Notas iniciais
Nossa, um milhão de anos depois consegui terminar esse capítulo! Nem acredito! Ah, se alguém chegar a ler e encontrar erros graves de português, me avise por favor. Eu escrevi isso com sono, então acho que tem uns erros malignos.

Eu não conseguia dormir.

Em plena metade do terceiro ano do ensino médio, praticamente todos os garotos de minha idade estavam perdendo o sono com vestibular.

Apesar disso, meu problema era uma variação: Eu não queria fazer faculdade nenhuma. Meu objetivo era terminar o ensino médio, trabalhar e juntar dinheiro para abrir uma loja. Mas meus pais achavam isso um absurdo e pegavam constantemente no meu pé, exigindo um diploma.

Assim, eu estava tendo dificuldades para dormir, pela preocupação com como eu iria contornar eles.

Já eram mais de três horas da manhã, quando desisti de dormir e resolvi fazer alguma coisa. Quase automaticamente, minha mão foi para o celular e olhei meu Whatsapp. Deliberadamente ignorei os grupos e algumas pessoas, até encontrar Blueberry. Ele estava online. Passei algum tempo imaginando com quem ele estaria falando uma hora daquelas.

Mandei um “oi” de deixei o celular do meu lado, enquanto ele não respondia.

Dois minutos depois o meu celular tocou.

Por algum motivo, sempre gostei da sensação que tenho, como se meu coração desse um pulo, quando escuto o toque que escolhi para Benicio.

“Você precisa dormir, não pode ficar acordado para sempre.” Ele falou assim que atendi a ligação, antes mesmo que eu pudesse dizer algo.

_Disse o cara acordado até agora, também. _Retruquei, me revirando na cama. _Me ajuda, Ben, eu quero dormir, quero ser despreocupado e inconsequente como qualquer adolescente, porque não posso?

Ele deu uma risada.

“Lamento por você.” Benicio brinco. Depois suspirou, devagar, mais sério. “Nós já tivemos a mesma conversa mil vezes, Rei. Você não pode agradar sua família em tudo, tem que viver o que escolher pra si.”

Eu realmente já tinha ouvido ele dizer aquilo mais vezes do que podia contar.

“Agora tenta esquecer isso e vai dormir.” Ele mandou, de volta ao tom de brincadeira.

_Você só quer que eu pare de te incomodar. _Protestei.

“Você nunca me incomoda, idiota.” Apesar dele parecer cansado ao dizer isso, sorri. Coisas assim faziam eu ficar sinceramente feliz; Benicio era o melhor amigo que eu poderia querer. “Vamos jogar alguma coisa?”

_Só se for agora! _Respondi, sentando na cama e pegando meu notebook do chão.

“Quem é que não é despreocupado como qualquer adolescente, agora?” Ele riu.

_Ah, quieto. _Eu sentei direito, com o note no colo.

Mesmo gostando de frio, estudar de manhã no inverno era uma tortura. Eu sempre senti muito frio, então tinha que me embrulhar em varias blusas. Dava até inveja de Ben, que colocava moletom e um cachecol e ficava de boa.

A primeira aula da segunda feira era matemática. Eu nunca gostei muito, já que não conseguia imaginar no que usaria tudo aquilo na minha vida, então só prestava atenção para passar nas provas de fim de ano.

Benicio amava matemática. E dormia em todas as aulas.

Pode parecer não fazer sentido, dizendo assim, mas ele estudava toda a matéria do livro e decorava as formulas antes da professora passar, então acabava se entediando na aula. A professora não chegava a dizer nada, já que ele tirava as melhores notas nas provas então atrapalhava a aula.

Não foi diferente naquela manhã. Ben estava dormindo e eu aproveitei para pegar seu caderno de anotações, para facilitar a aula. Terminei os exercícios em pouco tempo e pensei em tirar um cochilo no resto da aula, caso conseguisse dormir.

Sem pensar, me encostei em Ben. Porque era normal, natural, para mim, simplesmente encostar nele para descansar. É algo que sempre fiz, desde que o conheci.

Mas naquele dia, assim que o fiz, vi o olhar de alguns outros garotos da sala, olhando para nós. Algo entre nojo e deboche. Senti algo congelar dentro de mim, seguido de um enjoo forte.

Depressa, eu estiquei minha mão, peguei o estojo de Ben e me endireitei, como se só tivesse me inclinado para pegar seu corretivo emprestado.

Benicio respirou fundo e continuou dormindo, tranquilamente.

Minhas mão tremiam e eu as coloquei sobre meu colo, para disfarçar.

Não era a primeira vez que eu via aquele olhar; era como o preço de ter um amigo tão próximo, as pessoas sempre estavam fazendo insinuações sobre nós dois. Antes aquilo não me incomodava, mas como se tudo estivesse se acumulando, cada vez ficava mais tenso ter que lidar com as pessoas agindo como se fossemos gays.

Como se eu já não tivesse problemas o suficiente para lidar.

Depois de matemática tivemos uma palestra no auditório, sobre vestibular e faculdade, onde Ben dormiu um pouco mais. Até eu consegui tirar um cochilo, apesar de não ter encostado nele.

No intervalo nos reunimos com o resto de nossos amigos e sentamos debaixo do nosso pinheiro preferido. Ali, aonde mais ninguém ia, me senti tranquilo para me enroscar com todos, debaixo dos cobertores que Lívia e Silvana levaram.

_O que acharam da palestra? _Liv perguntou, esfregando as mãos.

_Inútil. _Murilo respondeu, com o queixo apoiado no ombro de Silvana. _”Fiquem tranquilos, vocês tem que decidir agora, na sua fase mais estupida e cheia de hormônios, o que vão fazer pelo resto da vida. Mas sem pressão, ok?” _Ele satirizou, sem animação. _Quem é idiota a ponto de achar que isso vai nos ajudar?

Eu ri um pouco. E depois disso o assunto morreu. Já estávamos saturados de pensar naquilo.

Ficamos simplesmente em silencio.

Aquilo era muito bom. O cheiro dos pinheiros, do perfume de Ben e da bala que Livia comia eram deliciosos, o vento estava balançava os pinheiros, criando um som calmo, e o cobertor estava quentinho. Eu ficaria ali o dia todo, facilmente.

Mas o momento foi quebrado por uma mensagem no celular de Ben. Ele subitamente sentou direito, para ler a mensagem, e eu quase caí para trás.

_Porra, Blue. _Reclamei, apoiando a mão no chão para manter o equilíbrio. Ele fez um sinal com a mão, enquanto digitava rapidamente uma resposta, para seja lá quem fosse. Inclinei um pouco para o lado, para ler a mensagem, mas Ben enviou, bloqueou o celular e o guardou no bolso.

Isso foi estranho, insanamente estranho. Benicio nunca tinha me escondido um segredo.

Como ele se ajeitou da forma que estava antes, com o rosto encostado na parte de trás do meu ombro, como se nada tivesse acontecido, não perguntei nada. Mas aquilo ficou na minha cabeça, foi perturbador.

Durante a semana seguinte, aquilo aconteceu mais vezes.

Cada vez que Ben se afastava para responder uma mensagem, eu sentia um aperto patético em meu peito, o sentimento de estar sendo trocado.

Não fazia sentido nenhum eu pensar isso, absolutamente nada mudou entre nós dois, mas eu não podia controlar.

O pior foi perceber que ele andava trocando sorrisinhos cumplices com Silvana. Chegou a mostrar o celular para ela, durante um intervalo. Foi o limite para mim.

Eu não disse nada, mas saí de perto deles e comecei a andar pela escola, sem rumo.

Depois de uns minutos, Benicio me alcançou e segurou meu braço.

_Reinaldo? _Ele chamou, sério. _O que aconteceu? Onde você ta indo?

Ben estava mesmo preocupado, claramente.

Era engraçado como eu te tornei mais alto que ele e tinha que olhar para baixo, para ver aqueles olhos de blueberrys.

Como eu poderia explicar que estava me sentindo excluído de sua vida, sem parecer ridículo?

_Eu... Só precisava de um minuto sozinho.

_Você ta mentindo. _Ben cruzou os braço, com a testa franzida. _Rei...

Suspirei. Contei até dez, mentalmente. Mordi o lábio varias vezes.

_O que ta acontecendo? _Quando consegui perguntar, minha voz saiu desafinada. _Você... Ta escondendo alguma coisa de mim. A Silvana pode ver, mas eu não. Que droga é essa, Benicio?!

Ben arregalou os olhos, sem palavras. Me perguntei se ele imaginou mesmo que eu não ia perceber sua mudança de atitude.

_Ok, você... Também anda estranho. _Ele falou, quando conseguiu recuperar a voz. _Está sempre olhando em volta, como se estivesse com medo das pessoas.

Fui pego de surpresa. Eu não imaginava que estava paranoico a ponto de dar na vista.

Não, não dava para explicar para Blue que eu andava nervoso com as pessoas pensarem que éramos um casal, sequer fazia sentido para mim aquela preocupação toda.

_Você está vendo coisas. _Me fiz de desentendido. _E fugiu do assunto. Não tente me enrolar.

Ben suspirou e encostou numa parece, olhando para o fim do corredor. Naquele momento pareceu tão perdido, que me arrependi de ter começado aquela conversa.

_Eu estou ficando com alguém. _Ele declamou, quando eu já estava abrindo a boca para pedir para deixar tudo pra lá.

Isso me surpreendeu. Eu não soube o que pensar ou dizer.

Benicio não ficava com ninguém, era o solteiro oficial da turma. Ele simplesmente não parecia sentir falta de sair por aí beijando garotas. Nunca teve rolo ou namorada. E eu tinha parado de estranhar fazia tempo.

_Você... Nossa. _Enchi a boca de ar algumas vezes, tentando encontrar algo pra dizer. _Droga, Ben, você podia ter me dito. Eu podia te ajudar. Não sou grande coisa com garotas, mas... Acho que você podia confiar em mim. _Comentei, tentando não parecer chateado ou irritado. Como Ben não disse nada, continuei falando. _Eu conheço ela?

Então Benicio me encarou. Sem dizer uma palavra.

Eu sempre pensei conhecer cada aspecto, cada detalhe da vida de Ben. Foi um golpe perceber o que estava acontecendo, entender que sequer notei um detalhe tão importante de sua vida.

Não precisei que ele falasse algo. Era como se tivesse escrito naqueles olhos, que encarei milhares de vezes.

Como eu fui tão cego?

Foi doloroso, me senti um amigo horrível, insensível. Mas meu coração estava disparado, minhas mãos suadas e algo em minha mente gritava que era essa a razão pela qual as pessoas falavam de nós.

Mas não importavam as pessoas; Blueberry me olhava, quieto, como se esperasse uma aprovação ou uma reação negativa.

_Ok. _Eu estava rouco. _Eu conheço ele, então?

Benicio fechou os olhos e parecia prestes a chorar de alivio.

Notas finais
Comentários? :3