Blueberry

1 Um pé na estrada eu vou botar


Notas iniciais
O poema é de uma música chamada "Lá vou eu" do filme Irmão Urso, então não é minha.

Elesis não sabe como é sentir a sensação da grama entre seus dedos ou nadar em um rio. Ela não sabe como os fogos de artifício se parecem ou como são feitos. Sua mãe disse que eles são uma explosão de cores no céu.

Ela não sabe como se comunicar com outras pessoas, nunca foi ao mercado e nunca provou chocolate. Nunca viu outro animal sem que fosse pássaro ou inseto (ela vira vaga-lumes em uma certa noite, mas pareciam mais luzes brilhantes).

Elesis não sabe dançar, pois nunca ouviu música, porém sua mãe cantava algumas vezes para ela dormir.

Ela nunca usou calças ou sapatos (tudo naquele lugar era limpíssimo), mas já colocou algumas flores no cabelo: margaridas que sua mãe colhia no jardim e as entregava para ela. Porém nunca se viu no espelho, então não tem a mínima idéia de como se parece.

A garota suspirou, deitada no chão com a barriga para cima e os olhos fitados no teto. É claro que ela queria aprender, fazer e sentir todas aquelas coisas, mas não podia sair. Todo o conhecimento que ela tem do mundo lá fora são graças à sua mãe e aos livros.

Ah, os livros.

História, geografia, artes, astronomia, ciências, literatura... Ela precisava de mais livros, já estava começando a ficar entediada de novo.

Não. Ela precisava de um livro de magia. Sua mãe é portadora dessa habilidade, mas sempre fica com raiva e põe Elesis de castigo quando esta traz o assunto pela vigésima vez.

Outra coisa que incomoda a garota é sua cabeleira exagerada. Ela é útil no inverno, já que a mantém aquecida, mas no verão é realmente um tormento. Faz sua nuca suar e pentes quebrarem quando ela tenta pentear. Depois de um bom tempo e dinheiro gasto com pentes de madeira, ela decidiu deixar assim, mesmo tropeçando em alguns nós de vez em quando.

Houve um dia em que sua mãe chegou de uma longa viagem. Elesis estava tão feliz em vê-la que correu em sua direção e tropeçou em alguma mecha de cabelo que ficou presa em alguma mobília. A menina caiu e bateu a cabeça no chão tão forte que quando colocou a mão na testa sentiu sangue. Aquele foi o primeiro dia que tinha sentido aquele tipo de dor. Isso a intrigou muito, pois a fez pensar em quantas sensações ela poderia sentir ao longo de sua vida.

Foi também nesse mesmo dia que Elesis pediu para sair da torre pela primeira vez. Sua mãe explicou que há muitos ladrões e homens maus que podiam fazer algum mal a ela e que não estava pronta ainda. Mas então, quando estaria pronta?

Ela gemeu e virou de lado, dando de cara com um livro de poesia que sua mãe tinha comprado há um bom tempo atrás. Revirando algumas páginas, encontrou o primeiro poema que tinha decorado:

“Um pé na estrada eu vou botar

Que já está na hora de ir

Um lindo horizonte e um céu azul

O que mais eu poderia pedir?”

A garota imaginava-se cavalgando e olhando para o horizonte, onde ouvia o canto dos pássaros e sentia a leve brisa do vento em seu rosto.

Porém seus pensamentos foram rapidamente interrompidos quando vozes vindas de lá de baixo chamaram sua atenção. Lá de baixo, pensou ela, onde a grama é macia e meus sonhos são distantes. Levantou-se num pulo e correu em direção à única janela da torre, tomando cuidado para não tropeçar no seu longo cabelo e não ser vista por ninguém.

No momento em que as vozes ficaram mais audíveis, Elesis tentou não ter um ataque quando levantou a cabeça para espiar. Estava gritando por dentro, uma explosão de emoções que nunca tinha experimentado antes. As únicas vozes que ouvira na vida foram a da sua mãe e a das aves. Não era nada parecido com... isso! Eram definitivamente mais de uma pessoa e claramente eram homens, pois lera em um livro de biologia que a voz do sexo masculino é naturalmente mais graves e profundas. A não ser que nesse caso seja uma mulher muito máscula (isso existe?).

Seus olhos arregalados reconheceram três homens: um ruivo, que possuía uma voz gentil e estranhamente agradável de ouvir. Um moreno, cuja voz era extremamente alta, porém reconfortante e amigável. E por último havia outro de cabelos azuis. Sua voz era suave e carregava um tom cansado, como alguém que acordou com o pé esquerdo (seja lá o que isso significa. Ela sabe o que quer dizer, pois sua mãe fala isso às vezes) e não está para brincadeiras.

Elesis não conseguiu ver seus rostos ou qualquer outro traço físico. A não ser o azulado de voz suave, que era mais alto e aparentemente mais velho. A altura da torre era tão grande que a menina não conseguia focar seus olhos adequadamente em alguma coisa. (Provavelmente os pontinhos brancos embaçados eram as margaridas).

Os três estavam discutindo sobre alguma coisa, mas Elesis só prestava atenção em suas vozes, que agora a fascinavam. A do moreno de cabelo castanho era a que mais de destacava, e se ela se concentrasse o suficiente, podia ouvir a do azulado e alguns comentários do ruivo.

- Não foi minha culpa que perdemos os cavalos! – ela ouviu o moreno exclamar. As sentenças que eles formavam ficavam mais audíveis à medida que se aproximavam da torre. – Era sua responsabilidade cuidar deles também! – ele agora apontava para o ruivo, que se preparava para formar um argumento em sua defesa quando o mais velho interrompeu:

— Chega! Vocês dois! Não importa de quem é a culpa, isso não vai mudar nossa situação. – ele falou em um tom irritado. Os dois estavam sendo repreendidos e o moreno olhava o chão fingindo estar arrependido enquanto o ruivo suspirou e olhou para a torre, curioso. Seus olhos se arregalaram quando se dirigiram para o alto e encontraram os de Elesis. A menina congelou. Estava tão intrigada com os novos desconhecidos que nem pensou em se esconder (que é o que deveria estar fazendo).

— Alguém aí?! – ela ouviu o ruivo gritar. Elesis saiu do choque e afastou-se da janela, tentando não tropeçar no cabelo e acalmar sua respiração. Ouviu algumas frases como “Não seja estúpido” e “Não tem ninguém aí”. Em seguida ouviu o azulado dizer “Não tem como alguém viver aí. É impossível”

Elesis, por algum motivo que gostaria muito de saber (talvez pelo fato de que ela era diferente e não queria mais viver nessa torre, mas não admitia), tomou isso como um insulto. Enchendo-se de raiva, pegou o pouco de coragem e insanidade que ela não sabia que tinha, dirigiu-se para a janela novamente e gritou:

- Com licença!!

E santo pudim de blueberry, as expressões deles eram impagáveis (mesmo que ela não pudesse os ver direito).

Mesmo àquela distância, a garota pôde ver o grande “O” que se formou na boca do moreno. A expressão do azulado era algo misturado com surpresa e terror. O ruivo sorriu de orelha a orelha e ficou exclamando “Viu? Eu disse!”

Elesis então se deu conta do que estava fazendo. Ela tinha ficado louca?! Esses homens podem ser ladrões ou assassinos, e sua mãe não estava lá para protegê-la! Pouco soube ela que em seus pensamentos assustados, a sua cabeleira escorregou pela janela e caiu. A menina sobressaltou ao perceber o que tinha acontecido e começou a puxar o cabelo quando sentiu uma dor nas raízes.

A garota soltou um gemido alto de dor e viu que o moreno estava puxando suas mechas. O mais velho gritou algo para ele e este largou imediatamente, dando tempo para que Elesis puxasse sua problemática cabeleira de volta.

- Você poderia não fazer mais isso?! Doi! – ela gritou para ele, claramente irritada e nem acreditando nas próprias palavras. Estava conversando com três desconhecidos e sua mãe a mataria se soubesse.

— Minhas sinceras desculpas, bela dama. É que a senhorita tem um cabelo que nunca vi igual! – ele exclamou para ela, a voz divertida e amigável agora tendo um tom cortejador. A garota sentiu suas bochechas queimarem quando recebeu o comentário (aquilo foi um elogio?).

- Como pode saber se eu sou bela se não consegue nem me ver? –Elesis perguntou, estufando o peito e cruzando os braços, mas com um sorriso estampado no rosto. Esta é a primeira vez que está conversando com alguém e está se divertindo mais do que aquela vez em que sua mãe brincou de esconde-esconde com ela.

— Uma dama que possui um cabelo lindo como esse só pode ser bela~! – ela o ouviu responder e seu tom cortejador aumentava consideravelmente a cada palavra. Ele estava...flertando com ela? Elesis já leu um livro que falava sobre flertar. Significa paquerar e/ou agradar alguém romanticamente. Mas a garota não sabia muito a diferença entre gentileza e paquera, então escolheu receber a primeira opção.

— Perdoe meu irmão, m’lady, – o ruivo interrompeu. – ele não consegue se conter quando há alguma mulher envolvida – ele sorriu e ela soltou uma risadinha – Mas se me permite perguntar, qual seu nome, m’lady?

Um grande nervosismo tomou conta de Elesis. Ela estava gostando da conversa, mas informações pessoais era outra coisa.

— F-Falem os seus primeiro! – Ela disse, saindo mais como uma ordem.

— Meu nome é Ronan Erudon – disse o azulado mais velho, curvando-se levemente e virando-se para os outros dois – e esses são meus irmãos mais novos, Jin e Sieghart – ele apresentou. Jin (o ruivo) sorriu levemente e curvou-se. O moreno (Sieghart) deu uma gargalhada e curvou-se tanto que Elesis pensou que sua cabeça bateria no chão. A garota pensava rapidamente em um nome para apresentar a eles. É claro que não usaria seu nome verdadeiro. Olhou em volta para ter uma idéia. Sua barriga começou a roncar (já tinha passado da hora do almoço) e tudo o que conseguia pensar era em-

— Blueberry.

Sua voz saiu meio indecisa, mas Jin, Sieghart e Ronan pareceram entender. Sieghart deu outro sorriso e comentou algo como “Um nome lindo para uma moça linda”, mas Elesis não prestou muita atenção, pois já estava começando a se preocupar com sua mãe. Ela ainda não chegara e deveria estar a caminho. Se ela descobrisse que estava conversando com três completos desconhecidos ela os mataria e depois mataria Elesis. Porém seus pensamentos foram interrompidos (novamente) pela voz de Ronan. Um tom grave que agora tinha um toque de gentileza.

— Por favor, senhorita Blueberry, estamos perdidos e gostaríamos de saber em que direção fica o norte.

Elesis apontou para a sua direita. Sua mãe diz que é bem difícil voltar para a torre, pois não é possível ver onde o sol nasce, já que as árvores da floresta são enormes. Então é natural que os outros fiquem perdidos aqui. A única coisa que intrigou a moça é que ninguém nunca pediu informação para ela, ou nunca nem chegou perto da torre. Deve estar em um lugar bem escondido.

Os homens encararam a direção na qual Elesis apontava por um tempo e ela começou a se perguntar se eles estavam pelo menos prestando atenção, até que Sieghart virou para ela e disse calmamente:

— Você vive nessa torre, senhorita Blueberry? – e os outros dois viraram-se para ela, esperando uma resposta. Aparentemente os três queriam fazer essa mesma pergunta.

— Sim, eu vivo – ela respondeu hesitante e insegura de entregar tal informação. Não deveria confiar muito neles.

— M’lady não se sente solitária às vezes? – perguntou Jin, a garota mordeu os lábios. É claro que ficava solitária. Sua mãe saía em longas jornadas e certas viagens duravam até dias. A única companhia da garota eram os livros (os pássaros não contam). Então sim, ela se sentia sozinha. Todos os malditos dias.

— Se a senhorita quiser, podemos fazer algumas visitas – exclamou Ronan, mas não recebeu nenhuma resposta – posso trazer somente meus irmãos, se quiser – ele tentou de novo. – são mais novos e talvez até da sua idade.

— Quantos anos eles têm?

- Sieghart tem 23 e Jin 20.

Elesis pensou um pouco. Seu aniversário estava chegando e logo faria 21 anos. Ela nem deveria estar falando com eles e muito menos convidá-los a virem novamente, mas a garota aceitou a proposta. Porque não queria estar sozinha de novo (até parece que tem sete anos novamente), não queria mais ler livro nenhum e estava cansada das limitações que sua mãe colocava sobre sua vida. Elesis estava no alto de uma torre, e estava segura o suficiente lá.

Segundo Ronan, eles chegariam amanhã à tarde, e a única coisa que ela fez foi despedir-se deles e rezar para que sua mãe não estivesse com ela na torre naquele dia.

Já estava ficando escuro quando Elesis ouviu sua mãe chegar, cantarolando e acendendo as velas com a sua magia. A garota não sabia como a sua mãe entrava na torre (pois ela se recusava a contar), mas ela supunha que era com magia, mesmo.

— Olá, querida. Mamãe chegou! – cantarolou ela, colocando na mesa o que parecia ser uma cesta de pão e frutas – Desculpe-me por estar tão atrasada. Sua mãe estava ocupada comprando seu presente de aniversário – e com isso, ela mostrou um lindo vestido azul com detalhes em branco. Elesis abriu um sorriso e correu para abraçá-la, porém lá no fundo algo a dizia que não era isso o que realmente queria.

O jantar não foi tão animado como a do seu último aniversário, mas Elesis não se importou e comeu tudo o que tinha direito, pois não tinha almoçado.

— Desculpe se eu não te dou muita atenção, Elesis. Mamãe fica tão ocupada saindo e voltando da torre...

— Não se preocupe, mamãe – interrompeu a moça – eu estou bem. Porém eu fico entediada às vezes (mais pra todas às vezes) e talvez se eu tivesse mais livros-

— Mamãe vai comprar mais livros para você, se é isso que você quer.

— Jura? – perguntou Elesis, claramente mais animada – então... você poderia comprar um de magi-

O entusiasmo da menina foi cortado quando sua mãe levantou bruscamente da cadeira e bateu as duas mãos na mesa, formando um estrondo e fazendo com que a pobre garota desse um pulo.

— Você não vai aprender nada sobre magia!! – ela gritou furiosamente. A cada palavra cuspida a garota ia se encolhendo mais na cadeira – Droga, Elesis! Quantas vezes eu vou ter que te falar isso?!

A mulher de meia idade sentou-se na cadeira novamente, deu um suspiro que pareceu mais como um repreendimento e ordenou que Bela fosse para seu quarto, onde a filha enterrou a cabeça no travesseiro e chorou até cair no sono.

Quando a menina acordou e sentiu as lágrimas já secas em suas bochechas, tentou levantar-se da cama para lavar o rosto, mas fracassou quando caiu de cara no chão. Ela costumava cair durante a primeira tentativa de sair da cama. Isso acontecia tantas vezes que já tinha virado rotina. Talvez seja pela sua fraqueza matinal ou a cama, que seja alta demais.

Depois de lavar o rosto e beber um grande copo d’água, Elesis se dirige à janela e percebe que a manhã já está quase acabando. Isso a faz pensar em todos os afazeres que a aguardam e corre para pegar o pano de limpeza e tirar a poeira das estantes. A garota tem que tirar todos os livros do lugar, esfregar onde tem que estar brilhando e colocá-los de volta. Mas em vez de fazer a última parte, ela apenas os encara, pensativa.

Seus olhos viajam até um certo livro de poesias, onde nele está o poema que lera ontem. Elesis pensou em seus versos e no sentimento de liberdade que despertava nela quando o lia.

Sentiu vontade de jogá-lo pela janela.

— Senhorita Blueberry! – ela ouviu uma voz familiar a chamar. E então correu para a janela. Como pôde esquecê-los?!

Sieghart (o moreno paquerador, lembrou ela) estava acenando para ela com um sorriso tão enorme no rosto que a fez sorrir também, enquanto Jin segurava o que parecia ser uma cesta. O ruivo disse que a cesta era para ela e que eles queriam mostrar algumas coisas.

— E como vocês pretendem entregá-la para mim? Não sei se vocês sabem disso, mas estou no alto de uma torre! – ela respondeu para eles. Ótimo, agora adquirira um pouco de sarcasmo em sua personalidade também.

Os irmãos trocaram olhares e depois miraram a cesta. Ficaram repetindo esse gesto por um tempo, provavelmente estavam pensando. Eles não tinham a mínima ideia (idiotas).

Com um suspiro, Elesis atirou seu cabelo para fora da janela e explicou:

— Apenas amarrem a cesta no meu cabelo que eu puxo!

Os garotos abriram um sorriso e fizeram o que foi mandado. Doeu um pouco quando a garota puxou a cabeleira de volta (pois a cesta não era nem um pouco leve), mas ela conseguiu atingir seu objetivo. A cesta estava amarrada em algumas de suas mechas, formando um laço. Elesis não conseguiu conter um sorriso quando se deu conta da delicadeza dos meninos. Puxou o laço (feito de cabelo e nós embaraçados) e pegou o conteúdo da cesta. Dentro dela estavam alguns livros (incluindo alguns que ela já tinha), uma pulseira dourada (pelo menos parecia uma pulseira) e um objeto marrom que cheirava muito bem e a fez ficar com um grande ponto de interrogação na cabeça.

— O que é isso? – Ela ergueu o objeto marrom para que eles pudessem ver e respondê-la, mas tudo o que recebeu foram gargalhadas de dois garotos brincando na grama. A garota ficou confusa no começo, pois não sabia se aquilo era brigar ou brincar, mas como estavam rindo, ela não se preocupou. Jin, agora todo sujo de terra, virou-se para ela e respondeu que era “chocolate”. Ele ia dizer mais alguma coisa quando foi interrompido por Sieghart, que atirou uma bola de lama em sua cabeça. O tom avermelhado do seu cabelo misturou-se com o marrom da terra molhada (o mesmo tom do cabelo do seu irmão) e trinta segundos depois os dois estavam encharcados de lama. Mas a garota só tinha olhos para o “chocolate”. Já viu essa palavra em um de seus livros. Se não me engano é de comer, pensou. Provou uma mordida e o gosto doce e amargo derreteu-se em sua boca. Quando se deu conta estava devorando o chocolate. Nunca tinha provado algo tão doce na vida. Nem os morangos do bosque eram tão bons assim.

Elesis lambia os dedos lambuzados do doce (chocolate derrete, quem diria?) enquanto assistia os irmãos atirando lama um no outro. O cabelo de Jin estava coberto de lama, então ela não conseguia mais diferenciá-los (a não ser pela voz).

A menina sentiu uma pontada de inveja. Ela imaginava como era ter irmãos e uma relação tão íntima como aquela que eles tinham.

A moça virou-se para a cesta e pegou a pulseira. Examinou-a de perto e perguntou-se se era de ouro. Lera em um livro que ouro era um metal dourado e transformado em adornos como esse. Porém havia muitos outros metais que ela não sabia e, agora com todas essas coisas e sensações novas que começara a descobrir recentemente, percebera que não sabia quase nada.

Ela não sabia nada.

Essa descoberta bateu mais forte que o tombo que levou esta manhã. Ou qualquer outro tombo que tenha levado na vida. Ela leu toneladas de livros e os releu várias vezes, fez incontáveis perguntas à sua mãe e a si mesma sobre o mundo lá fora, já estava quase adulta (uma idade que sua mãe falava que é a da sabedoria), considerava-se uma pessoa com um vocabulário razoavelmente avançado e com um conhecimento apreciável. Mas a verdade é que ainda não sabia nada.

— M’ lady? – a voz gentil de Jin a puxou de volta para a realidade – Temos que ir agora, mas voltamos amanhã com mais coisas para a senhorita e prometemos que ficaremos mais tempo. Será que nosso irmão Ronan tem a sua permissão para aparecer conosco também?

— Claro. – Respondeu, tentando pensar em um motivo para recusar o pedido e não encontrando nenhum. Que mal poderia ter? Ela estava em uma torre, e mesmo que eles fossem assassinos, teriam de escalar algumas centenas (ou milhares) de pedras e tijolos para alcançarem seu objetivo.

Jin despediu-se de Elesis e Sieghart a mandou um beijo (que fez a moça rolar os olhos). Depois de alguns minutos ela não conseguiu mais ver as formas dos garotos no horizonte e afastou-se da janela. Colocou os livros novos em cima da cama (para não se esquecer de lê-los) e escondeu a pulseira em um lugar onde sua mãe não pensaria em procurar.

O céu estava tornando-se escuro e Elesis estava beliscando um dos morangos do jantar de ontem à noite e observando as estrelas que começavam a aparecer quando outra voz familiar a tirou de seus pensamentos. Era Ronan.

— Boa noite para você também – ela cumprimentou, a boca cheia de morangos. Sua mãe tinha comprado um livro de boas maneiras para ela um tempo atrás, mas Elesis leu as dez primeiras páginas e o jogou pela janela.

— Meus irmãos foram gentis com a senhorita? – ele curvou-se. A moça já começava a se perguntar o porquê de tanta formalidade e cortesia, mas sua mãe dissera que era mais fácil entender chinês do que entender os homens.

— Eu tive um dia maravilhoso com eles, obrigada – ela sorriu. E era verdade. Se ela tivesse uma chance de fazer algo diferente todos os dias para fugir da sua chata rotina, ela receberia a oportunidade de braços abertos – e o que o senhor Ronan faz aqui a essa hora, se me permite perguntar? – ela diz em um tom divertido, como se ele fosse um garotinho fazendo algo que não deveria e seria posto de castigo se a mãe soubesse. Oh, isso parece exatamente o que ela está fazendo. Ironia.

— Estava imaginando se a senhorita Blueberry não estaria se sentindo um pouco solitária.

— Eu estou sempre solitária, senhor Ronan. – ela respondeu, saindo mais como um murmúrio.

— A senhorita nunca pensou em sair dessa torre? – Ele perguntou, com as sobrancelhas cerradas, parecendo um tanto incomodado. A moça rolou os olhos.

Claro que Elesis já pensou em sair da torre (quase todos os dias), mas...

— Não dá... – a moça respondeu meio triste – minha mãe não permitiria.

— A senhorita está ciente da cesta que meus sobrinhos trouxeram, certo? O mundo aqui fora está cheio de cestas como essa: coisas e sensações novas que estão esperando para m’ lady descobrir.

Elesis já estava ficando irritada. Ela sabe disso. Sabe que o mundo está cheio de cestas que contém novidades que ela nunca experimentou, e ela não precisava que um homem que mal conhecia contasse isso a ela.

— Pra falar a verdade, senhorita Blueberry – ele continuou – o único motivo que estamos fazendo isso é que temos pena de você – ela ouviu a voz dele ficar mais calma e a garota arregalou os olhos. Pena? Era isso? Não podia acreditar. Nunca ninguém sentiu pena dela e isso a fez sentir-se miserável. Ela tinha uma vida normal. Ela tinha um hobby, um lugar para morar, uma família e era razoavelmente feliz. A única coisa diferente é que ela não sabia como era o mundo lá fora. Isso o despertou pena?

— Eu estou muito bem onde estou, senhor Ronan – ela respondeu rispidamente, um rancor que nunca tinha sentido antes se despertando nela – não preciso da sua pena, nem dos seus irmãos ou dos seus presentes!

O azulado abria a boca e a fechava, como se querendo dizer alguma coisa, mas não achasse as palavras. Depois de um tempo, declarou:

— Por favor, senhorita Blueberry, escute-

— Não! – Elesis interrompeu, sentindo o coração e a respiração acelerarem e as lágrimas deslizarem em suas bochechas (por que ela estava chorando?) – eu estava muito bem aqui quando vocês apareceram! Inacreditável... – ela murmurava enquanto saía da janela e pegava o livro de poesia que agora detestava – Saia daqui! – a garota jogou o livro pela janela, mirando o homem, que desviou por pouco – Eu não quero mais ver você! Saia! – ela gritava enquanto atirava mais livros nele. Ela só parou quando percebeu que não tinha mais forças e o viu longe no horizonte, voltando para onde quer que tenha vindo.

Alguns minutos depois, sua mãe chegou e encontrou Elesis deitada na cama com o travesseiro no rosto para esconder as lágrimas. A mulher deixou a filha ter sua privacidade e só puxaria o assunto quando estivesse pronta para desabafar. Pelo menos era isso o que ela pensava.

A tarde do dia seguinte era uma tarde de domingo, o que significava que o aniversário de Elesis seria daqui a três dias. Todo domingo sua mãe ficava na torre com ela, penteando seu cabelo e perguntando sobre o que esta gostaria para o jantar. Isso preocupou a garota imensamente. Jin e Sieghart (e talvez Ronan? Deuses a livrem) a visitariam naquele mesmo dia. Garotos e Elesis na mesma frase não era uma coisa que sua mãe aprovaria, o que era um problema.

Pegando a escova que ela tinha para pentear seu cabelo, Elesis rezou para que seu plano funcionasse e bateu o objeto na beira da escrivaninha com toda a sua força, esperando que ela quebrasse. Nunca tinha feito uma coisa tão violenta, e seus músculos ficaram um pouco doloridos. A ação fez um barulho escandaloso e ela soltou a escova no chão a tempo de sua mãe vir correndo ao seu quarto para ver o que em nome dos deuses tinha acontecido.

Ela conseguiu rachar um pouco a escova a ponto de não ser mais tão útil quanto era antes, e a garota limitou um suspiro quando viu que a escrivaninha estava intacta (tinha um arranhão, mas não era muito visível). Elesis usou sua desculpa de “deixei cair no chão” e “já estava estragada mesmo” para que sua mãe saísse para comprar uma escova nova. Esta insistiu que no dia seguinte ela arranjaria outra, mas a garota ficou reclamando e implorando, o que fez a mãe ceder.

No momento seguinte sua mãe já saíra da torre com algumas moedas extras no bolso, dizendo que iria aproveitar e comprar mais ingredientes para o jantar (o que iria demorar mais, e Elesis ficou aliviada).

Sorrindo, a moça esperava seus futuros convidados enquanto limpava o chão com uma vassoura velha, tentando fazer desaparecer a poeira que já não existia. Quando ficava ansiosa, ela tinha que distrair sua mente e botar seu corpo para fazer alguma coisa, se não ficava louca.

E além do mais, ela não queria ficar mal-humorada por causa da sua briga com Ronan. Nem queria pensar nele. Talvez ela devesse se desculpar? Não. Ele teria que desculpar-se primeiro, afinal, tudo isso é culpa dele (ou do orgulho dela).

Quando ouviu o casual “Senhorita Blueberry!”, a garota largou a vassoura e correu em direção à janela, mas não obteu sucesso chegando lá por causa do tombo que levou quando tropeçou no cabelo. Deixando escapar um grito agudo, ela levantou-se gemendo e agradeceu aos deuses antigos e novos que eles não conseguiam ver suas bochechas vermelhas e sua cara embaraçada àquela altura. Encontrou dois garotos atônitos quando conseguiu chegar à janela. Jin perguntou o que tinha acontecido e Sieghart ficou insistindo numa resposta mais honesta do que “Não aconteceu nada, eu juro”. A menina fez uma pausa e depois confessou que tinha tropeçado no cabelo, pois não aguentava mais as perguntas carregadas de preocupação de Sieghart. Um momento de silêncio se passou entre os três e logo vieram gargalhadas extremamente altas dos dois.

Elesis sabia que estavam rindo dela, mas ela ficou maravilhada com o som. Transbordava alegria e de alguma forma era reconfortante. E ela conseguia ouvir os tons de suas vozes bem melhor. Depois que as risadas cessaram, ela quis imediatamente que recomeçassem, mas os meninos já estavam conversando outra coisa entre eles e foi só agora que a moça notou a cesta na mão do ruivo. Este levantou o objeto, cheio de coisas novas que Elesis provavelmente iria adorar. A garota deixou cair sua cabeleira para que eles amarrassem a cesta em suas mechas. Enquanto Jin terminava o laço, o outro irmão ficava comentando “Esse cabelo ainda vai ser seu fim”, mas ela não deu bola. Quando puxou, percebeu que a cesta estava muito mais pesada do que pensava e deixou escapar um gemido de dor. Felizmente os irmãos não notaram, pois já estavam se divertindo rolando na grama.

Na cesta estavam mais alguns livros e uma coisa peluda e marrom. Com as sobrancelhas cerradas, mil e uma perguntas formaram-se na sua cabeça. “É de comer?” “É um objeto?” “Serve para atingir alguém na cabeça?” e com isso ela mirou em um vaso de madeira no canto da sala e estava prestes a jogar quando foi interrompida pela voz gentil de Jin.

— Essa coisa marrom é de comer. Chama-se kiwi!

— Por que tem pêlos? – ela gritou de volta.

— É assim mesmo – respondeu Sieghart, dando uma risadinha.

Ela deu uma mordida e o que sentiu não foi um gosto muito agradável.

- Você precisa abrir – explicou o ruivo.

Elesis fez uma careta e respondeu que precisaria de uma faca para tal ato, coisa que ela não tinha. Jin teve a gentileza de amarrar o cabo da sua própria faca no cabelo da garota para que esta puxasse. O ruivo disse que tinha mais cinco adagas guardadas com ele, para que ela não se preocupasse em devolver.

— Pode ficar, é um presente – ele completou.

A garota ouviu uma voz extrovertida falar “Não é justo, quero dar um presente também!” e se preparava para cortar a fruta quando algo vermelho dentro da cesta chamou a atenção dos seus olhos. Ela viu que era uma espécie de papel e o pegou para examiná-lo melhor. Era uma carta com um selo vermelho, mas ela não identificou o carimbo. Abriu e começou a ler.

Senhoria Blueberry,

Gostaria de poder pedir minhas sinceras desculpas pelo que falei com a senhorita ontem ao cair da noite. Percebi que ficou seriamente ofendida, e não tive a chance de me redimir. Mas não peço o seu perdão. Sei que sua vida é imensamente diferente da minha e de meus irmãos, porém não consegui expressar o quanto meu coração sofre ao ver uma dama como você presa em uma jaula de pássaro. Todavia vejo que suas asas já foram cortadas. Não sei se a senhorita sente vontade de sair e conhecer o mundo, embora entenda que eu só quero ajudá-la. Não compareci com meus irmãos hoje, pois compreendi que na nossa última conversa a senhorita não me queria por perto. Entretanto estarei esperando sua aprovação para visitá-la novamente.

Atenciosamente,

Ronan Erudon.

P.S: Como uma forma de me redimir, peça qualquer livro que a senhorita quiser. Acredite, eu conheço uma biblioteca onde possui todos os tipos de leitura.

Ao terminar, Elesis tentou conter as emoções que ameaçavam pular de dentro dela. Ela nunca recebeu uma carta ou leu qualquer outro tipo de escrita que se dirigisse somente para ela. Estava feliz, ansiosa e confusa. Isso queria dizer que ela teria de escrever para ele de volta. Ela nunca escreveu para alguém. Sua mãe a ensinou a escrever, é claro, mas aquilo era bem diferente. Correu para pegar algum papel, mas não encontrou algum além das que estavam grudadas no livro. Pegou alguns deles e foi folheando, à procura de algo. Qualquer coisa.

Achando uma página praticamente branca no começo de um livro de história e com a caneta de pena entre os dedos, Elesis concentrou-se ao máximo para fazer uma letra legível. A tinta preta da caneta formava as linhas tortas e pouco experientes da garota, mas pelo menos era alguma coisa. Demorou um tempo considerável até ela terminar algumas linhas, porém quando acabou, estava orgulhosa de si e de seu trabalho. Releu várias vezes para verificar-se de que a ortografia estava perfeita. Satisfeita, ela dobrou o papel e o enfiou na cesta, junto com alguns livros (para o papel não voar). Fez sinal para os meninos – que agora estavam sujos de lama e com um sorriso bobo no rosto – e atirou a cabeleira pela janela, com a cesta amarrada bem firmemente entre seus cachos. Bela jurou que se eles sujassem a carta com as mãos sujas de terra ela desceria da torre ela mesma e quebraria seus pescoços.

Os garotos desamarraram os nós e pegaram o objeto e o posicionaram cuidadosamente na grama, onde os irmãos sentaram e passaram algum tempo conversando com a garota. A conversa era mais inocente do que os poemas que Elesis lia em seus livros de criança. Jin comentava o tempo e falava das flores e da sua família enquanto Sieghart expressava seu amor por tortas de morango com palavras bem animadas.

Ela aprendeu algumas coisas sobre eles naquela tarde. Os três irmãos tinham uma tia chamada Lire e que era bem geniosa e mandona, mas a amavam do fundo do coração. O ruivo adorava chuva enquanto o outro irmão preferia o céu limpo e ensolarado. Ela não perguntou nada sobre Ronan porque queria perguntá-lo pessoalmente na próxima vez que o visse. Os aniversários de Jin e Sieghart eram no mesmo dia e que se algum dia ela fosse fazer alguma torta de morango para o moreno ela teria que, segundo ele, “necessariamente exagerar no açúcar”.

— Fale-nos sobre você, m’lady – interrompeu Jin quando Sieghart cessou o assunto das tortas e começou a cortejar Elesis novamente. Aparentemente o ruivo quis poupá-la das tolices do seu irmão.

— Hmm... Não sei, não tem muito para contar – ela respondeu vagamente. E, quando parou para pensar, percebeu que não havia mesmo nada de interessante em sua pessoa.

— Está tudo bem – Sieghart respondeu com um tom divertido – Sabemos que não podemos perguntar do seu cabelo.

— Não – ela respondeu com um sorriso

— Nem da sua mãe.

- Não.

— Nem dessa torre.

- Não.

— E sobre a sua imensa e inexplicável beleza e-

— Não – ela cortou

A tamanha cara de desapontamento de Sieghart foi o suficiente para fazê-la cair na risada. Em recompensa do esforço do pobre rapaz, Elesis confessou:

— Bem, eu adoro ler, minha flor predileta é margarida, minha cor favorita é vermelho e acho melhor vocês já estarem de saída pois minha mãe já deve estar chegando – ela começou a sentença sorrindo e terminou desanimada, pois via que o laranja forte e o azul escuro já pintavam o céu.

Quando os rapazes se retiraram – e é claro que Sieghart não conseguia ir embora sem antes mandar um beijo para Elesis – a garota fitava a cesta na mão de Jin, onde a carta que ela botou tanto esforço estava lá, esperando para ser lida por Ronan. Ela já o tinha perdoado, mas não totalmente. Talvez por que o que ele tinha falado era a verdade. Que ela estava presa numa jaula como um passarinho e suas asas já haviam sido cortadas. Ela suspirou e pensou nas palavras que ela tinha escrito que formavam as frases que ela tanto queria expressar para ele.

Senhor Ronan,

Pensei no que o senhor disse. Que sou uma ave presa numa jaula e que provavelmente nunca experimentará a verdadeira liberdade. Mas eu ainda tenho esperança. Eu não sei em que, mas eu tenho. Pelo menos eu consigo sonhar. Sei que estou viva, mas ainda não comecei a viver. Bem que eu seria um belo pássaro, não acha? Minhas asas seriam mais belas que qualquer outra ave. Não sei aonde quero chegar, mas sei que algum dia vou conquistar meus sonhos. Talvez minhas asas ainda não foram cortadas.

Sobre o pedido que você me falou, será que o senhor podia me arranjar algum livro de magia? Não pergunte. Ah, e aceito suas desculpas.

Sinceramente,

Blueberry.

P.S: Ainda não sei se estou pronta para vê-lo novamente, mas adoraria ler outra carta sua.

Depois do jantar e da tortura que a nova escova de cabelo fez com seus cachos, Elesis conversava com sua mãe, que estava de extremo bom humor e tagarelando sobre o quão perto sua filha estava de fazer 21 anos e se tornar uma adulta. Ela perguntava se ela queria mais livros e vestidos, mas a garota só balançava a cabeça em negação e dava um sorriso, pois ela sabia que o que realmente queria não estava ao alcance da sua mãe. Ela nem tinha mais certeza do que queria. Experimentar coisas novas? Sentir novas emoções? Fugir da torre? Ou melhor, fugir dessa jaula?

Elesis assustou com esse pensamento. Claro que ela já tinha pensado em fugir (embora não quisesse abandonar sua mãe), mas nunca considerou a torre como uma jaula até Ronan usar tal comparação. Aqui era sua casa, onde nasceu e cresceu. É tudo o que ela conhece, porém não é tudo o que é possível conhecer. Ela olhou pela janela, pensativa.

— Algum problema, querida? – perguntou sua mãe, com um tom desconfiado.

— Não – ela mentiu. – está tudo bem.

Terminando de tomar banho, Elesis colocou sua camisola e verificou se sua mãe estava dormindo. Confirmando sua tese, a garota puxou uma caixa debaixo da cama e a abriu. Lá estavam a faca e a pulseira dourada. Quando ela pegou a faca e examinou sua lâmina, viu um rosto que nunca tinha visto antes.

A descoberta bateu nela como uma ventania forte. Forte e de uma vez só. Aquele rosto era dela. A lâmina estava refletindo nela. Era ela. Analisou-se de perto, ansiosa. Nunca tinha se visto em um espelho ou reflexo. Ela não tinha uma banheira para ver seu reflexo na água, então tomava banho com baldes de água gelada. Ela tinha olhos vermelhos e umas sardinhas aqui e ali. Ela não sabia o que era considerado bonito ou feio, mas não se achou tão horrível.

Depois foi ao guarda-roupa para dar uma olhada no vestido novo, o qual irá vestir amanhã. O azul era em um tom claro e delicado, e o tecido era macio ao toque. Não sabia o porquê de estar fazendo isso, mas Elesis tinha um pressentimento estranho.

No dia seguinte, ela acordou bem cedo e colocou o vestido. Era tão comprido que se não tomasse cuidado tropeçaria no tecido. Sua mãe estava fora fazendo seja lá o que, mas disse que era de extrema importância. Ela também comentou que ficaria fora o dia inteiro – o que fez ela se desculpar várias vezes – porém confirmou que voltaria ao anoitecer para o jantar e para ver Elesis com o vestido novo.

Seu aniversário será daqui a dois dias, todavia a garota não estava tão ansiosa. Ela já ganhara seu presente e tudo o que queria agora era ouvir a voz doce de Jin e – surpreendentemente – algum flerte vindo de Sieghart.

Decidiu dar um cochilo, mas foi todo o seu esforço foi inútil quando ouviu:

— Senhorita Blueberry!

Aquele já virara o sinal deles. Como uma assinatura, um jeito de Elesis saber.

— Já estou indo! – ela gritou, jogando os cabelos pela janela.

Quando Elesis pôs as mãos na cesta, pegou um livro azul escuro e dourado. Leu o título e quase teve um ataque.

“Os Mistérios da Magia”

Ronan tinha conseguido um livro de magia para ela, como pedira. Só para ela. Deu uma espiada para fora da janela e viu que Sieghart tinha pegado dois gravetos e colocado na cabeça (parecendo um alce). Parecia estar imitando alguém. As gargalhadas do ruivo eram bem audíveis, até para ela. A garota, vendo que os dois estavam se distraindo, deu uma espiada no livro. Nele falava sobre feitiços para amenizar a dor, conjurações e até alguns encantamentos para mudar as emoções das pessoas. Prometeu a si mesma que leria assim que os irmãos forem embora. Olhou na cesta novamente e encontrou outra carta com um selo vermelho. Tentou ler com a maior atenção possível.

Senhorita Blueberry,

Entendo que ainda não me queira por perto, mas fico feliz em saber que a senhorita gostou da minha carta. Bem, aqui está mais uma. E como foi pedido: um livro de magia. Não sei sobre suas intenções ou por que a senhorita deseja ler um livro desses, mas não é meu lugar questionar suas decisões. Estou ciente de que a senhorita se sente bem aí e não pretendo separá-la da sua torre, porém saiba que, se houver um momento em que m’lady quiser explorar o mundo lá fora, serei seu guia e estarei pronto para acudi-la.

Com carinho,

Ronan.

Não levou um tempo para a garota perceber o desenvolver da formalidade (“Com carinho” e “Ronan” sem o sobrenome), e isso a deixou feliz, de algum modo. Suas palavras a reconfortaram de uma maneira estranha, o que a deu uma coragem inexplicável. Correu para o quarto e pegou sua bolsa de couro. Não cabia muita coisa nela, mas pelo menos podia usá-la na cintura, o que tornava as coisas mais fáceis. Colocou dentro dela cuidadosamente as duas cartas de Ronan e algumas frutas pequenas. Depois ajeitou a bolsa em sua cintura e colocou a pulseira dourada no pulso.

De repente ela parou e ficou pensando no que ela estava fazendo. Ela iria fugir? Mas e sua mãe? E eles?

Elesis foi em direção à janela e viu Jin e Sieghart sentados na grama conversando animadamente. Por algum motivo, a garota estava confusa em relação aos seus objetivos e seus sonhos. O que é estranho, pois sempre sabia o que queria. Com um peso no coração, a moça dispensou os irmãos, que ficaram com um olhar preocupado. Pediu desculpas e explicou que não estava se sentindo muito bem naquele dia, mas que esperaria ansiosamente por eles na próxima tarde.

Já estava anoitecendo quando ela terminou o livro de magia que o azulado tinha dado para ela. Aprendeu muitas coisas, mas parecia que algumas páginas estavam escritas em outra língua, então era inútil entender tudo. Não sabia o porquê, mas ficou com muita raiva de sua mãe. Como ela pôde esconder tudo isso dela? A magia não era uma habilidade, era outro mundo completamente diferente. Olhou pela janela e tomou uma atitude.

Conseguiu com algum esforço colocar o livro na bolsa e pegou a faca que Jin a tinha dado de presente. Viu seu reflexo na lâmina novamente, porém não parou para ficar se admirando. Agarrou o seu cabelo com uma mão e com a faca o cortou. Suas mechas caíram no chão com um som suave e Elesis viu os fios se desmanchando no piso de madeira. Pegou a cabeleira e fez vários nós, depois amarrou uma parte na bancada da janela. Puxou algumas vezes o cabelo para testar se estava preso o bastante. Se fosse fugir, teria que fazer isso direito. Atirou as mechas por fora da janela e foi descendo cuidadosamente com a ajuda dos cabelos. Os segurava como se sua vida dependesse disso. E era verdade. Se caísse daquela altura, provavelmente morreria. Depois de alguns longos minutos (que mais pareciam horas) colocou seu pé na grama pela primeira vez, as mãos tremidas afrouxaram o aperto no cabelo.

— Feliz aniversário pra mim. – sussurrou para si mesma. Finalmente ela teve a sensação de que aquele era o presente que queria, não um vestido azul com detalhes em branco. Elesis sabia que provavelmente magoaria Ronan e os outros, mas não poderia ficar conversando com eles para sempre por meio de visitas. Ela precisava sair daquela torre. Agora ela pode viver a sua própria vida e ter sua liberdade. A ruiva faria outros amigos, e ela tinha certeza que Jin, Sieghart e Ronan seguiriam com as suas vidas.