Blue Eyes
3 Sonhos e pesadelos

Uma voz, tão doce, tão suave.
— Eric, acorde... Acorde.
Chamava meu nome, mas eu não sabia da onde vinha.
Podia sentir a sa presença. Podia ver seus cabelos dourados dançando com a brisa de verão.
— Não tenha medo, meu querido... Estou aqui.
Seu rosto parecia ser a única coisa que possuia foco e nitidez em meio á uma branquitude infinita. Não havia mais nada ali, apenas eu e ela. Quando a brisa sessou, eu pude ver com clareza suas feições. Era um rosto tão familiar, como se já tivessemos nos visto antes. Mas eu não me recordava dela.
— Sou eu, meu filho. Venha aqui.
Meu filho. Tais palavras ecoaram como a mais pura melodia do mundo em minha mente. Era ela... Ela estava ali, diante dos meus olhos.
— Mãe... — Foi o que consegui dizer apenas, lutando contra meu prórpio corpo para ordenar que os músculos se movessem, fazendo-me correr na direção dela. — MÃE!
Quanto mais eu corria, mais distante ela ficava. Seus braços, esticados para frente, me chamavam para um abraço, mas a distancia entre nós só aumentava. Meu corpo não saia do lugar, não importa o quanto eu corresse.
— Não... Não, mãe! Espere! — Tentei fazê-la parar, quando vi que seus pés também se moviam, só que a levando na direção contrária. Minha voz, por mais que eu forçasse a garganta, parecia ficar cada vez mais baixa.
Me vi caindo num poço sem fundo, negro. Um vazio, frio, terrível, solitário. Um vazio em fim.
—--
Eric foi acordado pelo despertador de seu celular, tocando estridente no quarto. Seus olhos se abrirarm rapidamente, tomados pelo pânico. O garoto suava frio, e sua respiração era ofegante. Não ousou se mover por alguns instantes, pensando em tudo aquilo que havia sonhado segundos atrás, tentando também recuperar o folego e normalizar a respiração. Que merda de noite. Fazia tempo que ele não tinha sonhos assim. Moveu a cabeça para o lado da janela e notou que o sol estava escondido entre as densas nuvens. Nada de incomum, até agora. Vancouver também era muito nublada. Darci não estava mais em cima da cama, mas deitada no chão, próxima á porta. Eric sentou-se na cama e respirou fundo. Foi apenas um sonho ruim.
O garoto ainda levou alguns segundoa naquela posição, sentindo o suor gelado escorrer pela pele pálida e nua de seu torso, congelado no tempo e perdido na vastidão de sua mente. Logo voltou á realidade trazido pelo latido da impaciente Darci, que olhava para Eric com seus olhos castanhos e ansiosos.
— Quer sair, menina? — Sorriu com uma expressão casnada. Levantou-se da cama e abriu a porta para o cão, que correu em disparada para o andar de baixo. Eric passou a mão por seus cabelos negros e ondulados deixando que os dedos repousassem sobre a nuca, pensando no que poderia fazer para que tal sonho não fosse o foco do dia. Vestiu a mesma camiseta do dia anterior e desceu, pronto para fazer qualquer coisa que ocupasse sua mente.
Joshua estava sentado no sofá da sala, em frente á TV ligada porém com o jornal em mãos, focado nas noticias que lia. Quando percebeu que o filho já despertara, sorriu gentilmente.
— Bom dia filho. Seu tio saiu para comprar a casinha da Darci, logo ele volta. — Disse, ainda com o rosto voltado para os jornais.
Eric apenas acenou com a cabeça, também focado em outra atividade. Na primeira caneca limpa que viu, colocou o café, leite e açúcar. Já que queria se ocupar, fez questão de tomar um bom café da manhã para passar a tarde toda se enrolando e construindo um bom canto para a pastora alemã preta. Darci, por outro lado, parecia não se preocupar com nada, sentada ao lado de Joshua apoiando a cabeça no ombro do homem. Talvez todo amor e carinho que as pessoas precisassem no mundo todo estava acumulado em um único cachorro.
O jovem resolveu não se sentar á mesa pelo fato de ter que fazer esforço para puxar a cadeira, e decidiu que isso era exercício demais para ele, agora. Eric mantinha seus olhos no mundo a fora, cinzento e melancólico, como o Canadá sempre foi. Mesmo não querendo, sua mente estava perdida tanto no sonho que teve quanto na sensação de perigo que sentiu na noite anterior. O som da buzina da velha picape o trouxe de volta ao mundo real, fazendo-o admitir que estava mesmo com a cabeça nas nuvens e precisava parar com isso. Terminando de beber o café, Eric deixou a caneca sobre a pia e, em passos rápidos, correu para fora para encontrar seu tio.
—--
O dia passou de forma tranquila. Já havia se passado metade da tarde e Eric ainda estava do lado de fora da casa, arrumando as para Darci. A casinha dela, toda feita de madeira, encontrava-se encostada nos fundos da casa, no canto esquerdo. Ao lado da casinha, havia uma corrente presa em um grosso anel de metal, que fora soldado na madeira. Esta corrente por fim, de aproximadamente cinco metros de comprimento, terminava na coleira do cão preto. Ela teria liberdade o suficiente para andar ao redor, caso Eric e Joshua não estivessem em casa. Porém, Eric usou suas poucas habilidades de construção para fazer uma cerca de tela, de quase 40 centimetros de altura. Esta cerca ocupava um bom espaço atrás da casa, aproximadamente 5 metros á dentro da clareira. Ainda assim, havia um bom espaço entre a pela e o inicio da floresta. Não era uma barragem muito resistente, porém o suficiente para Darci sentir a dimenção do espaço que tinha para caminhar. Quando estivesse aqui fora com ela, não teria que se preocupar dem deixa-la presa na corrente.
Assim que terminou, Eric respirou fundo, passando os dedos pelo seu cabelo negro. Estava suado e cansado, e precisaria de um bom banho gelado mais tarde. Equanto ele olhava o trabalho que havia feito, Greg e Joshua se aproximaram, também analizando o feito do jovem.
— Muito bom, garoto. — Disse seu tio, sorrindo. — Vamos arranjar um trabalho pra você como marceneiro.
Os músculos do jovem estavam muito cansados para que ele pudesse sorrir apropriadamente. Eric não era acostumado á tanto esforço físico como enfiar estacas de madeira no chão, ainda mais fazendo tudo sozinho. Ele não era um garoto franzino, mas também não era musculoso. Era magro -- as vezes se achava magro demais -- o suficiente. Talvez ele devesse começar a fazer academia ou musculação. Não estava satisfeito com o seu físico nos ultimos meses.
— Obrigado, tio. — Ele suspirou novamente. — Mas estou bem assim. — Greg gargalhou, exagerado como sempre, e Joshua sorriu para o filho.
— Entre e beba alguma coisa, filho. — Disse seu pai, dando um tapinha nas costas de seu irmão. — Nós vamos para a loja ver os ultimos detalhes para amanhã.
Eric acentiu com a cabeça e deixou que Darci aproveitasse o novo quintal, claro já presa na corrente. Eric confiava na cadela mas não o sufieciente neste lugar novo. Qulquer coelho ou esquilo nas arvores com certeza a deixaria louca para perseguir e correr, e aultima coisa que ele queria é que seu amado cão se perdesse na mata.
O resto do domingo foi quieto e tranquilo. Anoiteceu rapidamente e Eric mal viu o tempo passar. Acabou cochilando no sofá da sala e, quando despeitou, o sol ja estava se pondo. Porém, não foi o sol ou a seu cérebro que o fez acordar, mas sim os latidos de Darci. Mais altos, mais estridentes, mais agressivos que o normal. Faziam-o se perguntar o que diabos estava acontecendo. Eric levantou-se rapidamente, e a passos rapidos foi em direção ao cachorro. Darci puxava a corrente com toda a sua força, a parte supeior do seu corpo levantada do chão, sando apesas as patas traseiras de apoio. Ela parecia um animal selvagem que acabara de ser enjaulado, latindo com raiva e mostrando seus dentes como um lobo numa luta sangrenta. Por um segundo, Eric ficou com medo de se aproximar dela e ser mordido. Porém, com hesitação, se aproximou da cadela e parou alguns passos de distancia (se ela quisesse morde-lo teria todas as chances do mundo agora). Então, virou seus olhos azuis para a escura floresta a frente, para onde ela latia.
Em poucos segundos a mesma tensão da primeira noite voltou a predominar no ambiente. Os latidos de Darci eram incessantes, furiosos enquanto o cão tentava lançar seu corpo para frente, em direção a mata. Os músculos de Eric enrijeceram enquanto a adrenalina inundava seu sangue. Pronto para luta. Ou para fuga. Seus pés pareciam presos ao chão como se fizessem parte do mesmo, e as palpebras pareciam inexistentes, sua visão focada no único ponto metros á sua frente. Na escuridão, qualquer um diria que não havia nada, mas Eric tinha uma visão apurada no escuro. Ele viu o que outra pessoa qualquer julgaria um sonho. Ele mesmo pensou que estava em um sonho no exato momento.
Um animal, de aparencia canina como Darci, porém mais alto que um homem, mais alto que o próprio Eric. Uma besta gigantesca, irreal, assustadora. Com orelhas pontudas, pelo longo de aspecto áspero, olhos amarelos, grandes e brilhantes. Sua expressão era séria, porém penetrava na alma do garoto. Um lobo, tão enorme quanto um cavalo. Eric sabia que lobos eram enormes, pois já havia visto alguns á distancia, porém este? Este não era um lobo normal. Não podia ser real. Os segundos pareciam durar eras até que o monstro finalmente piscou, dando um sinal de que estava vivo e não era somente uma miragem. Darci continuava a latir e tentar correr para o lobo, mas a besta ignorava completamente os atos do cão. Sua visão e anteção estavam somente voltados para Eric.
Um horripilante calafrio passou pela espinha do garoto enquanto mantinha contato visual com o monstro-lobo, e sentia como se o tempo tivesse parado ao redor deles. Podia ouvir o próprio coração batendo, mas os latidos da cadela eram um eco distante e abafado em sua mente. Até que ouviu uma voz chamar seu nome. Uma voz masculina, mas não conhecida pelo jovem. Rapidamente suas orbes azuladas correram para a sua direita, procurando aquele que o chamava. Mas não havia nada, nem ninguém. Tal ação durou aproximadamente dois segundos, e quando a visão estava na floresta novamente, os olhos amarelos do lobo desapareceram, assim como seu enorme corpo preto. A cadela agora estava em silencio, porém ainda alerta para a mata, orelhas em pé e olhos focados. Eric sentou-se completamente perdido naquele segundo. O que caralhos havia acontecido? Ele não sabia nem se podia confiar em sua própria mente.
—--
Finalmente, a noite chegara. O jovem de cabelos negros e olhos azuis continuou revivendo a cena em sua mente a cada segundo que se passava. Agora, estava deitado em sua cama, na posição costumeira, com os braços atrás da cabeça. Darci encontrava-se no chão, resfriando seu corpo canino no chão gelado. Ele só conseguia pensar no que havia acontecido mais cedo e na noite anterior. No primeiro "encontro" com o monstro, ou seja lá o que foi aquilo, Eric não pode ver o que o espreitava nas sombras, mas desta vez foi muito mais intenso pelo simples fato de ver aquela forma gigantesca nas sombras, encarando-o em completo silêncio. Seus olhos da cor do mar encaravam o teto branco acima, porém taziam as imagens de horas atrás. O silencio de Darci apenas fez o garoto mergulhar mais em sua própria mente, perdido em seus pensamentos e memórias. Chegou até mesmo a reviver o sonho que tivera na madrugada anterior, com sua mãe. Sua mãe...
Pelo que ele sabe dela, Viviane era uma mulher misteriosa porém muito doce, amável, protetora. Cheia de luz e amor, alegrando a vida daqueles ao seu redor. Era extremamente apaixonada pelo marido e, até onde sabe, pelo filho ainda em seu ventre também. Mesmo sem nunca tê-la conhecido apropriadamente, Eric sabia que ela era uma mulher incrivel. Sempre que pensava na mãe, o jovem desejava com todo o fogo de sua alma ter passado mais tempo com ela, o suficiente para carregar memorias claras, e não apenas histórias contadas pelos parentes. Viviane morreu quando Eric ainda era apenas um bebê de quase um ano, em um trágico acidente automobilistico. Nunca foram dados muitos detalhes ao jovem, e sinceramente ele não gostaria de saber como aconteceu. Joshua criou o menino sozinho -- praticamente -- desde sempre. Eric nunca o viu com outra mulher, mas quando começou a amadurecer, aprendeu que um empresario viuvo rico não ficava só por muito tempo. Quando era um pequeno "aborrecente" de 12 anos, cheva a se irritar pensando na possibilidade do pai passando tempo com outra mulher, mas com os anos aprendeu a ignorar e, consequentemente, parou de se importar. Joshua fazia da vida o que bem entendesse, assim como Eric faria da dele quando tivesse seu próprio dinheiro.
As orbes azuis e brilhantes do rapaz moveram-se em direção á janela, levando a cabeça consigo. Daquela posição, ele podia ver o céu noturno, estrelado e sem nuvens, e as pontas dos pinheiros. A cortina clara balançava com a brisa como se dançasse uma melodia misteriosa cantada pela própria mãe natureza. Um momento extremamente pacífico e quieto. Eric suspirou, cansado das coisas que seu cérebro o obrigava a reviver. Chega de pensar em mãe ou em monstros na floresta. Ele levantou levemente a cabeça para ajeitar o travesseiro, virou-se o corpo para o lado da janela e deixou que as pálpebras pesassem e com o tempo, se fechassem para carrega-lo ao mundo dos sonhos.
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