Bored
3 Truth or dare
Notas iniciais
“Estou entediado, Molly” Havia passado quase uma hora desde a última conversa deles. Sherlock permaneceu na mesma posição, jogado na poltrona, alternando o olhar em 3 coisas: o teto, a chuva e Molly. Ele não disse uma palavra durante aquela hora, e ela sabia que isso era um tipo de birra dele, e que ele não ia aguentar por muito tempo.
Ela, por sua vez, conseguiu se manter concertada no livro à sua frente pela hora que passou, e por mais que achasse desconcertante quando ele fixava o olhar sobre ela, Molly fingia estar absorta e inconsciente das ações dele. A raiva tinha passado nos primeiro 10 minutos, mas ela não quis falar. Além do mais o que iria falar? Se abrisse a boca provavelmente ele iria bombardeá-la com palavras desagradáveis e ela iria ficar com raiva por mais 10 minutos. Parecia um circulo vicioso.
Mas agora Sherlock tinha tomado iniciativa e estava puxando papo. Talvez ele estivesse menos propenso a falar coisas ríspidas, ou talvez só estivesse querendo uma deixa para poder fazer isso. De qualquer jeito Molly achou que não faria mal responder.
“O que você quer fazer Sherlock?” ela disse depois de soltar um longo suspiro e abaixar o livro para poder encara-lo. Os olhos castanhos dela foram imediatamente recepcionados pelos azuis deles, que já estavam presos na imagem dela a um bom tempo.
A escassa luz que entrava no apartamento de Molly a uma hora atrás já havia se cedido à escuridão da noite, agora a única coisa que iluminava a sala eram dois abajures que ela tinha acendido um pouco antes. Ela não pode deixar de notar a diferença entre olhar para ele sobre a luz do dia e sobre a luz fraca de duas lâmpadas. A pele dele não parecia tão pálida quanto realmente era, e sobre a luz fraca Molly só conseguia ver os traços mais marcantes do rosto dele, como as bochechas e o contorno dos lábios.
Ele conseguia ficar mais misterioso do que já era.
Os seus olhos, que agora pareciam sombrios e brilhavam de vez em quando, lhe puxava toda a atenção. Molly sentiu um arrepio passar pelo seu corpo por causa daquele olhar que ele mantinha. Por que ele sempre a fazia sentir isso?
“Qualquer coisa.” A voz dele saiu um tanto suplicante, talvez mais do que ele queria, pois logo fez uma careta e voltou a jogar a cabeça para trás do braço da poltrona.
“Nós podemos jogar um jogo.” ela também desviou o olhar em direção a janela e constatou que a chuva não tinha dado trégua. Ela ficou com pena de Sherlock, aquilo deveria estar sendo torturante. “Que tipo de jogo?” a voz dele ecoou pela casa, mas ela não pode ver a boca dele se mexendo. “Eu acho que tenho algum jogo de tabuleiro aq-“ ela se lembrava de que tinha comprado um jogo bem legal há alguns anos atrás, mas no momento que ela se lembrou do nome do jogo e dos relatos de John sobre sua terrível experiência com esse jogo, ela mudou de ideia. “Melhor não.”
“Por que não?” ele perguntou quase que instantaneamente, levantando a cabeça de uma forma brusca para encara-la. Ele parecia intrigado, como já era de se esperar, “Eu só tenho Cluedo,” Molly disse em meio a um leve riso “e John já me disse como é jogar esse jogo com você.” Sherlock rolou os olhos e se ajeitou corretamente na poltrona. “Não foi minha culpa.”
“Eu acredito em você.” Ela disse ainda rindo dele e imaginado como um detetive conseguia ser tão ruim em um jogo de detetive. Isso fazia algum sentido?
“Nós podemos jogar Verdade ou Desafio.” Ela soou um pouco temerosa pela possível resposta dele, mas ficou mais tranquila quando viu as sobrancelhas deles se arquearem e lhe darem toda uma expressão de dúvida. “Você sabe?” ele balançou a cabeça negativamente mantendo a mãos juntas sobre a boca e se inclinando para frente ficando, de alguma forma, mais próximo de Molly.
Ela imaginou como devia ter sido a adolescência daquele homem. Provavelmente muito diferente da dela, mas ela não conseguiu decidir se era um diferente interessante ou um diferente chato. “É um jogo bem simples. Você tem que escolher entre responder um pergunta ou fazer algo, você escolhe e a outra pessoa fala o que você tem que responder ou fazer. Entendeu?”
“Acho que sim.” Ele separou as mãos e voltou a se recostar na poltrona, parecendo um pouco desinteressado.
Molly por sua vez se encontrava muito animada. Para Sherlock isso poderia aparecer uma atividade chata, pois como ele havia dito antes: “Não a nada sobre você que eu não possa olhar e deduzir”. Mas para Molly aquilo pareceu como uma oportunidade única para entender algumas coisas sobre Sherlock. Talvez não tenha sido sua intenção inicial quando ela sugeriu o jogo, porém quando pensou melhor, aquilo poderia ser muito interessante. Ela poderia tirar proveito.
“Ok então. Verdade ou desafio?” ela disse começando.
“Verdade.” A escolha dele a intrigou um pouco. Ela tinha pensado que não ia conseguir arrancar ‘verdade’ tão fácil assim, e por isso ela achou melhor começar com algo leve para não assusta-lo.
“Você realmente não sabe o nome do Greg ou só erra para irrita-lo?”
“Quem?” Ele perguntou confuso e ela não conseguiu aguentar a gargalhada, “Lestrarde” ela tentou elucidar a questão para ele, o que o fez sorrir por entender o motivo de ela estar rindo. “Oh. Ele não tem cara de Greg.” Sherlock brincou.
“Verdade ou desafio?” ele perguntou ainda com os lábios exibindo um sorriso descontraído e ela tentou controlar o seu próprio sorriso e soar um pouco séria, “Você sabe que você na verdade você não respondeu a minha pergunta, não?”
“Verdade ou desafio?” ele disse em um tom mais profundo, transformando o sorriso leve em um mais malicioso.
“Desafio”
“Sério?” ele realmente não espera por isso, ela podia ver. “Hm, ok.” Ele levou as mãos juntas como prece para debaixo do queixo e ficou olhando para o nada, distraído com os próprios pensamentos. Molly por um momento achou que ele não tinha entendido muito bem como o jogo funcionava, que ele não tinha entendido que ele tinha que propor um desafio. Ela estava preste a falar quando o barítono tomou a sala, “Desfaça seu rabo de cavalo.”
“De verdade? Esse é o seu desafio?” Molly não tinha entendido que tipo de desafio era aquele, porém cara de Sherlock parecia muito satisfeito com a proposta que havia feito. “Você tem direito a questionar nesse jogo?” ele rebateu rapidamente. Os olhos deles pareciam brilhar, algo o fazia feliz, aquela situação o fazia feliz, mas ela só não entendi o por que.
“Ok.” ela levou a mão ao cabelo e puxou a borrachinha que prendia o seu cabelo. “Só achei que algo mais grandioso viria de Sherlock Holmes” ela colocou o objeto no seu pulso e se ocupou em arrumar seu cabelo. O cabelo de Molly caiu sobre as costas e algumas mechas ficaram acima dos ombros, ela tirou do rosto algumas outras que a atrapalham a enxergar Sherlock. Não estava acostumada com Sherlock vê-la de cabelo solto, até por que seus encontros, em sua maioria, foram estritamente profissionais e no hospital ela nunca estava de cabelo solto.
“Estou me acostumando com o poder, só isso” a frase saiu um pouco abafada pelas mãos dele que agora se encontravam da mesma forma só que descansando em seus lábios. Ela podia ver que o sorriso ‘estranho’, aquilo não podia ser malicioso, Molly afirmou para si mesma, não era possível que Sherlock conseguia forma aquele tipo de expressão, ainda estava no rosto dele.
Sherlock parecia estar se divertindo com aquilo, ou como se tivesse descoberto algo totalmente novo e excitante. Molly por um momento temeu aquela expressão, aqueles olhos que pareciam quase negros por causa das pupilas. Mas por fim pensou que poderia tirar proveito disso.
Se ele começará a se interessar, ela poderia começar a jogar com o que ela realmente queria jogar.
“Verdade ou desafio?” ela soou confiante.
“Verdade” ele torceu o pescoço e desvencilhou o olhar do dela por um momento.
“De novo?”
“Eu não tenho nada a esconder, Molly Hooper”, e lá estava de novo aquele sorriso ‘estranho’. Molly estava se acostumando com aquelas expressões de Sherlock, mesmo sem saber o que elas realmente significavam.
“Se você diz.” Ela provocou e a resposta que obteve foi um sorriso de canto, ele estava feliz com aquele tipo de atitude e resposta dela, e Molly estava mais feliz consigo mesma, “Você e John? O que exatamente acontece entre vocês dois?” ela teve coragem de perguntar.
Tinha que começa a perguntar as coisas que realmente importava, ela tinha essa oportunidade e não podia deixar passar. Por mais que soubesse, ou pelo menos acha que sabia, aquela resposta, ela achou melhor começar assim. Era uma pergunta mais atrevida, porém não era ainda a qual ela queria fazer.
“Como assim?” as sobrancelhas deles estavam juntas e ele se inclinou, apoiando cada cotovelo nas pernas. “Você sabe...” ela gesticulou com as mãos, ficando um pouco envergonhada. Onde estava aquela coragem que ela achou que ia tomar? “As pessoas comentam.” A voz dela saiu baixa e tímida, algo que ela não queria que acontecesse. Ela ia acabar perdendo o controle do jogo se o deixasse notar insegurança.
“As pessoas comentam demais sobre mim, Molly” suas expressões voltaram ao normal e ele soltou um sorriso leviano. “Mas não. Não há nada desse tipo entre eu e John, e tenho quase certeza que ele ficaria irritado se você insinuasse isso para ele.” Ele levantou um pouco a cabeça e a fitou. Se Molly não conhecesse tanto Sherlock ela poderia jurar que aquele olhar dele indicava que ele ainda estava esperando pela reação dela, por alguma coisa.
E foi o que ele obteve quase de imediato
“Mas você gostaria que tivesse?” Sherlock sorriu satisfeito e levantou uma mão com dois dedos indicando, “Duas perguntas, Molly! Mas não, eu gosto do John, mas não assim. Verdade ou desafio?” ele respondeu rapidamente achando melhor não dar tempo para ela pensar no assunto.
“Desafio.”
“Recite um poema para mim.”
“O que?” ela não entendeu por que ele quer- “Grande parte da literatura em sua estante são livros sobre poemas, poesias e clássicos da literatura inglesa. Você com certeza está bastante familiarizada com esse assunto.” Ele interrompeu os pensamentos dela com palavras rápidas e deduções corretas. Molly estava acostumada com aquele jeito, porém isso sempre lhe tirava a fala. Não havia uma vez que Molly conseguia achar palavras para respondeu apropriadamente àqueles discursos que Sherlock dava.
Ela apenas concordou com a cabeça e se levantou para ir em direção a estante para poder pegar um livro,“Ok.”
“Não. Sem ler.” Ele disse um pouco alto e ela tomou um susto. Ela parou ainda ao lado do sofá e o encarou sem entender o que exatamente ele queria. “Como você espera que e-” ela não teve oportunidade de terminar.
“Molly você leu cada livro ali” ele apontou para a estante atrás dele sem mesmo olhar, “pelo menos mais de uma vez. Desde a ultima vez que estive aqui poucos livros foram adicionados a sua coleção, e a sua estante mal tem poeira. Não que você não limpe o resto do apartamento, mas seus livros parecem bastante gasto, o que indica que você gosta de ler diversas vezes os mesmos livros.” Molly nessa altura já havia se sentando na beira do sofá, dessa vez no lado mais perto da poltrona onde Sherlock se encontrava, “Você provavelmente sabe poemas de cabeça, pois por algum motivo recita-los quando está nervosa ou sozinha a deixam mais tranquila.” Ela quase abriu a boca para contestar, ou até mesmo perguntar como ele sabia disso, mas se lembrou com quem ela estava falando, “Você não precisa de um livro.” Um brilho cruzou os olhos azuis dele, Molly chegou a conclusão de que isso acontecia toda vez que ele estava fascinado, ou animado com algo. Ela só não sabia se deveria temer isso.
Eles ficaram se fitando por um momento, ela tentando entender o que se passava na mente dele e ele parecendo estar apreciando toda aquela situação dela, apreciando estar no poder, de alguma forma. “Eu quero que você recite o poema que está agora em sua cabeça. Eu quero saber qual rima passa pela a sua cabeça quando está comigo.” Ele terminou.
Ela engoliu seco. O que dizer depois disso? Ela teria coragem de recitar um poema, ainda mais para ele? Qual poema ela iria recitar? Eram tantos, mas de repente pareciam eu todos eles tinham fugido por causa da fala de Sherlock.
Mesmo se ela se lembrasse de algum poema, ela não iria– “OH, MERDA”, seu subconsciente gritou. Só um poema tinha permanecido em sua mente, o único que ela conseguia se lembrar por completo enquanto encarava aquele olhos famintos.
Aquilo não ia soar bem! Ele provavelmente iria rir dela, ou o clima iria ficar muito constrangedor. Ela não podia recitar aquele poema, seria suicido.
“Tudo bem.” Ela disse mesmo assim.
O ar do nada pareceu escasso e Molly sentiu uma urgente necessidade de respirar, Sherlock não estava ajudando nada com aquele olhar vidrado sobre ela. Ela fechou os olhos e respirou fundo, tentando de alguma forma mandar seu coração parar de bater tão rápido.
Autocontrole, ela repetiu para si mesma. Ela podia fazer isso, ela podia recitar um poema extremamente romântico e ainda faze-lo soar como um simples poema. Não faltava ar, a sala não estava diminuindo e a sua respiração não precisava ficar a acelerada, ela podia lidar com isso! Ela precisava acreditar que podia.
“Quando me tratas mau e, desprezado, sinto que o meu valor vês com desdém,” sua voz começou um pouco tremula e ela ainda mantinha os olhos fechados. Molly falou para si mesma que podia fazer melhor e iria fazer. Ela abriu os olhos para continuar e quase perdeu a consciência quando não o encontrou na poltrona, mas sim ao lado dela no sofá. “Lutando contra mim, fico a teu lado. E, inda perjuro, provo que és um bem.” Ela conseguiu falar confiante olhando nos olhos dele. Molly decidiu não ficar assustada com aquele olhar, mas sim iria apreciar, “Conhecendo melhor meus próprios erros, a te apoiar te ponho a par da história. De ocultas faltas, onde estou enfermo;” ela soava suave e tranquila agora, encantada pela figura que estava a sua frente. Ele parecia tão preso às palavras que ela professava, tão ansioso pelo próximo verso que por um momento ele não parecia o Sherlock que ela conhecia. Ele parecia maravilhado, e isso foi uma surpresa para Molly, “Então, ao me perder, tens toda a glória. Mas lucro também tiro desse ofício:” ela teve vontade de sorrir, e quase sorriu, ao pensar nos próximos versos, mas ela não queria quebrar aquele contato, aquele momento tão sério e profundo que eles estavam dividindo. “Curvando sobre ti amor tamanho, mal que me faço me traz benefício,” ela disse devagar, apreciando cada palavra e encontrando cada reação do rosto dele para elas, “Pois o que ganhas duas vezes ganho.”
Ela parou. Olhou cada traço do rosto dele, perdeu o que achou ser horas lendo aquele olhar, e viu o que achou ser desejo nele. Molly poderia estar errada, mas nunca vira Sherlock assim.
“Assim é o meu amor e a ti o reporto: por ti todas as culpas eu suporto.” Ela terminou.
O silêncio consumiu a sala.
Sherlock estava segurando a respiração, ficará vidrado na morena a sua frente o tempo todo, sem perder nenhuma palavra, sem deixar escapar um suspiro, e depois que ela terminou não disse nada por um bom tempo. Ambos só ficaram se olhando, talvez pensando no que dizer depois daquilo, ou melhor, fazer.
Molly sabia muito bem o que aconteceria depois daquilo se Sherlock não fosse Sherlock.
Ela sabia o que queria fazer mesmo ele sendo Sherlock.
Mas ela sabia que não podia, pois ele era Sherlock. Ele não iria se derreter por lindas palavras de um poeta inglês que colocou sua alma e coração ao escrever cada verso. Ele não ia se emocionar ou notar que aquele poderia ser o momento do primeiro beijo deles. Não, Sherlock não era assim, por mais que ela quisesse que fosse.
Só que ainda sim ele parecia diferente. Molly quase achou que ele tinha parado de respirar de vez, que algo tinha dado errado. Ele a olhava de uma forma totalmente diferente. Seus olhos eram quase negros, não sobrando quase nenhum azul para chamar atenção, seu corpo estava bem perto do dela e inclinado em sua direção, como se pairasse sobre ela.
Molly se sentiu uma presa. Uma presa acuada e tentada pelo seu predador.
E o que ela mais desejava era que ele atacasse.
“Bela citação. Shakespeare, se não estou enganado.” Sherlock conseguiu dizer tentando se recompor. Sua voz saiu um pouco aletrada e falhada e ele fugiu o olhar do dela, tentando fazer com que seu rosto voltasse a impassibilidade costumeira.
Molly gostou do que viu. Ela era capaz de arrancar admiração de Sherlock, e talvez até algo mais, ela só precisava aprender a fazer isso com mais frequência. “Você não está.” Um sorriso malicioso contornou os lábios dela. “Então, verdade ou desafio?”
“Verdade.” Sua voz era novamente impassível, como se nada tivesse acontecido.
“Você teve algum relacionamento com aquela mulher, Irene Adler?” a pergunta escapuliu de imediato da boca de Molly, ela só teve conta que aquilo tinha sido dito em voz alta quando ele virou para encara-la um pouco intrigado com a pergunta.
Molly queria ter perguntado isso desde o dia que soube da existência dela, mas nunca se achou no direito de fazer. Bem, teoricamente ela ainda não tinha ‘direito’ de perguntar isso, mas depois daquele desafio de Sherlock ela decidiu que tudo podia agora.
“Eu acho que sim.” ele disse firmemente, como se fosse algo natural. Já Molly não conseguia parar de morder os lábios desde que perguntou, “Eu realmente não sei o que é ter um relacionamento com alguém. Nunca tive um ‘relacionamento’. Mas ela foi alguém diferente.”
“Yeah, mas você se apaixonou por ela? Quero dizer, você chegou a dormir com ela?” ela perguntou apressadamente antes que perdesse a coragem novamente.
“Três perguntas Molly Hooper. Sua curiosidade talvez não tenha limites.” Sherlock disse rindo para ela, mas mesmo assim ela não deixava de parecer nervosa. “De alguma maneira acho que me apaixonei por ela. Foi como eu disse, nunca passei por nada parecido, e ela com certeza de algum modo me intrigavam. Talvez esse seja o máximo que eu vá chegar perto de paixão.” Essa ultima frase rasgou o coração de Molly. Por mais que ela soubesse que não podia esperar nada de Sherlock aquelas palavras lhe machucaram de uma forma que ela achava que já havia superado.
Talvez Irene fosse a única pessoa que havia lhe chamado atenção para isso. Molly sentia seu coração apertar só por pensar que Sherlock havia–
“Mas a resposta é não de novo. Eu não dormi com ela, esse não era o nosso tipo de relacionamento.” Ele interrompeu sua linha de pensamento com essa frase que ela não esperava. O que ele quis dizer com isso? Ele não dormiu com ela, não teve um relacionamento amoroso, o que isso queria dizer? Talvez Irene não tenha sido tão importante assim.
“Ah, ok.”
“Verdade ou desafio?” Sherlock perguntou como querendo mudar o assunto logo.
“Desafio” Molly ainda estava distraído com a resposta de Sherlock que respondeu de automático, sem prestar muita atenção. Bem, isso até ela ouvir o desafio.
“Eu te desafio a me beijar.” Ele disse simplesmente.
“O QUE?” Molly olhou de imediato para ele, com os olhos arregalados e surpresa. Ela não podia ter ouvido isso, não era possível que Sherlock tinha dito essa frase. Que merda estava acontecendo?
“Beijar. Você sabe, boca, lábio, língua... a coisa toda” ele explicou de forma natural, como se o desafio não fosse nada tão complicado e mirabolante. Como se aquele pedido vindo dele fosse extremamente normal.
“Eu sei o que é um beijo” ela franziu a testa, ainda confusa com aquilo e com a reação natural dele, “Mas por quê?”
“Desafio não implica uma explicação. É só um beijo” Ele respondeu da mesma forma indiferente com que tinha pedido o desafio.
Molly se encontrou sem palavras, sem ação. Sherlock a olhava como se estivesse esperando alguma atitude, alguma fala ou talvez até mesmo um tapa (o que ela por um momento até cogitou), porém ela não sabia o que fazer. Ela só conseguia se perguntar o por que.
Isso provavelmente era algum experimento dele. Estava na cara que ele só estava brincando com ela, que aquilo tudo não passava de um modo divertido para Sherlock Holmes passar seu tempo. Ele queria ver se ela tinha coragem, ele não estava pedindo por que queria, Molly tinha certeza disso. Ele nunca iria querer isso, iria?
O lábio dela quase sangrava de tanto que ela mordia. Ela não tinha ficado tão nervosa e tensa assim em sua vida, e ele não ajudava com toda aquela tranquilidade. Molly desejava mais do que nunca poder saber o que Sherlock pensava, o que aquilo significava para ele.
Para ela era um sonho sendo subvertido. Ela sempre imaginou como seria sentir aqueles lábios finos nos dela, mas não daquela forma.
“Ok” ela respondeu sem mesmo notar.
Ela tinha tomado sua decisão. Por mais que ela não quisesse beijar pela primeira vez Sherlock daquele jeito ela também não ia enfraquecer. Molly não ia mostrar que aquilo era grande coisa.
Se para ele estava tudo bem, para ela também estava.
De um modo desajeitado ela chegou para mais perto dele. Molly o olhava nos olhos enquanto pensava na provável merda que ela estava preste a fazer, mas isso não tirou sua coragem. Ela foi inclinando a cabeça em direção da dele e levou uma das mãos ao seu rosto, ela o sentiu quente e viu o que parecia ser um sorriso tomar esboço nos lábios dele antes de fechar os olhos.
Os lábios dela encontraram os dele de um modo calmo e casto, apenas encostando e pressionando esperando por alguma reação dele. Ela estava preste a se afastar quando sentiu a mão dele em sua cintura a mantendo ali, não a permitindo desvencilhar. Ela logo notou que ele não ia fazer nada além daquilo, ele queria que ela o beijasse, ele queria obriga-la a fazer tudo, ele não estava disposto a tomar alguma iniciativa, até por que o desafio era somente dela.
Ela tinha que beija-lo.
Molly inclinou a cabeça e assim que ela abriu os lábios os dele fizeram a mesma coisa permitindo passagem para a língua dela encontrar a dele. Sherlock permitiu que ela o beijasse e correspondeu na mesma altura. Apesar de ela achar a situação toda muito estranha, aquilo, de algum modo, estava sendo emocionante. Seu primeiro beijo com o homem por quem estava apaixonada estava sendo fruto de um jogo, e provavelmente de um experimento, mas por alguns segundo ela não se importou com isso. Ela só aproveitou para guardar na memória o gosto dos lábios de Sherlock, que não parecia com nada que ela já havia experimentado.
Seus lábios ficaram se roçando quando Molly quebrou o beijo. Nenhum dos dois se afastavam, seus lábios ainda continuavam perigosamente próximos e assim que Molly abriu os olhos ela viu um par de olhos azuis a encarando um tanto quanto confusos.
Ela demorou alguns segundos para resolver se afastar e respirar, olhando para baixo e deixando um silêncio estranho tomar a sala. Molly tinha beijado Sherlock, e toda a coragem que lhe fizera tomar essa atitude tinha lhe escapado assim que ela olhou nos olhos deles, suas pupilas estavam dilatadas, ele também não respirava e resolverá não falar nada.
“Verdade ou desafio?” ela finalmente disse, querendo continuar o jogo normalmente.
“Desafio.”
Ela não esperava que em algum momento ele pedisse desafio, mas ela teve o desafio na ponta da língua, “Eu te desafio a contar para o John que você me pediu para te beijar.”
Shelrock não demorou nem um segundo para tirar o celular do bolso e começar a digitar em um ritmo frenético. Assim que parou ele levantou o visor para ela exibindo uma mensagem enviada para o John: “Eu pedi para Molly me beijar — SH”.
Ela quase riu com a mensagem, mas ele não perdeu muito tempo e nem quis dar muito tempo para ela rir.
“Verdade ou desafio?” ele parecia sério, como se tivesse um objetivo.
“Desafio.” O barulho que veio do celular dele na mesinha de centro a assustou. Ela desviou olhar para ele e viu a tela acessa, talvez fosse um alerta de mensagem.
Provavelmente John. Provavelmente ele estava mais confuso do que ela.
“Te desafio a pedir verdade na próxima vez.” Ele disse sem desviar o olhar e ignorando qualquer outra coisa naquela sala.
“Espera, você não pode fazer isso.” Molly protestou em um tom alto, voltando-se para ele, mas foi em vão.
“Eu não me lembro de nenhuma regra que me impeça de fazer isso. Você disse qualquer verdade e qualquer desafio.”
“Tá bem.” Molly tentou não se sentir balada, mas temia por essa verdade mais do que qualquer desafio que ele já havia proposto. Ele poderia não saber o que ela temia, ela preferia que ele não soubesse, mas se tratando de Sherlock Holmes era muito difícil contar com essa possibilidade.
“Verdade ou desafio?”
“Verdade.” Ele disse.
“Por que você é tão frio com as pessoas?”
“Eu sou frio com você?” suas sobrancelhas se franziram e ele apertou os lábios. “Algumas vezes.” Ela olhou para cima pensando se deveria ser sincera, mordendo mais uma vez seus lábios. “A maioria das vezes” Molly completou.
“Eu aprendi a não me deixar levar tão fácil. A me manter afastado” os dedos deles, em um movimento instantâneo foram até seus lábios e ele sorriu timidamente com isso, “pelo menos eu sempre achei que tinha aprendido.”
Sherlock quis dizer o que ela pensou que ele disse? Seria possível?
“Não preciso perguntar, não?” ele falou chamando a atenção dela. Seu coração pulou uma batida e ela segurou a respiração, ela não podia fugir da verdade. “Você vem pedindo só desafio. Do que você tem tanto medo de que eu pergunte?”
O que responder? A verdade? Molly não se sentiu confortável sobre o olhar dele, se levantou e foi em direção a janela, ficando de costas para ele. Ele a pode ouvir suspirar fundo enquanto seu dedo percorria o vidro gelado da janela.
Era única pergunta que ele tinha feito esse tempo todo, mas só foi preciso essa para desconstrui-la.
“Eu acho que você deveria ir Sherlock.” Ela soou triste e incomodada. Molly não ia responder aquela pergunta. Era engraçado que, depois de tantos desafios, algum deles até absurdos, o seu limite seria uma pergunta.
Ela não ia responder, e não tinha mais como ficar na presença de Sherlock.
“Por que?” ela ouviu sua voz se aproximando e logo viu sua sombra pairando sobre ela, mas aquilo não lhe fez sentir nada.
“A chuva cedeu.” Molly respondeu ainda olhando para a rua, “Você pode ir agora”
“Mas por que eu iria?” seu barítono foi baixo, um tanto perto do ouvido dela.
“Você ganhou o jogo Sherlock.” Ela fechou os olhos, apertando-os com força, querendo se impedir de virar para trás e olha-lo. “Você pode ir embora”
“É isso que você quer?”
“Sim.” A cabaça dela balançou com a resposta quando ela sentiu a mão dele tirar o seu cabelo do ombro direito e se aproximar timidamente por trás para depositar um pequeno beijo em sua bochecha.
“Adeus, Molly Hooper.” Ele disse ao seu ouvido e logo em seguida ela pode sentir a ausência dele, seguida do barulho que a porta fez ao se fechar do outro lado da sala.
Molly então teve coragem de abrir os olhos e não pode evitar quando um lagrima correu pelo seu rosto. Ela não ia nunca falar a verdade para ele, mesmo que estivesse estampada, ela nunca iria admitir em voz alta e muito menos para ele.
Fale com o autor