Blueberry
3 Sobre mudanças
Notas iniciais
Eu odeio mudanças. Elas quebram expectativas e desfazem coisas que nos esforçamos para manter no lugar. Tenho que admitir que seja importante que estejamos sempre em evolução, como pessoas, mas não consigo lidar com diversas coisas. Fechar os olhos para a realidade é muito mais fácil.
Desde que havia descoberto sobre Ben ser gay, absolutamente nada tinha mudado entre nós, o que chegou a me surpreender um pouco. Nossa rotina continuou a mesma, os gestos, a proximidade física... Por mais que eu tenha pensado muito no que aconteceu, não consegui agir de outra forma. Ben era uma parte fundamental da minha vida e eu era apegado demais a nosso jeito de viver, para deixar que uma coisa assim atrapalhasse. Afinal, ainda era o Benicio de sempre, meu Blueberry de sempre.
A única coisa que me incomodou foi imagina-lo tendo um relacionamento. Era como se um namoro não se encaixasse na vida de Ben. Me aborrecia, parecia errado.
Mas eu não disse isso para ele (nem para ninguém). A vida de Benicio pertencia somente a ele, eu entendia isso, por mais possessivo que eu fosse. E fiquei remoendo toda a chateação em silencio, tentando me acostumar com a ideia de que era obvio que algum dia Ben teria seus próprios rolos amorosos.
Então a primeira mudança de rotina aconteceu.
Fazia por volta de um mês e meio que eu tinha descoberto sobre Ben, liguei para ele, para marcarmos o que íamos fazer no sábado à noite.
“Hum... Na verdade, Rei, eu vou sair com o Silas.” Foi a resposta de Ben, como se pedisse desculpas.
Silas. Esse era o nome do tal namoradinho.
Essa era a primeira vez que Benicio trocava um compromisso comigo por um com outra pessoa. Meu sangue ferveu de raiva daquele Silas, no momento.
_O que? Em pleno sábado, dia de ver filme e comer besteiras? _Reclamei, enquanto colocava meu prato sujo na pia da cozinha com mais força do que devia.
“Qual é, você já furou sábados comigo.” Ben retrucou, não de forma ofensiva, mas como se defendesse seu direito de fazer o mesmo. “Ele dificilmente vem pra cidade. Por favor, Rei, não fica bravo.” A forma que ele disse a ultima frase amoleceu meu coração. Provavelmente se eu falasse que ficaria triste e chateado por ele furar nosso sábado, Ben acabaria cancelando com Silas. Mas eu não era tão babaca assim.
_Ta bom, você que sabe. _Falei, no fim.
Quando desliguei o celular, já estava arrependido de não ter tentando impedi-lo de sair.
Peguei um copo de suco para mim e já estava voltando para meu quarto, quando minha mãe, com seus superpoderes de mãe, apareceu perto de mim.
_Aconteceu alguma coisa? _Ela perguntou, após farejar o meu mau humor.
_Nada. É que Ben vai sair no sábado e eu não tenho com quem ver filme ou jogar.
_Talvez você devesse chamar o Murilo. _Minha mãe sugeriu. _Às vezes parece que vocês se esquecem que ele também é amigo de vocês.
Não era má ideia, mas eu não estava com muita vontade de conversar, então só esperei que ela finalizasse o que tinha pra falar.
_Ah, mas você não disse. O que aconteceu com o Benicio, pra ele não vir? Vocês não brigaram, né? _Minha mãe perguntou, com uma preocupação sincera.
_Não. _Suspirei. _Ele ta... Namorando, sei lá.
Minha mãe ficou realmente surpresa com isso. Depois fez uma expressão que eu não entendi, como se buscasse uma logica não existente no que eu disse. Pensando bem, ela parecia quase triste.
_Bom, isso é novidade. _Ela falou, sorrindo, depois de ficar me encarando mais um tempo.
Eu fui para meu quarto, logo após. Não estava com paciência para tentar entender quais pensamentos de mãe estavam rondando a cabeça dela. Nunca fazia muito sentido, mesmo que ela acabasse acertando muitos palpites sobre a vida ao redor.
No sábado à noite eu estava me sentindo uma bosta solitária, deitado na minha cama, esperado o tempo passar, enquanto pensava em Blueberry. E no que ele estava fazendo. Se estava se divertindo. Se ele achava Silas mais divertido que eu.
Em algum momento me senti sufocado demais pra continuar ali e fui para a janela. Havia um espaço além dela, onde eu deveria colocar alguma planta, mas sempre achei perfeito para sentar. Não havia nenhuma grade de segurança para evitar que eu caísse do terceiro andar, mas desde que eu não cochilasse tudo estava bem.
Fiquei sentado lá, tremendo de frio, tentando pensar em qualquer outra coisa. E fui pego de surpresa ao ver Murilo tocar a campainha de casa. Imaginei que minha mãe tivesse ligado para ele, já que eu não convidei, no fim das contas.
_Hey. _Gritei para ele, antes de descer abrir a porta.
_E aí, cara? _Ele disse, quando entrou. Nós fomos para o meu quarto e ele sentou na cama.
Não era nada absurdo Murilo estar ali. Ele era o segundo cara mais legal do mundo e sempre nos demos muito bem. Mas me senti um pouco incomodado com a situação. Talvez fosse a quebra de rotina.
_Achei que essa a oportunidade perfeita para roubar o posto de melhor amigo. Sabe como é, né? _Ela me falou, devagar. _Já pensei em roubar o Ben para mim, mas como você é mais sexy...
Ri um pouco disso. Murilo tinha esse jeito de falar, calmo e pausado, em quase todas as ocasiões. Além disso, era irônico com uma frequência enorme, o que tornava complicado definir quando ele falava sério ou não.
_Quer jogar alguma coisa? _Perguntei, me sentindo um pouco melhor.
_Você sabe que vou perder, mas quero sim. _Ele respondeu, tirando o gorro.
Passamos por volta de meia hora em silencio, só jogando, antes dele voltar a falar.
_Você tá bem?
_Hum? _Perguntei, olhando para ele. _Bem com o que?
Murilo pausou o jogo e me encarou. Me senti constrangido, por algum motivo que não assimilei. Mas ele parecia mesmo preocupado.
_Às vezes você é tão... _Ele balançou a cabeça e deixou o controle na cama. _Só achei que você estaria chateado por estar sozinho.
_Porque ficaria? Não é nada de mais, eu não sou dependente do Ben em tempo integral.
Murilo fez uma careta.
_Isso é verdade. Posso ficar com a consciência tranquila pra ir beber com meus primos e te deixar aqui?
_Claro. _Mais uma vez eu tive que rir. _Você tentou, pelo menos.
Ele deu uma risada.
No domingo cedo, Benicio apareceu em casa. Foi como tirar um peso de mim, porque as coisas voltaram ao normal.
Fizemos bolinho de chuva para o almoço enquanto conversávamos sobre filmes. Depois fomos pro meu quarto ver animes.
Era bom simplesmente estar com Ben. Poder ficar ao seu lado, sentindo aquele cheiro familiar, ouvir sua risada ocasional, dividir um cobertor ou um fone de ouvido. Isso me deixava feliz, leve, como se o mundo não tivesse nenhum problema.
Não conversamos sobre a saída dele. Mas em algum momento eu mencionei alguma coisa sobre ele estar namorando.
Benicio riu. Ele estava deitado na minha cama, de olhos fechados, com as pernas em meu colo.
_É claro que não. _Ele respondeu, com a voz preguiçosa. _É muito cedo pra isso.
_Nem tanto. _Dei de ombros. _Faz um tempo que vocês conversam e tudo mais.
_Uh, você quer que eu arrume um namorado, é? _Ben brincou, passando uma unha pela parede. Fiquei olhando para sua mão.
_Não, tanto faz. Só quero que você fique feliz.
Ben suspirou lentamente e esfregou os olhos com o polegar.
_Eu não estou, nem vou namorar ele, Rei. É só um cara bonito. _Explicou. _Não preciso de um namorado.
_Porque não? _Eu bati a mão fechada em seu joelho, suavemente. _Todo mundo precisa e quer namorar.
Eu não deveria estar falando daquilo, sabia disso. Mas não pude evitar.
_Vamos dormir um pouco, Rei. _Ele mudou o assunto bruscamente, puxando o travesseiro pra mais perto. _Minha vez de dormir na cama, alias.
_Você não me respondeu.
_E porque você quer saber isso? É melhor esquecermos e...
_Benicio!
_Meu deus, Reinaldo! _Ele olhou para mim. Parecia irritado, talvez frustrado, o que era incomum a ele. _Porque você está tão curioso? Eu já tenho tudo o que eu quero, não preciso pensar em namoros agora.
_Mas carência é uma coisa que...
_Eu já tenho você. É o bastante. Não estou carente, nem vou ficar. _Ele falou isso sério e diretamente, como uma verdade absoluta. Me senti estremecer. Minha barriga gelou por um minuto. Meu cérebro pensou em mil coisas diferentes que aquilo poderia significar. _Agora vamos dormir.
Mas não precisei muito para me fazer entender que aquilo era lealdade de amigo.
E para me fazer aceitar que eu estava feliz porque tinha o melhor amigo do mundo.
Às vezes fecho os olhos com força. E, por garantia, também os cubro com as mãos.
Fale com o autor