Blueberry
1 Origem
Notas iniciais
Às vezes conhecemos pessoas de uma forma comum, por exemplo, em uma sala de aula, e então puxamos assunto. Ou na fila da cantina, no refeitório da escola.
Outras vezes, conhecemos pessoas esbarrando nelas, no corredor, enquanto corremos alucinados, com nossos jogos portáteis na mão.
_Desculpa!_ Pedi, segurando o gameboy com força. Eu perderia meia dúzia de dentes, antes de deixar o aparelho quebrar. O garoto que esbarrei, porem, levou um belo tombo.
Estendi a mão livre para ajudá-lo a levantar e reparei que ele também tinha um gameboy, absolutamente idêntico ao meu. Em geral, garotos da nossa idade gostavam de se gabar por vídeo games modernos, então não era exatamente comum. Só depois prestei atenção no menino. Seu cabelo era castanho comum, mas o que me chamou atenção foram seus olhos. Eram azuis demais.
_Tudo bem._ Ele sorriu e segurou na minha mão para levantar. Sua mão era fria e ele era mais ou menos da minha altura. _Alias... É seu?_ Ele perguntou, apontando o jogo.
_É, é sim._ Sorri de volta, empolgado em conhecer alguém que dividia os mesmos gostos que eu._Pokemon._Minha pergunta mais se pareceu com uma afirmação.
_Green. _Ele respondeu, alegre.
_Sério?_ Franzi a testa e me fui para mais perto dele, olhar._ Tenho o Red.
_Aposto que joga com o Charmander. _Ele disse, como se se achasse o dono da verdade.
_Quem é que não joga com ele?!
_Eu! _Ele deu uma risada, provavelmente da minha cara.
_Duvido!
_Prefiro o Bulbasaur.
_Então você é um alienígena, ninguém joga com ele! _Declarei, com um completo desgosto. Um segundo depois percebi que ele poderia ter se ofendido com isso. Mas, pelo contrario, o menino riu.
E eu também ri, não sei bem por que. Mas sua risada era contagiante.
_Ah, meu nome é Reinaldo._ Me apresentei.
_Eu sou o Benicio. _Eu estranhei aquele nome, mas não comentei. _Em qual sala você tá?
_Sexta C. _Respondi, apontando a direção da minha sala.
_Eu to na sexta B. Acho que por isso que nunca nos vimos. _Benicio concluiu, encolhendo os ombros. Eu balancei a cabeça, concordando.
_Bom, mas agora nos conhecemos. _Falei, como uma compensação. _E podemos jogar juntos. _Sugeri, sorrindo.
_É, podemos sim. _Benicio abriu um sorriso gigante, como se eu pudesse ser a melhor companhia do mundo. Aquilo me deixou feliz.
Foi assim que conheci e me tornei amigo de Ben. E, em pouco tempo, nos tornamos melhores amigos, praticamente inseparáveis.
Na oitava série, Benicio foi transferido para minha sala, e foi como uma festa. É claro que os professores odiaram. Separados éramos dois alunos relativamente quietos. Juntos, poderíamos facilmente por a escola a baixo.
Nós tínhamos outros amigos, também. Não eram tão próximos quanto Benicio e eu, mas formávamos um grupo legal.
No fim da oitava, houve uma pequena agitação para todos do nosso ano: Teríamos pela primeira vez autorização pra ir numa dessas festas de ensino médio. Ninguém do meu grupo de amigos tinha ido a uma festa assim. Muito menos bebido grandes quantidades de álcool.
É claro que eu queria ir e dançar até minhas pernas doerem, talvez até ficar com alguma menina. Mas, acho que o que eu mais queria era beber. Eu já estava saturado de ouvir meus primos dizerem “Álcool. Porque nenhuma boa historia começa com ‘uma vez comi uma salada...’”. Eu queria ter minha própria experiência e historias divertidas para contar. Eu já me achava tão adulto...
_Você não acha que já chega de beber, Reinaldo? _Minha amiga Lívia me perguntou, parecendo dividida entre ficar preocupada e achar a situação engraçada.
_Eu mal comecei! _Protestei, com a voz arrastada. Então fiquei feliz, porque Lívia era minha amiga e tão bonita, ainda mais com aquele vestido azul. Eu bem que poderia ficar com ela. Nos dávamos bem, seriamos ótimos namorados! _Li, você parece um anjo. Namora comigo? Nossos filhos vão ser lindos também!
Os outros gargalharam, talvez porque Lívia fez uma cara de absoluto nojo e foi se esconder atrás de Murilo. Não tenho certeza, mas acho que todos ali tinham exagerado na bebida.
_Mentira, Lívi! _Retrucou Benicio, batendo o dedo em meu peito. Eu dei risada de como ele não parecia ter crescido absolutamente desde que o conheci. Eu estava bem muito mais alto. _Ele já ta bebendo há horas! _Acusou. Eu ri mais alto, porque quanto mais Be tentava parecer sério, mais fofo ficava.
_Ai, ai. Vocês são muito chatos, deixa o menino beber. _Quem disse isso foi Silvana, provavelmente a mais doida de nós cinco.
_A tia Dani vai matar ele, quando ver ele assim. _Lívia argumentou se referindo a minha mãe. Já havia tornado habito chamar as mães uns dos outros de “tia”, mesmo que não fossemos parentes. _Pior, ela vai matar a gente, por deixar o Rei beber tanto!
_Quer saber? Você precisa re-la-xar. _Silvana declarou, deixando o copo de refrigerante com vodca na mão de Murilo. Então puxou Lívia pela mão até a pista de dança, praticamente a arrastando.
_Ei, não leva minha noiva, não! _Choraminguei, mesmo que elas já não pudessem me ouvir.
_Bem feito. _Ben falou, apesar de que nenhum de nós pareceu entender o que eu fiz pra merecer a frase. Dei risada disso e Benicio pegou o copo de minha mão, resmungando coisas sem sentido e bebeu um pouco.
_Aaah, Ben! _Reclamei, antes de pegar meu copo de volta e tomar o resto da bebida de uma vez. Tossi com o gosto do álcool queimando minha garganta e minha cabeça girou demais, demais. Mesmo assim, o mundo estava maravilhoso, bonito.
E eu queria tanto ficar perto de alguém. A música era legal demais para ser ignorada. Mas as meninas tinham ido pra longe e as outras pessoas por perto estavam tão na delas.
Então me ocorreu que eu podia muito bem dançar com Benicio. Ora, porque não? Ele era pequeno, não seria tão diferente de dançar com uma menina. Que ideia genial!
Puxei ele e comecei a dançar com Ben, ali mesmo.
_Ei, ta fazendo o que? _Ele perguntou, tentando parecer indignado, mas rindo da minha falta de coordenação.
_Não posso mais viver assim ao seu ladinho! _Cantei, junto com a musica, dançando. Benicio riu mais alto e começou a dançar e cantar também. _Por isso colo meu ouvido num radinho de pilhaaa!
O resto do mundo parecia embaçado demais, naquele momento. Pude ver, apenas de relance, Murilo dançando com uma menina que eu não conhecia.
_Pra te sintonizar, sozinha, numa ilhaaa!_Ben cantou, desafinado, dando uma rebolada estranha, que me fez gargalhar. _Sonífera ilha!
E assim continuamos cantando e dançando, não importando que mal conseguíamos nos equilibrar de pé, muito menos o fato de sermos dois garotos. Como se eu pudesse lembrar de detalhes tão bobos, quando aqueles olhos tão azuis e redondos estavam tão perto.
E dançamos assim mais uma dúzia de musicas.
_Você dança tão bem, Benicito._Declarei, de uma forma que deve ter soado muito ridícula, enquanto dançávamos uma musica lenta. Ele riu alto e apoiou a cabeça em meu ombro, zonzo. _Sabia que... Você parece um blueberry? _Sussurrei, como se contasse um segredo.
_Que?!_Ele olhou pra mim e deu uma risada rouca.
_É uma fruta que vi pela internet e... Você tem até cheiro como blueberrys!_Continuei, certo do que dizia, apesar de estar enroscando pra falar as palavras.
_E como você sabe que cheiro isso tem, se só viu pela internet? _Ele perguntou, franzindo a testa.
_ Blueberrys tem cheiro de Benicio. Sei disso. Sabe por que? _Sorri para ele e encostei nossas testas. Aquilo era bom. _Seu olhos. São idênticos. Azuis e redondos. Como se alguém tivesse colocado duas frutinhas neles. E você é pequeno.
Por um momento Bem só fechou os olhos e pareceu que ele estava se esforçando para entender aquilo. Então ele começo a rir, gargalhar.
_Ei, gente..._Virei para onde Murilo estava, agora dançando com outra garota. _O Benicio é um blueberry!_Berrei, alto o suficiente para minha garganta arder e para muita gente olhar para nós.
Acho que não preciso adicionar detalhes de como vomitei nos meus sapatos, a caminho de casa. Nem da minha ressaca no dia seguinte.
Só preciso mencionar que Blueberry se tornou o apelido de Benicio.
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