Blue Eyes

4 Novos amigos...


O despertador de seu celular tocou exatamente ás sete horas da manhã. Eric despertou e sentou-se na cama, mas sentia como se não tivesse dormido um único minuto. Não conseguia lembrar-se do sonho que tivera durante a madrugada, mas acordou sentindo um aperto no peito e uma gota de suar frio descendo por sua testa pela bochecha, seguindo a linha definida do maxilar até chegar ao queixo e finalmente cair sobre os lençóis claros da cama. Via apenas alguns borrões, como cenas perdidas de um filme sem sentido em sua cabeça.

Somente depois de longos segundos ele se deu conta que tinha de desligar o despertador que gritava ao seu lado. Esticou o braço nu até o lado do travesseiro para trazer o aparelho celular até próximo ao rosto, finalmente fazendo o dispositivo ficar em silêncio. Seus olhos azulados atentaram-se aos detalhes da data.

Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017. 7:02 da manhã.

25 de Setembro.

Seus olhos ficaram imoveis sobre estes dois números durante um tempo -- que mais parecia uma eternidade. 25 de setembro era a data de aniversário de sua mãe. Provavelmente ela estaria fazendo 40 anos hoje. Ele não sabia dizer ao certo, mas com certeza Joshua tinha mais conhecimento sobre isso. Hoje não seria um dia muito alegre.

Eric levantou-se e nem preocupu-se em vestir uma camisa. Em poucos minutos teria que tomar um banho rapido, não valia a pena procurar uma camiseta para vestir por tão pouco tempo. Darci estava estranhamente quieta quando levantou-se para seguir o seu dono, e Eric imaginou as possibilidades que deixariam a cadela tão... Diferente. Talvez o dia anterior também tivesse a afetado, ou ela também podia sentir que o dia não seria assim tão feliz. Todos os anos eram assim. 25 de setembro era sempre um dia cinza e triste. A cadela preta desceu as escadas de forma apressada, seguida pelo jovem de olhos azuis. Joshua estava em pé encostado na pia com uma xicara de café em uma mão e o celular em outra. Sempre um homem ocupado.

— Bom dia, pai. — Desta vez Eric resolveu quebrar o gelo, coisa que fazia pouco. Hoje queria mostrar-se um pouco mais próximo de seu velho.

— Bom dia. Não se esqueça que a aula começa as 8h. Quer carona? — Esta sim foi uma bela maneira de mudar de assunto sem ter mesmo começado. Joshua era um tanto sensivel e não sabia lidar bem com os sentimentos, talvez pensar na falecida esposa hoje não o faria se sentir bem. Ele queria ocupar a mente e o corpo, para não acabar-se em lágrimas.

— Quero sim, obrigado. — Disse o rapaz, preparando a sua própria xícara de café após deixar um pouco de ração no pote de Darci, que comia desesperadamente -- como sempre.

Os dois homens tomaram seu café da manhã de forma silenciosa, ambos sabendo o que o outro estava pensando.

— Quantos anos ela faria hoje? — Eric estava cansado daquela tensão do momento. Então, de repente, resolveu conversar com o pai sobre sua mãe, coisa que ambos evitavam constantemente. Sempre fugiam do mesmo problema. Ele tinha seus cotovelos apoiados na mesa enquanto os olhos azuis focavam em seu pai.

— Quarenta. — Foi a resposta rapida de Joshua, que suspirou logo em seguida e fechou os olhos por poucos segundos. — Ela era um ano mais nova que eu.

— Sente falta dela? — Uma pergunta de resposta um tanto óbvia, porém o jovem estava determinado a ter uma conversa mínima sobre o assunto.

— Mais do que você pode imaginar. — Os olhos, tristes e solitários, de Joshua voltaram-se para o filho, e ambos se encararam olho no olho por dois incomodos segundos. Um sorriso forçado que carregava uma tristeza imensa formou-se nos lábios do homem mais velho, que suspirou novamente. — Mas ela deixou os olhos dela com você, para que eu possa olha-los sempre.

Eric não sabia o que responder nesse momento. Sempre ouviu que tinha os olhos de sua mãe e que eram muito bonitos. Na realidade, a maioria dos elogios que ouvira na vida foram por causa de seus olhos cujo tom de azul era diferente de qualquer outro. Realmente, não era um azul comum, acinzentado como a maioria. Era mais intenso como o mar de verão, brilhante, misterioso.

— Na verdade, você é muito mais parecido com ela do que pensa. — Disse Joshua, após alguns segundos analizando as feições do filho. — O queixo é o meu, pelo menos.

O jovem sorriu brevemente. Poucas eram as vezes que ria de alguma brincadeira do pai, porém ambos desfrutavam de um momento nada comum de suas vidas. Os anos anteriores não haviam sido como este. Eric encarou sua xicara de café, agora vazia.

— Queria tê-la conhecido. — Admitiu. Pela primeira vez em voz alta, admitiu.

— Quanto mais você se conheçe, mais você conhece ela. — Joshua se aproximou do filho para repousar sua mão sobre o ombro dele. Havia deixado sua própria xícara na pia antes disso. Eric ergueu o rosto, podendo sentir as lágrimas chegando até ele. Seu pai se sencontrava na mesma situação, prestes a chorar. Sentou-se fraco ao ter a subta vontade de chorar como uma criança, e voltou a baixar os olhos.

— Está tudo bem, meu filho. — Joshua deixou que as lágrimas corressem por seu rosto, logo voltando a postura normal para enxugar o rosto, repetindo a frase anterior provavelmente mais para si mesmo do que para o adolescente. — Está tudo bem.

Diferente do pai, Eric não chorou. Não sabia porque, mas as lágrimas não tinham força para descer por seu rosto. Ficaram ali, embaçando sua visão. Suas palpebras pesaram e finalmente fecharam, mas as lágrimas continuaram ali. Respirou fundo depois de alguns interminaveis segundos, erguendo a cabeça o máximo possível, tentando livrar-se do incomodo que elas causavam em seus olhos. Ambos ficaram ali em silêncio, em luto, em saudade. Não havia muito mais que podiam fazer. Até que Joshua resolveu quebrar o pesado clima de quietude.

— Sua mãe era uma mulher incrível, Eric. E queria que você fosse também. — Os olhos castanhos mel do homem repousavam sobre a mesa, as memórias de sua falecida esposa correndo em sua mente imparaveis. — Ela tinha o coração mais puro desse mundo. Era bondosa, gentil... Via beleza onde ninguém mais conseguia. Via esperança onde todos achavam que não existia.

Eric manteve-se em completo silencio, ouvindo as palavras de seu pai, que expressavam a mais pura saudade e orgulho falando de Viviane.

— Prometa pra mim que será como ela... — Finalmente a visão de Joshua repousou sobre o filho, e pai e filho encontraram os olhos um do outro. Eric hesitou, por um momento.

Desde a pré-adolescencia, era tido como um pequeno meliante, um jovem rebelde cuja falta da figura materna um dia lhe transformaria em um delinquente perigoso e, num futuro próximo, um presidiario. Ouvia os sussurros das professoras e diretores dos colégios por onde passou. Todos diziam a mesma coisa. Eric nunca teria um bom futuro já que nunca teria uma mãe. Mas ele iria provar que todos estavam errados.

— Eu prometo. — Disse ele, incrivelmente, em um tom doce e amigável. Era dificil notar qualquer diferença no humor de Eric que não fosse de entediado para irritado.

Ambos decidiram não continuar mais naquela cena de melancolia e choro. Eric levantou-se e decidiu ir para o banho, que durou poucos minutos. Joshua continuara na cozinha, desta vez com seu notebook sobre a bancada, editando documentos e checando emails importantes. Com a toalha presa na cintura e ainda escorrendo um pouco de agua quente pelas costas e cabelos, o jovem dirigiu-se ao quarto novamente, seguido por Darci. A cadela jamais o deixava sozinho.

Não levou muito tempo para o garoto se trocar, vestindo uma calça jeans preta, camiseta branca e uma jaqueta de couro preta. Parecia mesmo o verdadeiro delinquente que todos diziam. vestiu um par de tenis pretos e usou a toalha para deixar seus cabelos negros e ondulados o mais seco possivel, mas não passaria muito tempo arrumando-os. Apenas usou um gel para mantê-los no lugar. Eric nunca fra muito vaidoso, mas também não era desleixado. Tinha certeza que não passaria uma imagem de pessoa amigável no primeiro dia de aula, mas também não queria sair de casa de pijamas.

Em sua mochila marrom e surrada, levou apenas um caderno para anotações onde costumava desenhar e rabiscar e algumas canetas. Pegou seus fones de ouvido e o celular para finalmente descer as escadas. Todo este processo, desde a conversa na cozinha até estar pronto para a aula durou aproximadamente 40 minutos.

— Pronto? — Perguntou Joshua, colocando seu relógio no pulso.

— Vou deixar a Darci lá tras antes. — Disse o garoto, saindo pela porta da frente seguindo pelo cão.

O jovem de olhos azuis deixou a mochila no chão, ao lado da casinha nova de Darci, enquanto prendia a corrente em sua coleira. Prestes a levantar, a cadela choramingou olhando para a floresta. Ele virou a cabeça para a mata, observando por alguns segundos. Ambos sentiam a mesma coisa olhando para aquelas arvores sombrias e misteriosas.

— Está tudo bem menina, nada vai acontecer. — Eric acariciou Darci na cabeça, puxando levemente uma de suas orelhas. Nada vai acontecer. Ele se levantou e novamente colocou a mochila em seu ombro, voltando a encarar a floresta. Reviveu toda a cena do dia anterior em sua mente, nitidamente vendo a forma bestial do lobo ali, entre as sombras. O som da buzina da picape de Greg o tirou de seu transe. Eric correu para o carro, deixando Darci para trás. Estava um tanto preocupado por deixa-la ali, mas sentia que, o que quer que fosse aquele monstro, não iria se arriscar saindo da floresta para atacar um único cão.

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Escola Secundária Charles Rays

Um colégio público, como todos os outros, no Canadá. Joshua estacionou juntamente com muitos outros pais -- e alunos que possuíam seu próprio carro -- no estacionamento do colégio, e Eric pensou em perguntar se esse era o mais longe que ele conseguia. Parecia uma infinidade de quilômetros até a entrada, onde vários outros jovens se cumprimentavam a caminho das salas e armários, mesmo que fosse apenas 100 metros. Eric se despediu do pai, que logo em seguida perguntou se ele queria sua companhia. O jovem agradeceu mas disse que não era preciso, que pegaria seus horários, código do armário e livros sozinho. Eric não ficou para ver se Joshua o observava do carro ainda estacionado, e simplesmente foi em direção a porta de entrada cheia de outros adolescentes escandalosos e barulhentos.

Eric se sentia no inferno novamente. Estava acostumado com a barulheira do seu antigo colégio em Vancouver, mas este provavelmente tinha o dobro de alunos, e o quadruplo de conversas altas e escandalosas. Havia ali pessoas de todos os tipos e suas conversas eram tão variadas quanto suas faces, fazendo com que o garoto se sentisse um pouco menos desconfortavel em meio aquela multidão. A movimentação era grande pelo corredor principal, porém era possivel andar entre os grupinhos que se formavam perto dos armários e salas. Eric podia até mesmo sentir alguns pares de olhos sobre si enquanto procurava a secretaria do colégio.

Deu graças ao céus ao encontra-la, ainda por cima praticamente vazia. A maioria das pessoas ali presentes eram novatas, e os únicos que precisavam de seus horários. Os alunos mais velhos, provavelmente, já tinham pego a grade horária antes. Eric se aproximou da bancada e a secretária, uma senhora de talvez 70 anos de cabelos curtos e grisalhos o antendeu. Demorou mais que o esperado por ele, já que visivelmente ela tinha dificuldades em usar o computador -- tão jurassico quanto ela -- á sua frente. Mas em deois minutos (que pareciam ter durado duas horas), ele recebeu seu pedaço de folha sulfite com os horários de cada dia da semana.

— Bom, sr. Ivan, como posso ver, você é novo aqui e creio que o comitê de boas-vindas será util para você — Disse ela, com um sorriso doce em sua face. Ótimo, tudo que ele precisava era um bando de gente escandalosa o abraçando e dizendo "bem-vindo ao inferno". — Siga por este corredor e vire a direita, vai encontra-los lá.

Eric agradeceu e tentou sorrir, virando-se de costas para seguir o caminho ao comitê, revirando os olos já pensando na tortura psicológica dos próximos minutos. O corredor, antes abarrotado de seres humanos, começava a ficar mais vazio a medida que ele se aproximava de seu final, onde uma enorme janela encontrava-se na parede a sua frente. A direita, como a senhora disse, estava o comitê para os alunos recem chegados. Uma mesa com alguns panfletos e folhas, onde alguns alunos se aglomeravam e conversavam atrás. Pelo jeito, quase ninguém novo veio aqui.

Como já estava nos portões do inferno, Eric decidiu pular de cabeça na lava fervente. Seus passos em direção á este comitê, visivelmente nada organizado, foram calmos como se estivesse se aproximando de uma besta faminta de carne humana, mas quando uma garota o viu a poucos metros do grupo, Eric sentiu as labaredas do Tártaro queimando sua alma.

— Ah, oi! — Disse ela, animada até demais. Era uma garota de cabelos loiros e longos, presos em um alto rabo de cavalo. — Você é novo, certo?

— Isso. — Disse Eric, finalmente aproximando-se da mesa, com as mãos dentro do bolso de sua calça. — Eu acabei de chegar. — A timidez queimava seus musculos de maneira que ele jamais havia sentido antes.

Agora, todo o grupo de seis pessoas tinham seus olhos voltados para o jovem de cabelos negros e roupas escuras. Haviam ali apenas dois meninos, entre todas as outras garotas. Um deles, ao lado da loira, tinha traços asiaticos e cabelo tão negro anto o de Eric, caido sobre a testa. Em sequencia, havia mais uma menina, que usava óculos grandes e tinha cabelos curtos, castanhos e encaracolados. Por ultimo, gemêas identicas que Eric até julgou serem bem bonitas, com olhos cor de mel e cabelos bem lisos, de uma cor que ele teve como indefinida (uma mistura de loiro com ruivo, provavelmente artificial). Finalmente, no final da fila, um garoto magro e ligeiramente mais baixo que o outro, de cabelos longos na altura dos ombros, encaracolados como o da menina de óculos, porém castanho com um certo brilho dourado, quase amarelo vivo. Suas feições eram um tanto delicadas, quase femininas. Possuia olhos eram verdes como as árvores no verão.

— Bom, bem-vindo á Charles Hays! Meu nome é Kate. — Apresentou-se a loira, indicando o menino ao seu lado e, consequentemente todos os outros da fila. — Este é o Caleb, Hanna, essas são Ane e Isa e aquele é o Eliah. — Eric mal se lembraria de tantos nomes, mas tentou sorrir para todos ali presentes.

Agora, quem tomou a liderença para falar foi a garota de óculos, Hanna. — Caso você tenha alguma duvida sobre a escola, eventos, horários ou se até precisar de direções, venha falar com a gente.

— Estamos organizando uma festa de boas-vindas para todos os calouros, na minha casa. — Disse Caleb, pegando um dos panfletos da mesa para entregar a Eric. Ele, somente por educação, aceitou a folha. Haviam poucas informações ali, como horário e etc, mas o endereço estava bem visivel. — Vamos arranjar algumas bebidas também.

Ótimo, adolescentes comprando álcool escondido para fazerem uma festa, provavelmente terrivel, na casa de alguém para que alguns poucos bebessem até passar mal e dormissem no chão da sala. Parece que Prince Rupert não é tão diferente de Vancouver, afinal. Novamente Eric acenou com a cabeça e decidiu ficar ali por mais alguns longos segundos, ouvindo coisas que provavelmente esqueceria, do grupo que o acolhia de forma tão rapida, mas que provavelmente não se lembrariam dele amanhã.

— Você é bem "bad boy" né? Da onde você veio? — Finalmente, Eric ouviu uma das gemeas falar. Não fazia ideia que era Ane ou Isa.

— Vancouver. — Respondeu de forma curta. — Meu pai é... Empresário. Veio pra cá pra trabalhar.

— E a sua mãe? — Perguntou a outra. A ponta da lança perfurou a alma dele de forma rápida.

— Morreu. — Com essa resposta curta, Eric pode sentir que o clima ali ficara visivelmente mais tenso. Manteve sua cara fechada de sempre, vendo os outros ficarem desconfortaveis.

— Ah... Bom, enfim. — Kate tentou deixar o clima animado novamente. — O sinal ja vai tocar, você sabe qual a sua primeira aula?

Eric buscou o papel em seu bolso, logo após der dobrado o convite de Caleb para guarda-lo do outro lado. Ficou com o sultife em mão por instantes para lê-lo. — História. — Respondeu em fim.

— Eu também. Te acompanho até lá. — Disse Eliah, aproximando-se da mesa para ficar mais perto de Eric. O garoto tinha um sorriso amigavel nos lábios mesmo tendo uma aparencia tão timida. Isso, por algum motivo, incomodava Eric. Antes que o jovem de olhos azuis pudesse responder algo, o sinal tocou ensurdecedor sobre a cabeça dos alunos. Em poucos segundos, a movimentação de pessoas ali seria insuportavel.

Eliah acenou com a cabeça para Eric segui-lo, e ambos andaram lado á lado, pelo caminho que o garoto menor indicava. Ele era provavelmente de 10 á 15 centimetros menor que Eric, visivelmente mais magro e talvez, mais novo. Eric sempre fora considerado alto para sua idade, e talvez fosse mesmo. Eliah vestia uma calça de tom mostarda e camisa preta, seus cabelos estavam soltos e quase chegavam a tocar as costas. Em seu pescoço, um pingente de metal estava pendurado em um colar de corda preta. Seus tênis pretos pareciam novos por estarem ainda muito limpos. Apesar da aparencia de menino certinho e "comum", tinha algo no rapaz que chava a atenção de Eric. Algo que, de certa forma, o incomodava. Havia algo estranhamente familiar nele.

— É aqui. — Disse Eliah, apontando para a porta mais proxima, á direita. Quando ambos entraram, o local estava relativamente cheio, com poucas mesas vagas. Eric decidiu pegar a ultima mesa para si, cuja cadeira encostava na parede.

Deixou sua mochila sobre a mesa escura e sentou-se, esticando as pernas para frente. A direita, um grupo de garotos conversando sobre o que ele julgou ser basquete, já que alguns deles usavam camisetas de time. A esquerda, um dos últimos lugares vazios. Eliah ficou perto de Eric, sentando-se a frente dele. Finalmente, depois de alguns minutos que isso o incomodava, Eric decidiu perguntar a idade do garoto de cabelos compridos.

— Eu tenho 16. — Respondeu o garoto, com o mesmo sorriso amigavel, revelando seus dentes brancos e ligeiramente pontudos — É que eu pulei um ano.

— Superdotado? — Brincou Eric, meio sorriso formando-se apenas em um lado de sua face.

Eliah riu, respondendo a pergunta com a explicação de que suas professoras do primário o consideraram mais avançado que as outras crianças, e então sua mãe o matriculou um ano a frente dos outros de sua idade. Eric então, decidiu perguntar de sua familia. Era dificil ver o garoto de olhpos azuis perguntando sobre a vida dos outros ou realmente mostrando interesse num dialogo mais longo que alguns segundos, mas ele havia gostado de Eliah no momento em que o conheceu. Sentia uma aura diferente ao redor do garoto,. Algo amigavel, gentil, brincalhão. Quase sentia como se Darci, sua cadela, tivesse se transformado em gente e virado um menino.

O garoto disse que sua familia se resumia á ele e o irmãos mais velho, chamado Nick. Seu pai e mãe haviam morrido á aproximadamente dez anos. Eles tinham, é claro, tios e amigos da familia, mas Nick e Eliah costumavam ficar sempre sozinhos. Eric sentou grande empatia pelo garoto, pois rabia como era ser parte de uma familia de duas pessoas. A conversa não foi muito mais longa porque, finalmente, o professor chegou na sala. Um homem cuja idade era proxima da de seu pai, usava uma paletó marrom e calças pretas. Tipico professor de história. Ele apresentou-se para a sala como professor Phillip, mas antes que pudesse dar continuidade ao seu dialogo, duas batidas leves na porta puderam ser ouvidas.

Em seguida, quem abriu a porta, aos olhos de Eric, não era um ser humano mas um anjo na terra. Uma garota ruiva, com cabelos longos e lisos até a cintura, pele rosada e sardas nas bochecas e nariz, com olhos quase omo o próprio ouro, e de expressão séria e pouco preocupada por estar atrasada. Vestia uma jaqueta preta de couro e calças justas, cor de vinho. Ela era extremamente bonita, não por ser ruiva -- coisa que fazia a maioria dos garotos terem fetiche nessas meninas -- mas os olhos dela foram a primeira coisa que chamaram a atenção de Eric, que parecia paralisado no tempo, observando aquela figura magra de cabelos longos.

— Ah, senhorita Durand. Atrasada como de costume. Por favor sente-se. — Disse o professor, nada impressionado por ela ter chego depois de todo mundo.

A menina revirou os olhos e encaminhou-se para a carteira ao lado da de Eric, e quando seus olhos dourados encontraram as orbes azuladas dele, sua expressão mudou de tédio para algo parecido com nojo. Eric voltou á realidade após ela ter se sentado, encostando a cabeça na parede e esticando as pernas, uma posição parecida com a de Eric, de alguém que estava ali praticamente por pura obrigação. Ele virou o rosto para frente novamente, ouvindo as palavras entediantes do professor.

— Bom, finalmente, eu tenho um ultimo anúncio para falar. — Disse o homem grizalho, e Eric sentou um arrepio na espinha. — Nós temos aluno novo esse ano, que vai completar o ensino médio conosco.

As únicas palavras a se repetir na mente do rapaz eram: por favor, não.

— Senhor... Ivan. Eric Ivan, por favor, fique de pé e se apresente para a turma.

Rapidamente, os olhos curiosos de 30 adolescentes começaram a vasculhar a sala em busca deste tal "Eric Ivan", até que Eliah virou-se para ele e todos os olhares seguiram o garoto de cabelos longos. Demorou alguns segundos para que ele finalmente se levanta-se, recusando sair de longe de sua mesa. Eric queria apenas morrer naquele momento. Ele revirou os olhos, descendo o olhar para a ruiva ao seu lado. Ela parecia ser a única a não se importar com quem ele era.

— Meu nome é Eric, sou de Vancouver... Tenho 17 anos e não gosto de ninguém.

Sua subta sinceridade fez com que algumas risadas fossem ouvidas nos cantos da sala. Até o professor sorriu com a "brincadeira".

— Muito bem senhor Ivan. Você mora com os seus pais? Avós? Tios? — Agora começam as perguntas irritantes. Eric segurou-se para não revirar os olhos novamente.

— Meu pai. Minha mãe faleceu quando eu era criança. — Esta ultima frase fez, ligeiramente, que a garota atrasada move-se seus olhos para a figura alta de Eric. O professor agradeceu e pediu para que ele se sentasse novamente. Finalmente, Eric podia voltar para o seu nem-tanto-anonimato. Os olhares voltaram-se todos para frente, e Eliah juntamente voltou a posição normal. Porém, Eric ainda sentia um par de olhos sobre ele. ao que seus olhos extremamente azuis viraram-se para o lado, pode apenas notar as orbes douradas como o amanhecer da garota ruiva analizando seu rosto.

Ao notar que estava sendo observada, rapidamente virou o rosto para frente, com uma cara de desgosto. Parece que essa era sua expressão natural, assim como Eric tinha sua normal cara de tédio. Em poucos minutos de aula o jovem já sentia que estava a décadas naquela sala, e somente desejou que o resto do dia não fosse tão torturante como esta aula.