Blueberry
4 Droga, eles se lembram
– Bem, isso foi um desastre. – A menor murmurou, sentada em uma das três cadeiras.
– Lin, você não pode ficar com ele. – Lass continuou a discussão sentado na outra cadeira, ignorando Elesis.
Lin remexeu-se no assento, desconfortável. Estava claro que a pobre garota escondeu seus sentimentos por todos esses anos simplesmente para evitar esta situação. Ela suspirou. Isso iria acontecer, de um jeito ou de outro. Tomando coragem, ela assumiu:
– Eu o amo.
Elesis caiu da cadeira e Lass engasgou com a própria saliva. Ele estava pronto para revidar quando foi interrompido pela ruiva:
– Lin, isso é ótimo! – Ela correu e abraçou a amiga. – Estou tão feliz por você!
– Feliz? Elesis, isso não é bom! – O albino retrucou, levantando-se da cadeira.
– Por que não?
– Por que ele é um deles! – Lass já estava perdendo a paciência com a inocência de Elesis.
– Eles quem? – Perguntou Elesis, ficando irritada também. Por que ninguém explicava nada para ela? Eles sabiam que ela tinha fugido de uma torre onde ficou isolada a vida inteira, certo? Por que uma pessoa não podia se apaixonar pela outra? Quê há de errado nisso?
– Já chega, Lass! – Lin enfrentou o irmão com os punhos cerrados e lágrimas nos olhos. – Eu não escolho quem eu amo, e se você não quiser isso, problema é seu. Eu vou tentar fazer isso dar certo. Você viu o que aconteceu com o Rei, não foi?!
Opa, aquilo definitivamente chamou a atenção de Elesis.
– O que aconteceu com ele? – Ela perguntou, aflita. A pobre garota tentava focar a atenção dos dois para si.
Ambos os irmãos a encararam e Lin respondeu:
– Eu não sei muito bem, mas o Rei amava uma mulher e a perdeu. Ele está depressivo desde então.
– Foi um milagre que ele tenha aparecido no festival. – Sussurrou Lass mais para si mesmo do que para a ruiva.
Por algum motivo, aquilo doeu em Elesis. Porém ela não entendia. Não era uma dor física ou outra emocional que ela já tenha experimentado. Então ele era apaixonado por alguém?
– Elesis, tudo bem? – Lass perguntou preocupado, e a ruiva percebeu que estava chorando.
Correndo para o seu quarto, a menina ficou chorando debaixo dos cobertores. Por que ela estava triste? Não entendia, e isso a deixava mais irritada ainda.
Algumas horas se passaram e Elesis ainda estava indecisa quanto a sair do cômodo, todavia já estava se sentindo bem melhor. A garota ouviu a porta se abrir e revelar Lass, que parecia bem cansado. Será que ele teve outra briga com a irmã? Ela odiava quando eles discutiam.
– Elesis, sinto muito por hoje. – Ele falou com um tom sereno. – Você devia estar exausta de ver eu e Lin brigando o dia todo. – Rindo sarcasticamente, o rapaz sentou na beira da cama, fitando a menina.
– O que houve? – Elesis decidiu perguntar. – O que há de errado com Lupus.
Lass pareceu nervoso, mas decidiu confessar. Afinal, a ruiva tinha se tornado uma outra irmã para ele, e ela merecia saber.
– Ele é um guarda real de Canaban. – As palavras pareciam veneno na boca do albino, porém ele prosseguiu. – Eles... Não são boas pessoas. Eles matam gente e...
Com os olhos arregalados, Elesis não sabia o que pensar. Lupus, de todas as pessoas, assassinando inocentes?
– ...Eles mataram nossos pais. Meu e de Lin. Eu não posso perdoar isso, Elesis, eu... – A ruiva decidiu abraçá-lo em vez de deixá-lo continuar. Aquilo devia magoar, principalmente falar sobre isso.
– Tudo bem, eu entendo. – Ela murmurou, tentando encontrar palavras para confortá-lo. Deuses, ela era terrível nisso.
– Tirando isso de lado, não foi para isso que eu vim aqui. – Lass se recompôs, quebrando o abraço. – Quero te fazer uma proposta.
Ele parecia animado e isso era um sinal para mais um de seus planos. Elesis suspirou e esperou ele continuar.
– Eu sempre precisei furtar para conseguirmos viver, já que o trabalho de Lin não é suficiente. – Ele admitiu envergonhado. – O reino nunca nos dá o bastante. Por causa disso, todos sofrem. Se tivéssemos só um quinto do que o cofre do castelo tem, seríamos ricos e ainda poderíamos ajudar muitas pessoas.
– Espera aí. – Interferiu a ruiva, com uma sobrancelha arqueada – Cofre do palácio?
– Há rumores correndo pela cidade recentemente que o palácio do reino possui um cofre cheio de dinheiro. – Ele exclamou. – Como eles estão recrutando empregadas, você poderia se infiltrar no local e confirmar se existe mesmo um cofre. Eu não quero que roube nada, só que certifique. Precisamos saber se esses nobres estão mesmo escondendo algo assim do povo. Isso é coisa séria. Podia causar até uma revolução.
Elesis escutou tudo paralisada. Estava com medo, entretanto ao mesmo tempo animada. Se ela fosse até o castelo teria uma chance de encontrar Ronan e os outros outra vez.
Não, ela afastou os pensamentos. Ela os encontraria, mas e depois? Contaria tudo? Não podia fazer isso. Ela estava com Lass e Lin agora. Eles eram a sua família.
– Por que você não pede para Lin fazer essa tarefa? – Ela perguntou ansiosa.
– Você tem magia. Pode fazer alguma coisa com ela, sei lá. – Ele deu de ombros. A jovem perguntava se era mesmo isso ou apenas uma desculpa porque ele ainda estava bravo com a irmã.
–-
Elesis não estava acreditando que desistiu das aulas de espadachim com Ryan para estar ali. E pior, ela até leu livros sobre boas maneiras. E tudo para confirmar a existência de um cofre estúpido e ter a chance de vê-los mais uma vez.
De qualquer forma, era estranho voltar a usar saia de novo, já que estava usando calça há alguns meses. Olhou ao seu redor e engoliu a saliva. Aquele lugar era enorme. Como ela não se perderia ali?
– Hey, você. – Uma voz feminina a chamou e a ruiva notou que era outra empregada. – É a novata, não é? Meu nome é Rey, sou a governanta. Qual o seu nome?
– B-Blueberry. – A menina respondeu de repente e mentalmente se deu um tapa na cara. Era para ser “Bela”, mas ela ficou nervosa e Blueberry foi a única coisa que conseguiu lembrar.
– Nome estranho. – Amy murmurou, anotando algo em uma caderneta. – Enfim, siga-me. Lhe mostrarei os cômodos.
Elesis começou a ficar com dor nas pernas quando a mulher de cabelos rosados apresentou o décimo quinto quarto. A ruiva amaldiçoava a existência de Lass enquanto a governanta tagarelava algo sobre o uniforme.
No vigésimo quarto, a ruiva agora começou a amaldiçoar a si mesma. Por que foi aceitar esse trabalho? Maldição.
– Muito bem. Agora os banheiros. – A mulher continuou, e Elesis gemeu.
Depois de algumas horas do chato monólogo que Rey fazia, ela foi apresentada às outras empregadas. A ruiva ficou aliviada quanto notou que elas pareciam bem amigáveis. Pelo menos isso.
–-
– A Princesa Lire solicitou um café para ela e seus sobrinhos no Quarto 7! – Uma das empregadas informou. Houve alguns sussurros e Rey interrompeu.
– Blueberry irá entregá-los. – E com isso uma bandeja foi posta em seus braços. – Você terá que aprender a fazer pelo menos isso, queira ou não.
A garota suspirou enquanto andava pelos corredores do palácio. Ela estava satisfeita o suficiente apenas lavando os pratos. Chegando ao local, deu uma olhada no número do quarto e bateu a porta, nervosa.
– Pode entrar. – Uma voz suave a encorajou.
Girando a maçaneta, ela entrou no cômodo e seus olhos se encontraram com os da mulher. Ela era jovem com cabelos loiros compridos e um vestido azul com detalhes em branco. Elesis tentou não sorrir, pois aquele vestido a lembrara daquele que sua mãe a tinha dado de presente. Ironia.
Ela não pôde deixar de notar também dois homens sentados em duas poltronas, fitando-a. Seu coração acelerou consideravelmente quando percebeu que aqueles rapazes eram Sieghart e Jin.
Pigarreando para limpar a garganta, a ruiva disse firmemente:
– O café está servido, Vossa Excelência.
A loira sorriu e a informou para deixar a bandeja na mesa ao lado. Quando Elesis estava se preparando para sair, a Princesa comentou:
– Você é nova aqui, não é? Qual o seu nome?
– Blueberry, Vossa Excelência. – Ela respondeu hesitante. Ela só esperava que os irmãos não percebessem que era ela.
– Blueberry? – Sieghart indagou, levantando do assento. Jin fez o mesmo. Pela segunda vez no dia Elesis mentalmente se deu um tapa. É claro que eles notariam. Por que foi escolher esse nome, sua burra?
– E-Espera. De onde a senhorita é? – Jin falou parecendo desesperado. A expressão de Sieghart era uma de esperança. Por quê? Do que ele tinha esperança?
– Ah, eu... Não sou daqui. – A garota respondeu. Talvez ainda tivesse chance de escapar dessa.
– É de onde? – Sieghart deu um passo à frente, seu olhar intenso.
– Do Sul. – Ela inventou.
– Serdin, talvez? – Lire pensou em voz alta.
Os rostos dos dois pareceram cair e ambos sentaram nas poltronas sussurrando algo.
– Está dispensada. – A Princesa finalizou com um sorriso.
– Obrigada, Vossa Excelência. – E com uma reverência, Elesis saiu.
Cansada fisicamente e psicologicamente, tudo o que a nova empregada queria agora era uma boa noite de descanso, mas sabia que não podia se dar a esse luxo.
Com uma consciência pesada, voltou à sala das empregadas. Provavelmente iria lavar os pratos de novo durante a noite inteira.
E foi o que ela fez.
Gemendo, ela acordou com batidas na porta de seu pequeno quarto.
– Vai embora. — a ruiva murmurou irritada, colocando o travesseiro em cima da cabeça.
– O horário de dormir já acabou, senhorita Blueberry. – Ela ouviu risos saindo do outro lado da porta e deu um pulo fora da cama quanto percebeu que a voz era de Sieghart.
– J-Já estou indo! Estou me trocando. – A garota disse desesperada, pegando o uniforme e tentando colocá-lo.
Quando abriu a porta (vestida, graças aos deuses) deu de cara com dois jovens sorrindo para ela. Ela teria falado alguma coisa se eles não fossem os Príncipes e ela conseguisse controlar o nervosismo.
– Mil desculpas se acordamos a senhorita, mas... – Sieghart beijou a mão de Elesis. Ela admitiu que sentia falta dos flertes dele. Mas nunca confessaria isso a ele.
– ...nós queremos pedir um favor. – Jin continuou a sentença. Eles completavam as frases um do outro. Interessante.
– Que favor? – Ela indagou.
– Por favor, nos acompanhe até a sala do Rei, senhorita Blueberry. – Sieghart disse sem mais nem menos e entrelaçou seu braço com o dela.
– E-Eu fiz algo de errado? – Ela gaguejou, o coração batendo a mil. Eles a estavam levando até Ronan? Por que?
– Não, não foi isso. – Jin a assegurou. – É que... Nosso irmão está muito pra baixo desde que certos eventos aconteceram, então...
– ...nós pensamos que apresentar você a ele o animaria um pouquinho. – O moreno piscou e deu um sorriso galanteador para a ruiva. Esta parecia não ligar, muito ocupada com os próprios pensamentos.
– Você nos lembra muito de alguém, senhorita Blueberry. – Jin admitiu, parecendo triste. O que será que tinha acontecido depois que ela fugiu de sua mãe?
Chegando ao seu destino, Sieghart estava prestes a bater na porta quando hesitou e abaixou a mão, parecendo pensativo.
– Boa sorte. – Ele sorriu para Elesis e abriu a porta para que esta entrasse. Quando ela entrou, os irmãos a deixaram sozinha com Ronan, que estava sentado em uma poltrona com um copo vazio na mão.
– Quem é? – Ele perguntou. A empregada não sabia o que sentir. Felicidade? Tristeza? Tentando se acalmar, a palavra saiu dos lábios da ruiva como se expressasse todos esses sentimentos.
– Blueberry.
Fale com o autor