Blueberry

5 Fora do lugar


Notas iniciais
Mds, como demorou, né? A vida tava meio louca. Eu tive um bloqueio criativo no meio desse capitulo, que não conseguia nem apagar e recomeçar, nem continuar. Mas acho que agora as coisas voltam ao normal! Vou tentar por um desenho nesse capitulo. Eu não sou boa desenhando, por favor, não me julguem ;-;

Dezembro chegou fervendo. Mesmo assim, minha barriga gelava cada vez que eu me lembrava que estava tendo meus últimos dias de escola. Se por um lado “adeus aulas entediantes”, por outro eu estava prestes a me despedir de muitos conhecidos, de todo um estilo de vida e da presença constante de Blueberry.

Ele passou em matemática, numa universidade publica a menos de duas horas de sua casa, então iria de ônibus. E como já estava procurando um emprego, nosso tempo juntos ia diminuir muito.

Silvana entrou na mesma universidade, para nossa surpresa. Ela nunca estudava ou se preocupava com vestibular e suas notas eram só o suficiente para passar de ano. Isso rendeu varias piadinha sobre ela ter um caso com o diretor da faculdade.

Murilo ia fazer um curso de cozinha. Ele sempre foi ótimo em cozinhar, mas dizia que era só por diversão. Mas nós sabíamos que ele ia acabar trabalhando com isso, ainda.

E Livia ainda estava esperando os resultados do Enem, levemente paranoica.

Apesar de cada um estar seguindo seu caminho, todos iam continuar por perto, pelo menos.

Eu fiquei responsável por selecionar boas fotos da nossa turma para passar no telão, na festa de formatura, então chamei Ben para me ajudar. Nós praticamente nos escondemos numa sala de aula vazia, para que as fotos escolhidas fossem surpresa para o resto dos alunos. Fechamos as cortinas e sentamos no chão, com os notebooks no colo.

Foi divertido stalkear o perfil dos alunos, salvando fotos. A maioria eu nem me lembrava mais.

_Caramba, olha isso. _Ben disse, sorrindo, ao encontrar uma em que metade da turma estava em cima de uma arvore, no segundo ano.

_Caraca, excursão de geografia! _Deixei meu note no chão e inclinei pra perto dele, para ver melhor. _Onde estava o professor, nessa hora, mesmo?

_No banheiro, com dor de barriga._ Benicio deu risada da lembrança.

_Verdade, mais ninguém conseguiu usar depois disso, o cheiro estava horrível. E ele não explicou nada, então ficamos lá à toa. _Lembrei, rindo também.

Nós ficamos olhando as fotos no mesmo notebook, depois disso, comentando cada lembrança. Às vezes acabávamos gargalhando por longos minutos, até perder o ar.

_Olha, o aniversario da professora Regina. _Eu falei, alegre, apontando um álbum, que Ben abriu. Enquanto ele passava as fotos da festa, que foi na escola mesmo, apoiei o queixo no seu ombro, distraído. O cabelo de Ben fez cocegas no meu pescoço.

_Eu nunca comi tanto bolo na minha vida. _Blue comentou, falando baixinho.

_Uhum. _Fechei os olhos, lembrando. Graças a um erro de comunicação, a festa teve quatro vezes a quantia de bolo que deveria e quase nenhum salgadinho. Mas foi absurdamente divertida.

Benicio soluçou baixinho e eu imediatamente abri meus olhos, mesmo que não desse para ver seu rosto naquela posição.

_Você tá chorando?! _Perguntei, surpreso. Até um momento antes estávamos gargalhando.

_Eu vou sentir saudades. _Ele explicou, abafando um som entre o riso e o choro. Então vi a foto na tela, de nós dois, passando bolo um no rosto do outro.

_Ah. _Suspirei devagar, fazendo o cabelo dele balançar um pouco. Então passei os braços em torno de sua cintura e abracei Benicio, deixando suas costas encostarem em meu peito. _Eu também vou. Mas vai ficar tudo bem. _Sussurrei, perto de sua orelha, mesmo que eu provavelmente estivesse mais nervoso do que ele, com o fim da nossa rotina.

Ben estremeceu e ficou parado por alguns segundos, com a respiração levemente mais pesada. Depois relaxou e se deixou apoiar em mim, com a cabeça no meu ombro.

_Ei, Rei. _Ele sussurrou enquanto passava a palma da mão pelo meu braço, lentamente, até chegar à minha própria mão. Senti meu braço se arrepiar onde ele tocou. _O que eu faria, sem você pra me consolar? _Ben perguntou. E foi completamente fora do normal, como se as palavras tivessem um sabor novo e adocicado. Senti o ar todo me deixar quando percebi que Ben estava sendo sexy.

Eu nunca tinha o ouvido falar ou agir assim. E a situação estava além de uma possível ação ou compreensão minha.

Feliz ou infelizmente, a porta se abriu.

Em um instante eu já tinha endireitado o corpo e olhado para a porta. Foi Silvia que vi ali, segurando a maçaneta, com os olhos levemente arregalados.

_Desculpa. Eu não sabia que vocês...

_Estamos escolhendo fotos pra formatura. _Falei depressa. Arrisquei uma olhada para Ben. Ele estava segurando o notebook, talvez com mais força que o necessário, sem graça.

_Qual é. _Silvia cruzou os braços. _Não precisam fin...

_Na verdade, que bom que você apareceu. _Falei, enquanto levantava. _Eu fiquei de fazer um favor pro Augusto, você pode ir ajudando o Ben?

_Rei... _Ela olhou para mim, depois para Benicio e de volta para mim. _É sério, eu nã...

_Obrigado. _Agradeci, passando por ela. Saí da sala sem olhar para trás.

Não voltei mais na sala. Na verdade, saí imediatamente da escola e fui pra casa.

Fiquei na minha janela por mais tempo do que pude perceber. Aquele momento na sala tinha sido estranho demais para mim. Me senti mal, com um peso na consciência, sem entender o porque. Havia algo de errado acontecendo.

Estava quase cochilando, quando alguém me chamou.

_Hey! _Olhei para baixo. Era Ben, com minha mochila e notebook. _Você matou aula. _Ele acusou.

_Não estamos nem tendo aula de verdade. _Respondi.

_Posso subir?

_Que droga de pergunta é essa? Você quase mora aqui. _Tentei parecer no meu humor usual, mas acho que falhei.

Ele acenou e entrou em casa.

Depois de entrar em meu quarto e fechar a porta, Benicio se jogou na cama, colocou meu notebook para carregar e começou a mexer nele.

_Sabe... _Ben começou a falar. Fiquei quieto, esperando, mas ele não terminou a frase.

_Você tá bem deprimido, com essa coisa de acabar a escola, né? _Arrisquei, olhando para uma estrela lá fora.

_Estou. _Ele confirmou, após uma pausa longa. _Mas tenho outros motivos, além desse, para estar deprimido, também.

Benicio colocou musica para tocar e eu me distraí escutando. Era uma dessas musicas dos anos 2000 e pouco, que dão uma sensação nostálgica e saudades de um tempo onde as coisas eram mais simples e fáceis.

Quis voltar para aquele tempo. Ou qualquer tempo. Eu estava tendo sensação de que algo ali não estava bem. Não era normal ficar desconfortável perto de Blue. Seria melhor ter doze anos novamente e problema nenhum.

Esfreguei minhas mãos. Não sabia por que estava pensando tudo aquilo. “Não é como se eu tivesse algum problema agora, não é?”

Eu apenas... Tinha que perguntar. Mais do que isso, tinha que olhar para ele.

_E o que está te deixando deprimido, Ben? _Minha voz quase falhou, depois que encontrei os olhos azuis, me encarando fixamente.

Por que estava tão difícil encara-lo de volta?

_Acho que as coisas estão passando do limite do que eu posso suportar. _Benicio sentou na cama. _Nem mesmo eu tenho tanta paciência. Talvez todos tenham razão. Talvez eu deva fazer alguma coisa, afinal.

Ben falou baixo demais, como se conversasse consigo mesmo, não comigo. Ele parecia angustiado. Em um momento em que eu não estivesse me sentindo tão estranho, teria corrido para ele, tentando consola-lo.

Mas ali, naquela noite, eu fiquei parado, tentando assimilar a informação.

Não tinha como ser algo bom.

Benicio levantou e se aproximou de mim, devagar, como se estivesse cercando um animal arisco. E, talvez em reação a isso, eu quis correr. Quis fugir. Pular pela janela. Chorar, gritar. Algo dentro de mim estava errado, precisando de socorro. Tive um segundo de completo pânico, até ele me alcançar.

Mas tudo isso passou no momento em que Ben me beijou.

Por um segundo, o resto deixou de existir. Os pensamentos, o mundo, a própria matéria. Por um segundo nada mais importou, além dele. O cheiro, o gosto de chiclete de canela, o cabelo macio.

Mas veio o segundo seguinte e eu me afastei.

E tudo estava ruim de novo. Errado, fora do lugar, sem sentido. Eu quis chorar, porque de repente minha cabeça estava explodindo de dor, o mundo estava rodando e meu corpo tremia.

_Rei, você está bem? _Benicio perguntou, segurando meu rosto entre as mãos.

_Você está louco?! _Gritei, segurando suas mãos e o afastando de mim. Consegui entrar no quarto e me apoiar numa parede.

_Você tá passando mal? _Ele tentou chegar perto de novo, mas eu gritei mais uma vez.

_Porque você fez isso?! _Minha respiração estava alterada. _Saiba que se isso foi uma brincadeira, foi a mais estupida que já vi! Não me importo que você goste de homens, mas isso não te da o direito de...!

_Reinaldo! _De repente Ben parecia furioso. Contra minha vontade, segurou meu rosto de novo e me encarou. _Já chega disso. Nós sabemos o que nós dois...! Você sabe!

_Eu não sei do que você tá falando! _Retruquei, tentando olhar para qualquer coisa que não fossem os olhos azuis. _Benicio, me solta.

_Nós já somos praticamente adultos. Não podemos fugir disso pra sempre!

_Benicio! _ Minha visão estava ficando embaçada.

_Todo mundo já percebeu, Reinaldo!

_Não tem o que perceber! _Eu balancei minha cabeça, negando, de um jeito que beirava o desespero.

_Eu te amo! _Benicio gritou, na minha cara. Fechei meus olhos.

_Não, não, não!

_Você também me ama. Você sabe que ama! _Ben já não parecia irritado. Agora falava quase como se suplicasse.

_Não! _Eu coloquei as mãos em minha cabeça. _Você é meu amigo. Somo s dois homens e eu não sou assim! Não existe chance...!

_Como você pode negar? Acha que eu não vejo como você reage, quando encosto em você? Ou o ciúmes? Ou... Tudo ! _Ben sussurrou, mais frustrado do que nunca.

Não respondi. Recuei até a minha cama e sentei lá.

Ele não falou mais nada, não sei por quanto tempo. Eu simplesmente fiquei sentado, esperando o mal estar passar. Quando meus pensamentos clarearam, consegui olha para ele.

Benicio estava no mesmo lugar, encostado na parede, olhando para baixo. Levei um segundo para perceber suas lagrimas.

_Desculpa. _Não sei porque disse isso; não tranquilizou nenhum de nós.

_Você está melhor?

_Eu não gosto de você assim, Ben. _Consegui falar, o mais calma e claramente possível. _Sinto muito por isso. Mas você é meu melhor amigo. Não tem como is...

_Tá, já entendi. _Ele me interrompeu. Desencostou da parede e saiu do meu quarto, sem dizer mais nada. Parecia sem chão.

Aquele momento foi estranho. Eu sabia que deveria estar me sentindo arrasado, com a consciência pesada e todo o resto. Mas eu estava emocionalmente exausto, então era como estar anestesiado. E sabia que amanha teria que lidar com a realidade.

Então apenas deitei e empurrei o notebook para o lado. Dormi em segundos.

Notas finais
O que acharam? :x