Book With One-Shot's - Vol.02
3 A Chuva e o Cão Perdido
A chuva caía incessante sobre as ruas de Kyoto, criando pequenos rios nos becos estreitos e refletindo as lanternas vermelhas das lojas. Yumi apertava o casaco contra o corpo, os sapatos encharcados a escorregar sobre as pedras molhadas. Estava atrasada para o trabalho, mas algo a fazia parar repetidamente: o som de um pequeno latido, frágil e insistente, vindo de um beco próximo.
Curiosa, aproximou-se e encontrou um cãozinho encharcado, com os olhos grandes e negros a suplicar ajuda. Era pequeno, de pêlo castanho claro, e tremia tanto que parecia um sopro de vida frágil. Yumi não pensou duas vezes: retirou a carteira, colocou o animal no casaco e continuou o caminho até ao trabalho, sentindo o calor do corpo do cão contra o seu.
Durante o dia, a imagem do pequeno cão não a deixou. Perguntava-se se teria dono, se estaria perdido há dias, ou se simplesmente alguém o teria abandonado. No intervalo para o almoço, decidiu procurar um veterinário próximo. O dono da clínica, um homem de meia-idade chamado Hiroshi, recebeu-a com um sorriso compreensivo e examinou o animal.
— Parece saudável, mas está assustado e faminto. Acho que foi abandonado — disse Hiroshi.
— Então… posso ficar com ele? — Yumi perguntou, sem hesitar.
O veterinário riu suavemente.
— Se achas que consegues, sim. Ele precisa de alguém agora.
Yumi sorriu, sentindo uma pontada de felicidade. Colocou o cão no colo e saiu da clínica. A chuva tinha diminuído, mas o céu continuava cinzento. Decidiu levá-lo a um pequeno parque próximo, onde podia secar-se um pouco e brincar. Enquanto caminhavam, pessoas passavam, apressadas, sem notar o pequeno milagre que caminhava ao lado dela.
Chegados ao parque, Yumi sentou-se num banco e soltou o cão. Ele correu alegremente pelo relvado encharcado, saltando em poças e abanando o rabo como se tivesse descoberto um mundo novo. Yumi observava, rindo, e sentiu uma sensação que há muito não experimentava: a leveza de cuidar de alguém, a alegria pura de uma companhia inesperada.
Ao fim da tarde, o céu abriu e o sol começou a aparecer por entre as nuvens, refletindo-se nas gotas de chuva ainda penduradas nas árvores. O cãozinho, agora seco e tranquilo, encostou-se aos pés de Yumi, olhando-a como se tivesse esperado toda a vida por aquele momento.
— Acho que vou chamar-te Haru — disse ela, sorrindo.
O animal abanou o rabo, como se aprovasse o nome.
No caminho de regresso a casa, Yumi sentiu que algo dentro de si mudara. O dia cinzento, a chuva persistente e o caos das ruas de Kyoto tinham dado lugar a um pequeno sol interior, aquecido pela presença daquele ser pequeno e confiante. Haru, o cão perdido, tinha encontrado um lar, e ela, inadvertidamente, também o tinha encontrado.
Chegada a casa, preparou uma tigela de comida, secou Haru cuidadosamente e sentou-se na janela, observando o pôr-do-sol a tingir de dourado os telhados molhados. Sorriu ao pensar que às vezes os reencontros mais importantes não são com pessoas, mas com a própria vida, com aqueles momentos que nos lembram de cuidar, de amar e de abrir espaço para novas alegrias, mesmo nos dias mais cinzentos.
Haru, finalmente adormecido no colo dela, suspirou suavemente. E Yumi, sentindo o calor da sua presença, percebeu que a felicidade podia nascer de uma simples decisão: parar, observar e estender a mão para quem precisa.
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