Book With One-Shot's - Vol.02
2 O Amanhecer no Monte Fuji
O céu ainda estava escuro quando Akira subiu os últimos degraus da pequena trilha de pedra que levava ao miradouro do Monte Fuji. O frio matinal mordia-lhe a pele, mas havia algo na tranquilidade da montanha que o fazia sentir-se vivo. Tinha decidido, de repente, pegar na mochila, no pequeno caderno de notas e na velha câmara fotográfica, e partir sozinho. Precisava de espaço para pensar, longe da cidade, longe das mensagens constantes e do ruído da vida quotidiana.
Enquanto caminhava, a neve dos dias anteriores brilhava sob a luz fraca das lanternas espalhadas ao longo do percurso. Cada passo era acompanhado por um silêncio profundo, apenas quebrado pelo canto distante de um pássaro noturno e pelo estalar da neve sob os seus pés. Akira respirava fundo, sentindo o ar gelado preencher os pulmões e, com isso, afastar pouco a pouco a ansiedade que o acompanhava há semanas.
Quando chegou ao miradouro, o primeiro vislumbre do céu começou a tingir-se de tons pálidos de rosa e laranja. O Monte Fuji, majestoso e silencioso, dominava a paisagem, e abaixo dele, as nuvens enrolavam-se como algodão, cobrindo a cidade que lentamente despertava. Akira sentou-se na pedra mais alta, apoiando a câmara nos joelhos, observando o amanhecer que se anunciava.
Era um amanhecer perfeito para refletir. Lembrou-se da amiga de infância, Mei, que tinha perdido contacto nos últimos anos. Pensou nos cafés onde riam sem pensar no tempo, nos passeios junto ao rio e nos dias que pareciam durar para sempre. Um sorriso melancólico surgiu-lhe no rosto. Não havia arrependimentos, apenas a sensação de que algumas pessoas entram e saem da vida no momento certo, deixando memórias que aquecem nos dias frios.
Akira pegou na câmara e começou a fotografar o céu em constante transformação. Cada clique era uma tentativa de capturar algo que sabia que nunca poderia segurar: o instante fugaz de luz que nasce apenas uma vez por dia, igual e diferente ao mesmo tempo.
Enquanto o sol surgia lentamente, uma raposa vermelha apareceu entre as pedras, parando a poucos metros dele. Olharam-se por um instante, animal e humano, dois seres despertando para o dia de maneiras diferentes, mas com o mesmo respeito pelo silêncio ao redor. Akira sorriu, sentindo que a natureza lhe enviava uma mensagem silenciosa: “Alguns momentos só precisam de ser vividos, não compreendidos.”
O amanhecer iluminou a montanha com cores quentes, e Akira percebeu que estava pronto para regressar à cidade. Mas a sensação de paz permaneceu consigo. Ele sabia que recomeçar não era apagar o passado, mas sim permitir que cada instante de beleza fosse absorvido, sem pressa, sem culpa.
Antes de descer, abriu o caderno e começou a escrever:
"Hoje aprendi que o amanhecer não espera por ninguém, mas deixa espaço para quem se atreve a estar presente. Algumas memórias duram para sempre, mesmo que o tempo continue a correr."
Quando finalmente desceu o Monte Fuji, sentiu-se mais leve, como se cada passo o tivesse libertado de um peso invisível. A cidade estava acordando, mas Akira carregava consigo a serenidade daquele amanhecer, sabendo que, mesmo nos dias mais caóticos, ainda havia espaço para beleza, reflexão e pequenos milagres silenciosos.
O sol já estava alto quando entrou numa pequena loja de chá à beira da estrada. Pediu um chá quente e sorriu para o dono, sentindo-se em paz. Às vezes, os momentos mais simples, um amanhecer, uma raposa, um chá quente, tornam-se lembranças que aquecem a alma mais do que qualquer grande aventura.
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