Elesis viu o Rei fechar as cortinas apressadamente e murmurar algo para si mesmo entre os dentes.

– Temos que esperar. – Ronan declarou e limitou um suspiro. Era só o que ele sabia fazer: esperar. Esperar por uma esperança e uma luz no fim do túnel. Esperar por mais uma chance. Esperar por ela.

A ruiva sentiu-se com medo e tentava de tudo para desviar os seus pensamentos sobre o que estava acontecendo do outro lado da porta.

– Não se preocupe. – O azulado a assegurou. – Eu troco de quarto todos os dias, então eles não sabem que estou aqui. – Bem, isso explicava o porquê dos Revolucionários não terem conseguido tomar o trono até agora. O Rei foi até a escrivaninha, tateando a peça de madeira e pegou algo de baixo dela. Uma chave.

Elesis o fitou confusa. O que ele ia abrir?

– Esta é a chave do meu cofre. – Ele explicou, e os olhos vermelhos da garota se arregalaram. Então existia mesmo um cofre. Mas porque ele estava contando isso a ela? – Se eu for capturado ou assassinado por algum dos Revolucionários, quero que o meu tesouro fique comigo. – Ele continuou, girando a chave na abertura de uma das gavetas. Elesis, ansiosa para ver qual era o tesouro, esperou ele tirar alguma coisa valiosa. “Talvez seja ouro”, pensou ela.

Entretanto, para a surpresa da jovem, ele tirou um envelope. Os dedos do rapaz acariciavam delicadamente o papel, como se fosse quebrar ao menor toque. Estava claro que aquilo era muito importante para ele.

– U-Um cofre? – A empregada gaguejou, não acreditando que o “cofre” de que tantos falavam era... – Mas é uma gaveta.

– Um cofre é um lugar onde você guarda coisas que são preciosas para você, não é? – Ele respondeu, levantando a carta. – Isso é muito importante pra mim.

Quando Elesis observou o pedaço de papel, percebeu que ele parecia meio familiar. Querendo saber mais, indagou:

– O que está escrito?

Ela sabia que não era da sua conta, porém a ruiva tinha um sentimento de que deveria saber. Ronan respirou fundo e fechou os seus olhos sem pupila. Deveria estar decidindo se contava para Elesis, uma simples empregada curiosa que não tinha a mínima idéia do seu passado.

– Esta carta é de uma amiga minha que se chamava Blueberry – Ele decidiu confessar, rindo – Igual o seu nome.

Com os olhos arregalados, a garota esperava o azulado continuar.

– Ela era muito importante para mim, mas então desapareceu. – O Rei suspirou. Era difícil ter que finalmente contar para alguém o que estava acontecendo com o seu coração. – Eu a amava.

Não se importando em segurar as lágrimas, Elesis não podia acreditar no que tinha ouvido. Ronan a amava? Mesmo que os dois tivessem passado tanto pouco tempo juntos?

Ela era uma idiota. O jovem estava sofrendo tanto por causa dela, e ela estava aqui o tempo todo sem nem o contar! Segurando os soluços, ela caminhou em sua direção.

– Ronan, eu-

– Sua Majestade! – Uma voz gritou ao derrubar a porta do quarto. – O senhor está bem? Os Revolucionários foram detidos, mas temos que voltarão em breve.

O Rei sorriu ao ouvir a declaração do guarda, nem percebendo a ruiva eufórica e em lágrimas à sua frente.

– Bom trabalho. – Ele caminhou em direção à voz, causando Elesis a sair do caminho. – Estou bem, não se preocupe. Entretanto acho que será necessário mudar de quarto novamente.

Saindo do quarto, o guarda auxiliava o Rei, guiando o caminho. A jovem nem acreditava que os dois tinham ignorado-a completamente até ouvir Ronan exclamar:

– Sinto muito pelo transtorno, senhorita Blueberry, pode voltar a trabalhar. – E com isso, mais guardas chegaram para acompanhar o azulado, impedindo-a de confessar a Ronan as palavras que queria tanto gritar:

“Eu sou a sua Blueberry, idiota!”

–-

Elesis passou os próximos dois dias em total ansiedade. Ela queria mais do que tudo contar a verdade a ele, todavia o novo quarto de Ronan estava guardado por soldados que dispensavam qualquer um de tentar entrar.

– Nunca os Revolucionários chegaram tão perto do quarto do Rei. – Amy manifestou-se. As duas estavam lavando a louça quando a rosada decidiu comentar o assunto dos últimos dias. – Então ele convocou guardas para protegê-lo vinte e quatro horas por dia.

– Você acha que ele aparecerá para o aniversário dos Príncipes? – A ruiva perguntou curiosa enquanto ensaboava uma taça.

– Não sei. Provavelmente. A festa será daqui alguns dias, imagino que seria tempo suficiente para o palácio se acalmar.

Elesis esperava esperançosa para o Rei fazer sua aparição no baile. Assim poderia confessar tudo, e mesmo que não conseguisse, ela contaria para Jin ou Sieghart. Eles com certeza a ouviriam. Infelizmente, eles saíram do reino para fazer negócios com o Rei de Serdin (já que Ronan só ficava trancado em seu quarto) e voltariam no dia da festa.

– Você já conseguiu fazer uma receita para a torta de morango? – Amy chamou a atenção da amiga, que ficou confusa.

– Que torta? Ninguém me falou nada. – Tudo o que lhe foi informada para fazer foram os enfeites, não a sobremesa.

– Ah, você é nova aqui, então acho que ninguém te contou. – A rosada secou as mãos em um pano e continuou, animada. – Toda vez que o dia dos aniversários dos Príncipes se aproxima, nós criadas entramos em um concurso com o objetivo de fazer a melhor torta de morango. – Amy exclamou. Elesis se lembrou dos primeiros dias que conheceu os dois e Sieghart tinha comentado que adorava tortas de morango. Incrível como ela ainda se lembrava disso. — Os Príncipes provam um pedaço de cada torta e decidem quem é o vencedor.

– E o que o vencedor ganha? — A menor deu de ombros.

– Cada ano é um prêmio diferente. Ano passado a sortuda ganhou uma dança com cada um dos três Príncipes. – Ela suspirou e a ruiva rolou os olhos. Aparentemente quase todas as empregadas eram apaixonadas por Jin, Sieghart ou Ronan.

– Quem ganhou no ano passado? – Ela perguntou, tentando fazer com que o assunto continuasse.

– Não sei, eu entrei esse ano. Vou fazer de tudo para ganhar de primeira! – Ela sorriu e pegou uma vassoura para limpar um dos corredores, deixando a ruiva perdida em pensamentos.

A jovem realmente queria rever Lin e os outros na festa, entretanto suas esperanças desapareceram quando foi informada que somente aqueles do palácio seriam convidados para o baile, devido aos ataques dos Revolucionários. O reino estaria perdido se algum convidado do exterior disfarçado fosse um deles.

Entrando em seu quarto, cansada de tanto trabalhar, Elesis foi até seus pertences e tirou a pulseira de ouro dentro de uma caixa. Ao ver a ruiva usando esse acessório no baile, os Príncipes acreditariam nela, sem dúvida. Afinal, foram eles que deram a ela esse presente.

Decidida, ela pegou um lápis e um papel e começou a escrever a melhor receita de torta de morango que os dois jamais experimentaram.

Notas finais
*agarra elesis pela gola e começa a balançá-la* FINALMENTE VC DECIDIU CONTAR PRO RONAN MININA *CHORA*