Notas iniciais
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ANA

Enquanto os pais socializavam no saguão do hotel com todas social lights e gente chata demais para o gosto de qualquer ser humano com um pouco mais de cérebro, Ana levou sua mala para o quarto 177, na área vip do Trivial Palace, lançou suas coisas em cima da cama e sentou-se para descansar do longo jet leg que sofreu até sua parada final. Uma viagem excruciante de avião com o pai com sono demais para defende-la e sua mãe reclamando o tempo inteiro da sua má postura, das suas roupas não muito adequadas e do seu cabelo bagunçado. Além de tudo deixou escapar que não queria puta em sua casa, numa referência bem clara a Suzana.

Poderia jogar na sua cara que ela tinha bastante motivo pra ser puta, já que com o seu apoio estava tendo um caso com seu pai. Mas não gostaria de uma cena no espaço aéreo, não suportaria; se bem que conhecendo sua mãe ela começaria a morrer aos poucos para não perder a classe e definharia até o final do congresso onde so então tiraria satisfações que seu pai, a ideia a agradava.

Deitara olhando as maravilhas daquele palácio, mesmo indo para aquele hotel todos os anos, não cansava de se admirar com a beleza dele. Tinham cortinas brancas e pasteis que flutuavam com o vento, camas com doseis a moda antiga, vasos de planta, tapetes macios, vasos, quadros e lá fora a incrível paisagem da praia. Ana suspirou, todos esses anos e nunca arrumara um amor de verão. O que chegará mais perto foi ano passado, onde encontrou um rapaz hospedado de férias, tinha quase trinta e cinco anos e a enchera de beijos e carinhos, mas quando tentou despi-la fugiu completamente apavorada, correra para o quarto sentindo-se suja e errada. Já esse ano, bom... esse ano tinha quinze anos, era uma mulher e perder a virgindade naquela praia seria a consumação de um sonho ébrio de princesa.

Sua mãe e seu pai entraram no quarto de mãos dadas mas assim que a porta fechou-se atrás deles se largaram, o pai sacou o computador e deitou-se na cama, a mãe foi para o banheiro encher-se de máscaras e loções, bem... Ana, gostaria de sair e explorar. Banhou-se, arrumou-se de forma confortável, um suéter de lã azulado, uma saia plissada florida e uma tiara que tirava sua franja de cachorro da cara, os cabelos estavam estranhamente lindos para quem tivera dias de greve de pente, enquanto calçava as sapatilhas pensara quantos gritos ouviria se ousasse pintar as unhas de vermelho para o jantar de reunião essa noite.

Toda noite tinha um maldito jantar. Lembrar doía.

Na noite de introdução aos trabalhos de Congresso da Tradicional Sagrada Familia do Condado, um jantar era oferecido com direito a tapete vermelho e cobertura completa da imprensa, uma festa cheia de requinte onde as famílias deveriam se apresentar. Mas se apresentar uma ova, uma desnecessidade! Todos já se conheciam. Sorriam e se abraçavam como se fossem todos novidade.

Tinham eles, os Brasel, donos da Companhia Brasel, ramo de imóveis, uma das mais ricas inclusive, a mãe vestia-se como um pavão para o evento, de lembrar Ana já sentia as pontadas de vergonha alheia.

E com eles vinham os Black, da agência de publicidade, os mais fechados e soberbos de todos, os Feitosa, os latifundiários cafonas e muito ostentadores, com eles sempre vem os inseparáveis amigos e vizinhos Severo, cuja a riqueza juram e declaram que provem de uma herança mas qualquer um com um pouco mais de cérebro sabe que existe algo ilícito no negócio, os irmãos gêmeos Severos apesar de lindos são burros como mulas empacadas e por fim... os Trivial, dono do lugar, apesar do Sr. Trivial ter morrido não ter nem um ano direito a Sra. Trivial já estava casada e o playboy do seu filho assumia o lugar.

Em síntese, um banco de pessoas ricas, soberbas, esnobes demais, comendo canapês e bebendo coisas que custam a vida de um trabalhador enquanto exibem seus sorrisos e filhos perfeitos bem como casamentos inabaláveis.

Credo.

— mãe – Ana disse esquiva – vou explorar.

A mãe revirou os olhos e suspirou

— quero você aqui as dez, tem que se arrumar pro jantar.

O pai dormia, chegou nele e beijou sua testa, passou como um raio para mãe batendo a porta. Insuportável.

Virou-se e como criança começou a passar rápido pelos corredores, alisava a textura das paredes, o ar salgado era delicioso de sentir, podia ver por uma janela do corredor a movimentação intensa de funcionários recolhendo malas e recepcionando aviões particulares.

Tocou o vidro, de repente sentiu-se vazia, uma vida de shopping, cursinho, aula de dança e fotografia, hotéis como esse... pensava na vida das pessoas lá fora, fora dessa bolha, de pessoas como sua amiga Suzana, que trabalhava numa loja de cds pra comprar shampoos e calcinhas. Estudava com ela por uma bolsa que estudou muito pra conseguir

— se ao menos eu achasse um sentido pra minha vida...

Virou-se para continuar explorando mas bateu de frente com alguém fazendo sua pasta cair e papeis voarem.

—cuidado garota!

— eu sinto muito. – balbuciou atarantada tentando recolher os papeis.

— ta tudo bem – o rapaz começou a tirar os papeis de sua mão – deixa que eu cuido disso

Ana o analisou com cuidado, verificou bem a sua fisionomia.

— Charles?

— e você é...? – respondeu ele secamente como uma celebridade muito importante, que já esperava ser reconhecida, aquilo a irritou.

— Ana Brasel.

Ele levantou os olhos.

— você costumava ser bem feia ano passado. Bom... está... melhor.

— que forma torta de elogiar uma pessoa. – disse ela com rispidez.

— eu nunca te disse que estava te elogiando – beijou-lhe a bochecha de forma travessa e como bom cafajeste saiu andando sem mais delongas com seus papeis. – até mais ver minha cara.

Ana ficou completamente vermelha de irritação, e decidiu que desse dia em diante, Charles estava na sua enorme lista de pessoas detestáveis perdendo apenas para sua mãe.

Não vai ser uma temporada fácil.