Blues Moon
9 Daisy - Incenso
“Cresci no meio de livros, fazendo amigos invisíveis
em páginas que se desfaziam em pó
cujo cheiro ainda conservo nas mãos.”
Carlos Ruiz Zafón
DAISY
“A força em que martela, mantém presa a nota em cada pedaço da memória, a música se torna desafinada.”
Incenso
Assim cai a primeira gota a tocar em sua testa, tão lento que o tempo pararia naquele instante, algo estranho ele desconfiara, “que água estranha” – nem tão pouca estava fria e não o molharia, estava viscosa como óleo. Curioso para abrir os olhos, percebia que aquela água ao tocar seu corpo se transformava em fumaça de uma cor branca, que começava preencher o ambiente, seu odor logo verificou que era de mirra realmente, era perspicaz nesse assunto.
Depois de ter esvaziado o aquário, Hector se sentia realmente estranho, com sensações adversas e sublimes, nunca sentira algo daquele jeito, estava emocionado perto de chorar, sua garganta doía. Ele via agora toda a sala se neblinar, as imagens estavam ficando opaca, sua visão turva ao deparar com tudo aquilo, e Sara quase imóvel recuava devagar, sua impressão era de que ela partiria.
— Sara! — Expressava como um menino abandonado.
— Escute o silêncio... — ecoava profundamente a voz dela, e desaparece.
Ele se ajoelha, as emoções eram fortes, as mãos apertavam seus peitos, queria arrancá-los, estava tremendo, estava suando, estava agitado, estava – parou! Agora, sentira tão leve, como o mais puro alívio, como depois de sair do banho, e, deitar-se logo após, ou alguma droga prazerosa, era o mais próximo que ele poderia descrever. Ouvia um som baixo que parecia ser de um rádio, e aumentava gradativamente, junto surgiriam outros sons, como vozes, barulhos de automóveis, objetos caindo, batidas, etc. E no meio dessas uma voz grave — muito grave e sombria — começaria baixo, mas que se aproximava. Chegou a tal ponto que fora tão alto que, era algo que gritaria aos seus ouvidos e tampou na esperança de amenizar; permanecia no chão agora agoniado por diversos barulhos, até que no meio dessa balbúrdia, captou: “Amor”. Nesse momento ele respirou fundo, se levantou concentrado a ouvir esta voz que suava como música novamente, fechou os olhos e soltou o ar mais leve agora, os ruídos diminuiriam – esperava ouvir, a que lhe parecia uma voz particular, lembrava o de Ariane, em sua memória via o gentil sorriso dela.
Os sons ecoavam baixos e desapareciam um a um, se deu conta de que ainda sentia o cheiro de mirra ao seu redor, mantivera os olhos fechados, e uma imagem interferiu: “Luc!” – Exatamente nesse momento abriu os olhos, despertado, quando deparou com a luz que vinha da sacada, a sala normal como sempre fora, somente apenas uma leve brisa tocava o seu rosto. Hector deitado suspirava, parecia ter tido apagado outra vez, sentia-se livre agora, e olhava para fora em direção ao horizonte. Ao olhar para o aquário viu que mudaram as cores do peixe, estava agora preto e branco, deu um passo para trás muito desconfiado de como se aquilo não fosse possível. A sede lhe despertara, pensou em ir até a cozinha tomar água, porém, ao se virar, ali vê uma figura muito estranha em sua frente, uma sombra – em forma de gente, tudo escuro, um espectro para sua visão, o espanto nessa hora foi grande que o fez travar espontaneamente. O que seria aquilo dessa vez?
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