Bordado de Sangue
2 Fio de sonhos
A névoa ainda não estava tão densa quanto logo ficaria em Isso explicava o porquê a companhia de dança se apressava a fazer as malas, juntando todos os figurinos, acessórios e peças de cenários. Iriam embarcar ainda naquela tarde no porto, já que a visibilidade permanecia boa. Mas Lis tinha forte suspeita que existia uma razão maior que a névoa para a urgência da equipe, ainda que guardasse seus pensamentos para si. Não faria muito bem à sua reputação falar que coisas estranhas, de fato, aconteciam na cidade em tal época do ano, embora não todo Outono. Diferente das bailarinas, ela não teria como fugir. Já fazia sete anos desde que pusera seus pés pela primeira vez no porto daquela cidade e, desde então, somente suas cartas saíram de lá.
Cidadãos de Kerch, há tantas milhas além-mar, não eram supersticiosos como nas Ilhas Errantes. E não eram tolos. Tidos como mesquinhos por um estereótipo não tão infundado, era difícil que pagassem para ver as supostas histórias de Outono de Tirnaigén. Cada funcionário, bailarino ou não, da Torre Alba se preparava para partir em breve, retirando seus pertences de camarins ou equipamentos das coxias. Bom, nem todos são de Kerch, Lis ponderava. Rostos, assim como ela aprendeu cedo na vida, diziam pouca coisa; conhecera ravkanos com rostos shu; cidadãos de kerch que com avós zemeni; conhecidos zastreica que até tocavam a balalaica de Ravka.
Ela própria, quando chegou, foi encarada com espanto por parecer tão kaelish e só conseguir balbuciar algumas coisas no idioma local. Ela não parece do sul, diziam, como se houvesse a necessidade de uma aparência específica ao ter nascido lá, ou ao menos a obrigatoriedade de uma pele ardida e deformada. O pai é de Tirnaigén, seu tio intervinha nesses momentos. Lis reconhecia o nome da cidade e a palavra “pai”. Ela só não sabia o que ele dizia em seguida. Algo com a palavra “mãe”. E então as pessoas costumavam lhe oferecer um olhar que ofereceriam à um animal abandonado.
Quando menina, Lis pretendia ser um animal que mordesse.
No entanto, hoje já não estava tão certa do quanto seus dentes eram afiados. Sua língua jazia muito domada sete anos depois, com aquele sopro quase perfeito de pronunciar certas palavras em kaelish. Mas ela ainda falava sozinha naquele mosaico de língua sem nome das Colônias do Sul, sabendo muito bem que sequer por esse nome o país queria ser chamado. Recitava para si provérbios que tinha aprendido com Asha. Sua amiga suli, que tanto viajava, também poderia ter ensinado a esquecer a saudade mesmo tão longe de casa.
Nesse vai e vem durante a tarde, tanto de devaneios quanto movimento, Lis aguardava a avaliação de uma das bailarinas, Odile, sobre os reparos que fez em suas luvas brancas.
As duas estavam perto de uma das imensas janelas do saguão interno, onde araras com figurinos formavam verdadeiros labirintos quando repletos de roupas, de tutus. Sobravam agora somente alguns cabides nus e malas esperando o transporte. Outras bailarinas aguardavam conversando, ou de pé, ou apoiadas nos caixotes. Logo quando chegou em Tirnaigén, ainda com catorze anos, Lis Dunne se tornara assistente do tio Comarc em sua relojoaria, mas as tardes bordando e costurando com vó Erin a despertaram para o mundo dos tecidos — e arrefeceram a atenção do tio sobre si com o passar do tempo. As Ilhas Errantes também eram referência em rendas e tramas, o que parecia uma ocupação adequada e lucrativa para Lis, na opinião do tio. E o teatro municipal, embora limitado em seus luxos e estruturas, precisava sempre de costureiras e manutenção esporádica com as roldanas dos cenários. A jovem gostava do serviço, e gostava mais ainda de testar coisas novas sem a fiscalização atenta de tio Comarc. Itens mais estranhos eram tratados apenas como objetos de cenografia supérfluos aos olhos dele. Ou ele se fazia de tolo, já mais cansado da rotina de abrigar uma filha que não era sua.
Lis, sentada e um tanto ansiosa pela opinião de Odile, não pôde deixar de reparar que a bagagem dela era pouca: uma mala de mão e somente um baú médio. Mesmo que não fosse a bailarina principal da peça, ela esperava um pouco mais de Odile de Vries, sempre tão elegante e vestida de branco, exceto uma fita vermelha em seu pescoço.
Ou talvez Lis estivesse apenas pensando demais.
Odile tinha uma prótese no braço esquerdo, a partir do cotovelo. Apesar dos movimentos preservados, como flexão ou extensão, seria um tanto inconveniente levar muita coisa consigo com uma das mãos feita da dura bétula-do-czar. O material era de qualidade, porém com um mecanismo pouco funcional e com travas que deixariam tio Comarc com apenas um olho piscando de nervoso. O coração do velho tio também sairia do compasso se soubesse que ela, ao receber a prótese emprestada por uma tarde para tirar as medidas e fazer ajustes melhores nas luvas, também deu seu toque especial sem ter sido solicitada. Tinha avisado Odile que apenas trocaria o couro do encaixe com a pele para um couro novo mais confortável; ao fim, fez discretamente um pouco mais do que isso: as articulações estavam mais macias e o movimento dos dedos, mais natural. Ela poderia fazer mais, mas julgou isso além do que era sábio.
Os olhos de Odile não eram doces como os títulos de sinfonias para bailarinas. Sua calma analítica conferia as costuras em cetim branco, digno de uma checando a aplicação de renda nas bordas e o leve brocado de prata. Um momento que poderia ser interpretado como hostil era apreciado por Lis, pois muitos consideravam seu trabalho, ainda que caprichoso, apenas um detalhe menor a ser esquecido entra a grande proporção de cenários ou o talento de atores. Um trabalho invisível quando bem feito, embora gritante quando ausente. Lis gostava de saber que alguém prestava verdadeira atenção no que tinha feito — e as bailarinas ou atrizes que vinham à cidade na primavera costumavam ser clientes fiéis e gratas.
O interior das Ilhas Errantes era um bom destino turístico, pois não era como a capital Leiflin, com um porto tão abarrotado e preferência por tavernas, ao contrário de teatros ou palcos. E o clima era definitivamente melhor que Maroch Glen, cujas tempestades atrapalhavam qualquer viagem. Suspeitava, entretanto, que as bailarinas consideravam a atenção de recrutas e tenentes kaelish não fosse assim tão desejável. Lis concordava.
Suspeitava também que a percepção da bailarina à sua frente era ainda mais precisa do que seus giros no palco. Ela mexia os dedos da prótese, testando os movimentos.
Notando algo.
— Você é boa. — Odile repetiu um gesto suave com a mão esquerda, sem ouvir nenhum clique ou sentir um engasgo do mecanismo. O movimento era tão limpo quanto a sua própria voz falando kaelish, língua que sequer era sua. Ao que sabia, Odile também conversava em zemeni e ravkano, além do kerch. — Boa demais.
— Ouço isso como um elogio, senhorita de Vries.
Lis sentiu seu coração acelerar em uma leve onda e soltou um riso breve, nervoso. Seus dedos se agitaram sobre o colo e ela girou um anel de prata com o dedão. Teria sido tão descuidada assim? Ela se lembrava de ter mantido certas limitações da prótese. Antes que pudesse emendar com alguma frase sonsa ou desconversar falando sobre os pontos que tinha usado na peça de cetim, notou que seu rosto era estudado por Odile — que ajeitou uma mecha do próprio cabelo loiro e sorriu.
Como?, era o que Lis e qualquer outra pessoa com olhos se perguntava. Como Odile de Vries não estrelava temporadas longas e peças como a bailarina principal? Ela facilmente era a ideia de jovem mais linda que um pequeno garoto poderia imaginar, saída de algum livro ou fábula. Mas, talvez pela prótese em seu braço, não era encarada como mais do que uma bailarina quebrada de uma caixinha de músicas. Imperfeita.
— Fez por merecer. O contador da Torre já lhe transferiu a quantia certa, se me lembro bem. Ótimo. — Com a confirmação da costureira, a bailarina tirou as luvas e dobrou-as em seguida, colocando no bolso de seu vestido. Desse mesmo bolso, tirou um cartão branco e entregou-o para Lis. Em uma face, o desenho elegante de uma torre. No verso, um endereço em Kerch. — Se um dia você precisar, procure por Saskia. Não precisa indicar o sobrenome, Saskia já basta.
Mais movimento se fez no saguão: a equipe vinha transportar o restante que sobrara e já avisava as bailarinas no recinto a manter o passaporte nas bolsas. Partiriam em cinco minutos, não passariam por Leiflin. Odile lhe ofereceu um sorriso em despedida e fez menção de andar em direção à saída, depois de uma curta mesura. Uma pergunta a deteve por um momento:
— E quem é Saskia?
— Oh, não se preocupe. Você a conhece. Receba isso como um gesto de gratidão, senhorita Dunne.
Odile sorriu de novo, seu sorriso tão franco quanto seus olhos de lua refletida em um lago escuro. Existia algo mais abaixo da superfície, Lis teve certeza que sim — e entendeu o que Odile quis dizer.
Só pôde confiar naquela troca de palavras oblíquas que mais soavam como uma troca de segredos. Murmurou um adeus à bailarina ao pendurar o cartão na sua cinta de costuras e também logo partiu do teatro, dividida entre apreciar uma estranha promessa de ajuda, refletir sobre a troca de nomes de Odile, e sentir-se exposta por alguém inferir razoavelmente que Lis não era somente habilidosa no que fazia. Dedicada, é claro. Muito trabalho humilde e esforço, como seu tio tanto repetiu em sua cabeça. No entanto… De fato, ela era algo mais. Algo que, não só nas Ilhas Errantes, a tornava um alvo.
Estúpida, deveria ter mais cautela. Prego destacado leva martelada. Afinal, mesmo que pedisse ajuda em Kerch, a gratidão de Odile sobre a prótese seria tão imensa a ponto de custear um favor tão grande? Não. Ainda era Kerch, tão longe; ainda teria um custo. Mas antes de seguir pela esquina seguinte, Lis Dunne parou de repente, causando o tilintar súbito de sua cinta de costura feita com correntes. Ela olhou para trás só para observar as bailarinas agrupadas, rindo e subindo em carruagens em direção ao porto. Roupas tão lindas. Sorrisos tão fáceis, leveza nos pés. A fita vermelha no pescoço de Odile tremulou um pouco ao vento antes dela fechar a porta.
Tanto a lógica quanto sua experiência afirmavam que a cena que assistia reservava dores só exibidas atrás das cortinas; e querer se ver como uma jovem assim, admirada e bela, era só uma ilusão escapista. Todas, como Odile, tinham algum segredo. Teimosa, outra voz sussurrou dentro de Lis:
Mas eu queria.
Por um instante, ela se permitiu sonhar. Uma bela roupa, um vôo, a costa das Ilhas Errantes ficando mais e mais longe. Sua última interação com Odile — Odile? — acendeu sua imaginação para um desfecho em que ela sentia-se mais ela e, ainda assim, era livre. E no instante seguinte, Lis voltou a caminhar pela calçada de paralelepípedos em direção à relojoaria do tio.
O clima era úmido, sua melancolia também. Sete anos longe do sul, o Outono denunciava o correr do tempo. Sete. Tal fato competia em tirar sua paz com o mistério dos sumiços na mesma estação; na verdade, Lis poderia dizer que ficava mais ansiosa a cada ano com aquele terrível aniversário do que com o fato de alguma pessoa nas redondezas ter desaparecido. Afinal, parecia uma causa perdida. Talvez seus delírios de zarpar para longe fossem mais possíveis do que descobrir-se o paradeiro daquelas pessoas.
Mesmo com recrutas, tenentes e todo aquele aparato das Forças Armadas, nenhuma conclusão sobre os sumiços ocasionais parecia próxima. Soldados continuavam a receber uniformes e medalhas após o período de crise nas guerras no continente, quando as Ilhas Errantes demonstraram certa simpatia por Fjerda avançar sobre Ravka. Até um marechal foi nomeado pelo parlamento, apesar dos kaelish não entrarem em ação como pretendiam.
Lis sabia que os kaelish não gostavam muito de fjerdanos, porém. Mas fjerdanos também detestavam grishas e, ao que sabiam, Ravka estava repleta deles.
O fato é que, guerra arrefecida, tanto soldados quanto Lis permaneciam à postos, com ocupações curiosas. No caminho, ela viu alguns deles em uniforme impecável apoiados em escadas e banquetas, decorando a praça e pendurando ornamentos nas fachadas de lojas. Provavelmente, um grupo deles também faria fantasias tradicionais com palhas para adentrar festas e fazer farra, conforme a tradição. À despeito da névoa e do humor de Lis, o festival de Outono logo chegaria. E havia muito trabalho a ser feito com nabos e abóboras.
Fale com o autor