Blueberry
5 Margaridas
A ruiva viu os olhos do Rei se arregalaram e ele deixou a taça cair no chão.
– C-Como é? O que disse? – Ele soava desesperado, levantando do assento e indo em direção à voz (pelo menos tentando). Essa ação pareceu quebrar o coração de Elesis e ela tentou esconder um soluço. Não, ela não iria chorar. Não agora.
Ela pensou em contá-lo a verdade desde que chegou ao castelo, todavia decidiu contra. Ela tinha uma casa e um emprego. Ela tinha uma nova família e ela morava em Briv.
Ele fazia parte de um passado do qual ela não deveria voltar.
– Ah, sinto muito, sua Majestade. Eu lhe assustei. – A empregada arranjou uma desculpa para falar algo, pois o silêncio estava a sufocando.
– Essa voz... – Ronan comentou. Elesis estremeceu e rezou para os deuses que ele não descobrisse. Ele não deve se lembrar, afinal. Foi três meses atrás, ele deve ter muitas outras preocupações do que uma garota fracassada presa em uma torre agora livre.
O Rei parecia pronto para dizer mais alguma coisa, porém fechou os lábios, mostrando-se insatisfeito com alguma coisa. Alguns momentos depois do silêncio ainda mais sufocante, o azulado continuou:
– Meus irmãos a trouxeram aqui, não foram? – Ele cuspiu.
– S-Sim, meu Rei. – Ela respondeu firme, mas incerta. Esse era mesmo o Ronan que ela conhecia? – Os Príncipes trouxeram-me em seus quartos p-
– Eu sei muito bem porque eles te trouxeram aqui! – Ele rugiu furioso por uma razão da qual a jovem desconhecia. – Esses desgraçados, tentando me fazer de idiota! Brincando com os meus sentimentos! – Os livros e a garrafa de vinho que estavam postas na mesa foram jogadas para o chão por Ronan.
– Meu Rei, eu-
– Não me chame de Rei! – Ele implicou. Elesis viu que ele parecia cansado e claramente chateado com algo. Ela quis ajudar, entretanto sabia que era inútil. Não é sábio tentar racionalizar com alguém que está com tanta raiva assim. – Eu não mereço ser Rei... – Ele sussurrou, pegando a coroa da cabeça e a observando atentamente.
Colocando o objeto de ouro na mesa, o homem virou na direção da garota, olhando o chão.
– Vá embora. – Ele comandou. – Você não é ela...
A menina não hesitou em reverenciar (inutilmente) e sair do quarto envergonhada e entristecida. Será que ele quis dizer a mulher que ele tanto amara e perdera? A ruiva parou de andar e permitiu que as lágrimas rolassem soltas. A pobre garota nunca tinha ficado tão aflita assim.
“Desculpe, Ronan...” Ela lamentava em seus pensamentos, agarrando a saia do uniforme como uma espécie de conforto. “Eu não sou a mulher que você ama. Eu não consigo ser amada por você.”
Limpando as lágrimas e espantando a tristeza, Elesis caminhava pelos corredores do palácio quando avistou um certo Príncipe sorridente. Gemendo baixinho, ela continuou andando. Não se passou muito tempo quando Sieghart correu em sua direção, seguido por Jin.
– Como foi? – Ambos perguntaram, mas tudo o que a ruiva fez foi balançar a cabeça em negação. Os rostos dos rapazes ficaram entristecidos. Logo depois Jin pegou a mão de Elesis e começou a correr, levando-a com ele. Sieghart pareceu confuso por um momento quando notou a garota indo embora e começou a reclamar.
– Hey, idiota! Não a pegue só pra você! – Ele gritou, seguindo os dois. A jovem riu com o comentário do moreno e se perguntava aonde o ruivo a estava levando.
– Onde estamos indo? – Ela o interrogou, mas o Príncipe apenas sorriu.
Minutos depois, os três estavam arfando por causa da correria, mas Elesis nem se importou. O que viu naquele momento ficaria marcado em sua vida para sempre.
Era um jardim enorme. A menina nunca iria imaginar que isto estava escondido atrás do palácio. Nunca tinha visto uma grama tão verde e animais tão bonitos. Havia pedras, flores, árvores e...
– Blueberries. – Ela riu.
Jin caminhou até uma árvore e arrancou uma blueberry.
– Eu notei que você parecia triste desde que chegou e, após ouvir o seu nome, achei que seria divertido trazer a senhorita aqui. – O ruivo colocou a blueberry na palma da mão de Elesis e a fechou.
– Quando estiver se sentindo chateada, não perca tempo para nos contar qualquer coisa, senhorita Blueberry.
A empregada sentiu suas bochechas corarem com a declaração. Ninguém nunca tinha feito algo tão profundo para ela. Sieghart sorriu como sempre e os dois acompanhavam a garota quando esta andou até um campo de margaridas.
Sentada, Elesis começou a pegar as flores, pensativa. Jin continuou o discurso.
– Você deve estar nervosa pelo que aconteceu naquele quarto com Ronan. – Ele sentou-se do lado dela, e o moreno se ajeitou no outro lado. – Ele não era assim. Muita coisa aconteceu desde o incidente.
– Incidente? – Elesis cerrou as sobrancelhas, ainda mexendo com as margaridas. Sieghart tentou dar uma espiada para ver o que ela estava fazendo, mas deu uma cotovelada na cara do introvertido.
– Quando ele ficou cego. – Jin continuou a explicar, claramente ignorando os chiliques de “Você quebrou meu nariz” de Sieghart. – Estamos tentando ajudá-lo, mas...
Terminando o seu trabalho, a jovem colocou a coroa de margaridas na cabeça do ruivo para animá-lo.
– Não se preocupe. – Ela o confortou. – Sei que vão conseguir.
Não sabendo o que tinha acontecido, Jin tentou pegar a coroa de flores, mas Elesis a interrompeu.
– Não! Vai estragar. – A garota explicou e para finalizar enfiou a blueberry que ele tinha entregado para ela entre um dos caules que suportavam a coroa. – Pronto. Agora está perfeito.
Os dois sorriram e a jovem sentiu uma determinação crescer dentro dela. Eles podiam não conhecer ela de verdade, mas ela iria ajudar. Não importava se ela fosse Blueberry ou Elesis.
– Não é justo! Eu quero uma também! – Sieghart bufou, fazendo a ruiva pegar mais algumas margaridas e construir outra coroa.
–-
Os dois irmãos caminhavam tranquilamente pelos corredores do castelo ao lado de Elesis. Ambos ainda tinham a coroa de flores na cabeça, então todas as pessoas que passavam por ali os encaravam, fazendo a ruiva corar de vergonha.
A empregada pediu para que eles a acompanhassem até o local de trabalho, assim seria mais fácil explicar que passou todo aquele tempo com os Príncipes. Rey nunca acreditaria nela se esta viesse sozinha.
Um som estridente causou o trio a parar de repente. As janelas quebraram e algumas empregadas e mordomos gritaram. Haviam guardas correndo em todo o lugar e Elesis só conseguiu processar o que estava acontecendo quando os rapazes a puxaram para o cômodo mais próximo.
Estava um breu e tudo o que via era escuridão. Um dos irmãos acendeu a luz e a ruiva percebeu que estavam em uma espécie de depósito.
– É a segunda vez essa semana. – Sieghart comentou com o ruivo, seu tom de voz mais sério. Elesis achou estranho o moreno com aquele tom na voz. Não estava gostando nada daquilo.
– O que está acontecendo? – A garota perguntou eufórica.
– São os “Revolucionários”. – Jin respondeu em um tom mais baixo e a menina estremeceu quando ouviu tiros do outro lado da porta.
– Revolucionários?
– Eles são guerreiros e nobres que protestam e lutam contra o reino por causa da exploração. Normalmente são magos.
Elesis congelou. Será que ela ouviu direito?
– Magos? – Ela sussurrou. Magos não são aqueles portadores de magia? Ela conseguia usar magia, não é?
– Não dá para explicar isso agora, senhorita Blueberry. – Sieghart murmurou, pegando sua mão como uma forma de conforto. – Só o que nos resta é ficarmos quietos e esperar que isso passe.
–-
Os próximos dias foram um desafio para Elesis. Não só por causa do trabalho, mas pelos ataques que frequentemente aconteciam pelo palácio. Foram construídas alas em vários lugares do castelo como objetivo de proteger os nobres e funcionários. Toda manhã ela pensava se conseguia sobreviver mais um dia, e isso a fez sentir falta de casa. Não da torre, mas de sua família. Será que Lin e Lass fizeram as pazes? E como estará Ryan? Já teria conseguido outro empregado para trabalhar na forja? Perguntas e mais perguntas...
Pelo que conseguiu entender, o objetivo dos “Revolucionários” era tomar posse do castelo. Fazendo isso, eles teriam controle de boa parte do reino de Canaban (incluindo Briv). Os magos se aliaram a eles não fazia muito tempo, com o objetivo de ter algum lucro financeiro.
Falando em lucro financeiro, Elesis não tinha a mínia ideia de como descobrir sobre esse tal de cofre. Ele existia mesmo? E se existisse, onde ele estaria? Tinha que pensar em algo e rápido.
Aparentemente, todas as suas preces tinham sido ouvidas quando Rey anunciou:
– O Rei solicitou uma xícara de chá em seu quarto. – Incrivelmente que seja, todas as empregadas ficaram em silêncio, algumas sussurrando algo para as amigas.
– Eu não vou. – Amy, uma das criadas que fez amizade com Elesis, murmurou para a garota. – Você já viu como ele fala com a gente? Não é um Rei muito amistoso.
– Eu vou. – A ruiva proclamou, e até Rey pareceu surpresa.
– Muito bem. – Declarou a governanta quando entregou uma bandeja para a jovem. – Quarto 2.
Suspirando pela quinta vez, ela atravessou o jardim principal e foi até a porta do quarto.
– Sua Majestade, o chá está servido. – A criada informou quando entrou e o colocou na mesa, como era para ser feito. Ronan tinha uma aparência muito pior desde a última vez que ela o viu. Estava pálido e as olheras estavam maiores. Elesis sentiu uma dor no peito. Ela queria dizer algo. Qualquer coisa. Ele era o Rei, não era? Por que ele não estava sentado no trono e governando como deveria estar?
– Se me permite dizer, meu Rei. – A ruiva começou, hesitante. O rapaz olhou em sua direção. – E-Eu sei que está muito chateado com algo, m-mas...Todos estão aflitos. O reino precisa de um Rei e...Os Príncipes precisam de um irmão outra vez. – A respiração da garota acelerou e ela não acreditava no que tinha falado. Ela tinha acabado de dar uma lição de moral no Rei?! Ótimo, agora seria despedida.
– Sim, eu sei. – Veio a resposta inesperada de Ronan. – Sinto muito, eu... – Ele suspirou, parecendo derrotado. – Eu fico aqui todos os dias sem fazer nada. Que Rei inútil.
Elesis queria retrucar. Por que ele não era um inútil, e era justamente o Rei que Canaban merecia. Todavia, nada saia de sua boca, como se estivesse paralisada. Ronan abriu os lábios para continuar, porém foi interrompido com o barulho de janelas quebrando saindo do outro lado da porta. Os sons de tiros foram mais que suficiente para fazer a ruiva estremecer.
– Feche a porta, rápido! – Ele comandou para ela, que obedeceu sem hesitações. Ótimo, agora estava trancada com Ronan.
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