Blue Neighborhood

1 Capitulo 1 - Fools


Notas iniciais
Clipe: https://youtu.be/uxg222-hWWc

Dois dias depois do meu nono aniversário, o vi caminhando pelo bairro. Os ombros encolhidos, acanhado, talvez pelo medo dos olhos curiosos de uma nova vizinhança.

Pelo menos eu estava olhando.

De maneira adorável, se assustou quando corria pelo gramado, parando sorridente em sua frente. Me faltavam dois dentes da frente, aqueles que tornam seu sorriso mais bonito e adulto, e ele pareceu achar graça, pois riu como se eu o estivesse fazendo cócegas.

Seu nome era Peter. Na verdade não, mas foi o que ele me disse. Peter, 10 anos, de férias na casa da tia e um grande fã de morangos. Demorei alguns minutos para notar que não existia nenhuma tia May naquelas redondezas.

Ele mentiu para mim. Naquela época, eu não me importava muito com isso, já que meu papel na sociedade era inventar uma vida maluca para ostentar aos meus colegas de futebol e amigos de classe. Então, como a boa criança que fui, o convidei para brincar, mostrando minha bola da Copa do Mundo de 2002, tagarelando o quão incrível meu pai era por ter trabalhado como assistente de câmera nos grandes estádios nacionais. Entretanto, logo que contaria a ele sobre meus bonecos quebrados do Iron-Man, um homem alto, corpulento, fedendo a cachaça, puxou aquele meu novo colega, cuspindo palavras pejorativas que de início não entendi. O que eu sabia naquele instante era que o denominado Peter — Taeyang, descobri mais tarde — precisava de um amigo. Coincidência ou não, eu também teria um amigo para ficar calado enquanto eu falasse.

— Dak-Ho! — Levantei o queixo, encarando meu orador, Eunwoo, que julguei não estar em seu bom humor pelo “idiota” que me proferiu antes de entregar o sufite. Apenas sorri para este, chutando o metal de sua cadeira, ganhando um resmungo mais do que afirmativo de sua falta de graça às dez da matina.

Eu o entendia, por mais que mau-humor não fosse minha única preocupação naquela manhã. Estava cansado, desatento, somente focado em minha caixa de mensagens, deslizando quase que freneticamente a aba para receber alguma atualização esperançosa. O chat continuava o mesmo, vazio, contendo apenas a última mensagem como sendo meus inocentes chamados pelo seu nome. Taeyang apenas visualizava e eu continuava a lhe mandar seu nome e alguns “por favor” na intenção de receber alguma resposta.

Naqueles poucos minutos em que permaneci como um bobo enviando-lhe súplicas, pensei em razões pelas quais ele seria tão negligente com os estudos e, por consequência, ao seu melhor amigo também. Kim Tae Yang era quieto, mas gostava de andar de bicicleta e correr pela praia, ainda quando crescemos, sem constrangimentos quando éramos soldados, super heróis, ou apenas com codinomes legais que se divertiam pelo bairro pacato de Songdo. Amigos que mesmo depois de tantas proibições, continuavam sendo jovens rebeldes que dividiam o lanche no almoço e que, porventura, trocaram salivas quando se viram atraídos um pelo outro.

Ou melhor, quando permiti que minha mente confusa e desamparada, tomasse as rédeas das minhas atitudes.

— Pare com isso! — Eun Woo alertou-me sobre os batuques que eu fazia com o lápis, me devorando com os olhos antes de retornar à posição inicial, de costas para mim, ocupado com os estudos.

É assim que bons garotos fazem, aliás. Se concentram, acertam e se irritam com gente como eu, que possuem problemas existenciais suficientes para não se importar com provas de fim de ano. Por sua vez, assinalei qualquer alternativa, sem ao menos me dar ao trabalho de ler as questões, que de acordo com o silêncio e cabeças baixas na sala, provavelmente eram superiores demais para a minha capacidade mental de uma noite mal dormida e uma segunda-feira sem graça.

Entreguei a avaliação no fim da aula e sai, assustando-me com o peso de alguém sobre o meu, envolvendo meu pescoço com um dos braços enquanto o outro raspava o punho em meus cabelos, em uma espécie de castigo, já que eu odiava aquele tipo de brincadeira.

— Porra MJ!

O empurrei, estalando a língua no céu da boca, ajeitando a jaqueta e a mochila que escorregava pelo único ombro que pendia. O dono do nome fez careta, usando o ombro para revidar o empurrão, caminhando ao meu lado.

— Eu não vi o que eu vi, vi?

— O que você viu? — Enfiei as mãos nos bolsos, não muito interessado em escutar os sermões do garoto.

— Você está jogando fora o esforço do semestre todo!

Respondeu, elevando a voz no final da frase, coisa que me fez revirar os olhos. Só respondi um “Tanto faz”, reconhecendo que Myungjun, um dos meus melhores amigos, não se calaria até que eu pedisse perdão por ser um verdadeiro estúpido delinquente, visto que era assim que o mesmo enxergava qualquer um dos amigos que não davam a mínima para os estudos, por mais que ele também não fosse um bom exemplo. De acordo com ele, precisamos nos dar bem nas aulas, para cursarmos uma boa faculdade juntos, como verdadeiros “BFF's”.

— O que houve com Taeyang? — Eun Woo se juntou a nós, guardando seus materiais na mochila enquanto se preocupava com o quarto integrante do nosso quarteto. — Ele não disse nada ainda?

Fiz que não, soltando o ar pelas narinas com todo o pesar que aquela negação possuía. Pude perceber que Eun Woo e MJ se entreolharam, olhando para mim como quem sabiam tudo o que se passava pela minha cabeça. Suas faltas estranhas não eram obra de alguma doença contagiosa ou incurável; Taeyang não me evitaria se fosse esse o caso.

— Dak…

Desvencilhei-me do toque de MJ, caminhando apressado para a saída da escola, não me preocupando com a aula de álgebra que me aguardava. Precisava ir para casa, ou melhor, quebrar a segunda regra da nossa amizade, a qual me proibia de visitá-lo em casa. Desde pequeno, concordamos que subir em seu gramado seria uma péssima idéia pelo humor instável de seu pai alcoólatra.

Gostava de ir contra as leis? Não, mas sentia como se o sumiço de Taeyang fosse, por parte, minha culpa.

Fechei os olhos, sentindo o sol aquecer minha pele ternamente, um calor até agradável para quem odeia o verão. Nunca gostei de suar, tampouco de chutar os cobertores durante a noite por me sentir sufocado com o tempo quente de Songdo. Odiava ainda mais quando era mais novo, por ser o período em que o senhor Kim mais causava problemas, impedindo que Taeyang saísse de casa, ou quando lhe machucava por algum motivo banal. Sendo apenas os dois na última casa da rua, sem a existência de uma mãe ou uma figura materna, o filho era cada vez mais propenso a sofrer as hostilidades de seu genitor.

— Ei! — Reconheci a voz que escuto diariamente, não parando de caminhar, escutava os passos apressados de uma corrida pela calçada— Me espere Dak-Ho.

Olhei-o, o garoto já ao meu lado, ofegante e agora caminhando com a testa levemente orvalhada.

— O que você quer?

Eun Woo suspirou, me fazendo voltar a atenção para frente, intercalando entre o caminhando e meus tênis surrados.

— O que está fazendo? Não pode sair dessa forma, ainda temos aula.

— Você também saiu.

— Porque você saiu.

— Não justifique seus erros com os meus, quer dizer que se jogaria da ponte por minha causa?

O olhei, ganhando um estalar da língua alheia, assim como um reclame baixo da sua parte.

— Não brinque comigo.

Também suspirei, assentindo.

— Tudo bem. Estou indo vê-lo, se era isso que queriam saber.

— É o que também vim fazer, estou preocupado com ele.

Fitei-o, rolando os olhos pelo quão patético Eun Woo parecia ser naquele momento.

— Não finja que gosta dele, sei que qualquer pensamento bom saiu junto com aquele soco que quebrou o nariz dele.

Recordei, observando o sorriso dado por este, que achou graça da lembrança de alguns meses atrás quando bateu em Taehyung sem um bom motivo para isso. Foram socos, puxões de camisa, ameaças, mas somente eles sabiam o porquê de estarem brigando. Eu como um bom curioso que sou, questionei a todos, entretanto nenhuma alma boa sabia ou quis me dizer o que tanto afrontava meus dois melhores amigos.

— Claro que gosto, ele só..— Pausou por alguns segundos. — Não me agrada muito.

— Devem ter se apaixonado pela mesma menina, algo assim, vocês têm o mesmo potencial para fazer coisas idiotas como essa.

Reclamei, balançando negativamente a cabeça. Escutei o cessar de seus passos e o olhei, parando diante dele, notando o que acabara de dizer. Eun Woo parecia querer que eu percebesse sozinho, e foi que fiz, desviando o olhar e subindo os dedos aos meus fios, coçando a nuca.

— Desculpa, sempre me esqueço.

Falei baixo, sorrindo labial, vendo a expressão do Cha se tornar mais suave conforme me olhava. O fato dele ser gay assumido sempre me escapava da mente, e não era raro que ele me corrigisse quando falava besteiras. Não escutei uma resposta dele, apenas tive meu antebraço tomado, sendo puxado em direção a mesma que antes seguiamos.

— Sua memória é como de um peixe beta.

Deixei que o sorriso aparecesse em meu rosto antes do silêncio tomar a caminhada, não bastando muito para que estivéssemos diante da residência dos Kim's, observando o gramado um tanto alto, assim como o quão quieto tudo estava. Olhei para Eun Woo e ganhei dele um gesto de cabeça, me apoiando a prosseguir.

Não me seguiu quando avancei, subindo as escadas da entrada e tentando olhar pela proteção da porta, janelas, confirmando que por ali não havia ninguém. Porém, apressei meus passos até as vozes acompanhadas de um som animado na parte posterior da casa, deparando-me com ambos, Taeyang e o Kim mais velho pintando alguns utensílios de madeira, aparentemente animados já que em seus rostos ostentavam sorrisos. Ainda que o conhecesse, os olhos que encarei quando se voltaram a mim não eram os dele. Pareciam vazios, ao som dos gritos quase ensurdecedores de seu pai.

Era como cair de um abismo, cada vez mais me afundando em uma vasta escuridão.

— Você precisa sair daqui!

Escutei abafado pela própria pulsação do meu coração a voz doce, que tinha mãos macias que agora segurava meus ombros. Ele não estava em uma cama, nem lutando contra uma causa humanitária que o impedia de ir para a escola. Ativo em seu macacão sujo de graxa, gritava para que eu fosse embora, me empurrando pelo mesmo caminho que segui para chegar até ali.

Bem.

Ele estava bem.

— Taeyang.

Consegui dizer, meus olhos focando nos dele, sem lágrimas, sem emoção alguma senão o hematoma gritando ao redor deles.

— Por favor— Sussurrei, a voz embargada à procura das lágrimas que faltavam nos olhos dele.

Eu o amo. Amo mais que a mim mesmo. Amo tanto a ponto de sonhar com piscinas, sala de estar e aviões, casa na colina e nomes de criança. Amo Kim Tae Yang dolorosamente, como naquele instante que não vi arrependimento em sua voz ao me dizer para nunca mais voltar. Não havia nada além de empurrões e vozes furiosas distantes.

Então fui, tropeçando em meus pés, para fora do gramado. Eun Woo me segurou em seus braços, perguntando-me o problema, e eu, perdido como fiquei, apenas lhe disse que eu era um tolo.