Blue Eyes
3 Blue Eyes, So blind
Notas iniciais
O tempo reservado para o almoço dos alunos era longo, portanto Naruto ainda tinha um bom tempo para desfrutar de sua solidão. Resolveu pegar seu celular e ouvir algumas músicas para passar o tempo. Ouvia a música “Shake It Out”, do Florence + The Machine. Era uma de suas músicas favoritas, então estava bem distante e aéreo. Mas, conforme seus fones de ouvido foram puxados com força, ele também foi puxado de seus devaneios, levando um susto.
– Quem é? Não sabe que é falta de educação fazer isso com as pessoas? Ainda mais com um cego? – Berrou indignado. Não costumava usar a sua cegueira como desculpa, argumento ou coisas do tipo, apenas quando estava apelando, o que era o caso.
– Gritar também é falta de educação, Dobe. – Ralhou Sasuke que aparentemente estava de volta.
– Ah, é você? – Retrucou irritado. – Quer falar de falta de educação? Pois bem, comecemos por deixar as pessoas que não enxergam falando sozinhas! – Gritou irado e com a voz repleta de escárnio. Sasuke achou graça e riu. – Tá rindo de que?
– Nada não. – Respondeu cessando a risada. – Não precisa gritar como se estivesse parindo, Dobe. Desculpe por sair de repente.
– Vou te mostrar quem está parindo. – Resmungou em tom ameaçador. –É bom que tenha um motivo para deixar o cego falando com as paredes. Se você quisesse parar de falar comigo embora, tudo bem, mas p...
– Fui comprar algo para comermos. – Sasuke cortou-o, deixando-o com cara de espanto. – Não sei quanto a você, mas eu tô morrendo de fome. – Falou o moreno. Em seguida, pegou a mão de Naruto, depositando um sanduíche na mesma. Depois, chacoalhou uma caixinha de suco de laranja, espetando-a como o canudo na sequencia. – Espero que goste. Tem queijo, presunto, um pouco de batata palha e orégano. O suco na sua frente é de laranja. – Concluiu ele, dando uma mordida em seu próprio lanche em seguida.
Sasuke tomou um gole de seu suco de maçã e só então percebeu que Naruto ainda estava parado com cara de bobo.
– Não gostou? – Perguntou referindo-se ao lanche. – Se não gostou posso comprar outra coisa. Só me diga o que você gosta e...
– Por quê? – Indagou o loiro repentinamente cortando a fala do outro. – Você está com a consciência pesada mesmo? Acha que me comprando um almoço vai se redimir, ou coisa assim? – Perguntou em tom murmurado.
– Por favor, para de falar bobagem e come logo. – Retrucou seco, fazendo o menor se espantar outra vez. – Se você ainda acha que eu estou aqui por causa de peso na consciência, você é um idiota mesmo. Já te pedi desculpas, e creio que você as aceitou, então acabou esse assunto. Estou aqui porque quero estar aqui. – Concluiu, fazendo Naruto sorrir levemente. – É o suficiente pra você? – Indagou.
– Sim... – Sorriu e mordeu seu sanduíche em seguida. – Desculpe, muitas pessoas já me trataram bem e me mimaram por pena ou para se sentirem bem consigo mesmas, e eu não gosto disso. – Confessou. – Parece que estão comprando um lugar no céu.
– Tudo bem, eu te entendo. Muitas pessoas já se aproximaram de mim por interesse. É semelhante.
– Interesse? Então você é rico? – Perguntou desinteressando enquanto comia seu lanche.
– Por aí. Isso muda alguma coisa pra você? – Indagou incerto.
– Acho que não. – Respondeu. Depois de um tempo em silêncio, Naruto riu.
– O que foi? – Interpelou o moreno.
– Nada demais, apenas parece que estamos virando amigos. – Respondeu, fazendo o moreno sorrir.
– Se estiver tudo bem para você ter um amigo arrogante e convencido... – Brincou Sasuke, o que fez o outro rir.
– Se estiver tudo bem ter um amigo cego... – Riu. – Mas então, eu vou ter que te chamar de amigo?
– Como? – Indagou o moreno confuso.
– Não sei seu nome ainda. – Falou divertido fazendo o outro rir.
– Me desculpe, falta de educação minha. Uchiha Sasuke. – Apresentou-se apertando a mão do outro.
– Prazer Sasuke, mesmo que já saiba meu nome, Uzumaki Naruto. Novo na escola e na cidade também.
– É um prazer, também.
Os agora mais novos amigos passaram o almoço juntos, conversando assuntos banais e também aproveitando para se conhecerem um pouco melhor. Sasuke descobriu que a doença de Naruto era congênita, vinha consigo desde a infância e ele nunca havia enxergado ou iria enxergar. Achou isso meio triste. Já Naruto descobriu que Sasuke era filho da dona de uma das opiniões mais temidas e valorizadas do país, e que ela era dona de uma cadeia de restaurantes luxuosos.
O sinal que marcava o fim do horário de almoço acabara de soar, então Sasuke levou os restos do almoço até o lixo. A sala já se enchia de jovens novamente e agora era barulhenta. Sasuke trocou de lugar com uma garota, e então passou a sentar-se atrás de Naruto.
A aula foi tranquila. Quem lecionava agora era Kurenai, e como ela não era uma professora rígida, a aula correu descontraída. Naruto e Sasuke conversavam baixo, chamando a atenção dos demais colegas. Afina, por que o Uchiha estava falando com o cego? Uchiha Sasuke não conversava com muita gente, pois a maioria das garotas era incrivelmente chata e os garotos sentiam inveja dele.
– Por hoje é tudo gente, como sou uma sensei muito querida, estão liberados um pouco mais cedo. – Falou a mestra, causando certa euforia entre os alunos, que comemoraram guardando os materiais e saindo em disparada, em seguida. Naruto seguia um ritmo mais lento, pois não gostava muito de tumultos.
– Você não vai, Naruto? – Indagou a professora.
– Vou esperar um pouco. Cegos e tumulto não combinam. – Respondeu.
– Certo. Como você vai pra casa? – Perguntou a mulher interessada.
– Tenho uma espécie de GPS no celular. – Falou levantando o aparelho. – Assim que der mais vazão, isto vai me guiar até em casa.
– Eu acho que não. – Ela retrucou. – Seu celular está com a bateria fraca.
– Não acredito! – Resmungou. – Porcaria, fica sem bateria quando mais preciso. Preciso de uma bateria extra... – Choramingou.
– Quer que eu peça para ligarem para o seu pai? – Indagou ela, ajudando o menor a guardar os materiais.
– Seria uma boa. – Respondeu o loirinho, sem notar a outra presença da sala, que logo tratou de se manifestar.
– Não precisa. – Falou a voz grave e facilmente identificável do Uchiha. – Eu o levo até em casa.
– Uchiha Sasuke sendo sociável e solidário de uma só vez? Achei que não viveria para ver este dia. – Brincou ela, rindo e fazendo Naruto rir também.
– Se você perder o emprego de professora, já pode virar palhaça, Kurenai. – Falou o Uchiha com escárnio.
– Sasuke! – Repreendeu Naruto. – Ela ainda é sua professora, respeito né?! – Falou indignado, fazendo o Uchiha rolar os olhos e Kurenai rir.
– Não se preocupe Naruto, a culpa é minha por dar tanta liberdade aos alunos. – Ela riu. – Gosto de ser amiga dos meus “pimpolhos”, então nada de formalidades mesmo. – Disse ela, afagando os cabelos loiros de Naruto. – Mas enfim, tudo bem pra você o Sasuke te levar em casa?
– Ah, a-acho que tudo bem sim. – Respondeu um tanto nervoso.
– Certo então. Vou indo, e vocês se virem. Jaa ne! – Despediu-se deixando o lugar em seguida.
– Eu te ajudo com isso. – Disse o moreno em menção de pegar a mochila do menor, mas foi impedido pelo mesmo.
– Cego, Sasuke. Não moribundo. – Falou parecendo um pouco irritado.
– Desculpe. – Ditou o moreno, erguendo as mãos em sinal de rendição. Naruto pareceu pensativo e ao mesmo tempo desconfortável. – O que foi? – Questionou o maior, vendo o menor corar um pouco. Fofo.
– Você sabe como costuma-se guiar um cego? – Perguntou ele. Ele estava se referindo a andar com os braços dados. Algo bem comum para guiar uma pessoa que não enxerga, mas mesmo assim eles eram dois garotos, o que lhe parecia estranho. – Mão no ombro ou...
– Está se referindo a andarmos de braços dados? – Indagou o Uchiha normalmente, cortando o loiro.
– É... Talvez. Sabe, pode ser um pouco estranho pra você, e se só quiser me servir de companhia e... – O menor foi cortado pela atitude brusca do outro. Sasuke pegou o braço de Naruto e enlaçou no seu próprio, fazendo o loiro levantar-se.
– Cara, para de falar bobagens. – Resmungou. – A menos que não esteja tudo bem pra você, eu te solto e vamos andando lado a lado apenas, mas por mim está tudo bem. – Falou naturalmente.
– Mas... Quero dizer... – Murmurou o loiro tentando formar uma frase coerente.
– Está com medo das piadas sobre nossa sexualidade? – Perguntou.
– Não por mim, mas por você sabe... – Resmungou de cabeça baixa. – Pode pegar mal pra você.
– Eu não me importo. – Retrucou. – No momento, só me importo com você e com sua segurança. Não quero que seja atropelado nem nada. Aí sim eu ficaria com peso na consciência. Por um momento, chega de pensar em mim mesmo. – Dito isso, o menor corou novamente. Fofo. – Vamos logo. Você sabe me dizer o seu endereço?
– Sei sim... – Respondeu. – Obrigado Sasuke.
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