Notas iniciais
eu empaquei no começo desse capítulo, enfim. ele é um capítulo de transição, porque define onde o "antes" começa. espero que continuem acompanhando a fic ♥

Eu tropeço nos degraus do lado de fora e quase acabo com a cara no chão, mas Percy não nota, ou finge não notar. Quando ele termina de fechar a porta lateral da casa, lhe ofereço um sorriso amarelo.

A impressão que eu tenho é que, quando estou sozinha com ele, é isso que faço: tento forçar uma amizade ou familiaridade entre nós que não existe. Lá dentro, pelo menos, eu tinha uma porção de coisas divertidas com a qual ele podia se distrair. Funcionou, Percy até deu a entender que eu sou legal. Quer dizer, mais ou menos. Ele disse que eu tinha um timing perfeito, o que devia ser uma coisa boa, certo? Acho que sim. E ele trouxe seus amigos, e disse meu nome. Annabeth. Eu consegui até ver que, sim, ainda existe uma lasquinha no seu dente da frente.

Mas tenho que parar de pensar demais sobre tudo isso, porque se não ele vai notar, e então vai dizer sarcasticamente que estou pensando demais e que meu cérebro vai explodir.

“Vamos caminhar?” Sugiro de súbito, soando afobada demais para os meus próprios ouvidos. A última coisa que quero fazer é caminhar, honestamente, porque meu rosto está ficando avermelhado do frio. Mas Percy parece perfeitamente bem, concorda com um aceno e lidera o caminho. Noto que ele parece ter esquecido que a coroa de louros está na sua cabeça, então ela permanece lá, perfeita.

Preciso limpar minha garganta umas duas vezes antes de me sentir confiante para falar, e mesmo assim Percy fala primeiro:

“Você ainda tem todas aquelas alergias estranhas?” Meu rosto começa a ficar vermelho de novo, dessa vem por outro motivo além do frio. De todas as coisas que ele tinha pra lembrar, precisava mesmo ser aquilo?

“Não é uma alergia estranha, é uma reação completamente normal ao clima frio.” Digo, já sentindo uma dor de garganta começar.

“Eu me sinto muito bem.” Responde Percy, respirando fundo como se o ar estivesse fresco, e não desconfortavelmente frio. Preciso bufar em resposta, colocando minhas mãos nos bolsos do casaco, apenas para perceber que não estou de casaco.

Percy para, sorrindo como o provocador que ele é, e preciso me lembrar que não posso ficar irritada. Provocação é só o jeito normal dele se comunicar.

“Você quer voltar para dentro?”

Eu continuo caminhando firmemente em direção a algum lugar.

“Não. Estou ótima.”

Consigo praticamente ver ele rindo e balançando a cabeça negativamente. Tenho certeza que Percy faz isso, mas é estranho porque estou de costas para ele. É essa percepção que me faz parar abruptamente e me virar de novo. Percy quase esbarra em mim, mas para no último segundo, talvez perto demais. Dá um pequeno passo para trás.

“O que houve?” Preciso levantar um pouco o queixo para olhá-lo nos olhos. “Ah, não. Você está com aquele tipo de olhar de novo.”

Eu pisco, hesitante.

“Que tipo de olhar?”

“De quem está pensando muito.” Da próxima vez, sua voz suaviza. “No que você está pensando?”

Preciso respirar fundo antes de falar.

“Estava pensando em como, na semana passada, eu estava certa que minha vida inteira tinha mudado, e de repente parece que tudo está igual a 5 anos atrás.” Não tenho ideia de como isso soa para Percy, não sei nem como eu mesma entendo isso, então não me surpreende a sua demora a responder. Quando Percy olha por cima do meu ombro, para um ponto além, quase parece irritado com as suas sobrancelhas franzidas.

Alguns segundo se passam, e ninguém diz nada. Percy não olha pra mim e põe as mãos nos bolsos – ele teve a sensibilidade de sair de casa agasalhado – e percebo a música da festa chegando levemente até nós pelas janelas abertas, mas parece um outro mundo muito distante.

Percy me encara de novo, sério.

“O que exatamente te deixou com a sensação de que nada mudou em 5 anos?” Eu o encaro sem dizer nada, e demora um segundo para a realização lhe ocorrer. “Ah.” Dessa vez, posso jurar que há um sorriso no canto dos seus lábios pedindo para aparecer, sua expressão amolecendo.

“Pois é.” Antes que ele possa tirar onda com a minha cara, eu volto para a caminhada.

Há um pouco de grama nas laterais da casa de irmandade, que não se dá muito bem com os meus saltos, mas eu até que estou conseguindo manejar bem. Demora um pouco para Percy voltar a me acompanhar.

“Bem, eu tenho uma teoria.” A coroa de louros escorregou um pouco e agora está torta, empurrando um mecha grossa de cabelo preto para a testa de Percy.

“Estou ouvindo.”

“Você está se referindo a uma sensação de familiaridade, não é?” Meu coração salta um pouco, porque falando daquele jeito faz parecer que ele está sentindo a mesma coisa. Um minuto atrás, eu estava certa que estava inconveniente e forçando o sentimento entre nós.

“É.”

“Pois bem, aí está. Eu sou familiar, ainda que quase todo o resto tenha mudado. Você sabe, dos 17 anos em diante é onde o ser humano encontra a estabilidade.”

Eu preciso bufar bem alto para isso, pensando em como definitivamente não posso definir minha última semana como ‘estável’.

“Fale por você, Percy Jackson.” Ele sorri, como se soubesse exatamente o porquê da minha incredulidade, embora eu duvide muito.

“Não desse jeito. Não financeiramente ou o que for. Eu quero dizer, sabe, estabilidade em quem nós somos no íntimo.”

Toda aquela conversa o faz soar como se Percy tivesse lido muitos livros de Filosofia nos últimos anos, ou pelo menos passado longas horas na terapia. Não digo isso em voz alta, no entanto, porque tenho medo de soar como se estivesse zombando dele. Ao invés disso, penso seriamente sobre o que acabou de dizer.

“Quer dizer que você é o mesmo de 5 anos atrás?” Questiono, um pouco incrédula.

“Essencialmente, acho que sim.” Eu faço um murmúrio de compreensão, embora na verdade não compreenda. “Você sabe, valores, ideais, e etc. Sou todo o mesmo.” Percy leva uma mão na altura do peito, enquanto olha para o chão, o que definitivamente me ajuda a entender do que está falando. Ele quer dizer que no fundo do coração ainda é o mesmo, embora essa frase soe brega demais para se dizer em voz alta.

“Só do lado de fora que eu fiquei mais bonito, você vê.” Completa, acariciando o queixo que parece mesmo mais maduro agora. Não sei se ele espera que eu negue ou alimente sua autoconfiança, mas acabo sem fazer nenhuma das duas coisas, porque não me parece que seu ego precise ser alimentado e nem quero ser mentirosa.

“Você estraga tudo comentando.” Digo, ao invés, e Percy sorri de lado.

Depois de mais um momento de caminhada, que eu tiro para digerir a conversa, volto a falar:

“A verdade é que eu não gosto de pensar que sou a mesma de 5 anos atrás.”

Percy para abruptamente. Dou mais um passo antes de me virar para ele.

“Que foi?” Ele está com aquele olhar de novo, intenso, sobrancelhas grossas um pouco franzidas e boca numa linha reta.

“Por que?” Eu abro a boca uma vez para responder, mas então volto a fechar. “Você não gostava da Annabeth de 17 anos?”

Isso me faz ranger os dentes, sem saber para onde direcionar minha raiva. Um segundo depois, percebo que na verdade o vazio no meu estômago não é irritação, mas vergonha.

Acontece que é fácil para Percy dizer que já encontrou sua estabilidade, seu verdadeiro eu. Isso porque pessoas como ele são essencialmente boas, e quando olham pro passado não devem encontrar motivos de vergonha. Quando penso em mim 5 anos atrás, no entanto, o que vejo é uma garota rica, mesquinha, hipócrita, superficial e volátil. O sentimento mais bondoso que consigo ter em relação à ela é, no máximo, pena. Pensar na possibilidade de ainda ser essa garota, como Percy sugeriu, na verdade é quase o suficiente para me desesperar.

Não digo nada disso em voz alta, mas devo parecer muito miserável, pois Percy dá um passo decidido na minha direção. De repente tão perto que quase mordo minha língua.

Embora não me sinta confiante, consigo lhe encarar de volta. Não há suavidade em seus olhos verdes, mas apenas aquela confiança certeira de garotos impertinentes, o mesmo olhar que eu vi antes, várias vezes, 5 anos atrás. Aquele olhar que fazia parecer que Percy estava prestes a dizer uma verdade cruel, quando no fim ele diz algo... Não cruel, na verdade.

Dessa vez, de forma sucinta e sem perder tempo com explicações, tudo que ele diz é:

“Eu gostava.”

Notas finais
espero que não tenha matado ngm de tédio..... enfim, no próximo a história começa de verdade, e prometo que volto logo. um grande beijo ♥