A fachada da loja do tio Comarc era simples, mas eficiente e de letreiros retos, pretos e verdes: Pontual, estava em destaque, relojoaria e reparos. Tanto pela popularidade boca a boca quanto pela qualidade real dos serviços, a loja permanecia como referência perto do centro de Tirnaigén; mas, ao contrário do que clientes novos costumavam imaginar sobre a loja, não era tão ampla assim: tratava-se de um ambiente pouco maior do que uma sala de jantar também simples, para uma família de quatro a cinco pessoas.

Isso se devia ao fato de que a relojoaria de fato era uma sala de jantar adaptada, quando tio Comarc comprou sua primeira casa e saiu da casa da família Dunne, onde vó Erin morava. E graças ao senso de organização do tio, bem como ao dinheiro que entrava, a loja já tinha uma cara de loja — ainda que pequena — há muito tempo. Mesmo com todos os itens à venda, peças sobressalentes e equipamento atrás do balcão, não parecia abarrotada de coisas. O que parecia inflar o ambiente, segundo parte da cliente que calhava de passar mais de dez minutos encarando o mostruário, era o som.

Tic-tac, tic-tac. Sem parar, em uníssono. Todos os relógios tocavam com precisão em um único compasso, sem descanso.

Havia muitos comentários sobre essa característica da loja, quase uma certa fama. Tio Comarc se orgulhava silenciosamente disso e, com honestidade, Lis também achava impressionante. Seria natural que a maior parte das pessoas considerasse o ruído enervante após um tempo, ou no mínimo estranho e desconcertante, no entanto, ela aprendeu a apreciar com o passar dos anos. A casa da vó Erin foi transformada em pousada depois que ela faleceu há três anos, pois não fazia sentido tio Comarc voltar para uma casa maior e o pai de Lis não retornaria para o país. Por isso, ela passava muitas tardes sozinha na relojoaria, tocando o serviço enquanto tio Comarc fazia suas rondas na pousada. O silêncio era preenchido pelos relógios. Ela não se sentia tão isolada com o trabalho. No lugar que antes era uma despensa, ela podia deixar a mente vagar:

Tic, ela se perguntava se sua última carta à Asha teria chegado. A família suli viajava nas redondezas de Zuidhaven, a capital das Colônias do Sul, mas mantinham a casa lá.

Tac, fazia três meses desde a última carta dos pais, endereçada ao tio. O nome de Lis foi mencionado em um breve cumprimento educado, um aceno à distância. Sua mãe sequer usara o nome completo dela, Elisaveta, na carta. Só Lis.Assim como todos a chamavam há sete anos.

Tic, precisava repôr os ponteiros daquele tamanho. Restavam apenas algumas unidades na gaveta.

Tac, ela ainda pensava no cartão da Torre Alba.

No segundo seguinte, fez-se o barulho do sino da porta. Pelo horário, não um cliente. Tio Comarc. Ela não levantou-se para cumprimentá-lo e ele, como sempre, aproximou-se do balcão para conferir se não existiam pedidos pendentes.

— Você está trabalhando rápido demais.

Lis não tirou a lupa de relojoeiro ao encará-lo por detrás do ombro, sem virar sua cadeira da bancada de trabalho.

— Caso os seus conterrâneos quebrem relógios de formas mais criativas, talvez eu me sinta mais desafiada para trabalhar devagar.

E voltou ao serviço antes de ver a expressão desgostosa dele. Lis não sabia se a maioria das pessoas não tinham o desprazer de receber tal expressão dele ou se ela era a única que entendia a reprovação estampada em mínimos vincos de sua testa, o lábio comprimido e olhar duro. Também lhe irritava a implicância. Até onde sabia, as pessoas assumiam que tio Comarc era muito competente; um homem altruísta que cuidava da sobrinha e de dois negócios muito diferentes entre si. Claro que ele era um bom profissional, Lis admitia tal fato, mas nem de longe fazia tudo — assim como na pousada, onde mais pessoas trabalhavam todos os dias na limpeza e na cozinha. Não receber muito crédito não era tão grave, desde que ela continuasse com a vida pacata e juntando suas economias com serviços extras de costura. Mas não parecia tão justo ser criticada por trabalhar bem e trabalhar depressa.

Ela suspirou e se focou no barulho dos relógios de novo. Só estava fora do compasso dele e aquilo o enervava. Se ao menos tio Comarc fosse mais honesto do porquê aquilo o irritava…

Lis girou a cadeira para pegar o óleo na gavetinha do armário rotulado. O espaço era pequeno, mas bem planejado para a maior parte das coisas ficar ao alcance das mãos. Nesse gesto, ela encarou de soslaio o tio sentado à frente do balcão, conferindo agora o livro-caixa.

Tio Comarc nunca disse com todas as letras, com a exatidão que tanto apreciava em todas as coisas, que entendia que Lis era uma durast. Uma grisha na família. E se por um lado ela inferia que a preocupação do tio era garantir sua segurança nas Ilhas Errantes, por outro ela sentia que faltava-lhe essa peça para que pudessem ser um pouco mais do que uma sobrinha feita de assistente e um tio distante. Por que nunca falar sobre isso? Seus pais nunca falaram também, talvez porque as habilidades de um durast passavam despercebidas pela natureza silenciosa delas.

Mas um dia, ele percebeu. Não apenas percebeu quanto lhe alertou para que permanecesse calada quanto a isso. Para que permanecesse inerte. Resoluta a se limitar à engrenagens, parafusos, ponteiros, pinças para relógios e coisas pequenas. Sempre uma aprendiz de coisas que já dominava.

Com vó Erin, era diferente.

Lis inspirou fundo, como se estivesse concentrada no próximo passo do reparo. Não estava. Não escutava sequer os tic tacs dos relógios, muito menos o folhear das páginas do livro-caixa. Só se concentrava na lembrança e na certeza de que, enquanto vó Erin era viva, as coisas eram mais divertidas, mais variadas, mais suportáveis. Você é muito sabida, ela dizia. Admirava sua rapidez em aprender bordado, em aprender tricô, em consertar colares mesmo do metal mais vagabundo, em fabricar engenhocas que poderiam ter sido pensadas por qualquer outra adolescente que gostasse da avó. Os seixos que Lis coletara do lago mantinham o calor por muito mais tempo que o normal depois de esquentá-los na lareira, sendo colocados em sacos de lã ao lado dos joelhos de idosa no inverno. A sua pequena horta no quintal deixara de ser devorada por roedores depois que Lis instalou um sistema de fios e guizos, como um carrilhão que tocavam quando os animais passavam por perto, assustando-os. E ela gostou muito quando Lis apresentou o projeto de uma asa retrátil para o figurino de uma cantora de ópera da cidade. Enquanto tio Comarc enxergava-a como um relógio sempre descompassado, para vó Erin, Lis tinha tinha verdadeiras mãos de fada.

Tudo o que ela aprendeu sobre grishas nas Ilhas Errantes é que ninguém gostaria de ser um. Os chamavam de “caridosos” pela prática antiga, nada voluntária, da coleta de sangue para fins medicinais. Na voz do povo, era algo abominável. Nos sussurros das ruas, uma opção viável se você estivesse desesperado o bastante — e conhecesse alguém caridoso o suficiente para doar cada gota.

— Lis, a porta.

— Ah.

Ela tirou a lupa do olho esquerdo e levantou-se para atender. Não era uma visita ou cliente, era Maeve; outra garota que prestava um serviço ou outro para o teatro. Lis impressionava-se que, com tão pouca idade, já era tão competente com maquiagem e reparos simples em figurinos. Tinha catorze anos e era uma graça, combinando sempre certa leveza atrapalhada da idade com o tom fúnebre das roupas pretas que vestia. Pedira, inclusive, uma cinta de costuras igual à de Lis, com correntes e ganchos para carregar coisas sem a necessidade de bolsos. Foi só por estética, para combinar com seus anéis de prata e inúmeras pulseiras nos braços. Ao contrário de sua aparência austera, os olhos de Maeve refletiam preocupação.

— Não encontrei a Ella para pedir que viesse aqui. Sabe, para pegar a roupa do festival.

Mal sinal. As aventuras de Ella ficavam mais imprevisíveis. Lis soltou um estalo com a língua e abriu mais a porta, fazendo o sino ecoar de novo.

— Entra, vou pegar o pacote e a gente procura ela na feira.

Escadaria acima e já no seu quarto, Lis colocou um banquinho para pegar o pacote acima do armário. O cômodo não era grande, de modo que se fazia necessário otimizar todo espaço possível. Mesmo a cama de Lis era uma daquelas articuladas e embutida no armário, o que lhe dava mais espaço durante o dia para puxar sua escrivaninha e mexer nas suas quinquilharias — que Maeve encarava agora: o móbile feito de sucata na janela; um cesto de agulhas de tamanhos diferentes para tricô e uma trama recém-feita de arame; peças e miniaturas de caixas de música que ela não tinha tido tempo ainda de consertar. Mas quando Lis desceu da banqueta com o embrulho das roupas em mãos, notou que Maeve prestava maior atenção no xale cujo formato era de asa. Estava pendurado na cadeira, limpo e bem-cuidado. Mas jamais usado.

— Você deveria terminá-lo.

A voz de Maeve foi suave. Ela já tinha ouvido falar daquela peça, tão discreta por fora com seu tecido escuro, no entanto, com seu forro bordado quase por inteiro com figuras coloridas, minuciosas. Eram bordados de contos de fadas que tinha ouvido no Sul e também ao Norte, nas Ilhas Errantes. Lis bordava com a avó.

— Um dia, eu vou. — Lis forçou um sorriso. Não tinha encostado uma agulha no xale há três anos. — Mas nesse outono, só quero parar de receber pedidos de figurino da "Princesa Nabo". Nem é uma história tão legal assim da Colheita.

Os lábios pintados de preto de Maeve se comprimiram. Era um desdém realista; afinal, quem não se vestia de “Princesa Nabo” uma única vez na vida? As duas já tiveram também o seu momento no passado.

— Vai acontecer quando você morrer. Ou mudar de país.

— O que vier primeiro.

As duas riram brevemente; Lis de forma um pouco mais amarga, embora verdadeira. O que, de fato, aconteceria antes? Ser enterrada ao lado da avó ou pisar em outro navio?

Ela chacoalhou a cabeça levemente. Pensamentos tolos. Agora, só tinha que se preocupar em entregar aquela roupa simples de "Princesa Nabo" para Ella. Desceram.

— Tio, estamos saindo.

— Sem comer? Não é hora para isso.

Lis sequer deu atenção. Também não era hora para ver outra expressão de desgosto dele.

— Tem comida na feira, tio. Até mais!

Os preparativos para o festival de Outono tomavam conta de Tirnaigén. Guirlandas de trigo dourado e ramos de aveia seca eram penduradas nas fachadas de pedra das casas, e o aroma de maçãs assadas e pães escorria das chaminés. A feira no centro estaria já muito movimentada naquela altura do dia e foi para lá que as duas rumaram. Sempre havia algum palco sendo montado e algum grupo de músicos ou um solitário bardo fazendo cantoria por alguns trocados. Não era o tipo de apresentação mais cobiçada a se fazer, mas marcava o clima da estação: um pouco de barulho, névoa e tons de laranja, marrom e amarelo.

E é claro, pessoas atarefadas em comprar alimentos para os preparativos, como leite de cabra, ovos, farinha, cenouras, pêras, maçãs, nabos e…. abóboras, gordas e bonitas, para lanternas decorativas. Lis inspirou fundo quando as viu em uma das carroças, quase esquecendo de Ella e do pacote de roupa em suas mãos. Não se sabe muito bem quem inventou de trocar os nabos por abóboras para esculpir caretas na casca e deixar o miolo oco; talvez a pessoa só tivesse certa preferência pela cor ou pelo tamanho. Era até motivo de discussão entre os mais tradicionalistas do festival; suspeitava-se também que era só algo trocado por imigrantes em Novy Zem ou nas Colônias pela abundância do fruto. E daí, a coisa se inverteu para as Ilhas Errantes. O fato é que já há um tempo adotou-se a abóbora e ninguém ficava sem ela para fazer pães, tortas e até bebidas. E tudo o que Lis lembrava-se naquela fração de segundo, era o navio que a trouxera até as Ilhas Errantes.

Maeve, mais baixa, puxou-a para outro lado da feira. Prosseguiram na busca por Ella e já não era ótimo não encontrá-la entre os músicos lá. E a adolescente parecia querer se distanciar das verduras, legumes e frutas da feira, mais interessada nos doces de caramelos que vendiam do outro lado. As duas gastaram um pouco de dinheiro enquanto perguntavam pela colega. Lis, Maeve e Ella trabalhavam no teatro municipal, mas só uma ardia pelo estrelato.

Passou-se um tempo, tempo suficiente para uma ronda de soldados passar pela feira, desestabilizando o fluxo de pessoas e o som livre da algazarra. Foi a vez de Lis puxar Maeve para mais perto de uma das barraquinhas, evitando que um daqueles rapazes prestasse atenção demais nas duas. Quando se foram, depois de um pouco de conversa fiada com alguns feirantes, Maeve lhe lançou um olhar afiado.

— Já fez isso antes, se me lembro bem. E não sei se entendo muito bem o porquê, Lis. Algum desses recrutas sonsos te fez alguma coisa? Tipo, não me surpreenderia… Mas você nunca falou nada. E você não é de esconder as coisas.

O sorriso falso de Lis floresceu de forma espontânea. Que graça, ela pensou. E explicou o que pôde:

— Acho que parte é superstição herdada do meu tio. Ele nunca me falou alguma coisa mais substancial, sabe. — Continuaram andando, o que era a desculpa perfeita para Lis não encará-la nos olhos. — Mas sei que ele foi enfermeiro para o exército na juventude.

— Foi há séculos, então.

— Precisamente. — Lis riu. Pobre tio Comarc, talvez o tempo fosse mais severo com ele por tanto lidar com relógios e querer controlá-lo. — E… E ele não gosta muito deles, Maeve. Tenho impressão que viu coisas. Também não gosto quando um desses rapazes se acha muito importante porque antes, no vilarejo dele, ele não era ninguém. Ao mesmo tempo, acho tolice. Digo, tio Comarc me proibia de ir em certa região perto do mar, longe do porto, lembra-se? Por crendice mesmo.

— E o que isso tem a ver comigo? Por que me puxou?

— Bem, você é jovem, fala sem rodeios e está sempre vestida da cabeça aos pés de preto sem ser viúva e cheia de correntes. Daí, não acho impossível você falar algo que soe ácido para algum deles e você tenha que provar que não é… Não é uma caridosa. — Com o olhar de confusão da menina, Lis aproximou-se do ouvido dela e sussurrou. — Uma grisha.

Maeve assentiu, um tanto abalada. Talvez tivesse pensado na história ravkana do Sankt Ilya “Acorrentado”, mal sabendo que Lis chamava-se Elisaveta pela sankta do mesmo nome. No fundo, se odiava por ter essa conversa com ela. Não parecia certo alertá-la por algo que, talvez, jamais aconteceria. Mas as pessoas sumiam. Não raramente, diziam que só viravam criadas no palacete da família O’Bruadair, que já era rica e tinha um membro marechal há alguns anos. Seu tio parecia excessivamente paranoico por Lis, mesmo que sequer tivesse proferido a palavra “grisha” uma única vez em sua presença. No entanto, ainda parecia sensato ter essa conversa que ninguém mais parecia querer conversar em Tirnaigén.

Na barraca de queijos, a mulher ofereceu amostra para as duas; o que foi exatamente o que Maeve precisava para esquecer-se da conversa anterior. Ainda tirou um caramelo macio da sacolinha e comeu com outro pedacinho de queijo de cabra, elogiando a textura. Lis decidiu comprar queijo para si e para Maeve, jovem demais para aqueles papos amargos. E é claro, depois questionou à idosa:

— Viu Ella? Uma mulher mais ou menos dessa altura, — Ela gesticulou, apontando um comprimento menor que de Maeve. — De cabelos pretos e sardas. Cantora de serenata de porto.

— A cantora! — A idosa soltou um silvo, entre uma risada de desdém e um xingamento. Lis e Maeve se entreolharam, entendendo que ela tinha reconhecido muito bem de quem perguntavam. — Está me devendo vinte pesos, aquela desmiolada.

Ah, não. Era a taxa de certa taverna para apresentações. Com um suspiro, Lis sacou mais moedas e entregou-as à velha do queijo de cabra. Talvez tivesse que tomar mais cuidado para não ser tão associada com Ella pelo povo de Tirnaigén do que ser descoberta como uma durast.

Assim terminava a busca do dia, com Lis ainda com o pacote em mãos e Maeve com sacolas de gastos imprevistos. Nada de Ella, que muito provavelmente não seria tirada da taverna Proa tão cedo. Lugar disputado para apresentar.

— Maeve, — A jovem grisha chamou-a, as duas ainda no final do corredor da feira, onde a névoa começava a subir. Existiam coisas que nem mesmo a lógica ou um poder grisha poderia remendar. — Não tome Ella como exemplo.

— Acho que só esse lembrete é um insulto. E eu nem teria tempo por causa das provas.

Primeiro, Lis estreitou os olhos em direção à Maeve. Seu estranhamento foi mais rápido do que seu raciocínio. Que raios de provas? Mas logo, veio o entendimento súbito: Maeve ainda estava em idade escolar. E no lugar de voltar para escola depois do almoço, tinha zanzado por aí na companhia da mais velha.

— Sua pilantra! — Lis empurrou-a levemente com o próprio ombro. A falha era sua de se deixar levar pelo jeito mais sensato de Maeve em relação à Ella; parecia até que as duas tinham trocado de idade. Porém, esse deslize não se justificava totalmente, uma vez que Lis também constantemente lembrava-se de querer proteger a menina. Só podia culpar sua cabeça distraída com coisas que não deveria. — Xô, vá para casa. Já deve estar no fim do horário da escola mesmo. Me viro com Ella. E faça todas as lições do dia, senão sua mãe me mata!

Maeve revirou os olhos, mas obedeceu.

— Até mais, Lis.

Viu-a partir com um sorriso leve. E então, Lis seguiu andando mais um pouquinho, na direção de um feirante que sempre ficava no mesmo lugar, um tanto afastado da muvuca da feira. E lá estava o carrinho ajeitado, embora simples, de peixes do Halvor. O rapaz estava encostado nele, de braços cruzados, observando o movimento à distância com seus olhos claros do estrangeiro — um olhar que ele tentava suavizar, mas que nunca perdia certa frieza. Ele fumava um pouco e a leve fumaça se juntava à névoa. O carrinho, como era seu costume naquela altura do dia, já estava vazio, as tábuas apenas com resquício de gelo meio derretido e odor.

— Acabou o estoque, é?

Halvor virou-se para ela, e algo em sua postura rígida pareceu ceder um grau. Um abrandamento quase imperceptível. Ele olhou para os lados antes de responder, ainda preferindo a rapidez do idioma ravkano do que os tropeços que ainda dava em kaelish. E ela, por sua vez, não falava fjerdano.

E tudo isso ainda era, e talvez sempre seria, um segredo.

— Não havia muito estoque para começo de conversa — Ele respondeu, a voz quase monótona, tão característica dele. Apagou o cigarro com a botina, esmagando a ponta em brasa. Depois, pegou a bituca e a pôs num saco de cânhamo que deixava pendurado para colocar sobras de peixes e lixo. — Só trouxe o que era bonito de se ver. Poucas unidades, como sempre. Acabou-se.

— Percebo. — Ela suprimiu um comentário inapropriado sobre restar algo bonito à sua frente. — Mas também quero um que seja bom de se comer. Estava com vontade de um ensopado. Daquele jeito que você me ensinou a temperar, sabe?

Ele a fitou por um momento, avaliando. Um estranho diria que ele estava calculando o preço. Lis sabia que ele estava apenas decidindo o caminho mais seguro pela névoa até o o próprio barco, como faziam vez ou outra.

— Vou ter que deixar o carrinho em casa. — Ele disse por fim, tirando as travas das rodas pequenas. — Mas a rede já está no barco.

E sem mais palavras, começou a andar em direção à trilha que levava ao cais, um convite tácito. Lis sorriu para as suas costas largas e o seguiu, deixando para trás o burburinho da feira pela promessa silenciosa de um peixe fresco e de uma conversa que, com Halvor, sempre acontecia mais nos espaços entre as palavras do que nas palavras em si.


Notas finais
Coloquei aí as ordens grishas porque aparentemente não tem nenhuma imagem com a tradução em português certinha, então dá-lhe canva de novo. Estranho porque é a primeira página de cada livro da trilogia original, então...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.