Bonitos Rumores
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SILVIA
Três Semanas Antes
Não faz muito tempo e meu casamento acabou.
— Eu entendo perfeitamente, mas nós reservamos vaga a um ano atrás e não vamos perder isso por nada nesse mundo – reafirmo por telefone, minha voz é seca, dura e hostil – querida você é surda? Os Brasel não ficam de fora desse congresso a gerações! Você é algum tipo de tapada?
A atendente diz qualquer coisa que eu não quero ouvir, algo sobre erro de sistema, de troca de quartos, de vagas...
— ouça bem bonitinha, eu, Sr. Brasel e minha filha Ana embarcamos amanhã as sete se nossa suíte não estiver pronta e nossa programação arranjada vou providenciar sua cabeça e não estou simplesmente falando no sentindo figurado da coisa. Passe pro seu chefe e quero as passagens no meu e-mail – bato o telefone com força e o jogo em algum lugar do banco
Ana minha filha do outro lado do banco do nosso carro de passeio me olha com reprovação, posso ler no seu olhar sua indignação por eu ter sido o que segundo ela é grosseiro com trabalhadores inocentes” por telefone.
— o que foi dessa vez? – berro impaciente, ela tinha o olhar de reprovação do pai, aqueles olhinhos apertados, todo politicamente corretos de merda.
— mãe, não é assim que se trata as pessoas elas...
— quando você vai aprender? Acha que é melhor do que eu porque protege o povão ou algo do tipo? — interrompi com veemência, ela abaixou a cabeça covarde, as bochechas coradas – voce é uma hipocritazinha isso sim? Quantas dessas sacolas de compras voce vai dar para os pobres hoje?
Ela se limitou a respirar fundo, não me desafiava, me detestava mas era um jogo silencioso de palavras nas quais ela sempre recuava. Covarde, fraca, inútil... bem como o pai.
O nosso carro de passeio estacionou suave na porta de nossa casa, já estava impaciente, o motorista me ajuda com as sacolas e Ana não seria um clássico da pobre menina rica vítima da própria condição se não recolhesse as dela. Solto um suspiro e mando um olhar de reprovação para ela.
Em casa, Ana sobe as escadas direto do quarto. Provavelmente pra chorar a pobre coitada que é. A pobre coitada! Eu simplesmente não posso com isso! Quinze anos de uma enorme cascata de drama adolescente, a pobre garota rica com a mamãe megera e o todo poderoso pai exemplo. Eu mereço!
Jogo as compras no sofá e dirijo-me ao bar, a proporção perfeita de elementos causadores de letargia e felicidade lentamente começa e encher meu copo, duas pedras de gelo tilintam.
— mais alguma coisa senhora? – questiona-me o motorista
Aceno a mão com movimentos rápidos para que vá embora. Finalmente estou sozinha. Deito-me na poltrona, olho no relógio e estico bem as pernas fazendo-as estalar.
A bebida está magnifica. O sabor na boca é amargo como certas lembranças são, e frio como algumas coisas costumam ser agora, tem gosto não de Sr. Brasel, tem gosto de Hugo.
— Você está linda.
Ele me beijava, me tocava, suas mãos se moviam pelo meu corpo. Eu só podia respirar e suspirar sem agradecer o elogio, cada vez que tentava lhe dizer algo ele me beijava mais calidamente e me fazia sorrir.
— quando vamos nos casar? – questionei.
O quarto de motel estava quente e sujo. Nossas roupas estavam espalhadas por todo cômodo, cigarros apagados exalavam cheiro num cinzeiro, os lençóis cobriam nossos corpos nos, eu e ele ficávamos de olho no relógio, se passasse cinco minutos da hora promocional não teríamos como pagar.
— em breve minha Silver.
Como eu adorava quando ele me chamava assim, quando sussurrava assim, quando gemia esse apelido no meu ouvido.
— você pensa que seu avô irà? – perguntei com nada disfarçado interesse.
— bom... ele está me castigando ainda pelos erros que cometi. É possível que tenhamos a sua presença, um dia talvez eu tenha o seu afeto, já o seu dinheiro... outra historia complicada. – respondeu Hugo tirando meu cabelo do rosto e me beijando com ternura. – mas com ou sem a merda do dinheiro dele, eu e você vamos construir um mundo só nosso. Onde você será pra sempre minha Silver.
— e você todo o ouro dos meus olhos meu bem... o único que vejo.
Que lembrança miserável! Idiota, ridícula.
Algumas lagrimas escorriam do meu rosto, recuso-me a me sentir assim, droga, não depois de tantos anos. Enxugo o resto da bebida com todo gole rápido, rápido como a morte do meu Hugo e o nascimento do bem sucedido, poderoso e falastrão Sr. Brasel. O pênis mais maravilhoso das Praias de Bronze, o rei do ramo imobiliário, o dono da família mais linda, o bom moço, o herói da comunidade...
Balela.
Títulos idiotas que ele mesmo inventou.
Levanto-me lentamente para tirar o rímel borrado do meu rosto, minha pele está grudenta e meus dedos sujos. Sirvo-me de mais uma dose, minha aliança perfeita reluz e atrita no vidro, a lembrança da primeira joia que Sr. Brasel me dera. Precisava me recompor imediatamente
— onde droga deixei aquele CD calmante?
Na estante Cds uma pilha de livros velhos e plastificados de forma desleixada estava largada em cima de uma das caixas de som, peguei-os lembrando-me de avisar a Marta amanha de ser uma preguiçosa desleixada, onde já se viu deixar esses livros velhos largados assim?
Química Nível III
Física Nível III
E um caderno com um ursinho que segurava um coração brilhante.
Revirei os olhos.
— Ana quantas vezes vou ter que te implorar pra não deixar seus livros largados em qualquer merda de lugar. – gritei da sala.
Não houve resposta, e eu não esperava que houvesse.
— eu mereço.
Peguei as porcarias de livros de plástico rugoso, e como eram pesados e empoeirados, subi as escadas e atravessei o corredor acendendo as luzes. Tapetes e vasos decoravam essa parte da casa, uma certa beleza triste existia naquele ambiente, um silencio de uma família de três pessoas, quando chegava a noite cada um corria para suas devidas tocas.
Bati na porta de Ana e impaciente forcei a abertura, ouvir o som do chuveiro e sem muitas delongas ou qualquer cerimonia joguei os livros em cima da sua cama, o desleixo dela seria a possível única pauta para o jantar.
Comecei a me dirigir sala mas fui paralisada por uma musica suave que vinha da porta mais longínqua daquela parte da casa. Estremunhada dei meia volta, era cedo demais para o senhor Brasel estar em casa... eu barata tonta, desatenta não havia verificado se o seu carro estava presente na garagem, e porque ele estaria no quarto de visitas se nem discutimos hoje? Ainda não havíamos, então eu não entendia o motivo de qualquer antecipação que o levasse a se exilar naquele cubículo pra convidados que ele chamava de refugio.
Caminhei até o final do corredor onde um fraca luz emanava debaixo da porta, estava entre aberta, quanto mais passos eu dava mais alta a musica ficava seguida de uma respiração sem ritmo e violenta.
A respiração logo virou balbucios, que logo virou palavras.
— isso meu bem, isso, isso, com força.
Parada ante a porta pude ver um colchão no chão que se contraia com violentos pesos sobre ele, meu marido deitado sob uma luz fraca, agarrava com força o colchão, as veias do seu braço pulsavam grossas e expostas sob os músculos definidos, ele jogava sua cabeça pra trás e gemia de prazer enquanto uma criatura magra e de seios pequenos e firmes cavalgava nele, retesava e quicava numa velocidade que nunca tinha pensando em fazer antes, seus cabelos eram longos e tingidos de um preto muito vagabundo, no mamilo rosado brilhada um piercing. Exótica, linda, habilidosa... ela rebolou sobre ele, finalizando-o, gania como uma profissional, seu suor parecia brilho de purpurina. Meu marido respirou com violência e retirou com facilidade a ninfeta de seu membro ainda endurecido, como uma pluma pequena deitou ela contra seu peito e a beijou no rosto.
— vista-se minha linda, minha mulher logo vai chegar.
Diante da cena de traição que vi diante dos meus olhos tudo que fui capaz de sentir não foi rancor, dor ou decepção. Afastei-me com rapidez e segurei a ânsia de vomito.
Eu senti inveja. Ela dava a ele o que eu não podia dar mais, juventude. Pus me a chorar enquanto me vestia para o jantar.
...
— mais salada? – questionei.
Sr. Brasel fez que não com a cabeça, concentrava-se no bife mais do que deveria, com certeza evitava-me. Ana não tinha decido para jantar.
— onde Ana está?
— lá em cima no quarto. Uma amiga dela veio trazer uns livros acho, não sei. – respondeu despreocupadamente meu marido.
Bati a faca com violência no prato sem querer, isso fez o senhor Brasel levantar a cabeça assustado, o encarei com doçura.
— algum problema com isso? – ele quis saber um tanto preocupado demais.
— nenhum – murmurei.
Ana desceu as escadas de mãos dadas com sua amiga, usava uma camiseta justa de banda que deixava a barriga negativa e piercing amostra, os cabelos estavam num coque e tinha um sorriso iluminado no rosto.
— pais Suzana, Suzana pais... – apresentou Ana com preguiça.
Encarei a garota, Sr. Brasel por outro lado nem fez questão de levantar o rosto. A doce angelical amiga da Ana, cavalgadora de maridos alheios.
— boa noite Sr. E Sra. Brasel. – disse ela ruborizando – a senhoa é linda
Apertei os punhos e os deixei cair no colo.
— obrigada meu doce, aceita jantar?
Sr. Brasel franziu o lábio e se concentrou ainda mais no seu bife;
Ela agradeceu mas foi embora. E assim finalizamos a refeição em silencio. Meu marido não quis deitar-se comigo aquela noite, ficou horas no escritório fumando e fingindo trabalhar, evitava-me. Beijei-o docemente sem correspondência antes de subir as escadas para nosso aposento, amanhã embarcaríamos para o Trivial Palace, e enquanto passava a máscara do sono de beleza só tinha duas certezas.
Amanhã começaria o teatro e essa traição não vai ficar barata.
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