O som da tensão das cordas das velas ao vento preenchiam os ouvidos da menina, mas era o seu coração que fazia menção de se partir. Assistia seu país natal sumir gradativamente nas ondas do mar esverdeado — e mais salgadas eram suas lágrimas. Nunca mais iria pegar mangas maduras na rua junto à Asha e Maradi, nunca mais iria molhar os pés no riacho morno na primavera e nunca mais participaria da feira nos armazéns construídos por Kerch no porto só para ouvir rapazes tocando tamborins e instrumentos improvisados em cabaças. Ela tentou falar disso aos seus pais, porém tropeçou no mosaico de palavras tão distintas que compunham sua língua. Com mamãe, ela só podia falar em ravkano; com papai, ela podia apenas responder em kaelish. Nenhum dos dois a compreendia quando ela implorou, entre idiomas diferentes, ditados suli e dialetos locais, para não partir com tio. Agora jazia a bordo, cada minuto mais distante do lar.

Estúpida, ela disse a si mesma, e sua voz pareceu tanto com a de sua mãe naquele instante. Não era mais nenhuma criança tola e, por isso, não deveria perturbar os outros com seu choro. Ouvira tanto que já era uma moça, uma moça com deveres e o direito de suportá-los calada, que era difícil se permitir ouvir seu próprio lamento por muito tempo. E por isso, a garota se recompôs e lembrou-se da voz do pai ao falar das Colônias do Sul: “Este lugar é só de quem pagar por ele.” E tudo o que a menina levava consigo era a lembrança das amigas, as vozes de mamãe e papai, e um uma moeda — uma única coroa-de-sal, no bolso direito do seu vestido. Uma mera lembrança inútil no país no qual desembarcaria.

O tio da garota aproximou-se dela na balaustrada do barco, encarando quantas vezes ela girava o anel em seu dedo, quase deformando a prata. Era um homem alto, de expressão severa. Houve uma pausa calculada, como tudo na vida dele. A garota costumava dizer à Asha, quando o tio a visitava no verão e ficava vermelho de sol, que ele tinha até mesmo agendado sua calvície. Ela não achava tão mais engraçado agora.

“Lembra-se do que eu lhe disse?”

“Que vó Erin está doidinha para me ver.’

A expressão do homem a fez entender que ela deveria tentar de novo. Mas quando ele não exibia tal expressão para a sobrinha, aquela menina tola das Colônias?

“Além disso, Lis.”

Lis. Não era seu nome completo, mas era o nome que usaria em sua nova casa. Nas Ilhas, quem portava um nome ravkano, era facilmente suspeito de ser grisha. E ser tomado por um grisha naquele país, era oferecer o próprio sangue. Provavelmente. Era o que diziam. A menina achava isso um tanto incoerente, para não dizer mórbido ou grotesco. Eles bem que podiam acreditar em Sankta Anastasia, se achavam que sangue grisha podia agir como uma panaceia. Enquanto isso não acontecia, ela se apresentaria apenas como Lis, uma jovem enviada a um país distante por excesso de cautela dos pais durante outra guerra. Mas seria por isso mesmo? As guerras jamais acabavam.

A reprimenda do tio, porém, era mais específica, e seu olhar também reprovava o gesto nervoso na mão da menina, no olhar fixo dela no horizonte e no tremular diferente do barco. A despeito da aparente falta de foco dela, sua resposta jazia na ponta da língua:

“Eu sou sua aprendiz. Tudo o que sei, foi o senhor que me ensinou. Nada mais. Nada mais do que trabalho humilde. Devo responder isso para quem me perguntar como sei consertar um relógio ou coisas do tipo. Como se fosse tão difícil assim.”

O relojoeiro assentiu com um olhar pesado, somado a um inequívoco tom de quem sabia mais do que ela.

“E você vai ficar ainda melhor. Conseguirá consertar relógios, caixas de músicas, trancas, máquinas, cofres, motores; coisas menores e coisas maiores, coisas impossíveis de serem consertadas; vai remendar aquilo que não tinha emenda e explorar a capacidade de materiais além da própria natureza. E apesar de conseguir, você não vai. E para cada questionamento que receber, ainda vai oferecer a mesma resposta. Você é minha aprendiz. Nada mais. Não faz nada mais do que trabalho humilde. Eu me fiz entender?”

“Com clareza.”

E então o homem deixou-a a sós na balaustrada do barco, pontual. A menina voltou a derrubar lágrimas silenciosas ao ver a costa, enfim, desaparecer no horizonte. Era como assistir o pôr de um sol que jamais nasceria de novo. Restou somente ela, outros viajantes à bombordo na proa, e caixotes de verduras, legumes e frutas transportados na viagem. Algumas cheiravam bem, outras apodreceriam em breve. Chegariam em pleno Outono nas Ilhas Errantes e, segundo a garota escutara de terceiros e lido em livros, aquela estação não era nada parecida com os mesmos meses nas Colônias. Comemoravam com máscaras, com lanternas, com fogo em meio à uma estação úmida e cheia de névoa ao norte. Ela soltou um riso que não era humorado, mas sim infeliz.

Algumas meninas ficariam satisfeitas com a viagem. Animadas, até. Meninas como suas primas por parte de mãe, que visitavam sua casa vez ou outra para fugir do inverno de Os Kervo, quando Ketterdam era um destino caro demais para os bolsos de seus pais. Diriam que as Ilhas eram curiosas, verdejantes, exóticas. Mas suas primas também usavam as palavras “atrasado”, “barulhento” e “indecente” para falar das Colônias quando já não se interessavam pelos passeios ou pela companhia de Asha e Maradi. E quando a menina as defendia, as primas riam. É claro que a menina não entenderia. Ela era só uma mestiça nascida em um fim de mundo quente.

A menina entendia que sua viagem não seria um exílio, talvez não pelo destino, mas por quem ela era. As pessoas costumavam gostar das mangas, abacaxis e açúcar vindos das Colônias, mas não de quem vinha de lá.

Esse era o motivo do seu riso amargo e curto, assistindo agora os caixotes de vegetais que lhe acompanhariam no restante da viagem. O tal festival da colheita aconteceria há milhas dali, mas era um barco pobre e profano das Colônias do Sul que levaria as abóboras famosas na tradição.



Notas finais
Apresento à vocês minha primeira fanfic do universo grisha, ancorada há anos no fundo do meu cérebro. Essa história faz parte de uma maior, mas para participar do desafio, encurtei-a. Acompanharemos personagens originais, Lis e Halvor, nessa história. E como se trata do universo grisha ou grishaverso, a abertura vêm com o "Antes" e os famosos diálogos entre aspas. As Colônias do Sul não são muito exploradas nos livros. Até King of Scars ou Rule of Wolves, inclusive eu achava que eram colônias de Ravka, não de Kerch. Mas trago aqui uma garota que veio de lá, mas sua ascendência não pertence àquele clima quente e ela carrega no bolso, de lembrança, uma moeda inventada de lá. Nada de kruges, mas sim uma coroa-de-sal. Asha é um nome suli, Maradi é um nome zemeni. Lis, como veremos com mais detalhes ao longo dos próximos capítulos, viveu até a adolescência cercada de diversidade e calor humano... mas não calor humano de casa.