Blueberry
6 Mulher de vermelho
Notas iniciais
Estava um lindo dia e o tempo estava agradável, melhorando ainda mais o humor de Ronan. Visitar aquela garota da torre era justamente o que ele e seus irmãos precisavam para fugir das preocupações e obrigações do palácio. Ele lia a carta que a senhorita Blueberry tinha escrito pela terceira vez. Desde que tinha conhecido a ruiva, ficara intrigado.
Ela estava presa em uma torre isolada a sua vida inteira, porém vivia com bom-humor todos os dias. Ronan aprendeu com ela: sorria e seja feliz, mesmo que sua vida seja difícil. Jin e Sieghart mal esperavam para visitar Blueberry novamente todos os dias e o azulado ficava contente em vê-los tão animados (mais do que o normal).
Ronan passava noites em claro sonhando acordado e imaginando o que ela fazia o dia inteiro presa naquele lugar e como era o seu rosto.
– Como será que ela consegue pentear aquele cabelão? – Jin perguntava-se. Sieghart continuou.
– Aposto que ela tem sardinhas. – O moreno riu.
– Qual a cor dos olhos dela? – Ronan entrava na conversa e de vez em quando pensava o quão bonito as mechas ruivas da garota ficariam em uma trança ou cheia de flores.
– Verde! – Jin exclamou e Sieghart entrou na frente.
– Não! Azul! — E foi assim que os dois começaram a apostar.
O azulado estava assinando um tratado com o reino de Serdin quando viu seus irmãos se aproximarem todos cheios de lama.
– Há! Eu sabia que ela ia tentar comer o kiwi sem descascar! – Sieghart se gabou. “Provavelmente outra aposta” Ronan pensou, secretamente feliz que Blueberry tenha tentado comido a fruta que ele deu.
– Idiota! – O ruivo retrucou. – É óbvio que ela não iria descascar. Ela nunca viu um kiwi antes.
– Mesmo assim, você me deve dez moedas. – O moreno cantarolou e Jin suspirou.
O futuro Rei queria muito ir conversar com a garota novamente. Ele ficava alegre só de pensar nela. Entretanto, quando os garotos voltaram não tão animados, Ronan ficou preocupado.
– E então? Como foi? – Este perguntou ansioso.
– Senhorita Blueberry confessou que não estava se sentindo muito bem então voltamos mais cedo. Mas ela disse que queria ver você também amanhã. – Jin informou e sorriu quando viu o rosto do irmão mais velho iluminar.
Ronan não hesitou em pegar suas coisas e ir encontrar a garota quando viu o primeiro raiar do sol indicando um novo dia. Seus irmãos ainda estavam dormindo, porém ele sabia que eles chegariam depois.
Quando ele chegou ao seu destino e chamou o nome da ruiva várias vezes, ele notou algo errado. Será que ela estava dormindo? Sieghart comentou com ele uma vez que a garota acordava bem cedo pela manhã. Talvez ele tivesse que esperar mais um pouco.
Algumas horas se passaram e o Príncipe decidiu chamá-la de novo. Nada. Ele estava fazendo alguma coisa errada? Ela ainda estava dormindo? Seus pensamentos foram interrompidos quando percebeu a sombra de uma pessoa vindo em sua direção. Estranho, quase ninguém vinha para a floresta.
Os olhos do rapaz se arregalaram quando notou que a figura tomou forma de uma mulher adulta com uma cesta na mão. Esta estava com uma capa e um capuz vermelho, com o olhar sinistro. O ar pareceu mais pesado e a moça decidiu quebrar o silêncio.
– Ora, ora. O que temos aqui? – Ela cantarolou, fitando o jovem. – E você seria...?
– Ronan Erudon. – Ronan engoliu seco. – E a senhorita...?
– Ohoho ~ — Ela riu. – De onde é que eu conheço você? – A mulher pareceu pensar por um segundo e depois exclamou. – Ah! Você não é o herdeiro do trono de Canaban?
– Desculpe, senhorita. Estava procurando por uma pessoa. – O azulado desculpou-se e começou a recuar quando a moça o interrompeu:
– Veio encontrar ela?
O coração do jovem batia mais rápido a cada segundo. Ele tinha uma impressão que esta poderia ser a mãe de Blueberry. Será?
– Sim. – Ele respondeu honestamente. De que adiantaria mentir?
– Ela se foi. – A mulher falou rispidamente. – Eu sabia que isso iria acontecer, de qualquer jeito. – Ela murmurou, mais para si mesma. Os olhos de Ronan se arregalaram e ele não se atreveu a mexer um músculo.
– Como assim ela... se foi? – Ele procurou por respostas, aflito. Blueberry tinha ido embora? Ronan sentiu vontade de chorar.
A mulher mostrou-se irritada e gritou:
– Você nunca mais terá o direito de vê-la! – E com isso, suas mãos brilharam com uma luz branca e a lançou nos olhos do azulado, que gritou de dor. – Você nunca verá mais nada.
Ronan se contorcia no chão, agoniado. Os olhos queimando com uma ardência inexplicável enquanto a moça continuava a falar.
– Eu a avisei. Avisei para não criar problemas, e ela fez mesmo assim. – Ela finalizou, virou-se e foi embora. O rapaz ainda podia ouvir os risos da mulher à distância e gritava de dor, as mãos nos olhos. Porém os seus pensamentos pareciam mais intensos do que a dor.
Ela tinha ido embora? Como? Isso não faz sentido, ela o convidou para visitá-la esta manhã. A não ser que algo inesperado tenha acontecido. Será que ela...
Morreu?
Os dias seguintes foram quase tão agonizantes quanto o primeiro, quando Ronan se deu conta de que a tinha perdido. Ele e seus irmãos saíam sempre que podiam à procura da ruiva, que não estava na floresta ou na torre. Mesmo assim, quando o azulado conseguia ficar de frente para a torre, ele a chamava todas as manhãs, com a esperança de que Blueberry aparecesse pela janela e gritasse “Brincadeirinha!” Com o coração pesado, o Rei nunca desistiu.
Três meses se passaram e sua esperança desapareceu. Trancou-se no quarto e quase nunca saía dali. Mesmo que a garota reaparecesse em sua vida, nunca poderia admirá-la novamente. Isso doía mais do que tudo.
Ronan contratou secretamente os melhores caçadores de recompensa que poderia encontrar e os mandou à procura da mulher de capa vermelha. Se soubesse o seu paradeiro, teria uma chance de descobrir algo sobre Blueberry. Essa era a sua última tentativa.
Ele daria tudo para ouvir a voz dela uma última vez.
– Blueberry. – A empregada respondeu, como se suas preces tivessem sido atendidas e o inferno estivesse o castigando ao mesmo tempo.
Deixando o copo de vidro se quebrar no chão, Ronan levantou-se da poltrona, sentindo lágrimas nos olhos.
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