Bom garoto mau
3 Percy
Notas iniciais
“Vocês podem me lembrar por quê eu vim?” É a primeira coisa que Piper pergunta assim que saímos do taxi. A verdade é que Piper se auto-convidou quando soube para onde estávamos indo, mas acho que a pergunta surge na mente de nós quatro quando paramos em frente a mansão intimidadora com parede de pedra.
Noto que Leo engole em seco, mas responde à pergunta de Piper ainda assim:
“Bem, é educado trazer garotas para festas, assim...” Antes que ele tenha a oportunidade de terminar sua piada babaca, Piper lhe dá uma cotovelada no estômago. Não parece o suficiente, então eu chuto sua bunda e Frank lhe dá um soco no ombro. “Tá, tá... Eu entendi, desculpa!” Diz, se contorcendo de dor.
Acho que ficamos parados por um minuto inteiro em frente a porta de madeira escura, em silêncio, olhando para cima. Aquilo é mais do que uma mansão, é uma casa de irmandade universitária, o que me faz automaticamente imaginar o bando de garotas perfeitas e ricas que moram ali. Estranhamente na minha imaginação todas têm o rosto de Annabeth, mas com cabelo diferente. A imagem é o suficiente para me fazer ter vontade de dar meia volta e sair correndo.
“Eu tô fora.” Frank tenta, mas o puxo de volta pela camisa. Preciso me esforçar para relaxar a mandíbula a fim de ser ouvido, entredentes:
“Vocês encheram meu saco para vir, então agora nós vamos entrar.” E adiciono, com a voz mais suave: “Fonte de chocolate, lembra?”
Até Leo ao meu lado suspira, falando para lembrar a si mesmo:
“Certo. Fonte de chocolate.”
“E depois vazamos.” Frank sugere.
“Depois vazamos.” Confirmo. Piper permanece quieta por enquanto. Quando eu bato na porta e nada acontece, ela toma a frente dizendo:
“Acho que devemos... Apenas entrar.”
Estamos hesitantes, mas a maçaneta abre facilmente. Seja lá do que forem feitas aquelas paredes, então fazendo um ótimo trabalho em abafar o som, porque assim que a porta está aberta podemos ouvir a música pop tocando alta. Frank diz alguma coisa que eu não consigo ouvir enquanto fecho a porta atrás de nós.
Quando paro para avaliar onde nos metemos, imediatamente consigo definir uma boa e uma má notícia. A boa é que ninguém parece dar muita bola pra gente. A notícia ruim é que maioria das pessoas ali está usando uma fantasia.
“Parece que estamos perdendo alguma coisa...” Frank comenta, absorto em meio as pessoas passando. Uma morena alta balança os dedos pra ele, o que o faz corar.
Acho que há outra boa notícia: ninguém ali parecer ser uma cópia de Annabeth. Na verdade, há pessoas de todo tipo, e ninguém parece em coma alcoólico ou drogado, o que é um alívio. Não que eu estivesse esperando encontrar vários playboys cheirando cocaína com seus cartões de crédito ilimitados, mas era exatamente isso que eu estava esperando.
Outra garota com cabelo loiro escuro em uma trança lateral para na nossa frente, o que não é uma surpresa, pois estamos congelados estranhamente quase na entrada. Ela está usando um vestido simples branco, o que não sei se é uma fantasia ou não.
“Quem convidou vocês?” Ela pergunta, subitamente. Não sei se devo interpretar a pergunta como ‘Quem chamou vocês pra cá, seus fracassados?’ ou como um educado ‘Quem vocês vieram encontrar?’, então simplesmente respondo:
“Annabeth.”
As sobrancelhas da garota se levantam, e ela faz uma segunda checagem em mim. Piper limpa a garganta.
“Ela está por aqui.”
Nós caminhamos para além da sala de estar, e agora não tem mais volta. No caminho, percebo que Annabeth foi modesta ao falar de uma fonte de chocolate. Em geral, festas desse tipo são sem graça porque, ao contrário das festas infantis, os jovens parecem esquecer o valor da comida e a substituem por álcool. Mas quem quer que tenha planejado esta festa merece um aumento de salário, ou pelo menos um tapinha nas costas, porque teve a sensibilidade de encher mesas enormes de comida de todo tipo.
“Que pena que eu já jantei.” Piper diz, não alto o suficiente para a garota de trança ouvir, mas nós rimos. A garota se vira para nós com um olhar crítico. Certo.
Quando finalmente encontramos Annabeth, ela está rodeada de um grupo de amigas, todas parecendo muito interessadas nela. Meus amigos param no caminho, só eu dou um passo para mais perto. A garota de trança sussurra algo no ouvido de Annabeth, e posso jurar que ela parece o maldito sol, ali, o centro do universo. Acho que isso faz de mim um dos planetas em órbita.
Seu sorriso não diminui nem um pouquinho ao me ver. Ela está verdadeiramente feliz hoje.
“Percy!” Sou surpreendido com um abraço e preciso fingir uma tosse quando nos soltamos, para disfarçar o meu rubor. É estranho com Piper, Leo e Frank ali, para dizer o mínimo. Minha vida antiga e minha vida nova colidindo, sem saber no que vai dar. “Que bom que você veio!” Annabeth não demora a notar meus amigos. “E vocês também, oi!”
Todo mundo murmura sua própria saudação desajeitada.
Eu me inclino para falar com Annabeth.
“Você não me disse que seria uma festa à fantasia.”
“Se eu dissesse, as chances de você vir cairiam em 60%.”
“Justo.”
Annabeth parece sentir o desconforto geral.
“Mas não é grande coisa, nem todo mundo veio fantasiado. Obrigada por virem. Essa é uma casa de irmandade, não é minha, mas podem se sentir em casa, eu acho. Vocês querem um tour?”
É Leo quem responde:
“Na verdade, nós só viemos por causa da fonte de chocolate.”
Preciso resistir ao impulso de revirar os olhos, mas Annabeth prontamente nos leva até a fonte de chocolate. Não é nada modesto, como era de se imaginar, uma extravagância no real significado da palavra. Necessário? Não. Mas se eles podem, eles têm. E, considerando que eu já fui em festa de gente rica que a extravagância em questão era uma escultura medonha de gelo, acho que uma fonte de chocolate ao leite merece o crédito simplesmente por ser delicioso.
Annabeth nos oferece um espeto para mergulhar frutas e doces no chocolate, e enquanto Leo e Piper não perdem tempo, Frank avalia o espeto metálico afiado, aqueles usado para comer fondue, coçando o queixo.
“Isso podia matar alguém, com um golpe na garganta ou algo assim.” Ao meu lado, o sorriso de Annabeth fica um pouco tenso, e ela sussurra para mim, meio de lado.
“Devo me preocupar?” Tenho que achar graça.
“Nah. Frank não machucaria uma mosca. Mas ele escreve para passar o tempo e, bem, precisa ser criativo na morte dos personagens, eu acho.” Ela assente uma única vez.
Com a boca cheia de marshmallow, Leo ressurge.
“Eu estava pensando, para a gente se enturmar, poderíamos dizer que estamos na verdade fantasiados. Piper de descendente cherokee, Frank de descendente chinês e eu de rapaz charmoso latino.”
Frank deixou de pensar em formas de homicídio e se rendeu às delícias do chocolate, mas comenta mesmo assim, espetando um morango.
“Isso é estúpido.”
“E um tanto racista.” Annabeth completa. Leo ignora as críticas.
“Quanto a Percy, bem... A gente podia enrolar uma dessas cortinas nele pra ficar parecendo uma daquelas túnicas gregas...”
Piper nos interrompe – graças à Deus – para dizer que somos muito legais, e tal, mas que ela vai dar uma volta antes que Leo nos envergonhe mergulhando a si mesmo na calda de chocolate ou arrancando uma das cortinas. Ninguém expressa algum protesto contra isso, os planos de ver a fonte de chocolate e depois vazar aparentemente esquecido.
Antes que Piper se afaste de fato, Annabeth diz:
“Se você se sentir desconfortável ou algo assim, apenas grite bem alto. Alguém vai aparecer para te tirar de qualquer situação chata.” Não sei se isso é uma expressão de parceria entre mulheres, mas faz Piper sorrir.
“Você pode me garantir isso?” Annabeth sorri de volta.
“Com toda certeza.”
Leo e Frank também se dispersam depois disso, cada um de uma forma estranha. Frank começa a conversar com uma garota pequena sentada num sofá próximo lendo um livro. Nós o deixamos lá. E Leo simplesmente some em algum lugar. Quase me preocupo, mas então me lembro que, bem, ele é na verdade um adulto de 22 anos.
“Só espero que ele não arranque nenhuma cortina.” Comento, e Annabeth ri. Por um segundo, acho que vamos compartilhar um silêncio constrangedor entre nós, ouvindo uma música que deve estar entre as top 10 mais tocadas da América. Mas Annabeth se apressa a dizer:
“Preciso pegar uma coisa, você espera aqui só um segundo?”
Ela some antes que eu possa responder.
E é então que eu me encontro sozinho, parado no que acho que é uma espécie de cozinha, ou sala de jantar. Balançando de um pé para outro, estou prestes a pegar um nacho para comer quando Annabeth volta correndo, com um brilho travesso nos olhos.
“O que é isso?” Pergunto, sorrindo porque ela está saltitante como um coelho, mas paro de sorrir quando vejo o que ela vem trazendo.
“Não consigo parar de pensar sobre a ideia do seu amigo.” Explica, levantando a coroa de louros na altura da minha cabeça.
“Annabeth.” Antes que eu posso dizer mais, no entanto, ela estala a língua e interrompe.
“Shhh. Não seja um estraga prazeres, Percy.” Tira os próximos segundos para arrumar a coroa perfeitamente, mexendo no meu cabelo. Ela é alta o suficiente para me alcançar sem que eu precise me abaixar, parecendo super concentrada na sua tarefa, mas há um breve momento que nossos olhos se encontram e ela sorri, o rosto suavizando.
“Onde você conseguiu isso?” Pergunto, me referindo à coroa que parece ter surgido do nada.
“Peguei da fantasia de alguém.” Annabeth afasta as mãos do meu cabelo, aparentemente satisfeita. Eu acho graça ao montar a imagem dela furtando parte da fantasia se alguém e depois saindo correndo. “Que foi? Fica melhor em você.” Até o mais forte dos homens podia se perder no sorriso dela neste momento.
Alguém assobia, e então de novo, até eu perceber que estão assobiando pra mim.
Um cara, de braços dados com uma garota aponta para a minha cabeça e diz: “Tá bonito, mano.” A menina ao seu lado balança a cabeça negativamente, sorrindo.
Em reposta, eu faço uma reverência idiota que tenho quase certeza que os gregos não faziam, mas a risada de Annabeth tilinta nos meus ouvidos.
Bem nesse momento, alguém puxa um microfone do nada e, com a música baixa, diz após subir na mesa de centro da sala: “Agora é a hora dos jogos retrô de festa!” Há uivos de felicidade e vaias em resposta, pessoas se amontoando na sala e outras se dispersando.
Olho para Annabeth, concluindo que ela parece tão animada para os “jogos retrô de festa” quanto eu – o que não é muito. Na verdade, não sei dizer nem se sei o que exatamente são jogos retrô de festa.
“Se eu te chamasse para dar uma volta nesse momento, você diria que estou te tirando da festa na melhor hora ou ficaria grato?”
Minha risada é puramente alívio. Gratidão, com certeza. Em voz alta, digo:
“Eu acho que você têm um timing perfeito, Annabeth Chase.”
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