Blueberry
2 Bem-vinda à Canaban
Notas iniciais
Elesis pensou em usar sapatos, mas lembrou que não tinha nenhum porque nunca tinha saído da torre. Apesar do prazer que a grama fofa trazia para seus pés, os gravetos e espinhos não facilitavam a caminhada. A ruiva teve que parar várias vezes para massagear os pés e descansar as pernas. Ela não tinha a mínima ideia para aonde estava indo, mas era bem longe. Será que estava chegando a uma cidade? Elesis foi na direção oposta a da mãe, pois não queria encontrar com ela nunca mais. Já estava anoitecendo quando o estômago da garota roncou pela vigésima vez. Ela lutou contra a inconsciência quando viu o que lhe pareceu um vilarejo.
Aproximou-se mais e percebeu que na verdade o vilarejo era uma cidade. Das grandes. Havia uma fortaleza barrando a entrada, mas viu que havia uma caravana passando e começou a andar do lado dela, fingindo ser parte da companhia. Os portões se abriram sem nem mesmo verificar quem lá passava, e Elesis se viu dentro da cidade em questões de segundos. Não imaginava que seria tão fácil assim. Deu de ombros e caminhou para o que parecia ser uma padaria. O cheiro era incrível e fez seu estômago roncar mais.
Tudo o que sabia sobre comércios ou lojas é que você teria que comprar alguma coisa dando algo em troca. Mas o que ela tinha? Um vestido sujo e pernas cansadas, isso sim. Olhou para sua pulseira e pensou em algo. Não. Não iria abrir mão daquilo. Era um presente valioso.
Viu o padeiro colocar um doce na janela para atrair os clientes. Parecia um bolo. Elesis aproximou-se e o pegou. Com fome demais para pensar em outra coisa, deu uma mordida. Depois outra e outra. Aquilo era bom. Tinha gosto de...chocolate.
De repente ela sentiu algo forte pegar seu braço e a puxar para dentro da padaria.
– O que pensa que está fazendo?! Eu acabei de fazer aquele bolo!! Vai ter que pagar!
– O qu-
– 15 moedas!
– M-Me desculpa – Ela disse, tentando se livrar dos braços fortes do homem – E-Eu não entendo! Eu não tenho m-
– Então vai ter que lavar os pratos!! – cuspiu ele, atirando Elesis em uma sala onde havia uma vassoura, muita sujeira e vários pratos.
– Espere um pouco aí! – ela ouviu alguém gritar, e o homem hesitou ao virar-se para o dono da voz – 15 moedas, não é? Aqui.
A ruiva saiu da sala e viu um homem jovem entregando algumas moedas na mão do padeiro, e os olhos dela se encontraram com os azuis dele. Ela o ouviu falando algo, provavelmente para ela, mas ela só conseguia fitar o seu cabelo. Era branco. Ele era albino?
Elesis foi puxada pelo jovem e saiu da padaria. Nunca tinha visto um albino na vida. Já leu que eles são bem raros, e alguns até têm olhos vermelhos. Mas hey, ela também tem.
– Seu cabelo é bonito – ela confessou baixinho, porém ele não deve ter notado ou decidiu ignorar o comentário.
– Nunca te vi nestas ruas. O que uma garota como você faz aqui? – ele perguntou em um tom não muito agradável.
– Meu nome é Elesis. Prazer em conhecê-lo. – ela curvou-se diante do albino. Era assim que as pessoas se cumprimentavam, não era? Sua resposta foi negativa quando o jovem arqueou uma sobrancelha, com uma expressão divertida – Estou aqui porque tive que fugir de casa. Não tenho nenhum lugar para ir, mas acho que vou ter que dar um jeito – dei um sorriso amarelo e olhei para o chão.
– Meu nome é Lass – ele respondeu, e eu senti seus olhos me analisarem de cima para baixo – Prazer em conhecê-la, Elesis. Eu sugiro que comece a arranjar um trabalho para ganhar algumas moedas, se não você não duraria nem dois dias.
Levantei a cabeça e olhei para ele. Suas feições parecem ter suavizado e ele continuou a falar.
– Há vagas para costureiras baratas, já que estamos em falta de boas roupas e dinheiro – ele riu sarcasticamente e fez uma pose para mostrar o estado de seus trapos – E há donzelas no castelo que precisam de mais vestidos, se você for boa no que faz. E também precisamos de mais guerreiras para defender a fortaleza, caso for boa com a espada, o que duvido muito.
Ele começou a andar nas ruas da cidade, olhando-a como que a convidando para juntar-se a ele. E foi o que ela fez.
– E o que você faz? – A jovem perguntou, e isso o fez parar no meio do caminho. Por um segundo Elesis pensou que viu seu rosto entristecer, mas depois ele avistou o padeiro saindo da loja para conversar com uma cliente. Lass deu meia volta e murmurou para a ruiva:
– Deixa eu te mostrar.
Elesis começou a ter um mau pressentimento e o seguiu.
– Espera, o que você vai fazer? – ela perguntou, sentindo algo nada agradável. Talvez seja uma nova sensação chamada pânico.
– 15 moedas por um bolo é um roubo! – Lass respondeu, escondendo-se atrás da loja e verificando se o local estava limpo – Você merece vingança.
– E o que exatamente você pretende fazer?
O albino a deixou sem resposta quando empurrou Elesis na parede para esta ficar fora da vista do padeiro. Depois saiu abaixado e entrou na padaria tentando não ser percebido. A ruiva ficou parada e esperando por alguma coisa que não estava certa do quê. Lass voltou com uma torta na mão e um brilho nos olhos.
No final da noite, a garota se viu andando apressadamente nas ruas vazias da cidade com uma torta de morango em suas mãos e um jovem de cabelo branco ao seu lado.
Elesis sabia que furtar era errado. Sua mãe a tinha ensinado coisas do tipo, mas a menina já quebrou uma de suas regras saindo da torre. Pouco lhe importava algo sobre tortas roubadas. Ela ouviu algo do homem falando sobre sua casa, então supôs que estivesse indo para lá.
Lass forneceu para ela todas as informações sobre a cidade e além da fortaleza. Explicou que os guardas e soldados estão tendo problemas com goblins nos arredores pela terceira vez no mês, o que deixa os muros desprotegidos e justifica o motivo pelo qual Elesis conseguiu entrar na cidade com tanta facilidade. O local também não é tão protegido, já que fica tão longe da capital do reino de Canaban, mas o albino garantiu que a comandante Lothos tem olhos afiados e não deixará nenhum monstro passar despercebido. A moça quis saber mais sobre ela, porém Lass não pareceu tão confortável falando da comandante. Talvez porque fosse um fora-da-lei? Elesis não tinha certeza.
– Wow, você vive aqui? – A ruiva disse ao entrar na casa com metade da torta em seus braços. Fazer o quê? Ela sentiu fome no caminho – É tão grande. Como você consegue pagar por tudo isso?
Lass a fitou com um olhar estranho.
– Grande? Elesis, essa é uma das menores casas de Briv. Onde você morava?
Antes que ela respondesse, foram ouvidos passos no fundo da casa e uma garota de cabelos brancos e pele bronzeada apareceu na frente dos dois. E foi assim que começou a discussão.
Aparentemente os dois eram irmãos e a mulher se chamava Lin e era extremamente gentil. Ambos permitiram que Elesis morasse na casa, desde que ajudasse a pagar as contas e ganhasse algumas moedas para a família. Lin não aprovava os furtos de Lass, mas muitas vezes era o que trazia comida na mesa. Então ela não reclamava muito. A moça é estilista e Elesis ficou encantada quando ela a mostrou alguns de seus trabalhos. Infelizmente, com as invasões dos goblins, a população começou a se dissipar e só poucas damas dispostas a pagar por um bom vestido prevaleceram, o que causou uma grande falência da parte de Lin.
– Agora, vamos ter que fazer alguma coisa com o seu visual. – comentou Lass enquanto comia um pedaço de torta – Se pretende continuar na cidade, lhe aconselho a cortar mais o cabelo e botar umas calças.
A ruiva inclinou sua cabeça para o lado para expressar sua confusão, e Lin explicou:
– Aqui na cidade, principalmente na área do norte, alguns homens... uh... – a moça fica meio encabulada e tenta completar sua explicação mexendo suas mãos (um hábito que Elesis percebeu que ela costuma usar) – alguns homens gostam de aproveitar do fato de que você é uma garota e...
– E o quê?
– Fazer coisas ruins com você.
– Mas você não se veste como um garoto.
– Isso é porque todos da cidade sabem que se alguém mexer com ela — Lass responde em um tom agressivo — vão mexer comigo – e Lin dá um breve sorriso de gratidão.
– Enfim, eu posso ir ao mercado e comprar algumas roupas de mulequ- O albino continua, mas é cortado por Lin.
– Não vai, não. – ela interrompe – você tem péssimo gosto para roupas. Amanhã de manhã, vou ir às compras com Elesis. Só quando ambos – ela aponta para os dois – dormirem um bem merecido sono. Tenho certeza que a garota está cansada da viagem e não vi o senhor dormir desde que Lothos fez a patrulha dois dias atrás. – ela encarou Lass com um olhar intenso, o que o fez desistir e ir para o seu quarto.
Elesis acorda e as primeiras coisas que nota são 1) É seu aniversário e 2) está deitada numa cama mais macia que a de sua casa, e lembra de tudo o que aconteceu. A ruiva ouve Lin a chamar e tenta levantar da cama, porém ela tropeça no vestido e cai no chão. A mulher estende uma mão para Elesis e esta a encara.
– É pra eu pegar?
Lin dá um suspiro irritado e puxa a garota, levantando-a. Tudo o que a ruiva ouve são as gargalhadas de Lass e os murmúrios mal-humorados de Lin.
–-
No café da manhã, Elesis decidiu contar para os dois sobre sua história. A torre, sua mãe, a vida tediosa. Mostrou a faca de Jin e o livro de magia, mas não contou sobre os três irmãos. Sentiu que era uma coisa privada, um segredo só entre ela e o trio. Ambos ficaram surpresos ao ver o livro e explicaram que magia era uma coisa extremamente rara entre o povo de Briv e que somente poucos da capital conseguem manuseá-la. Isso fez a ruiva pensar. Será que Ronan era da capital? Ela estava indecisa quanto a vê-los novamente. Sacudiu a cabeça. Pensaria nisso depois.
O sol estava brilhando no céu e quase nenhuma nuvem a vista. Segundo Lin, Canaban tinha um clima bem quente, e aconselhou Elesis a se acostumar. A garota nunca tinha visto tantas pessoas. O mercado estava lotado e as duas estavam no meio da multidão. Lin esclareceu que era algum tipo de feriado, o que explicava a quantidade de gente. Bandeiras com o símbolo de Canaban e placas coloridas enchiam os tetos das lojas. Havia também bardos tocando suas músicas mais animadas e alguns casais dançando, esperando alguém que tivesse algumas moedas para oferecer. No caminho, Elesis e Lin dão de cara com um homem de uniforme e cabelo castanho claro. O uniforme parecia mais uma armadura, e a ruiva notou as duas pistolas que estavam amarradas ao seu cinto.
– Bom dia, Comandante Lupus. – Lin o cumprimentou. O homem acenou com a cabeça.
– Bom dia, senhorita Lin – disse ele, e Elesis ficou se perguntando se não era desconfortável ter uma franja que cobre parte da sua cara. Mas aí ela lembrou que já teve um cabelo maior que o dele e percebeu que não era seu lugar criticar o visual dos outros – Tendo algum problema com os habitantes da cidade novamente? – ele olha para a ruiva.
Lin balança a cabeça em negação e os três ficam em um silêncio desconfortável. A moça de cabelo branco percebeu que Lupus e Elesis estavam se fitando como se estivessem em um concurso de encarar e interrompeu:
– Ah! Essa é Elesis, e ela vai ficar comigo e Lass por um tempo. Elesis, este é o Comandante Lupus.
O soldado estendeu a mão à Elesis para esta apertá-la, mas a garota só ficou encarando.
– Esse uniforme não é quente? – ela pergunta de repente, e logo depois é puxada por Lin e elas continuam andando, deixando Lupus com as sobrancelhas cerradas.
– D-Desculpe-me, ela não é daqui! Enfim, temos que ir! – Lin despediu-se do homem e Elesis notou as bochechas vermelhas da amiga.
– Lupus é um comandante – a ruiva começou – e seu irmão é um fora-da-lei. Ele sabe disso?
As duas pararam em uma barraca onde Elesis notou um monte de tecidos e roupas espalhados na bancada. Lin começou a tirar algumas peças e examiná-las. Em seguida, falou:
– Lass não precisa saber dos meus amigos. Ele ficaria furioso.
A garota engasga com a própria saliva.
– Amigos?! Vocês são amigos?
Lin a encara com um olhar intenso, como se estivesse falando “se contar, te mato”.
– Lupus e eu nos conhecemos faz algum tempo. Ele me acompanha no mercado às vezes e conversamos, mas como o mercado está lotad-
– Você gosta dele – Elesis interrompe, e é a vez de Lin de engasgar – Gosta dele sim. E gosta muito – a ruiva fica a irritando quando a amiga insiste que eles são só amigos, mas as bochechas coradas de Lin a entrega, e esta confessa que talvez (ela fez questão de enfatizar a palavra) nutrisse algo pelo soldado, porém seria muito improvável este sentir o mesmo. Elesis anotou em sua cabeça que depois faria questão de investigar isso mais fundo. A ruiva deixou a amiga escolher as roupas e tagarelar sozinha sobre como o namoro não daria certo porque Lass nunca aprovaria e saiu da barraca. Disse que a encontraria na casa dela, e que só precisava de um pouco de ar.
Andando pelas ruas do mercado, Elesis tentava não perder nada. As pessoas, o cheiro, as músicas... Tudo era tão novo para ela. Até parecia que estava sob um céu diferente, que já estava escurecendo. Uma frente fria veio e a menina esfregou os braços. Sentiu saudades do seu cabelo grande naquele momento, que a esquentava nas noites frias de inverno. Mas também era um alívio não ter mais que se preocupar em tropeçar em nenhum nó. Sentia saudades da sua mãe, também. Sem falar dos três irmãos, e uma onda de emoções veio e a derrubou. Ela sentou-se apoiada em uma parede e começou a chorar. Como pôde abandonar tudo aquilo? Como pôde abandonar eles? Deveriam estar tão preocupados, pensando aonde diabos ela tinha ido e se voltaria. Ou nem teriam se lembrado dela. Ela nunca mais veria sua mãe, nem sua torre, onde passou praticamente sua vida inteira.
A moça ficou lamentando suas perdas quando ouviu passos e viu que alguém se ajoelhou na frente dela.
– Qual o problema, garotinha? – ela ouviu alguém perguntar. A voz era tão gentil que parecia a de Jin. Elesis limpou suas lágrimas e conseguiu ver melhor. À sua frente estava um homem bem jovem com cabelos laranja e olhos verdes tão claros que venceriam os de Lass.
– Não sou garotinha, tenho 21 anos – a ruiva respondeu bufando, o que causou algumas risadas do garoto. Este respondeu:
– Desculpe. Você estava tão encolhida aí que mal dava pra te ver – O jovem levantou-se e estendeu a mão, um sinal que Elesis aprendeu que significa algum tipo de ajuda, e aceitou.
– Meu nome é Ryan. – Ele disse, ajudando a ruiva a se por de pé. Pensando nisso, ele era ruivo também, mas um ruivo diferente. – Prazer em conhecê-la, senhorita...
Ryan parou no meio da frase e encarou Elesis, parecendo estar esperando alguma coisa. Esta olhou em volta, procurando a tal “senhorita”, porém depois assumiu que a “senhorita” era ela.
– Meu nome é Elesis.
– Elesis! – Ryan exclamou – É um belo nome – estendeu o braço para a garota para que esta o acompanhasse. Elesis não tinha a mínima idéia do que estava acontecendo, mas aceitou a companhia mesmo assim. O ruivo continuou:
– Então, diga-me, senhorita Elesis. Você é nova por estas bandas?
A ruiva se perguntava se tinha muitas bandas naquela cidade. Nunca tinha visto uma. Pelo que sabia, era um conjunto de pessoas que faziam músicas. O que fez Ryan pensar que ela fazia parte de alguma? Homens...
– Não faço parte de nenhuma banda.
O ruivo limitou uma risada e respondeu:
– Ok, sem metáforas. Já entendi. – E eles caminharam silenciosamente pela cidade, falando sobre bandas e tortas de morango. Elesis pensou em confessar seus segredos, mas expulsou os pensamentos. Seu passado ficou naquela torre, junto com os livros e as blueberries.
A menina declarou que estava morando junto com Lass e Lin e que era nova na cidade. Ryan foi contando que era dono de uma forja e que, se estivesse interessada, arrumaria um emprego para a jovem. Esta disse que pensaria no assunto.
Naquela mesma noite, ao voltar para sua nova casa, Elesis comeu alguns pães recheados, releu seu livro de magia e sonhou com um certo garoto de cabelos azuis.
Fale com o autor