aquele pesadelo acabasse, mas ele não parecia ter fim. E a única coisa que Visão fez foi levitar pelo quarto com aquele seu olhar inexpressivo, tentando distrair Pietro, para o que lhe reservava, enquanto Helen o examinava.Então chegou ele: Stark. O bilionário entrou no quarto com os braços abertos com um enorme sorriso.
“Bem vindo ao mundo dos vivos, Maximoff”.
— Nossa, sutil como um soco de luva de pelica. – Willa comentou arregalando os olhos, como se tivesse levado tal soco. – Espera, o Tony sabia esse tempo todo que você estava vivo?
— Piora.
“E aí, como é o outro lado? Fez alguns amigos?”
Pietro olhou duramente para Stark reconsiderando sua decisão de não enfiar um soco na cara do bilionário. “Tudo bem, vamos falar sério. Cho, Visão, vocês podem nos dar privacidade?” Cho assentiu, levando consigo o copo de água e suas anotações. Visão precisou assisti-la deixar o quarto para entender que ele estava sobrando ali. Então, Tony começou a tagarelar, ajudando Pietro a reviver as suas memórias recentes. Ele lembrava de sua irmã gritando por ele, lembrava dos tiros, lembrava da S.H.I.E.L.D., lembrava de Clint buscando proteger o menino Sokoviano das balas atiradas por Ultron e...
“Willa”.
— Você se lembrou de mim? – Willa questionou com o seu olhar singelamente ganhando comoção.
— Foi o que acabei de falar. – Ele murmurou inclinando o rosto sentindo suas bochechas aquecerem e isso foi o bastante para ele revirar os olhos, fixando sua atenção numa tigela de pudim. Porque ele precisava ser tão bobo diante dela?
— Como? – Willa perguntou curiosa, comprimindo um sorriso.
— Foi o que Tony perguntou... – Maximoff murmurou com um sorriso sapeca crescendo em seus lábios.
Tony lhe lançou um olhar inquisitivo.
“Como?” E Pietro sorriu no canto dos lábios lhe revelando e Stark crispou a boca, retrucando “Você é um zumbi tarado.”
— Você lembrou da gente... fonduendo? – Willa perguntou engasgando com o último pedaço do seu McFish, não tendo coragem para desbravar a palavra em si do que eles tinham feito, antes de Sokovia.
— Não! – Pietro exclamou apavoradamente intimidado, tencionando. — Mas agora estou pensando... – Ele foi dominado por galanteio, aproximando de Willa que tacou um sachê de catchup na testa dele. Pietro fechou os olhos, sorrindo. – Eu só queria implicar com ele.
Pietro explicou lembrar de Willa, ao lado dele, no que parecia ser a antiga sala da casa de sua família e o míssil das Indústrias Stark estava diante de seus rostos, mas Wanda não estava entre eles, como tinha acontecido. Era apenas o casal revivendo o pior momento da vida de Pietro, enquanto bravamente Willa lhe mandava aguentar, pois ele sobreviveria àquilo, como também aos tiros. Lá estava ele, caído no chão, com seu corpo perfurado em doze lugares. Ele escutava Wanda gritar, mas não conseguia respondê-la, muito menos se mover. Clint olhava o Sokoviano com a criança em seus braços. Devastado. Então, Maximoff piscou os olhos e Willa estava deitada ao seu lado, ela vestia suas roupas de vigilante, a Justice e tinha seu corpo perfurado por balas, exatamente nos mesmos lugares que ele. Seus olhos estatelados revelavam que a morte lhe tocara, mas seus lábios se moviam, proferindo para ele não seguir em frente, pois ainda lhe restava paginas nessa jornada.
E a morte não parecia doer tanto, quanto a mídia e a Hidra fizeram Maximoff acreditar. Não doía morrer quando Willa estava ao seu lado, arrastando sua mão numa luta entre a vida e a morte para agarrá-lo a si, para algo que ele era incapaz de ver.
Tony escutou aquelas palavras com uma ruguinha marcando seu cenho e o seu olhar suavizou sobre Pietro.
“Garoto, nós precisamos conversar”.
E foi ali que o mundo de Pietro virou de ponta cabeça e ele descobriu que o mundo reservava muito mais possibilidades do que começo, meio e fim.
“Isso aconteceu. Você morreu. 13:32 da tarde foi o horário de seu óbito. Wanda se isolou com o seu corpo numa área reservada do quinjet. Depois de muito tempo, a única pessoa que ela permitiu entrar foi Willa e quando Willow deixou aquela sala, ela não falou sobre um funeral, e sim me levou junto a Steve para um cômodo reservado e nos contou sobre a possibilidade de trazê-lo de volta a vida”.
Pietro arregalou os seus olhos azuis, passando as mãos nos cabelos longos e bagunçados.
— Por que você cortou os cabelos? – Willa perguntou com um beicinho em seus lábios.
— Por que eu... – Ele buscou as palavras passando os dedos no cabelo de agora, poucos centímetros. — Eu precisava me misturar e os cabelos tinham que ir embora. – Ele proferiu resoluto.
— Uma pena. – Willa amuou passando seus dedos nos seus cabelos, recebendo um gracejo de Maximoff. – Gostava das suas madeixas cinzas. Era tão você.
— Eles crescem. E muito. – Pietro comentou arregalando os olhos com assombro. — Stark disse que tem haver com o meu metabolismo; ele é três vezes mais acelerado do que de uma pessoa normal, e isso afeta nos meus músculos, força, alimentação, unhas e no crescimento dos meus cabelos também. – Ele apontou para a cabeça com um sorriso torto. — Em menos de três semanas eu pareço o primo Coisa.
— Entendi a indireta. Vou te comprar uma tesoura para cabelos. – Ela brincou com um sorrisinho. — O que mais o Tony lhe disse?
— Que, ele nunca viu alguém tão persistente em salvar uma vida. – Pietro sorriu levemente admirando Willa e ela abaixou o seu rosto, singelamente, embaraçada. — Em nenhum momento ele duvidou do seu dom, Willa. Muito pelo contrário, ele me contou que sempre achou que você escondia algo formidável, mas que era egoísta demais para dividir isso com todos.
“Então, quando você deixou aquela sala sem uma boa notícia, ele se preocupou muito com você e assistiu atentamente. Ficou preocupado com a Wanda, sabe? Mas ela permitiu Visão se aproximar e ela buscou seguir em frente. Mas você se afastou de todo mundo. Você se afastou do Steve, do Sam, até do próprio Stark. Ele ficou com medo de você acabar colocando sobre os seus ombros um peso que não lhe pertencia. Você podia me salvar? Sim, mas não dependia só de você e ele tentou te mostrar isso, mas achou que você não captou a mensagem com facilidade. Ele ficou com medo de você acabar depressiva ou pior... Ele me disse que você começou a sumir da mansão, não ia aos almoços dos Vingadores, conversava pouco com a equipe, saia com um pessoal estranho de Hell’s Kitchen para beber, voltava de madrugada completamente bêbada... Como foi que ele disse? Des... devastada.”
Isso foi o suficiente para Willa reviver aquele momento como num deja vu pérfido.
Tony garantiu o melhor enterro ao rapaz, numa jazida em Sokovia. Todos os requintes religiosos foram feitos, ele teve o mais belo caixão e Wanda se despediu do irmão. Após o enterro, eles retornaram para a Mansão dos Vingadores no interior de Nova York e Wanda se isolou em seu quarto, enquanto Willa também se distanciou, de sua maneira. Uma punição por ser incapaz de salvá-lo, mas será? Será que era tudo no branco e preto? Chorando, Willa lhe dissera que era para ser um resultado imediato. Ele despertaria imediatamente dos mortos. E se não houve isso, ele não retornaria. Não mais. Mas, e se a condição de sua morte fosse determinante para o seu retorno? Ela mesma dissera, a sua primeira vez salvando alguém da morte foi por conta de uma facada no coração. Pietro levou doze tiros, incluindo no seu pulmão, estômago e coração. E se o seu borogodó funcionou, sua alma aceitou retornar, mas e se o seu corpo necessitava de tempo para o corpo de Pietro se recuperar dos ferimentos?
Quer dizer, Tony não entendia nada sobre vida e morte, mas ele entendia uma ou duas coisas sobre ter esperança. Então, lá ele se encontrou, dramaticamente sobre a chuva de Sokovia com um guarda chuva lhe sombreando e protegendo das pesadas gotas de chuva, enquanto assistia empreiteiros tirarem o caixão da recém coberta jazida. Após depositarem o caixão no seu jato particular, eles seguiram com o combinado: colocaram um caixão vazio no lugar, cobriram a jazida, pegaram seu pagamento em dinheiro e fingiram que nada aconteceu.
Tony transportou Pietro em seu caixão para a sua ala hospitalar particular, na Torre Stark. Na pior das hipóteses ele teria ilegalmente o corpo do irmão de uma colega de trabalho sendo secretamente cuidado, em sua Torre. Todavia, ele buscava ver isso como um incentivo para amplificar sua pesquisa com o Berço. Cho desejava marcar seu nome na humanidade e ela estava dedicada em alcançar novos patamares com o Berço. Aquela pesquisa podia sim ser o futuro para a cura de doenças graves, como câncer, feridas produzidas por tiros e facas, e até mesmo, algum dia, a mortalidade. Quem sabe Pietro fosse à inspiração para Stark investir seu dinheiro e neurônios? Ele não duvidava: em alguns anos aquele berço poderia trazer pessoas de volta a vida sim, como Willa, mas ele acreditava que antes disso, Pietro poderia estar correndo pelo mundo, pois ele...
— Acreditava cegamente em você.— Pietro proferiu com um menear respeitoso de sua cabeça.
— Por que? – Willa perguntou mais para si do que para Maximoff. Porque ele acreditava nela, quando ela mesma, tinha perdido a fé em sua capacidade? Ele apenas ergueu os ombros.
— Porque você era família. – Pietro murmurou e Fairchild engoliu o ar, sentindo sua garganta embargar e os olhos se encherem de lágrimas. – Ele sabia que você não revelaria algo tão importante sobre si, se fosse apenas uma hipótese, um medo emocional de me perder... Ele só achou que você perdeu a fé rápido demais.
— Ele tem razão. – Willa assentiu comprimindo um sorriso. — Eu sinto muito, Pietro.
— Pelo que? – Pietro abafou um riso, admirando-a.
— Por ter sido impaciente, por ter abandonado e desistido de você tão rápido. – Ela proferiu com sinceridade. — Se não fosse por Stark, você teria morrido sufocado naquele caixão, por ingenuidade e impaciência minha!
— Ou eu poderia ressurgir do meu tumulo, como um zumbi. – Ele grunhiu como um fazendo cosquinha na base da cintura dela e Willa acabou por rir, secando a lágrima escorrendo no canto dos seus olhos. Pietro a desafia a olhá-lo, repousando os seus dedos embaixo do queixo dela. – Você me salvou do inferno, Will. Eu lhe devo a minha...— Willa repousou o seu indicador nos lábios de Maximoff.
— Não. Você não me deve nada. – Ela afastou o indicador dos lábios dele unindo as sobrancelhas. – O poder pode estar em mim, mas existem outros fatores que sem eles, eu não seria capaz de te trazer de volta.
— Mas você ainda tem o direito à escolha, certo? – Pietro inclinou o seu rosto para melhor admirar o olhar de Willa.
— Como assim? – Ela questionou confusa.
— Você podia não ter me salvo. Podia ter ignorado todos esses fatores e me deixado seguir. – Ele explicou calmo e saudoso. — Não é?
— Eu nunca pensei nisso. – Ela desconectou os seus olhos, pensativa sobre tal hipótese.
— Viu, você tinha uma escolha, mas me escolheu e eu também tenho uma escolha e eu também escolho ligar minha vida a sua e ser até meu último suspiro grato a você por ter essa segunda chance. – Pietro proferiu resoluto repousando sua mão carinhosamente no rosto de Willa, reconectando os seus olhos a completude de seu ser.
— Depois de conversar com o Tony, o que aconteceu? – Ela sussurrou tal pergunta, lutando para não se levar pelo oceano gélidos dos olhos de Pietro.
— Ele me explicou o que aconteceu, o que você fez, o que ele fez... Que três meses tinham se passado desde a minha morte e retorno e eu estava instalado na sua secreta e recente ala hospitalar na sua torre. Eu queria ver Wanda, mas Tony preferiu dar tempo ao tempo.
Cho queria fazer uma bateria de exames e assistir atentamente a recuperação de Pietro. Tony temia chamar Wanda e Pietro colapsar ou acabar morrendo, de novo. Tudo era tão incerto. Ele não queria dar falsas esperanças a jovem. E também tinha outro detalhe, bem delicado: Pietro morreu. Não tinha como apagar isso na história. Saiu em jornais, revistas, redes sociais, tumblr, nos telejornais locais e internacionais. Num mundo onde existe Hidra e os seus cientistas, Pietro não podia simplesmente retornar a sociedade. Seria como chutá-lo aos leões e assistir quem seria o primeiro a conseguir um pedaço de si. Imagine: o homem que não morreu.
Como isso foi possível? Não apenas Pietro ficaria em risco, mas Willa também, pois ela foi quem tornou aquilo possível e Wanda, por ser irmã dele, logo seu calcanhar de Aquiles.
Nesse meio tempo, Pietro descobriu que Tony buscou escondê-lo na Torre de tudo e todos, mas Visão como bom bisbilhoteiro, descobriu seu corpo em Cryo após dois meses e bom, Tony precisava do conhecimento médico de Cho. O trio se tornou para Pietro a sua única ligação com a humanidade. Tony explicou a situação e Visão prometeu segredo e proteger Pietro, por Wanda, já Cho estava animada com a possibilidade de trabalhar com uma grande descoberta. Após despertar, Pietro ficou duvidoso sobre as intenções de Stark. Mesmo com suas explicações e até mesmo com Cho buscando apaziguar as duvidas conflituosas de Maximoff, o rapaz não confiava no Bilionário pensou em fugir da torre, algumas dezenas de vezes, mas Visão o impediu, em todas elas. Ele pedia paciência ao jovem e também que pensasse em seu bem estar e segurança, principalmente por Wanda. Com essa ele pegou pesado com Pietro e ele resolveu dar uma chance a Stark.
Enclausurado, Pietro estava começando a lentamente enlouquecer preso naquela torre. Ele não podia correr. Era uma prevenção. De acordo com Cho, seu corpo ainda estava em lenta recuperação. Cho também descobriu que quando ele corria, com sua agilidade, seu super metabolismo era ativado, o que não apenas acelerava o funcionamento do seu corpo, como aumentava o seu apetite, sua stamina e regeneração. Isso podia ser bom? Sim, mas como seu corpo ainda se recuperava dos tiros era melhor isso ser feito sem a ajuda de seu aprimoramento, e sim do seu metabolismo humano, através de uma alimentação saudável e medicamentos. E aos poucos, ele ir se readaptando as suas habilidades, através de um treinamento fisioterapeutico. Tudo bem lento, tudo bem tedioso.
Tony buscava não transformar o seu enclasuramento numa prisão, então ele disponibilizou um apartamento privado na Torre para o Maximoff. Ele tinha um quarto, roupas a disposição, internet, livros, banheiro, uma sala de treinamento, cozinha e uma sala, tudo com o que havia de mais moderno. Entre um exame e outro, Pietro buscava não morrer de tédio jogando um videogame, assistindo algo na televisão e recebendo visitas ocasionais de Visão e Cho, contando novidades de sua irmã, Willa e todo mundo. Isso mantinha sua sanidade em dia.
Após um mês, Pietro ainda não corria como antes, mas ao menos, ele podia praticar algo perto disso numa esteira especialmente montada para ele. Ele podia malhar e nadar também. Cho tinha razão. De pouquinho em pouquinho, ele chegaria lá.
— Quando é que você vai chamá-la para o baile? – Willa questionou repousando as suas mãos abaixo do queixo, bufando com um girar dos seus olhos. Pietro mostrou não compreender. – A Cho. Você claramente está tão a fim dela.
— Ok. – Ele gesticulou cansado das indiretas. — Ótimo. Nós nos beijamos. – Willa abriu os lábios, gesticulando vitoriosa. — Uma vez. Na varanda. Foi legal, mas ela não estava interessada num relacionamento casual e eu também não. – Willa arqueou uma sobrancelha. — Pronto? Satisfeita?
— Não. – Willa revelou com um muxoxo, recebendo um olhar curioso de Pietro. Ela moveu os ombros desgostosa. – Você não faz o tipo dela. – Willa meneou a cabeça em negativa.
— Bom, eu pareci fazer lá... – Pietro respondeu inclinando seu rosto.
— É, claro. Ela não tinha o Thor, então você dava no gasto. – Pietro lançou um olhar inexpressivo a Willa, inalando pesadamente. — Ela te usou. Safada. – Willa xingou cerrando seus olhos para um par de peixes empanados.
— Você é estranha. – Pietro proferiu unindo as sobrancelhas. – Podemos continuar com o que importa?
— Sim, você treinando, sem camisa... – Ela especificou focando sua atenção.
— Eu estava de camisa. – Ele retrucou, sério.
— Não na minha cabeça. – Ela apontou para a própria cabeça, sorrindo maliciosa.
— Enfim... – Pietro arregalou e revirou os olhos.
Em algum pouco tempo, ele conseguia treinar alguns socos e chutes no saco de areia, isso o ajudava a manter sua mente focada, longe dos seus pesadelos, das saudades de sua irmã, de suas duvidas, das suas lembranças de morte, do que aconteceu quando ele esteve entre esses dois estados: vivo e morto e estar preso ali, longe de sua irmã, longe de sua vida. Se ele soubesse que estaria vivendo numa situação assim, ele com certeza teria vivido antes com maior intensidade.
— Se você vivesse com mais intensidade, queimaria o mundo. – Willa debochou com os antebraços repousados sobre os joelhos e ele a julgou. – O que? Wanda me contou histórias.
— Você entendeu o que quis dizer. – Pietro semicerrou seus olhos sobre ela.
— Sei, sei. – Ela assentiu debochada. — Sexo, rock and roll e viver adoidadamente. – Ela incentivou para ele prosseguir. — E aí...?
Pietro foi apresentado ao Fury. Ele era o antigo diretor da S.H.I.E.L.D. Hoje dado como morto, mas ainda foragido por diversas organizações do lado negro da força, incluindo a Hidra. Com todo seu conhecimento, Fury concordou com cada uma das preocupações de Stark: Pietro não podia retornar a sociedade. Não sem uma nova identidade. Era um mundo difícil para um milagre existir e ele era um.
Ele podia se manter na Torre, mas Stark temia que eventualmente, outras pessoas descobrissem de sua existência ali e ele não conseguisse suprir isso. Foi fácil conseguir convencer Visão, mas se fosse Steve em seu lugar? Ele não conseguiria convencê-lo nem em um milhão de anos. E ainda havia Wanda... Pietro estava agoniado para vê-la, mas Fury também concordou em mantê-lo longe da irmã até segunda ordem. Toda proteção era pouco numa situação delicada como aquela, tanto para o rapaz quanto para a jovem. “Vocês são humanos extraordinários, Pietro. Você pode não ter retornado dos mortos por sua escolha, mas você retornou e existirá pessoas querendo saber como você fez isso, querendo investigá-lo, interrogá-lo, testá-lo, matá-lo para tentar vê-lo retornar ou não... Você não pode correr o risco de ter esse fim, nem de que sua irmã e Willa também caiam em mãos erradas”.
Pietro estava num labirinto sem saída. Ele concordou com tudo se sentindo cativo. Ele retornara a uma vida a qual, nunca mais, ele conseguiria viver.
— Eu sei que soa dramático, mas... – Pietro inclinou seu rosto, brincando com a palma de suas mãos enluvadas. – Eu não consigo lembrar de um dia em minha vida, onde minha irmã não estivesse presente. Wanda sempre esteve comigo. Até na Hidra, seu quarto era ao lado do meu e mesmo assim, nós tínhamos a nossa ligação. Não saber dela, se ao menos estava bem foi pior do que os testes para me tornar aprimorado. Quando morri, eu não perdi a minha vida apenas, mas essa ligação, e logo minha irmã. Eu nunca tinha experimentado a solidão e não gostei nem um pouco.
Stark percebeu isso. Ele conhecia os sinais. Estar longe de sua irmã estava levando Pietro, lentamente, a aumentar sua ansiedade e culminar numa depressão. Cho, Tony e Visão podiam tentar trazer um pouco de alegria em seu dia-a-dia, até mesmo F.R.I.D.A.Y. mas Pietro queria mais. Ele sentia falta das pessoas, da agitação das cidades, festas, histórias, o que ele não tinha ali nos últimos andares da torre. E as cores, o sol, a chuva, o vento, os movimentos, as risadas, as oportunidades... Ele podia ter o seu dom de ir e vir, podia estar vivo, ter luxo, mas estar restrito era quase como estar naquele berço de gelo novamente, só que invés de morto estava consciente. Ele só sentia tanta falta de tudo.
Após algumas semanas nessa vidinha bem mais ou menos, Pietro recebeu uma nova visita de Fury, dessa vez, acompanhado de um rosto conhecido. Como Stark mostrou preocupação com Pietro ficar as escondidas, só na torre mais popular do país, Fury considerou a possibilidade de levá-lo a um novo esconderijo. Ele pensou nas Instalações dos Vingadores. Ficava no interior de Nova York. Como tudo que Stark toca, as instalações eram excelentes. Eles tinham um exercito de agentes treinados e preparados para todos os tipos de confrontos, uma ala hospitalar e pesquisa de primeira ponta e um centro de treinamento excelente. Sem contar com Wanda vivendo na mansão com Visão — e a presença frequente dos outros Vingadores. Ele ainda não poderia ir e vir com liberdade, mas ele estaria com Wanda. Mas, existiam muitos outros contras pendendo a essa ideia: muitas pessoas saberiam sobre Pietro estar vivo (agentes, chefes de estado, cientistas, funcionários, etc.) e os riscos, mesmo com as devidas proteções, seriam maiores do que as contenções. Se for para ele e sua família correr risco, era melhor ele continuar onde estava até encontrar um refúgio.
Um refúgio.
E foi assim que Fury entrou em contato com o recém- aposentado Clint Barton.
— Clint sabia. Ele sabia que você estava vivo esse tempo todo. – Willa proferiu com pesar contornando o seu semblante. – E não nos disse nada. – Ela proferiu se sentindo traída.
— Não fique triste com ele. O velho acha que me deve alguma coisa, então ele prometeu guardar esse segredo, para proteger vocês.
— Não é tão simples assim, Pietro. Você morreu, nós assistimos. Wanda ficou de luto. Eu sofri. Todo mundo sofreu! – Willa apontou enfática para ela, pensativa. — E então, você volta a vida e eles nos escondem isso, como se tivessem reencontrado um livro esquecido no tempo e quando surgisse o assunto, nos informaria: Ah, já que falamos sobre isso... Lembra do ligeirinho? Então, o voodoo da Willa funcionou e ele está vivo. Não é demais? Coloquem mais uma cadeira na mesa, pois ele virá para ação de graças!
Com certeza Tony falaria algo assim.
— Nunca participei de uma ação de graças. – Willa arregalou os olhos, frustrada meneando a cabeça em negativa.
— Vocês não tinham o direito de decidir isso por nós. – Willa grunhiu com frieza movendo seu corpo para ganhar uma considerada distância de Maximoff.
Pietro meneou a cabeça em negativa, exasperando uma risada.
— Bem que ele falou que você ficaria assim.
— Quem falou o que? – Willa questionou seca.
— Stark. Ele falou algo sobre você ser sensível como uma casca de creme brule. – Willa grunhiu com agressividade e Pietro riu.
— Vamos ver quem vai ser sensível quando eu enfiar minha mão... – Willa respirou fundo balançando a cabeça em negativa, buscando afastar tais pensamentos. Mas não adiantou, ela ficou de pé, caminhando de um lado a outro no quarto com um semblante desgostoso. – Isso tudo...Não é justo com a Wanda. Visão foi obrigado a mentir para ela. Clint mentiu e Stark também. Tudo porque os patriarcais acham que Wanda precisa de proteção – e não só ela. Vocês perderam meses das suas vidas, Pietro, por conta de medo, política e uma boa dosagem de machismo... Quando podiam estar juntos, esse tempo todo.
— Não só eu e ela. – Pietro proferiu resoluto deixando um sorriso charmoso crescer em seus lábios, enquanto Willa lançou um olhar incerto e embaraçado sobre Pietro. – Não me olha assim como se isso não tivesse passado na sua mente. – Fairchild riu, assentindo. Tal ideia passou em sua mente por algumas centenas de vezes. Sem pensar muito, Pietro usou sua velocidade ficando a frente de Willa. Ele sentia falta disso, de como o mundo parecia parar por alguns milésimos em rendição a eles. Sua mão tocou seu rosto e sua cintura e os seus lábios se tocaram num beijo tão rápido e fugaz quanto Pietro poderia esperar. Seus lábios mal se encontraram e Willa repousou suas mãos contra seu peito, empurrando-o para longe. Um pouco incerto ele buscou por uma explicação, enquanto ela olhava-o magoada.
— Eu não estou sozinha. – Pietro compreendeu abrindo os lábios e os fechando perdendo um sorriso sem emoção e abafado. Ele deu um passo incerto para trás, passando as mãos em seus cabelos e ele retraiu seu olhar da figura de Fairchild.
— Eu entendo. – Pietro sentiu a obrigação de responder alguma coisa. O seu cenho franzido e a postura tensa provavam que ele não compreendia. Pelo contrário, uma pequena parte de si acreditava que ela estaria livre para ser conquistada por ele, pois o destino podia escrever torto, mas ele dava seu jeito de fazer certo, mas ele estava errado, como também tolo, cego e errado. – É alguém que eu conheça? – Ele fechou os olhos, inclinando o rosto com frustração: porque diabos ele gostava de procurar motivos para remoer magoas e rancor?
— Não. Não ainda. – Willa comentou com um sorriso discreto. – É o Bucky, o amigo do Steve.
— O cara que explodiu as Nações Unidas? – Pietro cuspiu tais palavras. Não acreditando com o tipo de cara com quem Willa estava envolvida. Ele podia não ser o melhor dos homens, mas também não explodia prédios por aí.
— Não foi ele. – Ela revelou resoluta. — Acredita em mim, a história é bem mais complicada do que está sendo contada.
— Acredito, sempre acreditei. – Ele respondeu sincero lançando-lhe um olhar intenso, arrancando qualquer palavra de Willa. — Então, onde foi que eu parei mesmo? Clint, é...— Ele estalou os dedos, enchendo a boca com um pedaço de croassaint de chocolate. — Foi no Clint.
— Pietro... – Ela sussurrou sentindo a sua tensão e magoa corroer os seus sentimentos pesadamente, vê-lo de costas para si, por um segundo, foi quase como assisti-lo decidir partir, mas ele não o fez.
— Não, faz isso. – Ele pediu gesticulando em negativa, percebendo o pesar no olhar de Willa, ele deixou um sorriso gentil desenhar os seus lábios. – Se você me interromper vou perder a linha de raciocínio novamente e vou ter que puni-la por isso.
— Tudo bem. Continua... – Willa concordou, sentando no sofá acompanhada da tigela de pudim e salada de frutas se sentindo estranhamente desconfortável.
Fury acreditava que Pietro precisava de liberdade e proteção e o refugio dos Barton seria ideal para isso. Ficava numa área rural no interior de Boston. A cidade era tão pequena que comportava um mercado, uma farmácia, um posto de gasolina, a mecânica era uma moradora, tinha uma espécie de colégio, um brechó e uma delegacia. E só. A internet chegou lá, mas era tão lenta que os interioranos preferiam o velho jornal noturno e o jornal de papel pela manhã. O que era notícia agora para eles, era notícia daqui a uma semana. A cidade tinha menos de cinquenta moradores e a fazenda se encontrava a quase vinte quilômetros de lá. Pietro estaria seguro por lá. Ele poderia continuar o seu tratamento, treinamento, poderia viver livremente na fazenda e cidade, e é claro, conviveria com a família de Barton. Era provisório, mas Laura e Clint fizeram Pietro se sentir em casa, ao ponto da matriarca, em menos de um mês declarar ao marido que não ficaria incomodada se fosse permanente. Pietro era um bom garoto. Ele sempre buscava ajudar nas tarefas de casa, fazendo compras na cidade ou cuidando da fazenda, como também tinha um ótimo relacionamento com as crianças, ficando enumeras vezes com o trio para o casal poder ter um pouco de intimidade.
— É claro... – Willa murmurou com um sorriso bobo. – Lila falou de você, por causa do meu cabelo.
— É, você cortou. – Ele comentou comprimindo um sorriso. — Eu sabia. Eu te vi no dia da viagem.
— Você estava lá... – Willa relembrou daquele fático dia. Ela estava prestes a entrar na casa dos Barton quando escutou o estalo na floresta.
— Na floresta. – Pietro assentiu arqueando uma sobrancelha.
— O graveto, você pisou em falso.
— Sabia que você tinha ouvido. – Uma parte dele acreditava ter feito isso de propósito, com a única intenção dela lhe ver e eles poderem se reencontrar, mas ele manteve o plano e partiu. — Eu fui embora quando vocês estavam chegando. Clint achou melhor eu me separar deles, por causa de toda essa confusão do acordo. Eu ia para um esconderijo da S.H.I.E.L.D. onde ficaria até Laura e as crianças se estabilizassem ao norte. Eu fiquei esperando a ligação dela e invés disso, recebi do Clint sobre... – Pietro se calou sentindo sua voz embargar e ele inclinou seu rosto, simplesmente não conseguindo falar sobre isso.
— Ele te contou sobre a Laura. – Willa proferiu pesarosa.
— É. – E ele lembrou. Não de quando soube que perdeu Laura, mas do dia em que ele se deu conta que tinha em Laura o carinho que lhe faltava, de uma mãe.
Pietro estava tendo uma batalha para conseguir colocar Cooper para dormir naquela noite. Agora ele compreendia o que Laura queria dizer com: Não dê doce as crianças depois das noves. Eles se transformavam em Gremlins, só menos sanguinários e extremamente inquietos. Se ele era ansioso e inquieto, Cooper e Lily conseguiam ser quatro vezes pior e tudo culpa de alguns mashmallows surrupiados. Silenciosamente, Maximoff agradecia por não ter dado um a Nate ou o menino poderia aprender a voar com toda aquela eletricidade. Por sorte, Nate estava dormindo profundamente no quarto de Laura e Clint e Lily estava ouvindo uma história contada por sua mãe. Restou para Pietro colocar Cooper para dormir, mas o menino corria pelo quarto, jogava peça de lego no chão para Pietro tropeçar, enquanto corria tentando pegar ele e ele precisava confessar: era um bom plano de contenção. Todavia, não demorou para ele conseguir agarrar o menino pela cintura, fazer um voo rasante com o rapaz até a cama e prepará-lo para dormir, mas quem disse que o menino permitia? Ele fugia do travesseiro, das cobertas, chegando ao ponto de ficar se sacudindo tentando escapar de algum jeito que seus olhinhos espertos conseguissem captar. Entretanto, ele encontrou conforto ao ser abraçado por Pietro.
— Você não vai conseguir dormir se ficar se mexendo como uma minhoca eletrocutada! – Pietro exclamou fazendo rapidamente cosquinhas na barriga do garoto, conseguindo arrumar Cooper na cama e o garotinho riu com a brincadeira do novo amigo. Vitorioso ele conseguiu deitá-lo, cobrindo-o com o edredom, sem deixá-lo escapar de seu abraço. – Vamos colocá-lo para dormir ou o seu pai vai ficar com muita raiva de mim.
Cooper aceitou o pedido, deixando Pietro lhe aconchegar na cama, cobrindo-o com o edredom e mantendo seu lençol de estimação em suas mãos. Então, Cooper virou-se para Pietro com os braços estendidos e Pietro deixou um sorriso discreto desenhar seus lábios, depositando um beijo na testa do menino e abraçando-o com carinho. Ele estava vivendo ali há alguns meses e ele estava tão afeiçoado pelas crianças, quanto elas por ele. Não seria clichê dizer que ele se considerava irmão do trio. Pietro caminhou para deixar o cômodo e antes de apagar a luz da entrada do quarto, a voz de Cooper lhe chamou, um pouco sonolenta, um pouco curiosa.
— Hey, Pietro? É verdade que você morreu para proteger o papai?
— O que? – Pietro foi pego inesperadamente naquela pergunta. Seu semblante endureceu, enquanto sua mente foi levada, sem autorização, àquela lembrança. Ele vendo Barton e a criança em risco, Ultron se aproximando com sua nave com os canos de armas apontadas diretamente a eles e ele tentando alcançá-los... E os tiros. O grito de Wanda. Willa lhe chamando numa mistura de suplica, pesar e esperança. Aquilo ainda sufocava o seu coração, as vezes, ele achava que estava se sufocando pela terra de seu tumulo novamente. Então ele despertou de seus pensamentos encontrando o olhar ingênuo e curioso de Cooper. – Não. Isso não é verdade. Durma um pouco, Cooper.
Com isso, sem nada mais a alimentar a mente de Cooper, Pietro apagou a luz e fechou a porta, recostando-se na madeira, apoiando sua mão no portal sendo acometido com uma leve tontura obrigando-o a fechar os olhos e respirar áspero e pesadamente, buscando retornar ao presente, afastando assim o passado.
— Ele perguntou, não é? – Laura questionou num sussurro, apoiada no portal do quarto fechado de Lily, com os braços cruzados aquecendo-se com seu roupão noturno. Pietro abriu os olhos e anuiu a pergunta, não encontrando as palavras para lhe responder. – Desculpa por isso. Ele estava me rondando com essa pergunta a dias, acho que ele ouviu uma conversa entre mim e Clint.
— Tudo bem. Só não queria assustá-lo com a verdade – Pietro respondeu com pesar, encolhendo singelamente os seus ombros. — Se é que eu tenho alguma verdade... – Ele pensou em tais palavras, apenas não esperava proferi-las. Percebendo isso, ele trocou um olhar com Laura e comovida, ela caminhou até o rapaz, lhe dando um abraço, retribuído contidamente por ele.
— Depois de ser controlado por aquele deus maluco de Asgard, o tal de Loki, Clint começou a seguir uma máxima em sua vida: algumas coisas são mais interessantes e importantes quando não conhecemos a sua verdade. – Laura dividiu tal história com Pietro, olhando-o com serenidade e um discreto sorriso.
— Filosófico da parte dele. – Pietro não conseguiu deixar de soltar um dos seus comentários sarcásticos sobre Barton, era da sua natureza.
— Ele pode ser bem filosófico depois de algumas cervejas. – E ninguém era melhor para zoar com Clint do que ela, entretanto ela tinha uma excelente empatia e não demorou a retornar ao seu ponto de vista, ao qual Pietro mostrou estar tentando escapar escorregadiamente. — Na minha pouca experiência com coisas inexplicáveis eu posso te garantir que primeiro: não devemos pirar com aquilo que não temos explicação, um dia ela virá e será no exato instante em que mais necessitamos de uma resposta, e talvez nem saibamos. Segundo: quem procura acha. Procure por problema e o encontrará. Procure por uma solução e a encontrará. Procure por uma resposta e a encontrará. Agora, você realmente precisa dela? – Pietro compreendeu onde Laura queria chegar. Ele não tinha como escapar da verdade. Não importasse o quanto ele tentasse correr, ele sempre retornaria àquele instante onde ele foi alvejado por tiros e morreu. Então, no outro minuto, ele abriu os olhos e estava vivo, sozinho e perdido. E ele corria deixando tudo para traz como um borrão, e não adiantava, ele não podia escapar daquilo. — Você está vivo, Pietro. Você é um milagre e deveria se sentir como um.
— Não consigo. – Pietro meneou a cabeça em negação, passando a mão nos seus cabelos recentemente cortados num estilo típico militar. Uma das tantas mudanças no cerne de Maximoff, mas algumas camadas de si se mantinham tão forte quanto antes. — Não sem saber o porquê.
— Você quer saber por que você está vivo, é isso? – Laura perguntou pensativa.
— É idiota, não é? – Ele soltou a pergunta coçando a nuca com um singelo embaraço.
— Não. É humano, Pietro. – Laura sorriu caminhando com o rapaz pelo corredor, até alcançarem a entrada do quarto dos Barton. — Sabe o que acho? Acho que você não terminou o que veio fazer entre nós, por isso você está tendo uma segunda chance. Seja obra de Deus ou do homem, você foi agraciado com uma segunda chance e deve usá-la com todo o seu coração. – Essas palavras reverberaram na mente de Maximoff, despertando uma lembrança a qual acalentou seu coração, por um instante tão confuso. — Seja salvando o mundo, sendo babá dos meus filhotes ou arrebatando o coração das garotas. – Laura brincou com a jocosidade em suas palavras, conseguindo arrancar um discreto sorriso de Pietro, percebendo seu semblante ser dominado uma lembrança reconfortante. — Pensou em alguém especial, não foi?
— É, eu meio que me lembrei de alguém. – Pietro revelou com um sorriso discreto em seus lábios e um crescente embaraço brincando em suas bochechas. – Eu tive alguém antes disso tudo.
— A Willa, não é? – Laura questionou deixando um sorrisinho cair no canto dos seus lábios.
— Eu fico assustado com a sua percepção, Senhora Barton. – Pietro comentou com evidente surpresa em seu semblante e se questionando o tão óbvio ele era com os seus sentimentos.
— Sou esposa do Gavião Arqueiro, eu precisava herdar um dos seus feitios não acha? E cá entre nós: ele é completamente um morcego quando o assunto é perceber clima entre os amigos. Se não fosse por mim, nós nunca teríamos ter chegado no terceiro encontro. – Pietro gargalhou, contendo um pouco a estridência por temer acordar as crianças. Ah, ele ia guardar isso na sua manga para usar contra Clint na primeira chance a qual tivesse. — É sério! Pode estar acontecendo diante do nariz dele e ele nem nota!
— Mas você…? – Ele perguntou sem perder o seu confortável sorriso.
— É um dom, rapaz. – Ela respondeu com um ar misterioso, não conseguindo conter uma suave risada, seguindo para entrar em seu quarto.
— Como você se deu conta que era a Willa? – Pietro perguntou, apoiando-se no portal da entrada do quarto, com um olhar questionador sobre ela.
— Tive certeza agora! – Ela revelou com satisfação. — Sempre que Clint comenta sobre os Vingadores, sua irmã e acaba por mencioná-la, você muda a sua postura, fica mais agitado, atento, brilhante. Ela era a sua namorada?
— Não.
— Sabe eu estou tentando convencer Clint que talvez, seja hora de abrir a sua gaiola e deixar algumas pessoas saberem que você não está morto. – Laura comentou com cuidado, percebendo Maximoff enrijecer sua postura com um olhar surpreso sobre ela. – Fury não concorda, acha ainda muito recente e imprudente deixá-lo exposto assim e Clint prometeu pensar sobre e eu acho que ele está comigo nessa. Pensei em trazê-la aqui, assim vocês poderão conversar com calma e sem se preocupar com tempo e segurança.
“Você sente falta da Wanda e pobrezinha, ela está vivendo sem saber que você está vivo! Isso é muito cruel. Até mesmo para as circunstâncias...”
— Se essa for a melhor forma de mantê-la a salvo…
— Do que, Pietro? Ninguém sabe o porquê de você ter voltado, e provavelmente não vão saber, quanto mais tempo você quer perder de sua vida longe de quem ama, por causa de algo desconhecido? – Laura comentou franzindo a testa, mostrando a Pietro um lado ainda turvo de suas possibilidades. – Eu entendo a preocupação do Fury e Clint, mas não entendo como eles não veem o que eu vejo. Você sente falta da Wanda, da sua liberdade, da Willa, da sua vida... Por mais que eu adore a sua companhia e ajuda, você não pode ficar escondido para sempre.
Você precisa retomar sua vida, Pietro. Você merece isso.
— Ela era uma grande mulher. – Pietro proferiu emocionado. – Cuidou de mim como se eu fosse seu filho. Ela não merecia morrer daquela forma. – Ele confessou e Willa abraçou o próprio corpo, desejando muito poder ser o de Pietro. — As crianças, elas estão...?
— Bem. – Ela respondeu prontamente, sentindo as palavras se enrolarem em seus lábios. — Estão a salvo.
— Willa, como você se meteu nessa guerra? – Pietro meneou a cabeça em negativa. — Você é mais esperta do que isso... Eu entendo a Wanda estar envolvida nisso. Ela pode ter um sentimento de dever algo ao Clint e Steve, mas você? Você não deve nada a essa gente. – Ele gesticulou para Willa que apenas abaixou a cabeça, proferindo um “É complicado.”— Não, não é. Isso tudo é loucura. Eu pensava que vocês fossem amigos, uma família...
— Famílias brigam o tempo todo. – Ela retrucou com um riso frouxo.
— E transformam numa guerra civil? – Pietro rebateu e não houve argumentação. – O mundo teria explodido há muito tempo se fosse assim, não acha? – Willa se recusou a olhá-lo, mas Pietro insistiu. — Sabe o que eu vi naquele aeroporto? Pessoas lutando entre si, sem a menor ideia do que estava acontecendo. – Willa mordiscou o canto dos lábios, contendo as suas palavras. Pietro não entendia. — Você sabia que tinha um adolescente ali?
— É, eu bati nele. – Ela assentiu arqueando as sobrancelhas, sem olhá-lo nos olhos.
— Ele é menor de idade, Willa! – Pietro retrucou incrédulo.
— Ele me atacou cuspindo teia das mãos, o que você esperava que eu fizesse? –Ela rebateu irritada, finalmente, encarando-o nos olhos.
— Tivesse um pouco de maturidade e tentasse impedir aquilo? – Ele pegou pesado com Fairchild que riu, debochada.
— Nós tentamos, mas Tony não queria nos ouvir. – Ela proferiu resoluta. — Ninguém queria nos ouvir. Tony achava que Steve estava sendo cabeça dura. O governo acha que o Bucky é o problema quando eles não estão nem perto de alcançar a ponta do iceberg.
— E agora, a minha irmã e os seus amigos estão presos por causa dele. – Ele acusou friamente.
— Não, não foi por causa dele. – E ali estava ela: Mentindo. – Como você nos achou? – Ela buscou mudar o foco do assunto.
— Vocês são notícia, Willa. – Ela teve sucesso em tal tentativa, mas Pietro não mudou sua postura com ela. — Viena foi assunto em todos os canais, então eu resolvi ir até lá, eu não sabia onde poderia encontrar Wanda ou Clint, então resolvi arriscar. Mas, eu não consegui nada. – Ele inclinou sua cabeça, ponderando. — Foi quando eu sonhei com Wanda e tive uma intuição... Resolvi segui-la e o resto você sabe...- Ele gesticulou para Willa, repousando uma mão na cintura, tentando, com muita vontade, se acalmar. — Encontrei vocês no aeroporto e agora estamos aqui.
— Espera, você sonhou com a Wanda? – Willa questionou franzindo o seu cenho.
— Sim, constantemente.
— Vocês sempre conversam nesses sonhos? – Willa investigou arqueando uma sobrancelha, curiosa.
— Um pouco, sim... – Ele fez uma careta nos lábios, assentindo.
— Nesse sonho, que te deu essa intuição, vocês estavam num apartamento, bem antigo, fedendo a curry no que parecia ser Nova York? – Ele não sabia como ela tinha conhecimento daquilo, mas estava encantado por sua sombria mediunidade.
— Não era Nova York, era Sokovia. – Willa abriu os lábios em compreensão. — Foi um dos nossos primeiros apartamentos após nossos pais morrerem e fedia a curry, porque tinha um restaurante embaixo; eu trabalhava lá, lavando louças e coisas assim... – Pietro revelou uma parte desconhecida de sua vida e Willa assentiu. — C-como você sabe disso?
— Wanda teve o mesmo sonho, algumas horas antes de nos encontrarmos em Berlim. – Ela explicou comprimindo um sorriso delicado. — Você perguntou a ela onde nós estávamos...?
— Perguntei, mas ela não me respondeu; eu só senti que devia estar naquele aeroporto. – Ele concluiu com um particular brilho em seu olhar e suas mãos passaram em seu rosto, claramente comovido. — Era a nossa ligação. – Ele sussurrou.
— Acho que sim. – Willa concordou sentindo empatia por ele. — E ela pode estar interligando vocês há muito tempo e vocês nem se deram conta disso, por ela achar que você estava morto e por você achar que ela estava alheia a sua existência.
— Você nunca vai nos perdoar por ter escondido isso? — Pietro questionou com um leve sarcasmo, nutrido por preocupação.
— Eventualmente vou compreender o por que disso tudo, perdoar dificilmente. – Willa ponderou imitando o inclinar de pescoço de Pietro. — Agora, Wanda deveria ser a sua maior preocupação. Ela vai ficar muito decepcionada.
— Eu acredito que conversar pode resolver tudo. – Pietro murmurou com esperança.
— Se alguns homens tivessem aprendido essa lição com você não estaríamos aqui agora. – Willa sussurrou com um delicado sorriso, admirado discretamente por Pietro. — Obrigada. – Willa murmurou lançando um gentil e grato olhar a um desconcertado Pietro. – Obrigada por ter me salvado e me trazido para esse quarto emprestado de hotel, pego toda essa comida e cuidado de mim. Isso significa muito para mim.
— Não foi nada. – Pietro respondeu com sinceridade. — E agora, o que faremos?
— Esperamos. – Willa revelou franzindo seu nariz. — Steve vai me ligar, quer dizer, eu espero que ele me ligue. Até lá, não podemos fazer muito pela Wanda e os outros. Eu posso pensar em invadir o Raft e fazer um super-resgate, mas sozinha, sem tecnologia, mapa, armas, isso exigiria de mim pelo menos uns três dias de preparação.
— Eu posso te ajudar. – Pietro prontificou com sua postura determinada, digna de um soldado.
— Eu não posso colocar você em risco. – Willa meneou a sua cabeça em negativa com um discreto sorriso. Ela não podia fazer isso com ele, não antes de reencontrar sua irmã.
— Está falando como o Stark. – Pietro implicou com um sorriso no canto dos lábios, sabendo que isso mexeria com os nervos de Fairchild.
— Mesmo com a sua ajuda, eu ainda precisaria de alguns dias para fazer isso, ainda com o risco de sermos presos e se Wanda mandou você me ajudar é por ela acreditar que você podia me proteger e vice versa. – Ela tentou enrolá-lo, acabando por revelar a verdade por trás de sua negação. Pietro arqueou as sobrancelhas, compreendendo tudo nas entrelinhas. — Não vou quebrar essa promessa. – Willa sussurrou colocando jeitosamente uma mecha atrás de sua orelha.
— Você é legal, Willa. – Pietro proferiu com gentileza e carinho pela californiana.
— Eu tento. – Willa ponderou com charme.
— Então vamos esperar o Steve dar sinal de vida? – Pietro questionou pensativo.
— Exatamente. – Willa caminhou tranquilamente pelo quarto.
— E até lá? – Pietro questionou com ares de sugestão, admirando Willa de cima a baixo, com o seu indiscreto galanteio.
— Eu não sei você, mas eu estou planejando devorar esse pudim de framboesas bebendo aquela latinha de Dr. Pepper. – Ela apontou charmosamente para os itens, com um sorriso sapeca lançado ao Sokoviano por sobre seu ombro. — Me acompanha?
— Sempre. – O estourar dos anéis das latinhas ecoaram e Pietro parou ao lado de Willa com as latas em mão e um belo sorriso.
— E eu vou precisar tomar um banho. – Ela avisou bebericando o Dr. Pepper com uma careta nos lábios. — Essa roupa está começando a coçar.
— Te arrumo algo mais apropriado. – Ele respondeu sentando-se no sofá, a frente da mesinha de centro, onde o pudim estava localizado. — O que acha de Victoria Secrets? – Ele sugeriu com malícia olhando-a de cima abaixo, abandonando sua latinha de refrigerante na mesinha de centro.
— O que acha de um olho roxo? – Willa repousou sua latinha na mesinha, pegando duas colheres e largando o seu corpo ao lado dele, com conforto. Com um sorriso sapeca, ela lhe ofereceu uma colher e ele aceitou com clara admiração e saudosismo.
— Senti sua falta, ninja. – Ele confessou com um largo sorriso acompanhado daquele seu olhar único.
— Senti sua falta, Speedy.
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