Blueprint

1 Prelúdio


blueprint é um design original, planta,

projeto original que dá início ao resto



Da favela, da humilhação imposta pela cor

Eu me levanto

De um passado enraizado na dor

Eu me levanto

Sou um oceano negro, profundo na fé,

Crescendo e expandindo-se como a maré.

Deixando para trás noites de terror e atrocidade

Eu me levanto

Em direção a um novo dia de intensa claridade

Eu me levanto

Trazendo comigo o dom de meus antepassados,

Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.

E assim, eu me levanto

Eu me levanto

Eu me levanto.



maya angelou, still i rise



Rose notou que era negra quando sua mãe a olhou nos olhos como se tivesse apenas um segundo para dar uma lição indispensável, aos cinco anos:

— Rose, não deixe que sejam maus com você por conta da sua pele.

Ela não entendeu muito bem, mas o recado fez sentido quando ela assistia os cachos abundantes de sua mãe dançarem entre a maré lisa do Ministério. Ou o longo turbante em sua cabeça nos eventos de Gala, a tornando tão única. Entretanto, em casa, Rose a ouvia se estressar com o pai, comentando sobre olhares, comentários maldosos, risos... Então Rose se perguntava o porquê dela não alisar o cabelo, evitaria tudo aquilo.

E no dia seguinte lá estava sua mãe, novamente de cabelo armado, ou de tranças, ou com acessórios típicos...

Então, Rose continuou indo com seu black armado nas aulas de História da Magia, mesmo com Melonie bufando e batendo os pés no chão com insatisfação, resmungando para as colegas que não conseguia enxergar nada. A Granger-Weasley chegou em um ponto de provocação que ela aumentava um pouco mais a cada aula. Quando se enjoava, colocava um turbante tão longo quanto o de Erykah Badu.

Rose não se estressava quando o assunto era raça, ela nunca se estressara, ela tem uma boa quantia de deboche para gastar com suas amigas brancas e um braço longo o suficiente para questionar professores sobre a falta de autores negros na apresentação de teorias.

Quando ela sentiu dois dedos brancos em seu ombro, Rose continuou olhando para frente:

— Será que você poderia prender isso que você chama de cabelo? Eu também quero assistir a aula. – Rose grudou seus olhos negros nos dedos brancos em seu ombro e virou-se lentamente enquanto a sala tomava ar.

Entretanto, o início do fim do mundo também estava acontecendo no intervalo de aulas da Corvinal, onde Fred II gargalhava com seus colegas.

Diferente de Rose, Fred notou sozinho que era negro, quando a casa de sua avó materna era bem diferente da casa de sua avó paterna e por mais que ele insista em dizer que ama as duas igualmente, a sensação de estar em casa é mais forte na casa de sua avó Ifemelu, mãe de sua mãe.

Ele ficava apaixonado pelas músicas, pela cultura africana impregnada naquela parte da família. Com seus tios escritores e professores, descobriu Malcom X, Martin Luther King, Rosa Parks, Angela Davis, para literatura trouxa, enquanto os outros liam um pouco de Tolkien, Fred II não conseguia parar de ler os escritos de Richard Wright, Chimamanda Ngozi, Imbolo Mbue, completamente apaixonado pela poesia de Maya Angelou, os versos de Alice Walker ou Chinua Achebe e outros.

Fred II dividia-se em ouvir música propriamente dita ‘negra bruxa’ e ‘negra trouxa’ e sua mente explodiu quando ele ouviu To Pimp a Butterfly do Kendrick Lamar, algo que ele jurou que não aconteceria desde que seus ouvidos tocaram um disco de Nina Simone.

Tomar conhecimento de sua cultura foi determinante para tudo que Fred fazia e também foi algo que, de alguma forma, quebrou algo sem nome em relação a ele e James. Um tipo de pureza em que ele sentia que jamais teria com James uma real ligação, uma ligação que ele sentia ao ver um bolsista Nigeriano passar por ele e eles se cumprimentarem apenas com um olhar silencioso: Irmão, sou igual a você.

— Eu vou morrer! — anunciou James, fazendo Fred II gargalhar. – Ela é tipo a garota mais linda que já vi na vida, eu estou... Sério, eu nem sei falar.

— Catherine Davis é bonita, realmente, mas ela é osso duro, já te dá dor de cabeça agora, imagine... Sei lá, fico em duvida se gosto dela só porque ela tem o sobrenome da Angela Davis. – riu Fred, aceitando o cigarro que James oferecera, acendeu o cigarro e amaciou a gravata azul, ignorando o olhar penetrante de algumas garotas no quinto ano, no pátio. James notou os olhares e deu um sorrisinho para Fred II.

— Precisa contar à elas que precisam nascer de novo, de preferência negras, pra atraírem você. – debochou James, fazendo Fred rir novamente.

— Idiota. – ele tragou o cigarro novamente, ficando de costas para as meninas. – Ei, Pete, e aí?

— E aí, sobre o que estão falando? – perguntou o Capitão do time da Corvinal. Fred II não gostava muito dele, mas acabava engolindo pela convivência e por ele ser o batedor do time.

— A possível namoradinha de James. – sorriu Fred II.

— Sério? Quem é a felizarda? – sorriu Pete, pegando um cigarro em seu bolso.

— Catherine Davis, da Sonserina. Conhece? – Pete levantou as sobrancelhas, com um sorriso malicioso que deixou James incomodado.

— Eu só sei que ela deve fazer um caldo...

— Caralho, que porra é essa? – alterou-se James, abrindo os braços. Fred II segurou o riso com a reação do primo, mas ficou confuso com a fala de Pete, que tragou o cigarro e deu de ombros, também querendo rir do Potter.

— Eu só quero dizer que tipo, minas negras normalmente fodem muito melhor que brancas. – ele falou tão naturalmente que a primeira reação de Fred foi congelar, assim como James, entretanto, a indignação de ambos era diferente. O Weasley jogou seu cigarro no chão e inflou o peito:

— Cara, você tá ficando louco?— empurrou o ombro de Pete, fazendo seu cigarro cair no chão, assustando o garoto.

Mas o início do fim do mundo começou para Roxanne uma semana antes:

Roxxy sempre fora reconhecida por sua beleza. Ela herdara as melhores características de ambas as raças, tinha os belíssimos olhos azuis de qualquer Weasley e a pele num tom perfeito em que o tom escuro de sua mãe encontrara o tom claro de seu pai. Seu cabelo não se decidira entre o crespo e o liso, então ficou no meio termo, lhe dando versatilidade para usá-lo como quisesse, dependendo de seu humor.

Assim como Hugo, Louis e Lily, ela era a última de sua geração a ir para Hogwarts, todos os seus primos e irmão já estavam entrando no último ano enquanto ela ainda tinha que se acostumar com a triplicação de matérias no 3º ano. Entretanto, como todo Lufano, Roxxy tinha muita paciência e ânimo para atividades, logo não foi uma surpresa sua entrada para o Centro Acadêmico de Hogwarts.

Na véspera do seu primeiro dia no CA, ela mexeu-se na cama a noite inteira, pensando nas pautas revolucionárias, mas tudo que encontrou foi:

— Nosso foco agora está sendo a abolição dos uniformes. – sorriu uma Lufana do sétimo ano, fazendo Roxanne realmente se esforçar para esconder a decepção.

Ela não conseguia acreditar que a maior preocupação daquele grupo de estudantes é ir para as aulas de pijama enquanto Hogwarts claramente tinha problemas sociais em relação à bolsistas e intercambistas, problemas raciais tão gritantes, já que apenas 2% da população da escola era negra, sem contar as questões de gênero, quantas denúncias de agressão tiveram sobre...

— Ah, Roxxy, essa era uma preocupação nossa com sua entrada. – ela olhou o grupo de estudantes da CA, notando que eles eram muito parecidos por serem brancos e se vestirem como qualquer aficionado por plantas normalmente se vestem. Ela odiava o tom de voz calmo e sonso que eles tinham com seus cigarros naturais. – Isso aqui não é o Panteras Negras.

— Eu acho que sei disso. – retrucou ela, irônica.

— O que queremos dizer é que não podemos adotar essas pautas, porque são muito pequenas.

Pequenas?— esganiçou Roxanne. – Fala sério, os intercambistas do Congo são ridicularizados todo santo dia...

— Roxxy, Roxxy, meu anjo... – acalmou uma garota ruiva de dreads, o que ofendia Roxanne em níveis que ela desejava ter o ódio de Fred II toda vez que a via – Nós lutamos por causas que abrangem toda a escola. Não se lembra da felicidade que foi quando conseguimos quatro passeios à Hogsmeade por mês?

O MAIOR PROBLEMA DE VOCÊS É UM PASSEIO?, berrou Roxanne mentalmente, olhando o quadro do fundador do CA. Teddy Lupin parecia sorridente e ela queria saber se ele gostaria de ver o que aquele lugar se tornara.

Porém, o início do fim do mundo nunca realmente chegou para Hugo, ele apenas assistiu se aproximar e suspirou, segurando a língua. Um bom exemplo seria quando duas garotas passaram uma hora e meia reclamando do afro de Zadie na frente dos dois. O Weasley quis tocar o ombro da garota e dizer o quão lindo era seu cabelo, mas não conseguiu. A coragem nunca veio, nem para armar um barraco contra os garotos e muito menos para dar força à sua “irmã de cor”.

— Você fica com o preto! – brincou um garoto de aparelho dental e Hugo observou o nada como se estivesse em um sitcom e a plateia provavelmente iria gargalhar porque ele ficou com as peças pretas no Xadrez.

Mas o ponto alto dos absurdos que ele viu em Hogwarts foi alguém perguntar à Ben Okri se ele podia fazer uma macumba para ajudar à Grifinória a ganhar o jogo de terça. Hugo gostaria de se intrometer, mas por amar muito ficção científica que sua irmã define como “bem-vindo ao espaço, entrada só para brancos” e achar Biggie Smalls difícil demais de entender pelas gírias, Hugo não se sente negro o suficiente e muito menos branco.

Ele era algo a parte.

“Gostaria que não se sentisse assim”, disse Alice Longbottom em BSL (British Sign Language), Hugo deu de ombros e falou uma gíria na língua de sinais, feliz por poder passar um tempo com uma amiga muito querida.

Ou não tão amiga assim, já que ele está burramente apaixonado por Alice.

rnp — cordae ft. anderson .paak

Os dois continuaram andando pelo corredor da Biblioteca até Hugo ser surpreendido por dois monitores estarem escoltando uma Rose raivosa e de cabelo bagunçado e Fred, com o olho roxo e boca sangrando. Hugo sequer se moveu quando Roxanne chorosa agarrou seu braço, o fazendo seguir os dois, que marchavam para a diretoria, com Zadie, Catherine, Kamau, Ben e muitos outros atrás.

Todos negros, sua maior parte.

Ele atrapalhou-se com seus pés e seguiu o grupo, abaixando-se para pegar o broche de Fred II, que ele gostava de colocar em sua capa.

O fundo branco, o punho negro fechado, com a legenda “liberdade”.

Hugo seguiu o grupo rumo a diretoria.