Blues Moon

11 O Louco - Reflexões


“O próprio sonho me castiga.
Adquiri nele tal lucidez
que vejo como real cada coisa que sonho.”
Fernando Pessoa

O LOUCO

“A vida é um sonho inacabável. Quando acordados estamos ao dia claro, tampamos a luz das estrelas que são como sonhos, somente as noites, retira-se o véu que o nosso desperto ego cega. Contudo, há aqueles que descobrem o grande mistério, que desvela o dia e iluminam as noites com sua própria luz."

Reflexões

Sentia um cheiro estranho, algo amargo com azedo, lembrando putrefação, a vontade era de vomitar, aí percebera que seus sentidos estavam de certa forma às tonas. Não teria mais vontade de voltar, era um jardim feio, para não dizer horrível, mas não teria tanto tempo para observar ao seu redor. Sentia o peso do clima, tensão e mal estar, isso o levaria em prontidão a porta. Encontrava-se no dilema, batia ou não na porta, contudo ao ouvir um som que parecia ter vindo de algum canto do jardim, não pensaria duas vezes, abre a porta e fecha rapidamente. Dentro do recinto, sem perceber, ao redor apenas era iluminado por velas de cor cinza, parecia que até o momento não viu nenhuma cor viva em todo o ambiente que atravessou, era realmente assombroso.

Em sua frente havia uma escada que levava para o segundo andar, neste andar parecia desmobiliado, com aparência de abandono, as velas denunciavam que havia algo estranho ali. Encostado ainda na porta, com medo de algo de fora entrar, observara bem ao seu redor, logo a sua direita havia um acesso para outra parte da casa. Sentia a corrente de ar que havia lá dentro, quando percebeu as velas iam se apagando uma a uma, ficando no total escuro. Um momento de silêncio, seu coração batia mais forte, e sua respiração ofegante pelo pavor que lhe sucedia no instante, até gelar sua espinha ao repercutir uma risada que não se sabe sua origem.

Uma luz clareou do nada, apenas um ponto no meio da sala, ali havia uma figura, que de espanto se pôs logo a fitar boquiaberto. Era uma iluminação de palco, parecia uma pessoa de costa com uma vestimenta peculiar, começaria descrever tal figura: Havia um bastão na mão direita, no seu ombro esquerdo estava uma vara apoiada com um gato amarrado pelo rabo na extremidade que poderia estar morto; vestido como um bobo da corte, todo preto e branco nos diversos quadrículos pequenos que se intercalariam até em suas sapatilhas negras, assim como as luvas das mãos também eram. Seu gorro lembrava a forma de uma estrela de cinco pontas, este era tudo branco, e, pontiagudos nas pontas da cobertura onde saíam fitas negras numa cada.

— De onde viemos? Quem somos? Para onde iremos? — Estas palavras dirigidas ao Hector, que fitava aquela figura virar lentamente, logo visualizaria ele por completo, os olhos arregalaram ao notar que:

— Sou eu... — falou abalado. Era um espanto, ao ver seu rosto sorrindo exatamente em outro corpo que se sabe lá se era ele mesmo. Contudo, Hector, perplexo da situação, ainda observara a figura, que na altura do peito, o tecido desenhado com um coração enorme que se dividia ao meio em preto, e na outra parte branco. Dentro dele mesmo, pensava, agora queria perguntar mais vezes mesmo “quem sou eu realmente?”.

— O que há de temer, a temer a si mesmo? — riu a figura desproporcionalmente.

— Acho que a loucura se aproximou demais, se ainda tenho medo, prova que estou vivo ainda. — declarou impaciente.

— Vale a pena viver? Mesmo com tantos sofrimentos, sabendo que um dia irá morrer de qualquer jeito? — Dessa vez falou com certa malicia ao sussurrar estas questões, e mantivera seu sorriso largo com olhos arregalados, ansioso a ouvir uma resposta. Eram perguntas difíceis para Hector naquele momento, colocou-se a refletir por um instante, não parecia haver uma resposta simples. Um breve insight decola em sua mente, ele levanta o braço direito, e aponta o dedo a figura com seus olhos convictos:

— E quem disse que a morte é o fim?