Blue Eyes
2 Família

Duas batidas leves na porta e, logo em seguida, a massaneta girou. Joshua abriu a porta normalmente, sues olhos castanho mel procurando o filho no quarto com pouca luz. Eric se encontrava deitado na cama focado em seu telefone, e Darci mantinha sua cabeça deitada no peito e estomago do rapaz.
— Filho, vamos jantar na casa do Tio Greg. — Disse, logo em seguida olhando pro relogio em seu pulso. — 15 minutos.
As conversas entre pai e filho nunca foram muito longas e cheias de sentimento. Joshua, apesar de amar profundamente seu filho, não sabia lidar com sentimentos e podia-se dizer que ambos pareciam muito distantes, porém se entendiam muito bem em conversas curtas e resmungos. Eric apenas ergueu o polegar de forma positiva, e Joshua deixou a porta aberta após o garoto entender o recado. — E acenda uma luz, meu Deus.
Neste ponto ambos eram diferentes. Joshua gostava de ambientes iluminados, claros e bem visiveis, já Eric sentia-se mais a vontade sob meia-luz e até mesmo escuridão total. O jovem preferia a escuridão, por algum motivo, pois sentia que a luz não lhe fazia falta. Talvez fosse só coisa da sua imaginação, mas Eric sempre enchergou muito bem no escuro mesmo sem nenhuma lanterna ou fonte de iluminação próxima, como se ele fosse sua própria luz. Meio estranho, mas ele se pegava pensando nisso as vezes. Eric suspirou e acariciou Darci, que levantou a cabeça possibilitando que o rapaz se levantase.
Eric se encontrava sem camisa e usando apesas uma calça de moletom, pois é assim que costumava dormir, mesmo nos dias de inverno. Sentia calor demais para usar uma camiseta. Ele dirigiu-se até o guarda-roupa, que era próximo á janela junto com a pequena mesa, para encontrar uma blusa para vestir. Enquanto vasculhava com os olhos suas camisetas, a maioria pretas, sentiu um arrepio na espinha e uma sensação estranha, de desconforto, como se estivesse sendo observado por milhares de olhos, todos de algum jeito querendo se alimentar de sua carne, arrancar sua pele aos pedaços. Por um segundo, seus instintos o fizeram congelar, mas no momento seguintes forçaram automaticamente sua cabeça a virar-se para a janela, olhos azuis vidrados na floresta de escuridão infinita atrás dos vidros. Ele procurava algo ali. Não sabia o que, nem porque, mas todas as suas células diziam que havia algo ali. Algo perigoso, algo que o observava. Sua mente não temia o que quer que seja que estivesse escondido nas sombras, mas os pelos de seu corpo estavam todos arrepiados, seus musculos tensos e garganta seca. Como se estivesse pronto para fugir mesmo que a mente não ordenasse.
Lutando contra a propria carne, Eric engoliu em seco e dirigiu-se até a janela, seus passos eram leves e cuidadosos, como se andasse em meio á minas terrestres, para que pudesse ver melhor o mundo a fora. Suas orbes extremamente azuis procuravam por qualquer detalhe fora do comum entre as árvores e vegetação, mas não havia nada fora do comum no alcance de sua visão. Mesmo assim, seu corpo pareceu ficar mais tenso ainda. Darci logo se aproximou, ficando de pé nas duas patas traseiras e apiando as dianteiras no batente da janela para olhar o horizonte com seu dono. Porém, a cadela parecia tão atenta e nervosa quanto o prórpio Eric. Em segundos ela começou á latir, expondo seus afiados dentes brancos, orelhas coladas ao crânio como se estivesse pronta pra lutar. Pelo jeito ele não estava louco. Havia sim algo ali. Algo olhando os dois. A tensão somente crescia entre Darci e Eric, começando á apavorar o rapaz quando a porta de seu quarto se abriu mais uma vez.
— Eric, já está pronto? — Era Joshua, de roupa trocada e cabelos molhados. Acabara de sair do banho, e ainda tinha a toalha branca pendurada em seus ombros. Vendo que o filho ainda estava de pijama em frente á janela, o pai se sentiu um pouco incomodado. — Filho, o que está fazendo? Eu disse pra você, quinze minutos.
O rapaz virou-se um pouco assustado, olhos arregalados e mais pálido que o natural, como se tivesse sido arrancado á força de um poderoso transe. Até mesmo Darci havia se assustado com a chegada de Joshua, saindo de perto da janela para descer as escadas rapidamente.
— Filho, o que aconteceu? Está tudo bem? — Vendo a cara de pânico do filho, logo o homem também se assustou. Eric não costumava sentir medo com facilidade e sempre fora uma criança muito corajosa. Era muito raro vê-lo tão assustado.
— Não, nada. Eu só... Achei que tinha visto algo lá fora. — Gaguejou o jovem, pegado a primeira camiseta do armário. Não queria ficar no próprio quarto por muito mais tempo, pois sentia a aura dali ficando pesada, tensa, assustadora para se dizer o mínimo. Perigosa.
Mesmo ainda preocupado com o filho, Joshua resolveu não investigar por si próprio. Afinal, era uma floresta. Habitat de animais selvagens extremamente próximo dos humanos. Ele não duvidava que poderia haver coiotes ou lobos por perto, até mesmo ursos ou leões da montanha. Afinal, se não houvesse animais para se caçar nas proximidades, os negócios de Gregory não estariam tão estaveis e produtivos. Quando Eric passou por ele, Joshua repousou sua mão sobre o ombro do filho, fechando a porta do quarto do jovem atrás deles, resolvendo deixar para lá essa história, por enquanto. Eric também não queria pensar nisso, nem se lembrar dessa estranha sensação de estar sendo caçado. Mal sabiam eles que, realmente, esta floresta guarda grandes segredos e perigos.
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O jantar ocorreu de forma pacata. A mesa, estava Gregory na ponta com Joshua ao seu lado esquerdo. Margaret e Ana, respectivamente mulher e filha do tio de Eric santavam-se lado a lado, na direita. Eric, por fim, estava ao lado do pai. Margaret havia preparado talvez o melhor jantar que os dois convidados haviam comido em alguns anos. Joshua era um bom cozinheiro, mas apenas o suficiente para que pai e filho não precisacem pedir pizza todos os dias ou morrer de fome. As coisas são totalmente diferentes quando se come uma comida boa de verdade.
Como sempre, Greg e o irmão papeavam incansavelmente sobre negócios e como foi a vida no tempo em que estiveram separados. Margaret prestava atenção em sua filha pequena, que deveria ter no máximo um ano de idade. Eric se sentia deslocado naquela cena, porém estava feliz por estar em um jantar em familia. A muito tempo ele não tinha uma familia tão grande assim. Familia, desde sempre, foi apenas seu pai e Darci, nos ultimos anos.
Eric foi tirado de seu transe pelo tio, que chamava seu nome. Ele gostaria que o jovem trabalhasse com ele e o irmão na loja, pelo menos nos primeiros dias em que a mercadoria nova chegasse e precisaria ser organizada, e por essa ajuda ele seria pago, para manter as coisas justas. Eric concordou, e pediu ajuda ao tio para construir uma casinha para Darci.
— Ah, não sera necessário construir. — Disse Joshua, querendo participar da conversa — Compraremos uma amanhã mesmo.
O menino apenas sorriu, vendo pai e tio voltarem ao falatório sem fim. Margaret estava quieta com atenção voltada á filha. Eric sabia pouco deles, mas no caminho para a nova cidade, Joshua havia dito que a esposa de seu irmão era tida como infertil para os médicos, e por muitas tentativas não conseguiu ter um filho que ela e Greg tanto queriam. Após muitas tentativas, aos 35 anos ela conseguiu engravidar da pequena Ana. Por isso, a menina era muito preciosa para Margaret. Eric, entretanto, podia apenas tentar entender, imaginando se nessa idade ele também era um tesouro para sua mãe. Ele imaginava como era estar na presença da mãe, ja que não tem memórias dessa época da vida. Ele a conhece apenas por fotos.
Em poucos minutos, o jantar havia acabado. Eric, ainda pensando sobre sua mãe e infancia, se ofereceu á Margaret para passar um tempo com a pequena Ana na sala, sentando a menina em um andador rosa cheio de brinquedos e coisas para prender a atenção dos bebês, e abaixou-se na frente dela. A menina se entretia fácil com os brinquedos próximos de suas mãos pouco coordenadas e gordinhas. Eric apenas mantinha-se perto para evitar qualquer acidente, sorrindo enquanto olhava o bebê. Seus olhos apenas traziam á ele a ilusão de ser sua versão mais nova ali, sentado no andador, e sua mãe parada onde ele estava, ambos fortalecendo o laço indestrutivel e de mãe e filho. Novamente, ele estava preso em um transe de memórias -- ou apenas de imaginação. Ele somente voltou á realidade quando a mãe de Ana chegou para pega-la no colo, agradecendo o menino por ter vigiado a bebê enquanto ela limpava as louças do jantar. Eric se perguntou quanto tempo ficou viajando nos próprios pensamentos. Ele e Joshua logo se retiraram, voltando para o silêncio da nova casa. Primeiramente, foram acolhidos pelo amor de Darci, que alegrava-se como se tivesse passado uma decada sem ver os donos.
— Ah, esqueci a TV que seu tio nos emprestou. Vou voltar e ficar por aqui na sala. — Disse Joshua, já a caminho da porta.
— Okay pai. — Eric respondeu curtamente, andando calmo em direção á escada, seguido pela exagerada animação da cadela preta.
Finalmente em seu quarto, Eric estava pronto para se despir da camisa, quando lembrou dos momentos mais cedo, antes do jantar. Sua atenção voltou-se para a janela, encarando-a como se o objeto fosse o culpado de tudo aquilo. Seus passos até as cortinas foram um tanto apressados, olhos azuis extremamente atentos ao mundo lá fora. Procuravam, não se sabe o que, mas procuravam. Apos alguns segudos, chegou á conclusão que era apenas sua mente pregando peças, e fechou as cortinas opacas porém finas, o que mantinha parcialmente a luz da lua adentrando o cômodo. E enfim, tirou a camiseta, jogando-a na mesa e deixou que o corpo caisse no colchão macio. Darci logo subiu na cama também, deitando-se ao lado do rapaz. Eric passou um bom tempo em seu celular e redes sociais, conversando com amigos -- ou melhor dizendo, conhecidos próximos -- que agora estavam distantes, em Vancouver. Ouviu os ruidos de seu pai tentando instalar a televisão no lugar certo, mas preferiu deixa-lo agir sozinho. O homem era orgulhoso demais pra pedir ajuda e também um tanto teimoso quando esta aparecia. Joshua iria se virar bem.
Eric ergueu os braços para coloca-los atrás da cabeça, observando o teto limpo acima. Pensando, ainda, em sua mãe. Talvez ele nunca tivesse ficado tanto tempo pensando nela como hoje. Mas ver Margaret com Ana... Talvez tenha abalado um pouco suas emoções. Alguns minutos se passaram quando ele finalmente percebeu que ficar pensando e revivendo tais coisas era perda de tempo. Ele virou-se de lado na cama, ainda com o braço direito sob a cabeça, e resolver descansar. Seus olhos azuis como o céu de verão se fecharam lentamente, e em pouco tempo o sono veio até ele. O amanhã valeria mais a pena que relembrar o passado.
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