Blueberry
4 Dois passos pra frente, um para trás
Notas iniciais
[_Eu sei que o Rei é difícil de lidar. Mas eu tento ajudar ele. E... Eu sei que ele regularmente dá um passo para trás, mas para cada vez que faz isso, da mais dois passos para frente!
_Você acredita mesmo nisso?]
_Rei! O que aconteceu? Você brigou com seus pais? _Foi o que Ben me perguntou, quando apareci em sua porta, quase onze da noite, com os olhos inchados por ter chorado.
_Não. Eu só saí. E eles sabem que estou aqui. _Respondi, sem conseguir encara-lo.
_Tudo bem. Entra, vou te fazer um café. E você me conta, se quiser, ta? _Ele falou, com aquele jeito tão Ben, de conseguir aquecer meu coração.
~
Já era praticamente fim do ano.
Como na cidade em que moro aparentemente só existem duas estações do ano (que gosto de chamar de Winterfell e Mordor), o calor mal tinha começado e já estava incomodando.
Por isso lá pelas nove e tanto, após jantarmos, meus pais e eu sentamos no quintal, onde estava mais fresco. Ficamos olhando uns morcegos voando perto das arvores, para comer frutinhas.
Estava tudo bem, até meus pais começarem a falar sobre os planos para o ano seguinte. E, pouco depois disso, o assunto entortou para o que eu faria. Não era exatamente uma conversa, já que eles ficavam falando sem parar sobre vestibulares e cursos, enquanto eu acenava com a cabeça. Deve ter levado uns quarenta minutos, até minha mãe perceber que eu não concordei ou discordei de nada.
_Você não tem nenhuma ideia do que quer, Rei? _Ela perguntou.
Pensei em mil coisas estupidas que eu poderia fazer naquele momento. Fingir que precisava ir no banheiro, sair correndo e não voltar mais lá pra fora. Encenar um ataque de loucura, gritando que pretendia ser um morcego, e correr para a arvore. Fazer uma piadinha sem graça sobre morar com os pais para sempre. Dizer que ainda não tinha decidido e chorar por ser um indeciso fracassado. Ou mesmo falar um curso qualquer e depois não passar no vestibular de proposito.
Mas eu sabia que não dava para adiar pra sempre, só ia piorar tudo. E já estava bastante ruim, com meus pais fazendo planos para mim, daquela forma.
Eu precisava ter coragem. Então pensei que pelo menos Benicio teria orgulho de mim, por finalmente conseguir falar com meus pais.
_Eu não ou continuar estudando. _Respondi, com a voz falhando ridiculamente. _Eu vou trabalhar e juntar dinheiro pra abrir uma loja.
O silencio ás vezes é gritante. Esmagador.
Porque é no silencio que passamos a prestar mais atenção no que vemos.
No meu caso, o que consegui enxergar foi a expressão completamente desapontada dos dois.
E o que eu podia esperar? Qualquer casal espera que seu filho único tenha um diploma, uma carreira solida, um futuro promissor.
Me senti uma droga naquele momento, como se não fosse merecedor daquela família. E era quase sufocante saber que talvez nem fosse a ultima vez que eu os machucaria daquela forma. Eu era uma pessoa egoísta e errada em tantos aspectos, ao meu ver, que não tinha nem mesmo um concerto.
Tanta coisa passou na minha cabeça, que eu comecei a chorar. Para uma pessoa vendo isso de fora, poderia parecer que eu estava sendo infantil e dramático, mas aquele olhar dos meus pais me deprimiu tão profundamente que momentaneamente quis me desculpar por aquilo e deixar que eles escolhessem uma boa faculdade para mim.
Mas o que fiz foi levantar, para ir pro meu quarto, ficar sozinho.
_Por que você só disse isso agora? _Meu pai perguntou e eu me senti desmoronar um pouco mais; ele parecia arrasado.
Não consegui responder. Não queria mais continuar ali.
Então saí de casa, antes que eles pudessem me impedir ou falar mais alguma coisa.
~
_Então... Eles não brigaram com você. Nem chegaram a falar nada. _Ben colocou a caneca de café na minha frente e sentou do outro lado da mesa, com sua própria caneca.
_Não. Mas eles ficaram tristes. _Expliquei.
_É claro que ficaram. _Ben assoprou o café, devagar. _Porque já tinham algo em mente e então você quebrou a expectativa deles.
_Isso não ajuda. Eu não quero que eles fiquem tristes por minha causa.
_Não é sua culpa, Reinaldo. Eles fizeram planos sobre a sua vida, sem te consultar. Então deveriam saber que você poderia querer outra coisa.
_Mas eles... Mesmo assim, Ben. _Suspirei. É claro que ele não entenderia, apesar de tudo. Benicio não se dava mal com os pais, mas também não era realmente próximo deles.
_Não estou dizendo que é fácil ou falando que eles fizeram uma coisa ruim. _Ele murmurou, sério, como se tivesse entendido meus pensamentos. _O único problema é que vocês não conversam, realmente. Eu sei que convivem bem, mas não conversam.
_Mas eles falam comigo. _Protestei.
_E você, fala com eles?
Encarei Ben, aqueles olhos azuis absurdos. Como sempre, eu soube que ele não estava me julgando ou falando por mal.
_Você tem que se abrir com as pessoas que te amam, Reinaldo. Pelo menos um pouco. _Ele continuou. _Não da pra você guardar tudo dentro de si, dessa forma. Isso é corrosivo. Vai te enlouquecendo aos poucos. Eu sei que eu não sou um exemplo ótimo pra falar disso, mas você é ainda mais complicado. E mais: Você precisa se impor na sua própria vida. As pessoas vão te julgar, se magoar ou se irritar contigo? Sim, o tempo todo. Mas a vida é sua, só sua. Você tem poder de decisão sobre ela, Rei. Os outros podem até dar opiniões, mas ninguém vai correr atrás de felicidade por você. _Benicio olhou para a própria caneca de café e a girou suavemente entre as mãos. _Se você continuar só assim, deixando a maré te levar, vai acabar sobrevivendo, ao invés de vivendo. Por isso você tem que ser corajoso e contrariar as pessoas, quando for preciso. Tem que lutar sua própria batalha. Pode ser que você pegue caminhos errados e quebre a cara algumas vezes, mas até isso é importante para entender as próprias falhas e seguir em frente. Se você fizer isso, vai ficar em paz consigo mesmo, e eu acredito que essa seja a verdadeira felicidade que todos tanto sonham.
Ben voltou a olhar para mim e sorriu, aquecendo um pouco o meu coração. Me senti maravilhado por poder tê-lo tão próximo, uma pessoa tão incrível.
_Tudo bem. Entendi. _Falei baixinho, me sentindo envergonhado e admirado ao mesmo tempo.
_Além disso, seus pais são seus pais. O que quer que você escolha, se te fizer bem, eles vão apreciar também. Só precisam de tempo pra se acostumar com a ideia. Ou você acha que eles vão guardar um sentimento ruim por você, só porque decidi u o próprio futuro? Meh. Isso vai melhorar, você vai ver.
_É, acho que sim.
_Então... Você deveria falar com eles. Explicar como se sente. Pedir ajuda deles pra seguir seu sonho. E estar preparado para a reação deles, sem desanimar.
_Eu vou tentar. _Murmurei.
_Promete? _Ben sorriu para mim e eu não poderia negar qualquer coisa a ele.
_Prometo.
_Eu decidi isso. É o que eu quero. Não tenho menor vocação ou intenção de continuar estudando. _Falei de uma vez, abrindo a porta do quarto dos meus pais, antes que eu perdesse a coragem. _Eu sinto muito por não fazer o que vocês queriam, mas eu preciso escolher minha própria vida. Talvez eu esteja errado, mas é algo que eu preciso fazer por mim. Eu vou abrir uma loja e viver disso, sim. Vou fazer dar certo. Me desculpa por isso.
Meus pais acenderam o abajur e ficaram olhando pra minha cara. Eu sentia meu corpo tremer. Já estava achando que tinha sido um erro enorme dizer aquilo, quando minha mãe falou.
_Tudo bem, a escolha é sua.
Senti como se um peso saísse de mim e encostei no batente da porta, com as mãos cobrindo o rosto.
_Sinto muito. _Falei.
_Nós que sentimos. _Meu pai resmungou. _Conversamos sobre o que você falou, sua mãe e eu, e então percebemos que fomos precipitados e não prestamos atenção em você. Vamos tentar melhorar, Rei.
Eu olhei para os dois.
_Eu também fui... Não sei. Mas vou tentar também. Vou tentar contar as coisas pra vocês._Dei uma pausa. _Vocês estão com raiva de mim?
_Não. _Minha mãe respondeu. _Estamos te achando um pouquinho estupido, por não aproveitar sua inteligência, mas como você já praticamente um adulto...
De certa forma, me senti um pouco melhor depois disso.
E nós sentamos na cama e conversamos mais um bom tempo, principalmente sobre o que eu pretendia para a loja. Eles não estavam completamente de acordo, mas deram até algumas ideias.
Quando eu já estava levantando para ir pro meu quarto, la pelas duas da manhã, minha mãe me impediu segurando minha mão.
_Já que estamos sendo sinceros, hoje, acho que seria uma boa chance pra falar tudo o que temos para falar, de uma vez só. _Ela me encarou, de forma encorajadora, e meu pai levantou as sobrancelhas. _ Tem algo que queira nos contar sobre você, além disso, Rei?
_Eu tirei uma nota ruim em historia. _Confessei. Minha mãe me soltou, mas pareceu um pouco envergonhada. _Nada além disso. Por quê?
_Por nada, só queria saber se estava tudo bem. Boa noite, Rei. _Minha mãe sorriu e apagou o abajur.
[_Sim, sim, tenho certeza.
_O problema, Ben... É que eu acredito que os passos para trás tenham o dobro da distancia dos que levam à frente. Talvez ele não saia do lugar, no fim das contas.]
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