Blow Your Mind

1 Mais alguma coisa?



Então, estou para te dizer que quem inventou os aeroportos realmente gostava de sofrer. No lugar de estar ali, no meio de toda aquela gente, eu poderia simplesmente... Estar em outro lugar, fazendo alguma outra coisa, o que é relativamente óbvio. Bem, eu não odeio, exatamente, os aeroportos, afinal, que outro lugar usaria para embarcar em um avião? Um açougue com pista de decolagem acoplada? Acho que não.

O que mais me irrita nos aeroportos, na verdade, são as pessoas que usualmente andam por lá, como passageiros rabugentos, aeromoças atrasadas e até mesmo mendigos! Em suma, os aeroportos são lugares mal freqüentados, pronto, falei. Não é que eu seja revoltada, sabe?! Eu realmente tento entender a sociedade em que vivemos, mas, sinceramente?! É muito difícil para uma garota de 16 anos socialmente excluída. Quero dizer, se você faz parte de uma “tribo”, qualquer que seja ela, você sofre preconceito das pessoas ditas “normais”. O fato é que, a minha tribo sofre preconceito até por outras tribos do mesmo gênero.

Pois é, eu sou Emo.

Veja bem, não é que eu seja toda emotiva e tal (certo, talvez só um pouquinho), mas é o meu modo de me vestir, comportar e o tipo de música que eu ouço que me caracteriza como Emo. Quero dizer, eu não vou cortar os meus pulsos só porque meu irmão é popular e eu não, ou porque, apesar de meu pai ser rico, eu tenha de trabalhar.

Bem, lá estava eu, indo para algum lugar, o qual eu não sabia, simplesmente porque não tive a decência de perguntar, mudando-me mais uma vez. Eu já me imaginava sendo ignorada pelo meu próprio irmão e, é claro, todos os meus colegas de escola, porque, é claro, eu seria caracterizada como “A Novata”.

Sim, Senhores!

É claro que eu não deveria deixar de agradecer ao meu pai por isso, porque, afinal, a culpa de tudo aquilo, quero dizer, o aeroporto e meu novo status de “A Novata”, era culpa dele.

Obrigada, papai!

E, sim, eu usei todo o meu sarcasmo nessa frase.

Meu pai é empresário. O lado positivo disso é que ele é rico.

O negativo é que ele realmente adora gastar esse dinheiro com coisas totalmente contra mim! Por exemplo, antes de ter a idéia genial da mudança (foi sarcasmo), ele inventou de fazer uma festa havaiana. E quem você acha que “pagou o pato” (para não dizer outra coisa)? Eu, é obvio. Pois foi, meus queridos, eu tive de me vestir de havaiana e dançar o “hula” na frente de não-sei-quantos velhos, sócios das também-não-sei-quantas empresas do meu pai.

Como se não bastasse tudo isso, eu tinha que trabalhar se quisesse regalias, como um jeans novo no fim do mês. Diga-me, qual a vantagem de se ter pais ricos se você não ganha uma mesada bem gorda no fim da semana? Bem, eu ganhei mesada até os 12 anos, mas agora, haha, necas de pitibiribas.

De modo que lá estávamos nós, dentro de um jatinho, rumo à “uma nova aventura”, como meu pai costuma dizer. Claro, era tudo o que eu queria (oi, estou sendo irônica).

- Vamos lá, Suzannah, querida, estamos indo para uma cidade linda, você e seu irmão vão estudar em uma escola de ótima qualidade, vão fazer amigos, vão...

- Mãe, poupe-me, por favor! – pedi, sentindo que iria vomitar. E o avião ainda estava em terra firme!

Ela apenas suspirou e saiu por onde tinha entrado. Essa era minha mãe. Ela não aprovava muito o meu estilo, afinal, na época dela de escola, ela sempre fora “popular”, com seus cachos negros e brilhantes e seu corpo “violão”, que ela conserva até hoje, com muita (e quando digo muita, quero dizer muita mesmo) academia.

Assim, como meu pai, ela estava mais feliz que, se me permite a comparação, mosca em estrume de vaca com essa mudança. Há tempos eles planejavam sair daquele buraco que era a cidade onde nós morávamos.

Eu nem me dera ao trabalho de perguntar para onde iríamos, porque, na verdade, não faria diferença para mim. O que poderia acontecer de inusitado na minha vida, seja aqui, seja na China, ou em qualquer outro lugar do mundo? Entretanto, eu realmente esperava que fosse um lugar ao menos bonito, porque Deus me livre de uma metrópole encardida e barulhenta, como Londres, por exemplo!

Bem, o que eu não mencionei é que eu tenho um irmão. Pois é, como se não bastasse toda a situação em que eu me encontrava. Quero dizer da mudança e tudo o mais. A questão era que, Quando Nicholas Porsche entrasse na nova escola, todas as cheerleadersque eu imaginava que teria, todas as patrícias infames, bem... Assim que botasse os pés no prédio da escola, meu irmão se tornaria popular. Quero dizer, com todo seu metro e setenta e cinco, seus cabelos castanhos, enroladinhos como os do pai, pele bronzeada, corpo atlético e inteligência sensual, como ele poderia não ser popular?!

Aí você me pergunta “Que mal há nisso?” E eu sou obrigada a responder que, enquanto Nicholas Porsche é eleito o “rei do baile”, Suzannah Porsche se torna a “ralé do reino”.

Certo, eu não mudaria meu jeito de ser nem abandonaria minha “tribo” para ser popular, porque, qual é, tem coisa mais clichê que isso? Fora que eu me encaixo muito bem nas minhas roupinhas listradas e nos meus Converse quadriculados e disso eu não abro mão!

A questão é que lá estava Nicholas, entrando no jatinho pela mesma porta que mamãe entrara e logo depois saíra, esparramando suas tralhas, digo, mala de mão, ao lado da minha poltrona.

Então o ser se jogou em uma poltrona à minha frente e ficou me olhando com aquele tipo de sorriso que irrita (e que geralmente faz algumas garotas desmaiar, exceto eu, é claro).

- Que é? – perguntei mal-humorada, regulando meu nível de paciência para o máximo (o que não era exatamente muito maior do que minha paciência habitual).

- Vamos fazer um trato?

- Como assim?

- Este ano, vamos ser populares juntos!

- Por que isso agora? – perguntei assustada.

- Por que, como diz o papai, o que teremos daqui para frente é “vida nova.“!

- Nick, você está me assustando! – disse, assoprando a franja da frente dos olhos e tendo de me segurar na poltrona.

Ah, qual é, eu não odiava, realmente, o meu irmão, pelo contrário, eu gostava dele, afinal, ele era meu melhor amigo! Eu só tinha ressentimento porque ele sempre era popular e eu a estranha que chora à toa. Mas o fato de que ele era meu irmão gêmeo não ajudava em nada, se você quer saber. Quero dizer, nós éramos irmão e gêmeos! Porque, então, ele era popular e eu não?

Se eu tinha ciúmes dele? Bem, talvez só um pouquinho.

- Então você topa? – ele me despertou de meu momento “estou chocada”.

- T-tudo bem – gaguejei ainda atordoada.

Certo, encaremos os fatos: qual era a probabilidade de Suzannah Porsche ser popular? Quero dizer, eu parecia que tinha sido adotada!

Sério!

Para começar, meu cabelo era loiro, tipo quase branco, loiro mesmo, e liso, liso, liso, tão liso que nem prender com piranha eu conseguia. Isso, é claro, não seria nenhuma aberração se não fosse o fato de que meu pai tem cabelos castanhos e os da minha mãe são tão negros quanto os olhos dela. O Nicholas, bem, ele é a perfeita junção dos dois, com cabelos castanhos, enroladinhos e olhos âmbar. Agora eu?! Haha, digamos que eu tenha o mesmo tom de pele deles, um moreno dourado, meio queimado de sol.

Agora imaginem vocês como é estranha uma garota de pele dourada, cabelo branco e, veja bem, olhos azuis!

É isso aí.

E, como se não bastasse, ainda tem gente que diz que eu sou BONITA! E jura de pés juntos que eu pareço um ANJO! Como se eles já tivessem visto algum anjo pra comparar!

Ainda bem que Nicholas acabou por se dar satisfeito com o meu “tudo bem” e acabamos iniciando uma partida de UNO, até que papai terminava de resolver as coisas com o piloto.

Deu-se que o jato levantou vôo quase uma hora depois e eu e Nicholas já estávamos tentando imaginar para onde iríamos.

- Mas você não perguntou pra onde é que nós vamos? – perguntei a ele admirada.

- Haha, como se você tivesse perguntado! – ele respondeu, achando graça na situação crítica em que nos encontrávamos.

- É... Eu realmente não quis perguntar. Você sabe, sempre sobra alguma coisa pra mim, por isso achei melhor esperar para ver.

- Pois é. Na verdade... A mamãe não quis me contar. Ela disse “Quando chegarmos, vocês verão!”, você sabe como ela é!

- É isso aí. Por falar nisso, onde ela está?

- Ela foi pra frente do avião. Parece que o papai está tão contente com a mudança que resolveu ficar perto do piloto. Acho que espera que assim o avião chegue mais rápido!

Ri, apesar de estar levemente apreensiva. Afinal, PRA ONDE É QUE NÓS ESTÁVAMOS INDO?

“Coloquem o cinto, o avião já vai pousar!” – anunciou uma voz que deveria pertencer ao piloto.

Eu e Nicholas fizemos o que nos fora pedido e esperamos. Se havia uma coisa que me irrita em andar de avião, além do fato de eu odiar aeroportos, é claro, é levantar vôo e/ou pousar. Quero dizer, aquele frio na barriga que faz parecer que as entranhas vão sair pelo nariz se eu descuidar, são de matar! Eu realmente odeio andar de avião. Da próxima vez que tiver que viajar, juro que vou de trem! Ou então de ônibus, mas de avião eu juro juradinho que nunca mais, por mais rápido e seguro que seja!

E eu realmente não me importo que você esteja pensando que eu sou antiquada!

- Suze? Tudo bem com você? – a voz da minha mãe se fez ouvir.

Foi aí que percebi que estivera de olhos fechados.

- T-tudo bem sim – respondi, no que pretendia ser uma voz calma e despreocupada. É óbvio que falhou.

- Sério, você está horrível! – exclamou Nicholas.

- E você ajudou muito, obrigada!

- Hei, parem vocês dois! – disse mamãe – Tem certeza de que está tudo bem, filha?

- É só um enjôo. – fiz uma pausa – O avião já pousou?

- Alô, de onde fala? Marte? Poderia dizer que estão chamando Suzannah Porsche de volta à Terra? – disse Nicholas em um telefone imaginário.

Aquilo me soou seriamente como uma piada, mas somente uma parte do meu cérebro entendeu. E ela não gostou nada. Mas eu estava era mais preocupada em... Ah, sim, o fato de que finalmente o avião pousara e eu ainda não sabia onde!

- Vamos descer logo! – mamãe disse de maneira meio falada, meio cantada. – Quero que desçam de olhos fechados!

Aquilo estava começando a me assustar, principalmente o fato de que mamãe nos acompanhou para fora daquela geringonça voadora aos pulos, toda animada. A última vez que a vira daquele jeito, estava para anunciar que tivera a brilhante idéia de me inscrever em um concurso de beleza. E essa fora uma das piores experiências da minha vida. Principalmente porque eu ganhei o concurso. E mamãe me infernizou durante semanas, querendo que eu comparecesse à próxima etapa do concurso, que seria a nível federal. É isso aí. A questão é que ela se esquece que eu não gosto de usar vestido, o que aparentemente me qualifica como uma excluída socialmente. Não que eu me importe com isso.

Agora vou te contar: você acha que é fácil descer uma escada com sua mãe pulando em volta de você como uma criança e ainda por cima de olhos fechados? A sorte era que Nicholas estava ao meu lado para me amparar ou eu estaria Mortinha da Silva agora.

Senti vontade de berrar, mas não o fiz. Meus sapatos não fizeram o ruído esperado ao pisar no chão de concreto da pista de decolagem do aeroporto. Na verdade, pousaram suavemente sobre algo de natureza não identificada, que parecia ligeiramente fofo a primeiro momento. Então, minhas narinas captaram um cheiro levemente familiar e a compreensão caiu como uma moeda dentro da máquina de refrigerantes: com um baque surdo e impactante.

Aquilo era grama.

Abri os olhos. A respiração pareceu se congelar em minhas vias respiratórias e o enjôo pareceu voltar. Para qualquer lugar que eu olhasse, a grama se espalhava como uma praga. Cada vez que eu apurava mais a visão, era para perceber que mais e mais grama aparecia, campo após campo, quilômetro após quilômetro.

Ao meu lado, Nicholas deu uma volta de 180 graus e parou virado para oeste. Segui sua visão e pude perceber uma casinha mínima ao longe e, apurando ainda mais a visão, avistei árvores e todo o tipo de vegetação, espalhados pela extensão ao longo dos quilômetros à direita e à esquerda da casinha branca.

Eu estava perplexa.

- O que, exatamente, é isso aqui? – perguntei, tentando manter a calma.

Foi então que percebi que mamãe olhava tudo ao redor com lágrimas de apreciação nos olhos. E Nicholas parecia estar gostando daquilo tudo tanto quanto eu. Resumindo, eu não estava gostando nada, nada.

- Não é lindo? – ela disse numa voz entre admiração e emoção, entrecortada pelo choro. – Seu pai vendeu todas as empresas e comprou essa fazenda. Está vendo aquela casa ao longe? É onde nós vamos morar daqui em diante. Vocês não estão com lágrimas nos olhos?

Realmente. Estávamos sim com lágrimas nos olhos, mas tinha certeza de que não era à mesma coisa que eu e mamãe nos referíamos. Enquanto ela provavelmente pensava que eu e Nick estávamos apreciando tudo tanto quanto ela e papai apreciaram quando compraram aquilo tudo, quando meus olhos se encontraram com os de Nicholas, não foi essa a mensagem que eles me mandaram. Para começo de conversa, os olhos dele me diziam: Fogo! . Enquanto os olhos de nossa mãe me diziam: Você vai adorar isso tudo!

Mandei uma mensagem silenciosa para Nicholas através do olhar, que ele deveria entender como algo como Falamos disso depois, mas não tinha certeza de que ele entenderia isso, porque geralmente era o mesmo tipo de olhar que eu lançaria para ele querendo dizer exatamente... Corra!

Mas quando ele devolveu um sorriso para mamãe, entendi que a mensagem havia chego com sucesso.

- Vamos ter de andar até lá? – perguntei meio receosa.

- Nada disso! – respondeu a voz de papai, contornando o avião em nossa direção. Provavelmente estivera apreciando a vista. – Vou ligar para Marcus trazer a caminhoneta.

Alguns minutos depois da ligação, uma caminhoneta prateada reluziu ao sol ao sair de trás de uma pequena colina, vindo a toda velocidade, saída de Sabe Deus Onde, por uma estrada de terra que eu não notara até aquele momento. No volante, um cara com um sorriso relaxado fez tipo uma saudação militar com dois dedos ao parar a caminhoneta à nossa frente. Aparentava ter no máximo trinta, trinta e cinco anos, tinha cabelos claros, pele castigada pelo sol e usava uma camisa xadrez, calças jeans surradas e botas de vaqueiro.

- Este é Marcus – apresentou papai -, ele é o gerente da fazenda.

- Prazer em conhecê-la, senhora – disse Marcus à minha mãe, limpando as mãos nas calças e apertando as delicadas mãos de minha mãe, que não expressou nenhuma relutância em responder ao cumprimento.

Isso fez crescer muito meu respeito por ela. Só me confirmou o que eu já sabia que minha mãe não fazia descrição pela aparência da pessoa e caracterizava cada uma por seu caráter.

- O prazer é meu – devolveu ela, com um sorriso – Vítor me falou muito sobre seu trabalho.

Não posso dizer que não fiquei com um pouquinho de vontade de gargalhar quando Marcus apertou a mão de Nicholas e o sacudiu com a força do aperto, dando uma palmadinha no ombro dele que quase o fez cuspir os pulmões na estrada.

Então Marcus se virou para mim e o sorriso pareceu se esconder em minhas entranhas. Ele esticou a mão e eu pus a minha em cima da dele, confesso que um pouco receosa, mas Marcus apenas a virou e depositou um beijo respeitoso, logo depois a envolvendo com suas duas mãos, grandes como pratos.

Suspirei aliviada e ligeiramente envergonhada, devolvendo o sorriso caloroso que ele me dispensara.

Mamãe e papai montaram na parte da frente da caminhoneta, junto com Marcus, que voltara para a direção do automóvel. Eu e Nicholas tivemos de nos empoleirar na parte de trás, junto com nossas malas de roupas.

Assim que a caminhoneta ganhou certa velocidade, ele se virou para mim, com um olhar que implicitamente dizia E então?

Deixei escapar um suspiro. Uma fazenda!

- Sinceramente? – pedi, sem esperar resposta – Vamos ter de nos acostumar. Tipo, não está assim tão fora de cogitação, não é?! Já passamos por coisas piores juntos!

- Verdade – ele respondeu pesaroso demais no meu ponto de vista, mas logo sorriu cúmplice – Lembra-se quando papai quis comprar a Disney?

Sorri.

- É isso aí! Como se estivessem dispostos a vendê-la.

- E conseguimos convence-lo a desistir da idéia antes que pagasse o maior mico da face da Terra, porque sabíamos que ele não desistiria sem tentar tudo o que estivesse a seu alcance. Talvez possamos convencê-lo a mudar de idéia mais uma vez...

O tom de voz dele era tão vazio quanto a sugestão. Ambos sabíamos que agora que já estava feito, não teria volta.

- Hei, olhe isso! — exclamei de repente, olhando admirada para a imagem da casinha branca, que ia crescendo mais e mais conforme nos aproximávamos rapidamente, passando de casinha para casebre, de casebre para casarão, de casarão para palacete e de palacete para mansão.

Nicholas deixou aparecer uma nota de espanto na voz, resumindo meus sentimentos com os dele.

A caminhoneta parou bruscamente, me lançando para cima de Nicholas, que se equilibrava precariamente na beirada da caçamba do carro. O resultado foi que eu e ele acabamos rolando na poeira, cuspindo uma mistura intragável de terra e grama seca.

- O que houve? – mamãe perguntou descendo da caminhoneta, onde estivera confortavelmente acomodada, sem se preocupar em esconder o tom divertido na voz.

- Caímos! – exclamou Nicholas, mal-humorado, dando-me a mão para que eu pudesse me levantar, com os joelhos em frangalhos, sujos, encardidos e ardendo.

Uma gargalhada sonora anunciou que papai pouco se importava para o que acontecera, e só conseguia pensar que aquela fora a cena mais engraçada que ele já vira em tempos.

Lancei-lhe um olhar que dizia Te pego na saída! . Mas de nada adiantou, já que estava tão ocupado em rir que nem sequer notou as ondas silenciosas de raiva que escapuliam por eles.

No mesmo momento em que nos viramos para a casa, a caminhoneta desapareceu na poeira, tão rápida fora a manobra de Marcus, que já se afastava para a direção de onde viera anteriormente.

- Bem vindos à nova casa de vocês! – exclamou papai, dirigindo-se à mansão, com o resto da família nos calcanhares.

A casa era toda em tons pêssego, e rodeada dos mais variados arbustos, entrelaçados com flores e pequenas frutinhas de cor púrpura, de aparência ligeiramente venenosa. Mas este pensamento escapou da minha mente quando meus olhos pousaram nas flores que vinham logo depois daquelas.

Rosas. Mas não me passavam a sensação de admiração, ou alegria, ou paixão. Aquelas rosas eram vermelhas, mas as ondas que meus receptores captavam eram negras. As rosas eram como demônios: belas e perigosas. Num momento, tudo o que se sente é o perfume, e no outro, o sangue escorrer por entre os dedos, fortalecendo cada vez mais o demônio, que são os espinhos, e cada vez menos o anjo, que deveria ser as pétalas. Mas infelizmente, os anjos são encharcados do veneno doce que é o perfume que ele carrega.

Algo me fez virar a cabeça na direção oposta a casa, mas meu cérebro não estava trabalhando muito bem naquele dia. Tudo o que eu vi foi uma sombra, que surpreendentemente tinha a forma de uma rosa. Não chegara nem a ser um vulto, então preferi arquivar a imagem em uma pasta qualquer em meu cérebro, uma que de preferência tivesse um título parecido com Coisas Que Não Fazem o Menor Sentido.

- Suze? Oi, Terra chamando!

- O que você quer, estrupício?

- Também te amo maninha! – Nicholas respondeu com sarcasmo. – Eu estava dizendo que mamãe e papai já entraram. Quanto tempo vai ficar aqui fora admirando as rosas?

- Eu não admiro rosas, eu mantenho distância delas – respondi secamente, entrando de um salto pela porta aberta do hall de entrada da mansão.

Por dentro, a estrutura da casa era ainda mais surpreendente. Era uma mistura entre clássica, moderna e neogótica. A primeira coisa que se via era um fonte, com uma curiosa estátua por onde filtrava água. A estátua consistia em um pássaro dourado, provavelmente banhado à ouro, se eu conhecia bem os gostos de minha mãe, de asas abertas e um bico comprido e todo trabalhado em detalhes. Logo mais, observando mais atentamente, eu perceberia que os detalhes consistiam em desenhos de natureza não identificada, que pareciam despertar certo interesse em querer apreciar mais e mais, até que você se sinta sufocado por tanta beleza e resolva parar de encarar os olhos do pássaro, formado por inúmeros corações que se comunicava entre si de maneira curiosa.

Duas enormes escadas levavam, lado a lado, ao segundo andar da mansão, feitas de mármore branco, com corrimões prateados, frios como gelo. A lógica me dizia que lá em cima ficavam os quartos e mamãe não se cansava de dizer o quanto ela os enchera de tapetes, quadros, e os entupira de roupas novas, que eu tinha certeza que teria que fazer um sacrifício para não jogar tudo pela janela quando abrisse o closed e encontrasse fileiras de vestidos cor-de-rosa, sapatos de Matar Barata no Canto (lê-se scarpins) e bolsas de couro de répteis nojentos.

Mas a última coisa que eu queria naquele momento era me estressar com qualquer banalidade que fosse. Essa história de ter a casa rodeada de rosas não me agradava nem um pouco, mas eu resolvera que só iria me preocupar com isso amanhã.

Agora, eu tinha que me preocupar era com o fuso-horário e em como eu fora me meter numa roubada dessa!

Notas finais
Por favor, quero comentários, preciso saber o que acham da história :D